Já viram uma chuva de caralhos?

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Rá! Então vocês ainda não leram Verônica Stigger! Essa mulher faz tudo acontecer. Autora de Gran Cabaret Demenzial e d'O Trágico e Outras Comédias, Verônica é uma das escritoras contemporâneas mais geniais que conheço. Nem preciso dizer que recomendo fortemente. Mas venho neste blog abordar uma afirmação feita por Verônica em uma entrevista sobre O Trágico, concedida ao querido amigo Pádua Fernandes, pouco antes do lançamento em Portugal. Na entrevista Verônica disse que as mulheres deveriam ter mais cu. Opinião que assino embaixo. Tanto assino que estou pensando em transformar essa afirmação em um movimento: As Cuzudas, ou Frente pela Cuzificação das Mulheres. Ainda não consegui achar um título que comporte a proposta, continuarei pensando e aceito sugestões. Com a finalidade de atribuir mais cu às mulheres, mando minha primeira dica: nunca deixe ser chamada e, muito menos se autodenomine, esposa. Jamais! Depois de ler o que segue, foi Agamben quem escreveu em O que Resta de Auschwitz, espero que cortem a língua de quem ousar, neste planeta, usar o termo esposa:
O verbo latino spondeo, do qual deriva o nosso termo 'responsabilidade', significa 'colocar-se como garantidor de alguém (ou de si) por alguma coisa diante de alguém'. Assim, na promessa de matrimônio, a pronúncia de spondeo significava, para o pai, empenhar-se a dar como mulher ao pretendente, a própria filha (por isso era chamada sponsa) ou garantir uma reparação caso isso não viesse a acontecer.
 

Viram? O termo esposa nasce de uma obrigação jurídica. Não é porque hoje não se faz uma mega negociação que o casamento mudou. Ele reaparece na sua forma mais medonha toda vez que se diz "esposa". "Minha esposa", então! Além de ser redundante, é uma barbaridade! Proponho que imaginem sempre que ouvirem o termo esposa, uma negociação horrenda, malas com dólares, ameaças de morte, torturas, etc. Um movimento para abolir o termo esposa é absolutamente pertinente para que as mulheres tenham mais cu! Então é hora de parar de esperar o maldito matrimônio para ser chamada de, ou para gritar aos quatro ventos que se é, esposa de não sei quem; e nunca mais (e isto é imprescindível, porque o fato é recorrente) atravessar uma conversa corrigindo a pessoa que chamou a fulana de namorada, amiga, amante, irmã, para dizê-la esposa, ok? Esse é o primeiro passo para um mundo feito de mulheres com mais cu. A meta é fazer chover caralhos!

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O post me remete a um exercício etimológico delirante e metonímico à la Brisset: ESPOSA - ESPONJA - MONJA. Ou seja: na apreensão do termo "esposa" quase temos a velha esponja que o velho nonno aclimatado ofereceria à nonna logo depois do casamento - "Péga a espõza e limpa lá". Mas entre "esposa" e "esponja" nos deparamos com mais uma metonímia que perpassa a ambos os termos e mais um, a "monja". Essa mesma "monja", falada pelo velho nonno, poderia soar como "mõza" - "Mas que mõza maiz bonitigna". Assim, a "esposa" se depara com a "esponja", um dos únicos artefatos aos quais se deve restringir a "moça" incluída nos termos do contrato casamenteiro. Incluída, mas incluída como terceira, como objeto de permuta. Além disso, nesse mesmo contrato, ela passa a ser obrigada a portar-se de maneira tão pudica quanto uma "monja". E aí se fecha o nó borromeano do termo "esposa": ela é tomada por troca, ganha a esponja e vira uma monja aos olhos dos outros, sob pena de tornar-se mal-afamada. Se, meio pretensiosamente, costumamos ouvir "castração" para todos os seres humanos, a "castração" da moça não se dá pela ausência do caralho, mas sim pela extirpação do cu, que ganha outro nome: "esposaesponjamonja".

Querida Flávia, a pergunta que fiz a Veronica Stigger naquela época foi inspirada neste poema de Alberto Pimenta, que foi um dos que escolhi para a antologia "A encomenda para o silêncio":


tudo mistificação
sobretudo
o cu da escritora
porque
a escritora não tem cu

tudo desperdício
sobretudo
a comida
já se sabe porquê
(não vale a pena insistir na tecla
o piano das letras até já lhe cortaram a cauda)

tudo brincadeira
sobre nada