Dia do Juízo (I)

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(Começo a publicar aqui, às sextas-feiras, os fragmentos que compõem a pequena novela que comecei a escrever, coincidentemente ou não, à mesma época em que parei de publicar aqui no blog - entre agosto e janeiro passados. Nunca concluí o texto; aliás, quando voltei a escrever no blog, não consegui mais escrever a novela. Talvez unindo as duas coisas consiga levar o Dia do Juízo a cabo.)

Tiros. Todo dia, àquela mesma hora, já não mais madrugada, mas ainda não manhã, os militares praticavam no campo de treino vizinho a seu prédio. Como sempre, acordou com os estampidos. A televisão continuava ligada no mesmo canal, que noticiava agora a prisão de um motorista aparentemente fora de si. Abafado pelo relato da repórter, não se podia ouvir o que o policial dizia para conter o homem careca e forte, que berrava incessante e guturalmente. O movimento dos lábios, porém, deixava claro o que a voz emudecida pela edição da matéria ocultava: Pára ou eu te apago!

Acendeu um cigarro enquanto olhava a pilha de processos que se avolumava sobre a mesa de jantar. Precisava trabalhar. O telefone tocou. Mas não podia. Mais uma vez o telefone. Precisava antes organizar a dispersão do mundo. Tocou. Tocou. Não atendeu. Não tinha mais tempo para isso. Apagou o cigarro. Absorto, tentou recordar-se do tempo.



O pressuposto que ampara a idéia de que a corrupção é uma via de mão única é certa antropologia pessimista que nos assola desde os primórdios da colonização e que teve talvez sua melhor condensação no hoje esquecido Retrato do Brasil, de Paulo Prado (à época, 1928, um best seller), livro que foi desmontado, ponto a ponto, por Oswaldo Costa no seu "Moquém", coluna que mantinha na Revista de Antropofagia. Provavelmente o ensinamento mais marcante que eu recebi nos meus anos de graduação em Direito foi a enunciação - irônica - deste pressuposto por uma filósofa do Direito odiada pela maioria dos alunos (que, sintomaticamente, preferem homenagear um desembargador aposentado que "provava" que filosofia do Direito não servia pra nada a partir da brilhante constatação de que não existiam Escritórios de Causas Filosóficas...): "no Brasil, não existe presunção de inocência: aqui, todo mundo é corrupto até prova em contrário". É possível aventar, ainda que fosse preciso uma investigação de estilo frankfurtiano pra comprovar, que tal concepção nasce na elite colonizadora (é o argumento de Oswaldo Costa, e temos que lembrar que Paulo Prado pertence ao equivalente dessa elite no século XX): é assim que ela via a "massa" de desterrados, índios, negros e mestiços que aqui habitavam, projetando neles a própria culpa. De algum modo - que, novamente, só uma investigação aprofundada poderia demonstrar como - esta concepção de que aqui é o Mal, ou o abandono de Deus que vige (o Novo Mundo sempre foi encarado de forma ambivalente, tanto como Paraíso, quanto como Inferno), se espalhou por todo o corpo social (é provável que as camadas sociais intermediárias e as dominadas tenham percebido que riqueza e posição social pressupõem jogar o jogo do Diabo, para ficar na metáfora). Hoje, é impossível apontar e criticar alguma irregularidade, algum chamado "desvio ético", sem que alguém retruque que "ninguém é santo", ou insinue que você também apronta lá das suas. É por isso que o "mensalão" adquiriu tamanha importância mediática (e, nesse sentido, foi o verdadeiro erro histórico do PT, talvez mais que a capitulação ao neoliberalismo): ele veio confirmar esta antropologia pessimista, provou que todos dançam com o Diabo. O "mensalão" teve o efeito psicológico de livrar da culpa setores que espoliam a Nação e a Viúva há séculos e que, em transe pela catarse produzida pelos "aloprados", assumiram publicamente esta culpa, que agora podiam estender, sem medo, a toda a sociedade: "Eles, que tanto nos criticavam, são iguais a nós". Como disse, o outro lado da moeda desta concepção negativa do brasileiro como corrupto nato é a projeção da culpa no Estado. Se existe meia dúzias de fraudes no Bolsa-Família ou nos assentamentos de terra, é melhor acabar de uma vez com o renda mínima e a reforma agrária. Se o currículo Lattes da Dilma Rousseff tem dados falsos e o portal de currículos do CNPq abriga um currículo forjado do Galvão Bueno (dois no universo de um milhão), é preciso criar mecanismos de controle e não punir os estelionatários. Quando todo mundo é corrupto por princípio, então todo mundo tem que arcar com os crimes cometidos pelos poucos corruptos de fato.


O Incomparável

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Meu último post acabou criando uma pequena polêmica, que me fez pensar um bocado de coisas. A grande vantagem do debate é que ela força os interlocutores a repensar seus argumentos; no que o debate escrito é ainda mais proveitoso, pois eles tem tempo pra fazê-lo com certo tempo. Devido à extensão que minha resposta tomou e pelo caráter mais genérico de algumas coisas que argumento, me permito fazê-la aqui na forma de post e não na caixa de comentários. O debate suscitado me provocou ainda outra reflexão mais conceitual, que espero publicar aqui no blog em breve.

Antes de tudo, é preciso não esquecer da ambiguidade da máxima "Não se pode comparar" que se revela no Incomparável. Aquilo que não pode ser comparado, o Incomparável, o é justamente na medida em que superou, pela comparação a tudo ou a todos. Quando dizemos que tal obra ou pessoa é incomparável, estamos dizendo que ela está um patamar acima das demais, que ela é um monumento, que ela, em suma, é intocável (tem o "corpo fechado"). A máxima, portanto, pode ter como conseqüência a monumentalização, o fechamento de toda e qualquer coisa ou pessoa, o que corresponde, a meu ver, a atomização mais extremada. O sentido político disso fica claro pra mim numa propaganda: Coca-cola, Viva as diferenças.

Na "verdade verdadeira", eu não pretendi defender a comparação em si (ainda que não a condene - tendo briga, estou dentro: assim, não tenho problema algum em dizer que Macunaíma, de Mário de Andrade, é infinitamente melhor que Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, juntos - o que não implica, de modo algum que eu jogue os últimos na lata de lixo; escolhi fazer e fiz minha dissertação mais sobre Oswald que sobre Mário). O que eu "quis dizer" é que, por vezes, usa-se da máxima "Não se pode comparar" para negar o caráter hipertextual que o mundo possui (característica que fica mais explícita na cultura, ou melhor, no que entendemos por "artes"). A linguagem "não passa" de infinitas referências tanto ao "mundo" e/ou ao "real" quanto a si mesma. Isto sempre foi e sempre será desde a antropogênese. O "mundo" não vira uma grande rede a partir da internet - esta apenas explicita um dado intrínseco, o de que a linguagem (a cultura) é uma sucessão de comentários a um grande livro não escrito que chamamos de "mundo" (ou de "real"). 

Dito isso, eu entendo que o "Não se pode comparar", quando referido à diferença de linguagens entre o cinema e a literatura, possa ter uma função didática (ainda que acredite - e esse será o tema de outro post que a discussão me provocou - que desde o "momento" em que se percebe que a escrita é um desenho sui generis, pois auto-referencial, tal diferença fica clara, ainda que não seja expressa tão explicitamente), é preciso tomar cuidado para não atravessar a fronteira onde o didatismo se converte em autoritarismo: é preciso, antes de enunciar a "verdade", saber se o interlocutor não a conhece.

Para explicar, vamos aos fatos. O que motivou o post abaixo foram diversas discussões que se assemelham, não pelos conteúdos, mas pelo uso da máxima por parte de meus interlocutores. Tentei condensá-los no exemplo mais recente de conversas que tentei travar a partir de um filme. Sempre que dizia - e é importante notar que o poder dos significantes é sempre superior ao dos significados, daí o furo da teoria habermasiana da ação comunicativa - que os dois contos de Machado de Assis em que Júlio Bressane dizia (explicitamente) ter se inspirado para fazer o filme eram infinitamente melhores que este, ouvia como resposta a máxima. Ainda tive tempo de sugerir que o filme era uma banalização monotemática de um motivo, descontextualizado, tanto na forma, quanto no conteúdo, dos contos: o caráter obsessivo-compulsivo dos personagens. Fui censurado pela máxima e não pude desenvolver o raciocínio, o que faço aqui. Não só Bressane "entrega o jogo" logo de cara - em A causa secreta, um dos contos, ficamos o conto inteiro querendo saber o misterioso porquê do comportamente obsessivo-compulsivo de um dos personagens para nos frustarmos ao final, que não revela causa qualquer, pois ela é, de fato, secreta, o que quer dizer, infundada (o que Machado põe em cena é o modo como a autoridade, a aura, se fundamenta tão-somente no segredo sobre o seu (não)fundamento) -, já que fica óbvio, desde o começo do filme, que o comportamento obsessivo-compulsivo dos dois personagens não tem causa, sendo o objeto de desejo substituído a 3 por 4, como também, o diretor não extrai os efeitos dessa inversão formal (é o ritmo do filme, e não uma antecipação narrativa do conteúdo que deixa claro no início do filme o que só transparece no final do conto). Os dois personagens obsessivo-compulsivos de A erva do rato não tem, desde sempre, aura. Mas Bressane não trabalha em cima deste seu caráter profano. É pura rotina - ou seja, repetição. Nada "acontece", mas tampouco este não acontecer é explorado. Antes, resvala pro que o cinema brasileiro "tem de melhor": melhor pelada a torto e a direito. E também para o riso. Se, no conto de Machado, o que está em jogo é o processo de fetichização (ou reificação) - o comportamento obsessivo-compulsivo é mórbido e sádico, ele vai coisificando o objeto de desejo -, no filme de Bressane, estamos diante do fetiche pronto, acabado e embalado para o consumo (fica óbvio que, depois da morte da parceira que fotografava nua de todos os ângulos, o personagem interpretado por Selton Mello iria dar um jeito de continuar com seu comportamento, o que acaba fazendo fotografando o esqueleto da morta - obviedade ou explicitude que também não é explorada). A pura medialidade não alcança seu potencial crítico - não ultrapassa a esfera do entretenimento. 

Pra arrematar, uma curiosidade, que resume tudo: quando perguntei a meus interlocutores se haviam lido os contos do Machado (e não foi no mesmo dia da exibição do filme), a resposta foi negativa. Se se tratam de linguagens diferentes como argumentavam, a leitura dos contos só ressaltaria isso. É comparando que se pode chegar à conclusão de que não se pode comparar. Usar a máxima para escamotear uma referência hipertextual explícita do autor (no caso, direto) seria o mesmo (na verdade, seria pior) que eu me negar a ver o filme por já ter lido os contos - o que não fiz. Meus interlocutores viram o filme e se negaram (pois, para fazê-lo bastava vontade: com acesso a internet e quinze minutos de leitura, estaria tudo resolvido) a ler os contos. Se o que fiz (i.e., seguir uma referência) é uma com-paração, prefiro ser um comparatista doente a insistir, como um mantra que um produto cultural produz seu sentido sozinho.

Atualização (5/7/2009): Pra ter uma visão diferente (e fundamentada) de A erva do rato, vale ler os comentários de Jair Fonseca a este artigo (o artigo em si é um malabarismo só, consegue ver amor (?!?!) no filme, realmente uma proeza).


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"Não se pode comparar" - é a máxima quando o que se quer proteger é a autonomia de uma obra. Não é contra a comparação que este argumento se volta, é contra qualquer exterioridade: um mecanismo de imunização. Não se pode mencionar outra linguagem que não a do "suporte", não se pode trazer à tona outro momento histórico, mesmo quando é a obra que o requer, não se pode cruzar poetas, mesmo quando um deles cita o outro. Se você fala prum estudante de cinema - ou prum cinéfilo, dá na mesma - que o filme de certo diretor não passa de uma banalização monotemática dos contos de um escritor consagrado nos quais o próprio diretor diz que se inspirou (e mesmo que o próprio diretor ressalte isso em todas as exibições públicas e que a menção aos contos compareça em todas as sinopses, até nas mais curtas), o estudante/cinéfilo te responderá que "Não se pode comparar as duas linguagens" - um argumento que, inconscientemente ou não, é de uma autoridade brutal e visa a infantilização, pois desde pelo menos a alfabetização qualquer um percebe a diferença entre uma imagem de TV e a página de um livro. "Não se pode comparar" é, na verdade, de um eufemismo pra "cada macaco no seu galho", que, por sua vez, quer dizer: há mercado para todos e não venha mexer no meu peixe.

(Um exemplo contrário a esta lógica que a confirma por sua excepcionalidade é o Vistos e escritos, melhor blog "sobre cinema" que conheço. A sua leitura dos filmes de Tarantino é, também, a melhor que já vi. Arte e crítica não são competições olímpicas, mas também não são Jogos Abertos).


Sopro 12

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Os dois totalitarismos (publicado originalmente no London Review of Books), de Slavoj Zizek (em tradução de Rodrigo Cássio), é o artigo de debate do n.12 do Sopro. Completa a edição uma resenha, escrita por este blogueiro, de As estrelas descem à Terra, livro de Theodor Adorno. 

Atualização (04 de julho de 2009): Agora é possível visualizar os números do Sopro em Flash. A visualização nesta linguagem torna o panfleto mais próximo à sua versão impressa, além de permitir efeitos interessantes, como o de virar a página, o de aproximar o texto, etc. Para usar o zoom, basta clicar na página desejada, ativando o modo tela cheia, e aproximar ou diminuir o texto usando a barra de rolagem do mouse. No modo full-screen, um pequeno menu aparecerá no canto superior direito, onde é possível passar à página anterior ou à seguinte.   

Atualização (08 de julho de 2009): Sobre o mesmo tema do artigo de Zizek, a falsa simetria entre Nazismo e Stalinismo, vale a pena conferir este texto n´O Descurvo.


Obs.: este post foi atualizado às 20:22 de 29 de junho, com o trecho "Felicidade".

Miscigenação
Logo na chegada aos seus grandes centros urbanos, como a Paulicéia, se descobre que o Brasil não é só uma democracia racial, mas também uma pujante democracia social. Homens de classe média baixa fazem piadas machistas, enquanto um morador de rua dorme na mesma calçada, uma estudante uniformizada caminha para casa vinda do colégio particular, um engravatado com pasta de couro chama um táxi e universitários do Mackenzie fazem um churrasco na calçada do prédio da USP na Rua Maria Antônia. Tudo num raio de dez metros. Tudo sob o sol escaldante do meio dia. Tudo ao mesmo tempo sem que ninguém se incomode ou se sinta incomodado pelos demais. É compreensível que isto se dê na cidade abrigo do tucanato, mas imperdoável que se repita - como de fato se repete - em cidades como Porto Alegre ou Belo Horizonte, governadas tanto tempo pelo PT.

Arquivo
Os arquivos brasileiros se regem por uma máxima: neles não estão armazenados documentos que esperam a intervenção do pesquisador para escaparem do esquecimento, mas sim documentos que já estão esquecidos, independente de quem (e se alguém) os leia. No Brasil há, de fato, um "mal de arquivo": os arquivos encadernam jornais furando o texto, permitem que os textos se apaguem, disponibilizam ao pesquisador, junto aos documentos, recomendações de uso interno sobre uma microfilmagem jamais realizada. Ao resgatar do esquecimento um documento armazenado em arquivos brasileiros, o pesquisador leva como saber supremo o de que o passado que resgatou já está irremediavelmente perdido.

Felicidade
No Memorial da Resistência, há uma sala escura - uma das antigas celas do DEOPS -, com bancos e fones de ouvido. Neles, se pode ouvir depoimentos de presos políticos que passaram por ali. Talvez o momento mais bonito dos relatos seja quando um deles fala que, apesar da dureza nada branda da situação, havia certa disposição à alegria dos que estavam ali. Mas a beleza do relato não está aí, o que faria dele tão perverso quanto A vida é bela, mas na explicação que dá para isso: se os presos que ali estavam não fossem pessoas dispostas à alegria, nem estariam ali - eles estavam ali justamente porque queriam ser felizes - ou melhor, explica o depoimento, eles estavam ali justamente porque queriam que todos pudessem ser felizes. Não conheço definição melhor de democracia - ou comunismo: a possibilidade de todos serem felizes.

Livros
No último dia de Paulicéia, esqueço dois livros recém comprados no balcão de um café. No ônibus que me leva para outro estado, não consigo parar de me culpar pelo esquecimento. Minha companheira, a certa altura, me consola: pode ser que quem encontre os livros tenha a vida completamente transformada pela sua leitura. Passamos a noite em claro imaginando os caminhos tomados pelos livros e pelas vidas reconfiguradas por eles. Chegamos ao nosso destino cansados, mas aliviados. Muitas horas antes, ainda na Paulicéia, os dois livros, com capas de papelão confeccionados por catadores, já haviam chegado ao seu destino, que, no caso, era também a sua origem: a lata de lixo. Os livros, como os homens, não tem Destino.

Post-scriptum
Como se depreende deste "Diário", estive viajando para São Paulo, onde fui muito bem recebido pelos amigos Pádua Fernandes e Fabio Weintraub, aos quais agradeço muito pela atenção, pelo carinho, pela hospitalidade - pela amizade. Em seguida, fui a Dourados, junto com colegas de pós-graduação, participar de um congresso e conhecer o Idelber Avelar, bem como reencontrar o velho amigo Rodrigo. Por isso, peço desculpas por não ter respondido aos comentários feitos aqui no blog, bem como por não tê-lo atualizado. Agora, ele deve voltar ao ritmo normal. O debate sobre o Extinção, livro de Paulo Arantes, continua marcado para o dia 15 de julho.


Qualquer um que tenha acompanhado minimamente (lendo esporadicamente um suplemente cultural dos jornalões já é o suficiente) os debates das ciências humanas da segunda metade do século XX, sabe que tão (ou mais) importante que o "fato em si" é a construção discursiva que se faz dele, o seu relato. Mais perigoso que o revisionismo do passado (e intimamente ligado a ele), é o revisionismo do presente: a narração do presente é que irá pros arquivos, físicos e virtuais, contando nossa história (ou a história dos nossos discursos, melhor dizendo). Nesse sentido, tão (ou mais) importante que o enunciado (o que é dito, o que é comunicado), é a forma da enunciação (como se comunica o que se comunica). "O meio é a mensagem", para usar a frase célebre de Marshall McLuhan. 

Dois exemplos recentes, extraídos do jornalão que leio até expirar minha assinatura, a Folha de S. Paulo:

1) Hugo Albuquerque cantou bem a bola ao argumentar que, diante da assimetria dos confrontos entre estudantes e PM na USP, falar em "pancadaria" ou "confronto" é, no mínimo, de um cinismo atroz. E, de fato, a FSP teve como manchete do dia 10 desse mês: "Policiais e alunos entram em confronto na USP". Mas, mesmo ali onde a assimetria é narrada, a forma com que é narrada transmite simetria: o primeiro parágrafo da reportagem diz: "Uma manifestação de funcionários e estudantes de USP, Unesp e Unicamp acabou em confronto com a Polícia Militar ontem à tarde, no campus Butantã da USP (zona oeste). PMs usaram bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes. Os alunos, pedras e tijolos." Do jeito que o texto está construído, com o uso do contraponto (Os policias, isso; os estudantes, aquilo) cria-se a aparência de uma equivalência. Ou seja, os policiais usaram suas armas no confronto, e os estudantes, as suas - como se fossem equivalentes. O correto seria não expor o tal "confronto" na forma deste contraponto; mas daí seria pedir mais. Todavia, não seria desrespeito a esse tal de "pluralismo" que os jornalões pregam colocar no texto, ali depois de "Os alunos," um "apenas". No dia seguinte, o mesmo discurso: no texto que tinha como título "Após confronto, cresce oposição à reitoria", encontramos a mesma forma de narrar como simétrica a assimetria: "Segundo os professores, Vilela é responsável pelo que chamaram de 'ação violenta da PM no campus', que incluiu o uso de bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes. Do lado dos manifestantes, registraram-se agressões aos PMs com pedras e xingamentos." Aqui, a perversidade com que o discurso construído é ainda maior: a PM usa suas armas, os estudantes agridem a PM com as suas, entre elas o grito. É evidente que, numa situação como a dos protestos na USP, a agressão verbal não está no mesmo nível que um cassetete. Contudo, narrada desse modo, é como se estivesse.

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2) No editorial desta terça, 16, "Mérito comprovado", a FSP rasga elogios ao ProUni, de fato um bom programa. Fala do bom desempenho dos estudantes do programa e - aqui que entra a charada -  do seu baixo custo: no meio do texto, entre as suas duas colunas, um gráfico compara o custo anual por aluno do ProUni e das Universidades Públicas. O texto não faz nenhuma menção a tal comparação, mas nessa omissão diz tudo: os R$1800,00 do aluno do ProUni comparados, de modo "neutro", aos 13mil e poucos reais do estudante das universidades públicas dizem, sem dizer (i.e., pela forma em que não é dito) que estas jogam dinheiro do contribuinte no esgoto. O que o editorial não diz faz toda a diferença: grana em pesquisa, extensão, bibliotecas, diferença dos salários dos professores e servidos, etc etc etc.


Sopro 11

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O décimo primeiro número do Sopro está no ar, com o texto que Michel Leiris escreveu para o dossiê Conhecimento da América Latina da revista Imán (de 1931) - no n.8, foi publicado a participação de Georges Bataille -, uma resenha de Paulo da Luz Moreira, professor na Yale e blogueiro, sobre Borges, volume de Adolfo Bioy Casares publicado recentemente, e o verbete Cara de Cavalo, de Flávia Cera. 

Fizemos uma pequena modificação no site do Sopro, disponibilizando também em .html os verbetes publicados (que compõem, agora, nosso Dicionário crítico), como alguns leitores haviam pedido.

image001.jpg


978-85-7559-090-4_big.jpgA idéia surgiu nesta caixa de comentários d'O Biscoito: uma discussão sobre o Extinção, do filósofo e professor da USP Paulo Arantes. O livro integra a coleção "Estado de sítio" da Boitempo, coordenada por ele, e pela qual foram publicados o já clássico Estado de exceção, de Giorgio Agamben, Bem vindo ao deserto do real!, de Slavoj Zizek, Evidências do real, de Susan Willis (que já resenhei aqui pro blog), entre outros. Extinção vai desde a discussão conceitual até críticas miúdas ao governo Lula, passando pela análise estrutural e/ou de conjuntura. Paulo Arantes doutorou-se com a belíssima tese Hegel - a ordem do tempo e criou uma baita polêmica que faz dele um cara odiado por muitos ainda hoje com Um departamento francês de ultramar - Estudos sobre a formação da cultura filosófica uspiana (Uma experiência nos anos 60). Mais tarde coordenou a excelente coleção "Zero à esquerda", da Vozes. Arantes é, ao mesmo tempo, um grande polemista e um baita filósofo, e possui aquela virulência ou acidez que enchem o exercício da crítica de uma intensa vitalidade - uma amostra condensada disto pode ser conferida no seu oswaldiano Diccionario de bolso

Vamos à parte prática: pra dar tempo aos interessados de conseguir o livro e realizar a leitura (são 300 páginas, mais ou menos), sugiro que façamos a discussão daqui um mês, por volta do dia 10 de julho no dia 15 de julho. Estarei viajando na segunda metade de junho e antes disso acho que não daria tempo aos que ainda não leram. Manifestaram interesse, até agora, o (incansável) Hugo Albuquerque, o João Villaverde e o Idelber. Quem mais? A data está boa?

Atualização: já temos um bom quórum de gente interessada e capacitada para o debate. Portanto, está confirmado para o dia 15 de julho. Quem mais quiser participar, é só aparecer e comentar (e, se possível, avisar aqui na caixa de comentários). Se der certo, já tenho idéia pro próximo. O formato será mais ou menos como o Clube de Leituras do Idelber; eu farei um post inicial sobre o livro e, a partir daí, o debate segue na caixa de comentários - como o livro aborda inúmeras questões e o Paulo Arantes emite opiniões fortes, meu post vai ser só uma faísca.


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Há algumas imagens que vi na televisão que jamais consigo esquecer. Uma delas é a do militante chinês barrando o avanço dos tanques em 1989. Outras duas são das discussões parlamentares sobre as alterações na CLT no final de 2001. A primeira é de Paulo Paim rasgando a Constituição (na tentativa de deixar claro do que se tratava o projeto do governo FHC) e, em seguida, atirando-na em um deputado da base governista que o chamou de "moleque" pelo gesto. A outra é do deputado Babá, dias depois e ainda na discussão sobre o projeto, dizendo a Inocêncio de Oliveira (o Eterno - já condenado por trabalho escravo) que este estava de óculos escuros por "vergonha de aparecer diante da TV Câmara em defesa do projeto". Estas imagens não são marcantes em si, mas o que veio as seguiu: no primeiro caso, quiseram processar Paim por falta de decoro (como já se viu, rasgar a Carta Magna e usá-la como arma?); no segundo, uma série de desagravos a Inocêncio que não estava, de fato, com vergonha (isso ele jamais teve), mas com uma conjuntivite (no olho esquerdo, diga-se de passagem - acho que isso ele sempre teve, só consegue enxergar com o direito). O que essas imagens atestam é algo que, acredito, continua atual, e diz respeito à discussão política brasileira e sua repercussão pelos jornais: a total incapacidade (ou melhor, a total falta de disposição) de compreender imagens (ou metáforas) como imagens (ou metáforas). Basta ver o torcer de nariz a cada metáfora futebolística de Lula.


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

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