Dicionário de Bolso: Trabalho

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"La ascendencia etimológica del trabajar castellano como la del travailler francés y del travagliare italiano es el vocablo latino tripaliare, del sustantivo trepalium, un artilugio de tortura formada por tres palos, al que se ataba a los condenados (gladiadores del circo romano y esclavos) para infligirles castigo. De donde, trabajar significaba estar sometido a tortura."

Carlos Astrada, filósofo argentino, Trabajo y alienación

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Essa é apenas uma das versões presentes na história, pois o próprio vocábulo no latim aponta para um instrumento cujo uso também afirmou as possibilidades do viver, como no cuidado com a saúde de animais, por exemplo colaborando com a contenção em partos difíceis, e não apenas do destruir, como a tortura.

Seu post me fez revisitar minha monografia de graduação, em que falo sobre o trabalhar e o viver.

;)


Me lembro do que o Volpi, o pintor, respondeu certa vez a uma pergunta sobre quanto trabalhava por dia, ou algo parecido: Trabalho muito, porque trabalho é para a gente viver dele e não morrer dele né!?.
Volpi morreu aos 92 anos.
Quando a gente trabalha no que gosta...

Outra coisa, no teu post sobre o terror, não sei se será últil, mas como gostas dos dicionários e pensando na coisa da dualidade - ou que você chama de divisão binária - e nas idéias robespierrianas, que diz ser o terror a emanação da virtude, pode-se enxergar outras dualidades ou sistemas binários, quais sejam:

a- terror, virtude, radicalismo, masculino, propriedade privada;
b- amor, matertude, diálogo, feminino, anarquia.

onde, a propósito dos dicionários:

a- do latim: Virtus, utis, s.f. Virtude; robustez; vigor; ânimo; valor; coragem; energia; mérito; qualidade.

b- do grego: ἀνδρεία, manliness, manhood, manly spirit, Lat. virtus, trag., etc.

Donde se pode ver a relação entre "virtude" e "virilidade" que é do âmbito do masculino. Já a propriedade privada está, em minha modestíssima opinião que não é boa nas análises, na raiz da "liberdade" então fartamente apregoada e em cujo nome, como bem disse Madame Roland já no cadafalso, se cometeram tantos crimes...Não sei também se anarquia funciona bem como contraponto à posse da terra, ou da mulher é claro.

Ps . desculpe pelo neologismo matertude, mas não consigo nem pensar, dada a origem da palavra, em como conceituar uma virtude feminina.


Bem, a questão que eu quis colocar não diz respeito ao prazer ou desprazer - eu também gosto muito do que faço, por isso abri um blog -, mas à compulsoriedade do trabalho.

Josaphat: gostei muito do teu neologismo. De fato, a virtude é masculina ao extremo - ela é humanista, ou seja, diz respeito ao homem macho branco sadio. A tua bipartição me lembra a de Oswald de Andrade, que trabalhou isso muito bem em vários textos dos anos 1940 e 1950, onde divide a história humana entre matriarcado e patriarcado, horizontalidade e herança, economia do ser e economia do haver. Poderíamos acrescentar a ela: matéria (mater, mãe) x padrão (pattern, pai), conteúdo e forma - e no campo cultural, o artista por muito se caracterizou justamente como aquele que dá uma forma, um padrão a uma matéria indefinida, ou seja, é um pai criador. (O mesmo que o soberano de Carl Schmitt: ele decide quem é o inimigo, dando forma ao seu povo, antes uma mera matéria indiferenciada). Também creio que a solução contra a propriedade/liberdade (a apropriação da liberdade) não passa pela anarquia. Pelo que passa, ainda não sei, talvez pelo que Giorgio Agamben chama de Ingovernável, já prenunciado pela idéia da sociedade contra o Estado de Pierre Clastres: tornar a palavra do chefe - a lei - não coercitiva, não é que o chefe não exista, ele não é obedecido, não consegue dar forma à matéria.

Abraço e obrigado pelo comentário.


Legal Alexandre, nunca havia feito esta óbvia associação entre as palavras matéria e mãe e padrão e pai. Quanto à masculinidade da criação artística eu não sei bem, pois vejo o ato artístico criador como uma busca do equilíbrio. De fato, é ele, o artista, quem dá forma à matéria; mas como ele aborda esta matéria? Isto é, me parece que o ato criador funciona em dois âmbitos: O entendimento da matéria bruta - da decifração do desconhecido feminino - e da moldagem desta matéria em uma forma no mundo, assim como uma espécie de manifestação do invisível/desconhecido no visível, ou o que se torna conhecido, o masculino. Eu penso estas coisas de forma ainda muita confusa e o seu post me foi muito útil no propósito destes entendimentos.
Quanto à questão do prazer, também não foi bem isto que quis dizer. O trabalho, no meu ver e como entendo as palavras de Volpi, não precisa, necessariamente, ser um prazer ou desprazer; precisa ter sentido. O trabalho alienante (foi aí que associei com a tortura) é que causa o "morrer de trabalhar". O trabalho é sempre cansativo de alguma forma e o prazer talvez surja da presença do sentido (viver de trabalhar), do saber-se ser tal trabalho um ato útil criador. Ou algo assim.
É uma discussão muito interessante.
Abraço e obrigado.


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

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Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
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O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
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(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

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