Sobre marginais e heróis

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É curioso ver o tratamento dado à autodenominada literatura marginal de Ferréz, Sérgio Vaz, Paulo Lins, e outros muitos escritores da periferia. Como esses autores abordam, de modo nada discreto, a violência dos grandes centros do Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo: Cidade de Deus e Capão Pecado, por exemplo) o assunto se torna mais espinhoso e mais urgente. E a crítica, evidentemente, divide-se.
Ficaremos, aqui, com dois exemplos: por um lado, a acidez crítica de Flora Sussekind que descarta (salva apenas o que denomina de "valor documental"), sem a menor cerimônia, um livro como Capão Pecado e chama de livro-roteiro Cidade de Deus e, por outro lado temos com João Cezar de Castro Rocha uma esperança sem reservas depositada no que ele denominou de Dialética da Marginalidade.
A análise de Flora no texto Desterritorialização e Forma Literária se amplia para outros autores, romances e poemas. Embora deixe claro que irá abordar mais detidamente "alguns exemplos da produção poética brasileira e não as letras de rap ou funk, com seu registro do cotidiano violento e excludente nas periferias das grandes cidades do país, ou da prosa recente, na qual se multiplicam os testemunhos diretos, as histórias de vida, os percursos e contrastes urbanos", ela dedica duas ou três páginas do ensaio para falar de Ferréz, Paulo Lins e Drauzio Varela (Estação Carandiru). A análise feita de Sebastião Uchôa Leite, Duda Medeiros, Ítalo Moriconi, Manoel de Oliveira, Ismail Xavier, Angela Melim entre tantos outros, é feita com a conhecida erudição da autora. No entanto, ao abordar os textos de Ferréz, Paulo Lins e Drauzio Varella, Flora é menos rigorosa ou quase displicente (não sei se esta seria a palavra mais adequada). Além de não citar nenhum dos três textos, prática exaustiva com os outros, a autora coloca uma série de restrições às fotografias utilizadas na primeira edição de Capão Pecado e no livro Estação Carandiru. O que implicaria, grosso modo, para autora, a falta de visão crítica da experiência citadina por parte dos escritores, uma vez que a utilização dessas imagens corroborariam com o sistema vigente. "Mas o que se observa é que nessa aparente captura documental do referente urbano, para aproximá-lo do leitor, com freqüência, quando se observam essas imagens, verifica-se que operam com clichês, com reimpressões de um repertório previsível de figuras e situações citadinas, que, ao contrário do que se afigura à primeira vista nessas obras, acentuam (ao invés de criticá-las) as distinções sociais já demarcadas, com precisão, no cotidiano". Flora aponta também que a utilização dessas imagens causa uma "imobilização da perspectiva histórica". Resumindo: Flora percebe nas imagens apresentadas nos livros uma fragilidade, em outras palavras, as imagens afirmariam justamente aquilo que a literatura marginal, especialmente no caso de Ferréz, tenta combater. Na minha humilde opinião, ao contrário de Flora, penso que podemos perceber justamente no uso dessas imagens um raio de esperança para a literatura marginal. Ora, não está na fotografia a possibilidade de captar todos esses clichês previsíveis e repetidos com freqüência, mas que, entretanto, não são percebidos? A aproximação que a fotografia nos exige não vem da reprodução do que acontece de fato, mas sim do que poderia ter acontecido, das possibilidades que ela nos apresenta (Giorgio Agamben tem um ensaio comovente, no qual me apóio para fazer esta afirmação, no seu livro Profanações publicado pela Boitempo em 2007; ele aborda justamente o caráter histórico/messiânico de qualquer fotografia). Enfim, Flora abandona esta literatura ao uso corrente do termo marginal, ela a deixa de lado em nome, como se pode ver no ensaio, de uma literatura mais "inteligente", "pensada", "menos evidente".
João Cézar de Castro Rocha é mais otimista. Em 2004, publicou, no Caderno Mais!, Dialética da Marginalidade (foi publicado em inglês aqui), texto que se contrapunha à leitura de Roberto Schwarz de Cidade de Deus (publicado no também no Caderno Mais! em 1997 e incluído em Seqüências Brasileiras, Cia das Letras, em 1999). O texto de Schwarz inscrevia, ainda, Cidade de Deus ao "negaceio malandro entre ordem e desordem" apresentado por Antonio Candido em Dialética da Malandragem, ao passo que o texto de Rocha apontava para a explicitação das diferenças e para o aprofundamento do fosso social que a literatura marginal permitiria superando parcialmente a proposta de Candido. Ou seja, já não haveria mais conciliação possível, o que a literatura marginal deixaria claro é que "conflito aberto não pode mais ser mascarado sob a aparência do convívio carnavalizante". A leitura de Rocha, muito pertinente, tocava em pontos cruciais e apontava para a exigência de novas categorias de análise para dar conta deste "acontecimento". Em 2007, a propósito da Semana de Arte Moderna da Periferia que contava, inclusive, com um manifesto parodiando os modernistas, Rocha concedeu uma entrevista à Revista Época, e confessou suas esperanças em relação ao movimento. Ele dizia que este "fenômeno", o da dialética da marginalidade, poderia trazer melhoria políticas consideráveis ao Brasil, e que a existência desta literatura mostrava que nós, Brasil, realmente somos uma democracia sólida. "Em lugar de um discurso onipresente, totalizante, do tradicional discurso da esquerda, o que a Dialética da Marginalidade deseja é adquirir sua própria voz, é que a relação com seu vizinho melhore, que seu bairro tenha água encanada, eletricidade, educação, que as crianças tenham acesso à internet", diz Rocha na entrevista. Ao contrário de Flora, o crítico nos diz que os marginais podem ser heróis. Porém, a fala de Rocha, embora seja muito mais pertinente que a de Flora em termos de análise, dá a impressão do apagamento de um possível caráter político para exaltar seu valor social. Não creio que este seja o objetivo de Ferréz, Sérgio Vaz, Paulo Lins, etc. Se for também, pouco importa.
O que penso é que a literatura marginal se impõe na medida em que (sim!) reconstrói uma perspectiva histórica (basta ler os manifestos, Terrorismo Literário, por exemplo) e cria para si, em contato com o mundo, uma política que ultrapassa justamente às medidas sociais de água, internet etc.  Essa perspectiva quase ingênua de Rocha atribui à literatura um caráter salvacionista de inclusão que, pelo menos depois de Homo Sacer, tornou-se inaceitável. E, outra, não é a literatura marginal que tem que reivindicar os direitos básicos do cidadão. Note-se, por exemplo, neste diálogo entre Ferréz e Mano Brown: "o que você faz pela favela?" (pergunta Ferréz ironizando a "mídia"), Mano Brown reponde: "um tipo de pergunta dessa você tem que responder com outra pergunta. 'Eu te pedi voto? Eu pedi voto para alguém? Eu sou cantor de rap, não sou...' (...) É isso que eu acho errado. O rap não é obrigado a fazer as coisas".
Voltar até a década de 1960 e ver o que Hélio Oiticica pretendia com a sua bandeira "Seja marginal, seja herói" (nota de curiosidade: o corpo estampado na bandeira era de um ladrão que, ao perceber que a polícia estava perto, se jogou de uma ponte - e não de Cara de Cavalo) nos dá boas pistas. Ao elaborar a imagem-poema-homenagem a Cara de Cavalo, na mesma época em que faz a bandeira, Oiticica dizia que se tratava de um momento mais ético do que estético, e que se tratava, também, da busca desesperada da felicidade. Essa bandeira é reivindicada, não por acaso, por Ferréz. E é essa reivindicação que nos permite dizer: atribuir um caráter social à literatura marginal ou rejeitá-la por um caráter estético (as imagens) é limitar as suas possibilidades, porque seu tema é a vida e a felicidade - porque ela demanda uma nova ética -, porque os autores pedem o impossível e não água encanada.

6 Comentários

Uma intuição de quem acompanha muito de longe a discussão: ainda acho que um cara como o Mano Brown se relaciona de modo muito mais extremo com a vida mesmo - poderia dizer: com o mercado, com o circuito editoral, com a imprensa.... Não li nenhum dos livros citados, vi os filmes e achei diversão pura - o argumento de que Cidade de Deus não passa de um roteiro quer me parecer (de longe, repito) muito interessante, na pior conotação que podemos dar para a palavra "roteiro" - e também conheço pouco os autores e não me atrai talvez justamente por conta da imagem de bom-comportamento que Hélio nunca teve. Aliás, o mesmo diretor que filma Cidade de Deus, dois anos depois, declara para a Folha de S. Paulo que seu deputado é o Alckmin. A meu ver, a rigor, a diferença fundamental entre Mano Brown e Paulo Lins, por exemplo, é a de que Brown leva a margem para o centro (estamos com Hélio, não? - a favela no Museu) e Lins leva o centro para a margem. Isto faz sentido, será?

Flávia,

Belíssimo texto. Creio que a palavra-chave - mais do que isso, o norteador - para se compreender a relação periferia-centro nas metropóles brasileiras é heterotopia, esse fenômeno maluco da contemporaneidade que nos cerca - e nos sufoca -, fazendo com que o núcleo da São Paulo de Mano Brown e Ferréz - e minha também - esteja mais conectada ao centro de Paris ou New York do que a sua própria periferia. Não conheço tão bem a periferia de outras grandes cidades brasileiras, mas a de São Paulo sim - assim como conheço os bairros chiques e adjacências - e posso afirmar que há um curioso e perturbador fenômeno onde o centro enxerga a periferia de modo desfocado e vice-versa.

Para além de qualquer análise literária mais aprofundada é necessário ter em mente que esse desfoque causado pela bizarra desintegração social pós-moderna - maximizada pela nossa santa desigualdade de todo dia - se reflete tanto na literatura - do plebeu Ferréz escrevendo e do burguês Dr. Drauzio - quanto na crítica literária que se tenta fazer sobre ela. É como uma casa de espelhos onde um espelho distorcido reflete sobre o outro. Desse modo, não se pode reivindicar mesmo um caráter social para essa arte, mais do que isso, uma consciência social e histórica para ela - que eu acredito que a arte marginal tem, mas ao seu modo, em suma, fragmentada e distorcida -, mas assumi-la como um documento e um retrato de seu tempo, sem restrições políticas ou estéticas.

oi Flávia. caso não siabas, e talvez te interesse, o sesc tem um circuito chamado via poesia e nesta estapa quem vai circular em santa catarina é o pessoal da cooperifa. veja no sesc em floripa que eles devem passar por aí.

Victor: também acho que o Mano Brown se relaciona de modo intenso com a vida.
Mas se partirmos desses pontos que você aponta (mercado editorial, imprensa)
o Ferréz, acho, está bem mais próximo. O Mano Brown ainda se priva deste
contato "mundano". Quanto ao roteiro, concordo. O que eu acho mais curioso
é que a Flora, como boa leitora de Deleuze, aponta o livro-roteiro como uma
categoria de descarte, um contra-senso total.
O mau comportamento do HO era mais fácil de identificar. Hoje o que Ferréz, Mano Brown, Sérgio Vazpoderiam fazer para chocar? É difícil de pensar. Mas imagina: Sérgio Vaz aglomera em um boteco de SP um número gigantesco de pessoas que lêem, escrevem, etc.
Se isso acontecesse na década de 1960, seria um fenômeno. Bom, o mimeógrafo, que, teoricamente, "abala" bem menos a estrutura, fez história como ação não institucional.
Concordo com você na leitura de Lins e Brown, mas acho que Oiticica conseguiu um espaço tão indefinido de levar a favela para o museu, levar o museu para a favela e sair do museu para o mundo que renovou o conceito de marginal, de arte marginal. Abraços

Hugo: você está super certo com a heterotopia. Eles estão muito mais em contato com esses centros (veja-se pelas traduções dos livros do Ferréz ou a atuação do AfroReggae nas escolas de Londres, por exemplo). A periferia, arriscaria dizer, ainda é vista com um certo exotismo. Uma entrevista que Heloisa Buarque de Holanda fez com Lins, para mim, explica bem isso. Diz ela na entrevista, a propósito do encantamento de Schwarz com Cidade de Deus, que “Roberto [Schwarz] estava esperando que esse livro [Cidade de Deus] aparecesse há muito tempo. Ele organizou um livro importante sobre o pobre na literatura brasileira. Mas ainda eram reflexões sobre a representação do pobre na literatura. Imagina quando ele descobre um pobre com voz literária?". Complicado, né? E são essas "vozes" que ecoam na crítica literária, é justamente uma tentativa hipócrita de minimizar a "santa desigualdade de todo dia". E, além disso, existe uma visão tão colonizadora que quer dizer para essa "literatura marginal" o que fazer para conseguir mudar o rumo das coisas. É verdade, toda construção histórica que podemos perceber na arte marginal é fragmentada, só poderia ser assim, ela vem preenchendo e contradizendo a História. Por isso, também acho que recebê-la de braços abertos como um Cristo ressuscitado que vem livrar nossa consciência do mal ou como uma literatura mal acabada aniquila todas as possibilidades de montar outra conversa, de estabelecer novos laços e aborta qualquer possibilidade de encará-la como um Acontecimento. Abraços.

Cristiano: Soube que eles passaram aqui em Floripa, mas bem no dia e na hora eu tinha que dar aula. Uma pena. Obrigada pela dica e volte sempre. Abraços

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