Las mujeres argentinas

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Coisa bonita é andar na Argentina. Além de inúmeras manifestações, calientes em sua maioria, é visível o esforço de construção da memória do país. O mais lindo exemplo disso é o Salón Mujeres Argentinas na Casa Rosada: Eva Perón, Mães da Praça de Maio, Victoria Ocampo, Alicia Moreau de Justo, Mariquita Sánchez de Thompson, Cecilia Grierson, Lola Mora, Paloma Efron, Aimé Painé, Tita Merello, Alfonsina Storni, Juana Azurduy, todas juntas para lembrar que mulheres (ó) fizeram parte da história. Nesse salão Cristina recebe a imprensa e anuncia suas decisões entre as Mães da Praça de Maio e Evita com quem divide a cena. É assim que Cristina tenta reconstruir a história: com um gesto absolutamente político. Ela anuncia e faz viver permanentemente, com as fotografias, as mulheres que ajudaram a construir o país: "quería un lugar permanente para las mujeres; un lugar que nos hemos ganado, pero que todavía es muy resistido" (o discurso de inauguração está disponível aqui). De modo que, toda vez que Cristina falar naquele salão, falará junto com (e não por) as mulheres argentinas.

No Brasil as mulheres homenageadas "politicamente" (coloco entre aspas porque, na verdade, é sempre por atuações sociais) geralmente estão vinculadas a função materna (muito diferente, evidentemente, da situação das Mães da Praça de Maio). Ou trata-se da descoberta de uma mistura para nutrir melhor as crianças, ou da que toca uma Fundação para ajudar as crianças carentes. É evidente que não estou contra isso, pelo contrário, antes isso que nada. Mas meu argumento é o do reconhecimento político. Nunca esquecerei de um episódio com um taxista em Buenos Aires (estava acontecendo o translado do corpo de Perón nessa época, mas mesmo assim, não existe a possibilidade de viajar a Argentina e não ter algum acontecimento, esse dado poderia entrar na lista de impossíveis ao lado de: não tem como ganhar na mega-sena sem jogar). Ele me dizia que Eva era inesquecível, mas que Cristina, na época ainda primeira-dama, seria também, e que era ela quem tomava as decisões no país, dizia também que ela nunca poderia ser reduzida a "função" de esposa do presidente porque quando Néstor fosse, realmente, tomar uma decisão, era ela quem consultava. Isso é uma amostra do imaginário da população, pequena é claro, mas mostra que não existe estranhamento, tampouco confusões, na representatividade das mulheres. Vejamos por exemplo, no Brasil: o país é tão machista que consegue manter umas filiações muito loucas com argumentos políticos. Na Argentina, Cristina é anunciada, não raramente, como Cristina Fernández, e não como Cristina Kirchner; no Brasil, Marta, por exemplo, é, ainda, Suplicy, o que lhe garante carisma e reconhecimento. Desvencilhar-se do sobrenome do marido foi uma estratégia política de Cristina que não lhe garante, claro, uma desvinculação, mas por outro lado separa as coisas, o que é muito bom. Cristina será lembrada como Cristina. Marta será lembrada como Marta Suplicy. Não que isso seja um caso de emergência, tem uma série de fatores impressos na decisão de Marta, mas isso reforça, digamos, a mulher na sombra do homem. Ou ainda, temos os banners a favor da candidatura de Dilma Rousseff: Dilma 2010 é Lula outra vez. Não é Lula outra vez, é Dilma. Pode ser: continuaremos o trabalho começado por Lula, mas não é o Lula outra vez. Ou seja, temos sempre a reativação do nome do pai, da filiação, da herança, da fundação. Sem esse enraizamento a pessoa não representa nada.

Para terminar, no Brasil, será que nos falta uma presidenta? Eu, particularmente, acho que sim. Pelo menos para alterar esse imaginário assombroso em relação às mulheres. Mas imagino que vai ser osso duro de roer. Imagino também que irão masculinizar o quanto puderem (basta lembrar, por exemplo, dos boatos sobre Hillary que diziam que usava roupas "masculinas" para não dar a impressão de que apelava (!!!!) para a questão de gênero) para justificar uma posição de comando. Mas para chegarmos lá, teremos que suportar o bombardeio indecente da medição de "colhões". Ora, ora, o órgão mais sensível do homem para justificar o poder. Nada mais contraditório, porém nada mais apropriado para exemplificar a sociedade estúpida em que vivemos.