Mundo-abrigo implica num tipo de experiência em vários níveis e a relação-conduta de cada indivíduo com ela tem importância fundamental. Para chegar ao MUNDO-ABRIGO não é só preciso abandonar a vontade mesquinha de possuir fetichistamente objetos deste mesmo desejo fetichista (isso é passo-implícito já não mais problemas ou dilema moral como antes) de propriedade (como se fossem substitutivos para uma 'solução' no MUNDO existencialmente vivido como produção versus morte): é mais e mais do que isso é sentir-se livre (sem 'condições ideais') para assumir o experimental no comportamento (relações com o MUNDO). Hélio Oiticica.
Clementina era uma menina que gostava de dividir tudo. Seus pais a educaram numa rigidez socialista. Ainda no ventre da mãe, Clementina ouvia os textos de Fourier. A primeira palavra que pronunciou com exatidão foi falanstério. Era a estrela das reuniões meio Pink e Cérebro que seus pais faziam quinzenalmente nas quais sonhavam em viver em grandes fazendas-falanstérios com uma justa divisão do trabalho. Na escola, Clementina pregava por horas, como uma mini pastora, o discurso da divisão do material escolar. "Você tem lápis cor de rosa? Não? Então dividimos esse ao meio. Você fica com esta parte e eu com aquela". "Você esqueceu o casaco? Pega essa manga aqui e usa, eu fico com a outra". "Você gosta do cabelo que está na minha cabeça? Vamos achar uma tesoura e divido com você." (os pronomes possessivos eram proibidos). Clementina fazia isso com tudo: caneta, borracha, meia, tênis, respostas das provas, pontos que sobravam na nota, visão, audição, comida. Onde quer que houvesse uma reclamação de falta, Clementina estava lá para resolver, tinha levado sua educação socialista às últimas conseqüências. O problema aconteceu quando Clementina começou a ser muito solicitada. Para dar conta, ela resolveu se dividir. Pensou se usaria uma faca ou tesoura. Pensou se cortava ao meio na horizontal ou na vertical. Decidiu que um estilo meio Saci-Pererê cairia melhor. E andaram assim por um bom tempo. Os pais, preocupados, levaram-nas ao médico. Enquadramento: dupla personalidade. E a vida seguiu normalmente. Clementinas, mesmo assim, não davam conta de dividirem tantas coisas e estarem presente nos lugares. Cortaram-se, então, em pedaços menores, uns trezentos e quatro mais ou menos, e continuaram a dividir pelo mundo a fora. Foram chamadas para dar palestras nos Estados Unidos. Passaram por Colorado para falar aos alunos de Columbine sobre solidariedade e amor ao próximo. Depois partiram para Blacksburg, para falar aos alunos da Universidade Técnica de Virgínia sobre armas de fogo. Estavam escrevendo um livro sobre como a divisão mudaria o mundo. As propostas de traduções eram maiores que as do Paulo Coelho. Era sucesso garantido. As trezentas e quatro Clementinas ganharam uma cadeira na ONU. Andavam ao lado de pessoas como Nelson Mandela. Mas, um belo dia, em uma reunião importantíssima do Conselho de Paz da ONU, setenta e cinco Clementinas sumiram. E, nos dias seguintes, apresentaram um comportamento diferente. Em uma grande passeata no Brasil profundo difundindo a proposta da divisão, chega aos ouvidos das Clementinas que os seguranças suspeitavam de uma emboscada para exatamente 229 Clementinas. Mas essas Clementinas acreditavam na paz como Gandhi e, como Jesus, não acreditaram na traição, prosseguiram. Vinte metros na frente, um tiroteio de bolas de gude acertam as 229 Clementinas. Todas morreram. As outras setenta e cinco vivem em um enorme latifúndio no Mato Grosso, o nome da fazenda é Falamsérium - in memoriam. Elas são procuradas pela Polícia Federal acusadas de trabalho escravo. Para fugir da perseguição, alugaram a propriedade para o Bispo sediar seu reality show.


Será que a capacidade reprodutiva das 75 Clementinas que sobraram é a mesma da Clementina do começo. Se for assim, imagina o que não poderia acontecer se uma filhinha das 75 Clementinas latifundiárias chegar na adolescência, se revoltasse e recomeçasse a divisão?
Flávia, fico muuuito feliz de ver seu texto no mundo-abrigo. Espero ansioso por mais outros e outros!
A julgar pelo belíssimo primeiro post, o blog será tudo o que a inteligência, sensibilidade e erudição da Flávia nos autorizam a esperar. Já recomendei no Twitter. Já assinei o feed. Dentro de uns minutos, já estará no blogroll do Biscoito. Vida longa ao Mundo-Abrigo! Um afetuoso abraço, Flávia.
Flávia,
Parabéns pelo blog - vou coloca-lo lá na minha lista. Achei esse primeiro post lindo.
abraços fraternais.
Diego: ah, sim. essa história tem a sua centelha de salvação nos genes das 229 Clementinas. Caso contrário, estaríamos perdidos.
Idelber: querido, que honra a sua presença aqui. Saiba que este blog, como tantos outros, também é feito de Biscoito. Muito obrigada pelas palavras, tentarei me manter a altura.
Hugo: que bom que você gostou do post. Fico muito feliz.
Que sorte a minha ganhar esses presentes no primeiro post! Obrigada.
Flávia,
Seu post é o melhor filme que eu vi esse ano!
E isso é um elogio...
Flávia, que bom que você tenha criado o seu blog. Só hoje pude me conectar e receito ter chegado com um pouco de atraso para te dizer que já tens um outro leitor assíduo. Um grane abraço!
Maurício: obrigada pela leitura e pelo elogio. volte sempre!
D'Avila: é um privilégio tê-lo como leitor. obrigada.
Flávia, acessei seu blog pela referência do Nodari no culturaebarbarie e fico muito feliz de conhecer o Mundo-Abrigo, onde nascem e morrem (infelizmente) Clementinas.
A dor do "parto" dessa criação vale muito a pena.
Sucesso e um abraço pra você e pro Nodari.
Elise.
Elise: seja bem-vinda. Obrigada pela leitura. Que bom que você gostou do mundo-abrigo, ele estará sempre de portas abertas. Volte sempre. Um abraço.