O metrô empilhado de gente mais parecia um campo de concentração. A idéia não era dele, tinha lido em algum lugar - daria uma ficção, se já não tivesse sido escrita. Não bastava morar ao lado do quartel, tinha de ver os militares pela janela, a caminho do trabalho, na base dos morros. Acreditava, contudo, ter se acostumado já àquilo. Parecia ser um dia comum. A não ser pela estranha carta que recebera por debaixo da porta, sem destinatário, sem remetente, sem selo. Nela constava uma única frase: "A cadeira permanecerá vaga". Que significava aquilo? Haveriam errado na entrega? Enquanto relia a enigmática frase, lembrou que o Presidente viajaria ao exterior - estaria sendo ele comunicado de um golpe de estado? A presença do exército na cidade a pretexto de combater o tráfico de drogas poderia ser apenas um pretexto. Mas por que comunicar a ele, um burocrata menor? Enquanto pensava, meio adormecido, meio inquieto com o telefonema, começou a ouvir barulhos de papéis sendo rasgados. Não abriu os olhos para ouvir melhor. Eram envelopes sendo abertos! Uma imensidade deles. Olhou a seu redor, ainda de olhos fechados, e visualizou todos os passageiros do vagão abrindo envelopes idênticos ao que recebera. Liam mecanicamente, mesmo os analfabetos, que os bem pensantes acreditam não saberem ler, a mesmíssima frase: "A cadeira permanecerá vazia! Tentou descer na próxima estação; a multidão que subia, todos com o seu exemplar da carta na mão, o impedia. Intuitivamente, olhou para o relógio. Não marcava as horas, somente a data. Estava dez anos no futuro. Acordou ouvindo o rádio-relógio e a comentarista que achincalhava o presidente. Uma década depois terá recebido aquela carta.
Dia do Juízo (V)
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Alexandre Nodari
é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do SOPRO.
Currículo Lattes
Twitter:
@alexnodari
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