Pegando uma carona no twitter do Idelber que mencionava o livro de Josefina Ludmer, O Corpo do Delito (UFMG), um texto genial que a autora denomina maliciosamente de manual, aproveito para recomendar a leitura de outro texto da autora: Literaturas postautónomas, um texto escrito em 10 tópicos. Josefina Ludmer parte de alguns romances contemporâneos de escritores como César Aira e Daniel Link, e também da crítica contemporânea, como Florencia Garramuño e Tamara Kamenszain, para explicar que essas escrituras fabricam o presente e que sobre elas não podemos dizer se são realidade ou ficção. Isto acontece porque a literatura perdeu a autonomia que lhe era garantida pela especificidade e auto-referencialidade, pelo poder de nomear-se e referir-se a si mesma, reger-se por suas próprias leis, com suas instituições próprias que, além de debaterem seu destino, seu sentido, sua função, seu valor, debatiam também a sua relação com as outras esferas, ou campos, de pensamento (arte, política, economia, etc). As escrituras pós-autônomas atuariam na incorporação da imaginação pública e, assim, fusionariam os campos autônomos levando a uma prática da imanência. É claro que o texto é muito mais que isso, Josefina desdobra cada item de maneira muito inteligente. O que gostaria de ressaltar aqui é que Literatura postautónomas é uma excelente aula de metodologia (acho interessante lê-lo assim e não como uma caçada aos textos pós-autônomos. Explico: Josefina diz que existe uma literatura pós-autônoma, no que, particularmente, não acredito; embora ela diga no texto que tudo depende de como se lê, ela continua insistindo nos mesmos autores). O texto de Josefina nos permite dizer que a literatura, de um modo geral, pode ser lida pós-autonomamente, ou seja, longe das distinções entre ficção e realidade, longe da idéia de fundação e, principalmente, longe do apego à Instituição Literatura, para que possamos montar novos sentidos, novas séries, abrir novas possibilidades. É um texto imperdível.
3 Comentários
MUNDO-ABRIGO é proposição
o dia-dia experimentalizado
não exclui
dirige-se ao
que é vida. Hélio Oiticica
o dia-dia experimentalizado
não exclui
que é vida. Hélio Oiticica
Flávia Cera é doutoranda em Teoria Literária na UFSC.
O desenho que abriga este blog é de Christiano Balz, colorido e tratado digitalmente.
culturaebarbarie.org
Visito:
Blogs:
ART Now...!
bebop tango
Brasília, eu vi
Cinema e outras artes
Drops da Fal
Espantalho
Linkillo
modo de usar & co.
Notícias de três linhas
O Biscoito Fino e a Massa
objeto sim objeto não
O blog do Guaciara
O Descurvo
Na prática a teoria é outra
Paulo da Luz Moreira
Revistas:
CiberLetras
Confluenze
Confraria do Vento
ramona
Rascunho
Terceira Margem
Virtuália
Zunai


Opa! A indicação é quentíssima e ainda mais o comentário que v. apresenta. E especialmente porque nos aponta que, se nos debatermos como peixinhos em um pequeno aquário na busca por textos "pós-autonômicos" estaremos subescrevendo um método leitura absolutamente autonômico. A questão é, sem dúvida o como ler, o gesto da leitura, que descortina inclusive os gestos de montagem que o sujeito escrevente utiliza em seus textos, que traz uma potência inaudita à literatura, e não somente a ela. O sopro que o "como se lê" traz a esses peixinhos, nem um aquário de mil metros é capaz de comportar.
achei lindo seu blog
Diego: gostei dos peixinhos!! É isso mesmo o mar é muito grande para nos debatermos autonomicamente.
Victinho: que bom que você gostou! Espero tê-lo sempre por aqui. Adorei sua definição de mundo-abrigo como dispersão e confluência. É isso mesmo. Obrigada!