Folha de S. Paulo convoca

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No Editorial de hoje a Folha esbraveja e cobra da "sociedade civil" uma reação ao recesso dos parlamentares. Lemos lá pelas tantas:

Ao contrário do que ocorreu em alguns momentos marcantes da história do país -como a mobilização em torno das Diretas-Já ou do impeachment de Collor-, vê-se hoje uma apatia generalizada no seio da sociedade civil. Apatia, bem entendido, não significa ausência de julgamento nem de opinião; precisamente, a "opinião pública" continua viva nestes dias. Reduz-se, entretanto, a ser apenas uma "opinião", sem forças para converter-se em real força política.


Sra Folha, deixe-me explicar uma coisa: A apatia pode se constituir, do ponto de vista do Neutro de Roland Barthes, como um desejo político; político na medida em que visa destituir as dicotomias da política ocidental; político exatamente por não se encaixar na vulgar configuração política, mas por opor-se passivamente, a ela:

tò pathos: no neutro: ao mesmo tempo ativo e afetado: afastado do querer-agir mas não da "paixão".
A bem da verdade: o "pensamento" do páthos (afetado-ativo) não deve ser buscado do lado dos metadiscursos (-logias) porém, uma vez mais, do lado de uma filo-escrita: a de Nietzsche. Blanchot, a propósito de Nietzsche: "O que é a vontade de poder? Nem um ser nem um devir, mas um páthos: a paixão da diferença." E Deleuze: esse poder de ser afetado não significa necessariamente passividade, mas afetividade, sensibilidade, sentimento (Nietzsche sempre falou de sentimento de poder). Poder: primeiro como caso de sentimento e sensibilidade, não como caso de vontade. Vontade de poder: a forma afetiva primitiva. Fiquemos com aquilo que permite aproximar o Neutro do páthos: a paixão pela diferença.


A vida política da Modernidade ocidental encontra na exclusão da paixão, em favor da razão, um de seus pilares de sustentação: as ações públicas devem se fundamentar em motivos puramente racionais subtraindo o desejo. Mas o que se opõe a paixão etimologicamente, não é a razão. Paixão deriva de pathos, doença, algo que a alma sofre, é afetada, a não ação (atividade) diante de uma situação; é, portanto, passiva ao acontecimento. Paixão = passividade. Sendo assim, o que se opõe a paixão é a ausência dela, ou seja, a apatia. Apatia: ausência de doença, o que não se comove. Ou ainda, é a não não ação. É uma pura potência e, enquanto tal, sua abstenção não carece de desejo nem de ação, é uma paixão que em si mesma é ação, e que Agamben explica da seguinte forma:"na potência que se pensa a si própria, ação e paixão se identificam". Então, Sra. Folha, não exija da "sociedade civil" uma caminhada protocolar até o Congresso para expulsar o José Sarney, ou uma manifestação contra o recesso dos parlamentares, ou espere que assinemos em baixo o que você chama de denuncia. Porque se existe alguma coisa que falta a você, é o que você chamam de imbeciloidamente de "imparcialidade", e que eu chamaria de ação e paixão.

2 Comentários

Essa Modernidade que a Folha não se cansa em reVERBerar é uma paixão absolutamente sem paixão (porque imunizada) por uma cabeça (razão) - que não passa de uma invenção. Mas quando nos pedem essa mobilização, os abaixo-assinados (indissociáveis da representatividade política moderna) etc acontece alguma coisa que não cola: eles nos pedem que nos coloquemos diante do soberano ou como necessitado do toque taumatúrgico (não importa se o rei é bom ou não, importa o lugar que ele ocupa) ou, mais ainda, que reproduzamos a velha romaria católica (e o que é pior, absolutamente sem paixão. Não digo fé, porque o conceito já está, por si só, secularizado). Ou seja, eles recaem, de modo bem menos eloquente do que o Adorno poderia supor, num misticismo que, pelo menos aparentemente, dizem que combatem - o misticismo do "há um além-mundo e a ele recorremos". Aquilo com que a Folha não é capaz de lidar, especialmente quando fala de opinião (e note-se que não é estranho ouvirmos desses mesmos jornalistas o sintagma "formadores de opinião" em tonalidade positiva), é com a politicidade que escapa do esquadro do outrora, que escapa à regularidade do culto da cabeça (inventado).

Flávia,

Da Folha, a última coisa que eu lembro de ter feito - além das minhas habituais críticas n'O Descurvo -, foi estar no protesto contra o editorial ditabrandesco. Jornais estão esgotados porque o modelo do ponto de vista econômico e ecológico já inviável. No Brasil, esse esgotamento pode vir muito antes por conta da maneira como se estrutura a mídia corporativa impressa - comandadas por empresas familiares que se confundem com os negócios e os confundem com interesses políticos partidários - enfim, o modelo consagrado após o 1º de Abril de 64. É nesse sentido que eles se agarram em Serra; esperam ter um apoio poderoso para sobreviverem, o que nada mais é que um impulso reacionário; a tentativa de resolver os problemas de hoje, mexendo os ponteiros do relógio para trás. Creio que esse casamento Serra-Folha traga à baila de maneira clara o que seria um Governo Serra e a ameaça que ele representa para o próprio capitalismo.