Antropologia de coiote

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Essa semana aconteceu o Antropologia de Raposa, aqui na UFSC, organizado pelo multinatural José Kelly. O coiote, nas mitologias ameríndias - especialmente nas norte-americanas - é uma espécie de trickster, deceptor, malandro, Exu, o vulgar sacana que fode as ações do seu "gêmeo" "invertido", o demiurgo (um Oswald de Andrade mitológico) - e imagino que "raposa" no título do evento se refira ao coiote (ou um equivalente seu), ainda que, aqui no sul do país, chamemos de raposa o que seria o gambá (o trickster absoluto); no que eu possa estar totalmente enganado (é outra possibilidade), o que seria apenas uma prova de que estou certo (o engano me leva ao engano). Seja como for, no evento tomei algumas anotações que deixo aqui como impressões de um leigo, ou melhor, de um amador, de alguém que não entende nada do assunto, mas o ama:

1. A estrela do evento foi Roy Wagner, "inventor" - pra usar um termo caro ao antropólogo - da idéia de "Antropologia de coiote". Sem contar a vivacidade exuberante que exibe aos 75 anos, Wagner, cujas contribuições para a disciplina algum antropólogo (no sentido estrito do termo) pode explicar melhor que eu, é igualmente um antropólogo no sentido forte do termo (isto é, alguém que tem uma teoria sobre o que é um homem, como ele vê o mundo, como se relaciona com esse mundo, como se relaciona com os não-humanos, o que concebe como não-humanos, em suma, uma teoria sobre o homem que não necessariamente é antropomórfica, como era a antropologia kantiana). Sublinhei três entre muitíssimas coisas dignas de nota ditas por Wagner. A primeira foi na abertura do evento, uma exibição de fotos tiradas pelo próprio em 1964 e 1968 na Papua Nova Guiné: a linguagem corporal dos "nativos", "selvagens", "primitivos" - habitantes de uma região colonizada pelos ocidentais só no século XX - era algo por si só indicial (e que já não seria visível alguns anos depois, após as doenças - inclusive o missionarismo - trazidos pelo Ocidente dizimarem esses povos) de uma autonomia (entendida em sentido político e ontológico), que, com a conlonização, acabou. Tal autonomia recebeu de Wagner uma definição precisa e lapidar: é a capacidade de fazer guerra - tirando isso de um povo, mesmo sua linguagem corporal (isto é, a relação que o corpo trava com o mundo, a relação entre os corpos) se perderá, ou seja, se homogenizará com o corpo do modelo dominante. A segunda diz respeito à conferência de Wagner, que apresentou um capítulo do seu novo livro, O Lugar da Invenção: "O xadrez do parentesco e o parentesco do xadrez". Ali ele postulou uma espécie de deslocamento do enfoque das regras de parentesco em si para as três modalidades de relação com essas regras: 1) a relação de respeito; 2) a de evitação; e 3) a jocosa. Creio que se poderia generalizar a hipótese de Wagner e dizer que se tratam de três modos de relação com a Lei (em sentido amplo). É evidente que, nessa generalização, seriam algo como tipos puros que não existem senão mesclados entre si na realidade, mas, mesmo assim, poderiam gerar frutos interessantes nos estudos jurídicos, deslocando o problema da teoria do Direito (o que é a Lei) para uma verdadeira antropologia jurídica (os diversos modos de se relacionar com a Lei - incluindo a questão de porque se obedece a ela). Por fim, a ênfase que Wagner dá ao humor é genial. Em algum livro, baseado em um insight de um aluno de graduação, ele postula que o humor é a melhor forma de compreender qualquer coisa (cito de cabeça uma auto-referência que Wagner fez também de cabeça). E, além disso, que a explicação da piada destrói o saber contido na piada. Imediatamente, pensei em Machado de Assis, cujas ficções (todas humorísticas) parecem conter uma espécie de saber oculto (não à toa, Machado era chamado de "Bruxo") que "pegamos" ao ler, mas que se perde sempre que se tenta explicá-lo (como, por exemplo, na idéia - fora de lugar - das "idéias fora do lugar").

2. Além de Wagner, Eduardo Viveiros de Castro também fez uma belíssima conferência (como disse o Kelly, que também apresentou um trabalho sensacional, mas que eu precisaria ler com cuidado para comentar sem deslizes, só faltou mesmo o Lévi-Strauss), em torno do tema da flecha perdida (a flecha que não chega, a que chega por acaso, a flecha do paradoxo de Zenão que nunca chega ao alvo, etc.) - publicaremos uma variante do texto pela Cultura e Barbárie. Acredito que se fizêssemos uma transposição do tema da flecha à mitologia ocidental moderna, seu equivalente não seria a bala ou o revólver, mas a carta extraviada. A ênfase na linguagem que tomou conta da filosofia (especialmente a partir do século XX) prova isso: por que a linguagem não comunica, por que ela falha, como fazemos para que ela chegue ao seu destinatário, etc, etc? A carta - a escrita - é a flecha, o instrumento bélico ocidental por excelência (Carl Schmitt argumenta que o Novo Mundo pôde ser tomado pelas potências européias pela sua "superioridade espiritual", isto é, pela capacidade de cartografar o mundo em uma totalidade fechada, tornando-o disponível - o que os "primitivos" não poderiam fazer; além disso, cabe lembrar a relação que Lévi-Strauss traça, em "Lição de escrita", entre escrita e hierarquia, escrita e sociedade de classes, etc.). Mas, nem sempre a carta, como a flecha, atinge o alvo. E devemos prestar atenção a esse erro, a esse acidente de percurso - como o faz a literatura (que é, como pretendo adiantar a título provisório num verbete para o Sopro, a continuação da guerra civil por outros meios). Bartleby, o copista do conto de Melville, seria a figura mitológica dessas cartas que se perdem: funcionário exemplar, após ser-lhe pedido que revisasse uma cópia que fez, responde "I would prefer not to", uma fórmula que passará a usar toda vez que lhe solicitem algo. O narrador oferece uma possível explicação para o comportamento do protagonista: ele teria trabalhado na seção de Cartas Extraviadas de uma empresa postal. Ali, se deparou com a contingência, com o fato de que a mensagem (a flecha) se perde, de que uma cópia só por acaso corresponde ao original (como o Quixote que o Pierre Menard borgeano queria escrever, que deveria corresponder totalmente ao de Cervantes, sem ser uma cópia). Uma vasta gama da literatura poderia ser lida sob um enfoque semelhante: "A cartomante" de Machado de Assis, "A carta roubada", de Poe, "O processo" de Kafka (a Lei, essa Carta Magna, só chega a seu destinatário se esse se nomeia como tal). Isso nos leva de volta à tripartição, feita por Wagner, entre as três formas de relação com a Lei, a qual poderíamos acrescentar uma quarta: a relação de desvio, de erro, de acidente. A carta só chega por contingência, o que significa, também, que ela não possui essência, e pode ser - em um gesto político - desviada. O Manifesto da Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade postula tal desvio (obra de um "primitivo"): "Uma sugestão de Blaise Cendrars : - Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino."

2 Comentários

Não sei se pertinente - não vi a palestra do Viveiros de Castro e muito menos sou antropólogo-, mas me lembro da tese de doutorado de Eugênio D'ors, acerca das aporias de Zenão. Ainda que D'ors vá para física resolver a querela, em breves momentos - marcando oblíquo diálogo com Bergson - o autor demarca a impossibilidade de pensar um espaço destituído de tempo - pois assim era feito por Zenão e por isso o impasse-, sendo que este, de forma heterogênea e múltipla, povoaria aquele. Daí, o movimento da flecha se daria sob a noção de acontecimento, de encontros pontuais e imensuráveis entre espaço e tempo que a leva ao alvo, ao fim - e poderíamos pensá-lo, talvez, não como finalidade, mas como finitude. Algo como uma não coincidencência consigo, ou seja, coincidências infinitas que dissolvem as capturas - que sempre se dão - daonde Deleuze propõe o conceito de duração em Bergson. O passado, o que foi, portanto, repetição, "é", ou seja, se configura como uma virtualidade - a carta, a flecha -, se lançando ao futuro, enquanto o presente atua - o encontro, a captura-.
Não sei se a palestra de Wagner foi próxima a que ofereceu em BH, mas foi marcante a questão da "ausência de horizonte", ou seja, de demarcação - e, talvez, finalidade, projeção-, para os habitantes da Papua Nova Guiné, formando uma espécie de "espaço liso". Tal configuração, para Wagner, se bem entendi, dissolveria o tempo retilíneo submisso ao fim transcendental e instauraria a heterogeneidade, na qual, pensando em sua leitura de Viveiros e Wagner, a carta pode ser desviada - e eternamente "encontrada" - até a morte.

Abraços!


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

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