Dia do Juízo (V)

| | Comentários (0)
O metrô empilhado de gente mais parecia um campo de concentração. A idéia não era dele, tinha lido em algum lugar - daria uma ficção, se já não tivesse sido escrita. Não bastava morar ao lado do quartel, tinha de ver os militares pela janela, a caminho do trabalho, na base dos morros. Acreditava, contudo, ter se acostumado já àquilo. Parecia ser um dia comum. A não ser pela estranha carta que recebera por debaixo da porta, sem destinatário, sem remetente, sem selo. Nela constava uma única frase: "A cadeira permanecerá vaga". Que significava aquilo? Haveriam errado na entrega? Enquanto relia a enigmática frase, lembrou que o Presidente viajaria ao exterior - estaria sendo ele comunicado de um golpe de estado? A presença do exército na cidade a pretexto de combater o tráfico de drogas poderia ser apenas um pretexto. Mas por que comunicar a ele, um burocrata menor? Enquanto pensava, meio adormecido, meio inquieto com o telefonema, começou a ouvir barulhos de papéis sendo rasgados. Não abriu os olhos para ouvir melhor. Eram envelopes sendo abertos! Uma imensidade deles. Olhou a seu redor, ainda de olhos fechados, e visualizou todos os passageiros do vagão abrindo envelopes idênticos ao que recebera. Liam mecanicamente, mesmo os analfabetos, que os bem pensantes acreditam não saberem ler, a mesmíssima frase: "A cadeira permanecerá vazia! Tentou descer na próxima estação; a multidão que subia, todos com o seu exemplar da carta na mão, o impedia. Intuitivamente, olhou para o relógio. Não marcava as horas, somente a data. Estava dez anos no futuro. Acordou ouvindo o rádio-relógio e a comentarista que achincalhava o presidente. Uma década depois terá recebido aquela carta.

*** 

(Dia do Juízo é uma ficção que publicarei, paulatinamente, aqui no blog, às sextas-feiras.)

I * II * III * IV

Deixe um comentário

Página Principal

"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes

Twitter:
@alexnodari


Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa


Dia do Juízo

é uma ficção publicada aqui no blog às sextas-feiras.

I | II | III | IV | V | VI





Bibliotecas livres:



Visito: