Era um grupo de amigos. Estudiosos. Sabiam o que havia de mais contemporâneo na filosofia, na literatura, na sociologia, em tudo. Estavam no topo do mundo acadêmico. Donos de bibliotecas gigantescas para as suas idades. Compras compulsivas. Livros repetidos. Livros nunca lidos. Livros relidos, decorados. Mas eles também gostavam de jogar. Muito. Jogos de tabuleiro. Banco Imobiliário para poderem ser mercenários. Poker para poder mentir. Mas War era o jogo. Jogavam partidas intermináveis tentando dominar o mundo. Verde contra vermelho. Preto contra amarelo. Branco contra azul. Acordos inescrupulosos. Promessas de países e continentes. Amizades quase rompidas. Pactos de não agressão. Valia qualquer coisa para conquistar o objetivo. Tudo isso misturado com uma boa teoria. No começo, adoravam partir do assunto mais banal e chegar a grandes conceitos: potência, nomadismo, diferença, alteridade. Um deles era o mais intenso, e por conseqüência, o mais cego. Nenhuma piada escapava a sua comparação teórica. "Isso é vida sacra". "Aquilo é pura potência". Puta que pariu!!!! Cara mais chato. Agora não se podia falar nada que tudo caia na vala comum daquela bibliotequinha ambulante. Resolveram dar mais uma chance. Iriam jogar war para falar menos e não correr riscos. Eis que chega o cara: "desculpa, não acho mais legal jogar war porque todas as jogadas são meio para um fim". Jogaram uma bomba nele.
Brincando de guerra
3 Comentários
MUNDO-ABRIGO é proposição
o dia-dia experimentalizado
não exclui
dirige-se ao
que é vida. Hélio Oiticica
o dia-dia experimentalizado
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que é vida. Hélio Oiticica
Flávia Cera é doutoranda em Teoria Literária na UFSC.
O desenho que abriga este blog é de Christiano Balz, colorido e tratado digitalmente.
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Estava lendo o seu texto e ri sozinho, olhando para os livros que li e reli, e para aqueles que só estão de bonito na prateleira. É claro que meu conhecimento acadêmico, literário e sociológico é ínfimo se comparado aos jogadores deste War explicitado no post, nisso não posso me inserir... Mas a realidade - ou fantasia projetada para a realidade - dos jogos me é muito cara. O engraçado é que as pretensas discussões de adultos nos jogos, para mim, nada mais são do que aquelas crianças de outrora, apontando umas às outras que tinham roubado, ou estavam se achando. Essa volta à infância por meio de "jogos de gente grande" me fascina, pois acredito que nos liberta da realidade chata e "babilônica" que nos rodeia. E o War sintetiza todos estes sentimentos, de criança do passado e de adulto fujão. Temos que marcar um War para por tudo isso para fora. Abração!
Hummm... tenho a impressão de que esse jogo de War serve mais como válvula de escape, não de uma infância que retorna de onde estava morta e enterrada, mas de uma infância que sempre esteve aí, bem aí. HUauhahua "Não jogue uma bomba em mim, já tenho acordo aqui com o meu companheiro"
Raphael: oi, querido!! que bom te ver por aqui. Seu comentário foi muito melhor que o post. Tem coisa pior do que criança quando cisma que o outro está roubando ou criança se achando? E é bem isso o jogo de war, esses comportamentos insuportáveis. Você é um jogador bem comportado, mas temos os outros que são absolutamente gritões, teimosos, e cínicos que, é claro, dão toda graça ao jogo interminável. Quanto a partida de war, é só marcar! beijos e apareça sempre.
Diego: sim, a infância está sempre aí. Também se não estivesse, imagina: iria dar um mega trabalho buscá-la em um saquinho ou tomar alguma coisa como a poção mágica dos ursinhos gummi, não é mesmo? beijo