Essa é a história de Jurema, uma moça amarela. Jurema era triste. Ninguém sabia muito bem a razão. Talvez porque tivesse um metro trinta e seis centímetros e dois milímetros medidos com duas fitas métricas inspecionadas e aprovadas segundo as normas do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial. Seus cabelos, sem volume, eram também amarelos. Os olhos, dois pontinho pretos. Seu corpo, redondinho. Tinha vinte e sete centímetros e quatro milímetros de pernas. Riam muito da Jurema na escola. Chamavam-na das coisas mais carinhosas que uma criança no auge do seu período insano e autoritário pode dizer: bola, rolha, baleia, saco de areia. Um dia, porém, chamaram-na de grão de milho. Amarela! Perna curta! Jurema ficava cada vez mais triste. Na escola seu rendimento caiu vertiginosamente. Ia para aula e não dava um pio. Jurema não tinha nem aquela amiguinha, alma solidária, que estende a mão para todos. Ninguém, ninguém. Era Jurema contra o mundo. Ela fazia os trabalhos em grupo sozinha. Provas em dupla só com o seu alter-ego: uma menina igualzinha a ela, só que verde como uma ervilha. Seus pais não se preocupavam muito. Ela quase não falava em casa. Um dia ela resolveu ir para o alto de um prédio. Pensou em se jogar. O mundo era muito forte para Jurema lutar contra ele. Lá embaixo do prédio todos olhavam sem entender muita coisa. Como não a identificavam perfeitamente, olhavam e iam embora. Nessa passagem a pergunta recorrente era: "o que é aquele pontinho amarelo no alto do prédio?" Ah, sim, especulavam os passantes, é um grão de milho suicida. E assim nasceu a piada.
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MUNDO-ABRIGO é proposição
o dia-dia experimentalizado
não exclui
dirige-se ao
que é vida. Hélio Oiticica
o dia-dia experimentalizado
não exclui
que é vida. Hélio Oiticica
Flávia Cera é doutoranda em Teoria Literária na UFSC.
O desenho que abriga este blog é de Christiano Balz, colorido e tratado digitalmente.
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Amarela, é? E eu que pensava que ela era verde, gorducha e careca, atendesse por um codinome francês e tivesse cometido suicídio ao se atirar a um prato de sopa fervente... as infâncias são parecidas, masnunca iguais...
Maurício e eu que achava a história trágica. hahahaha. A sua é demais!!! Beijo.