Eu que talvez esteja mais próximo que pareça vago num grão da vida
Ou nas lembranças da beleza
Não sei se virei fim ou me perdi em mim,
Mas nessa expressão posso ser historia e recomeço.
Psicografado, nunca esquecido ou requerido, não se preocupe comigo,
Mas com a época que devora caminhos e destinos com tanta pressa,
Apagando rastros que nos ensinam e nos permitem a voltar
Ontem, dia 4 de junho, o massacre da Praça da Paz Celestial (Tiananmen) completou vinte anos. Ao contrário do fuzuê que tomou o ano passado por conta dos quarenta anos do Maio de 68, o "maio" chinês, como é também conhecido o movimento que durou de 15 de abril a 4 de junho de 1989, dia em que entre 200 a milhares (o número varia de acordo com as fontes, sendo que, obviamente, as mais comedidas são do governo chinês) foram mortos na Praça, em Pequim. As similaridades com 68 não se limitam ao principal mês dos acontecimentos/protestos: é impossível resumir tanto um "movimento" quanto o outro, a uma pauta de reivindicações. Em ambos os casos, tratava-se de
reinventar a política, a cada dia, afastando-se do aparato institucional reificador. A "única exigência concreta" do Maio chinês, lembra Agamben, "a reabilitação de Hu Yao-Bang, foi imediatamente concedida". Os estudantes, em Tiananmen, não tentavam comunicar
algo, senão a própria
comunicabilidade, o ser em comum da linguagem e da política que engloba os homens
- e esta não pode ser comunicada explicitamente (um movimento que se diz sem reivindicação é já uma captura, pelo espetáculo, da
comunicabilidade sem conteúdo, uma fetichização do grau zero da linguagem e da política). Daí o recurso a demandas "demasiado genéricas e difusas pra constituírem o objecto real de um conflito", como a democracia e a liberdade. Mas o que levou os tanques às ruas foi o simples fato de que ali, como vinte e um anos antes, a política brotava de um simples estar-junto não regulado pelo Estado. O Estado pode suportar qualquer forma de pertencimento alheia a ele, desde que capturável (basta ver a recente abertura, "lenta e gradual", chinesa). O que ele não pode suportar é que homens se juntem sem uma identidade, sem comunicar algo que não a própria possibilidade de um comum. "Onde quer que estas singularidades manifestem pacificamente o seu ser comum", arremata Agamben", haverá um Tiananmen e, tarde ou cedo, surgirão os tanques armados".
Segundo os jornais, circulou pela internet, essa semana na China, a seguinte mensagem "Use branco em 4 de junho, em homenagem aos mortos da praça da Paz Celestial. O governo não pode proibir cor". O legado do maio chinês se reafirma no simples ser-comum de uma cor que nada reivindica, a não ser a memória do acontecimento da política. Assim como os tanques: relatos dão conta de que em Tiananmen, essa semana, havia mais policias que turistas, que sites onde a mensagem circulou foram tirados do ar, que um dos sobreviventes de 89 está em prisão domiciliar e que as "Mães de Tiananmen" estão em vigilância 24 horas por dia. Nas "Mães", sejam de Tiananmen, sejam as da Praça de Maio, sejam as de Acari, ou "outras tantas por aí", reside a memória não de uma causa, mas do conflito entre Estado e não-Estado, entre morte e nascimento, entre instituição e política; a memória das mães de "desaparecidos" deixa claro que o Estado não inclui, a não ser por um processo de exclusão. 1989 continua sendo lembrado pela queda do muro de Berlim, isto é, pelo fim da ideologia, pelo fim da política. As Mães de Tiananmen, bem como os que usaram branco hoje na China nos fazem ver que 1989 foi, na verdade, como tivera sido 1968, apenas o começo do longo caminho de uma humanidade redimida.
Atualização: o Na prática a teoria é outra escreveu dois posts sobre os vinte anos do Massacre. Um deles, com uma incrível foto tirada momentos antes da foto publicada acima. O outro em que ressalta os impasses do momento, ou a falta de pauta do movimento - que, antes de buscar algo, buscava a própria política: se, por lado, os estudantes "brandiam bandeiras americanas e estátuas da liberdade", por outro "também cantavam a Internacional".
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