Semana passada assisti uma conferência sobre literatura caribenha. O falante, Kristian Van Haesendonck, pesquisador do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa, apresentou uma parte da sua pesquisa, uma série de autores e duas "vertentes" para ler a literatura caribenha. Uma delas opta por pensar uma concepção "monstruosa" de construção nacional pós-moderna, e a outra aponta para a invisibilidade. Ainda estou em busca dos livros, eu, brasileira, confesso. Mas, mesmo assim, quando Kristian acabou de falar, nós, (os ouvintes e ele), começamos a discutir as tais possibilidades. Voltei para casa perplexa porque achei uma coisa impressionante a defesa do monstro. Não nego minha quedinha surrealista-dissidente-acefálica-batailleana, mas venho pensando recorrentemente que essa é uma categoria um pouco perigosa. Sendo assim, tendo a crer que a estratégia da invisibilidade seja mais pertinente (outro dia me explicarei quanto a isso). Deixo registrado: saí derrotada do debate porque a galera simpolga geral com os monstrinhos. Então, vamos lá: porque não defendo essa história de monstro e hibridismo antropomórfico na literatura e na vida. A monstruosidade, embora tenha um caráter de mostração e exposição, etimologicamente falando, e ambas tenham importância na invisibilidade, evoca algo que causa estranhamento e horror. Repulsa e atração. Sobre ela não existe lei. Ok, pode-se argumentar que essa é a grande sacada do monstro. Mas eu não acho não. Basta lembrar que "o Estado de Exceção em que vivemos é a regra". O monstro é uma vida materializável que, nessas condições, só podemos denominar como sacra, Homo Sacer (aquele que pode ser morto por qualquer um sem que esse ato seja considerado crime). Já li e ouvi algumas vezes estudiosos tratarem o Homo Sacer como uma figura heróica porque monstruosa. O que é, além de ser um erro crasso de leitura do livro homônimo, uma absoluta falta de responsabilidade. Bom, pode ser também que argumentem que o monstro não tem identidade, que ele não tem forma pré-estabelecida, que é informe, constituído de fragmentos, e todas as categorias do "presente" em voga. Não me convencerão. Não tem jeito. É só olhar o que aconteceu com Cara de Cavalo: um "monstro". Ou não? Os monstros literários (por exemplo, os defendidos na ocasião eram os que misturavam as línguas: inglês com espanhol) são facilmente apreendidos, absorvidos e domesticados. Ok, de novo, podem dizer que, assim, ele deixou de ser um monstro. Mas tudo pode deixar de ser. O monstro pode ser agrupado e identificado, logo, capturado. E, tem mais, eu já assisti dublado e legendado, nas madrugadas eternas da vida, um filme que, sei lá, não é uma obra-prima nem aqui nem na China, chamado Spanglish. O que me leva a pensar: que monstro é esse absolutamente institucionalizado numa língua? Ok, que ela seja uma língua hibrida, menor (no sentido de Deleuze e Guattari), e que não seja reconhecida oficialmente. Mas, se bobear, até George Bush já sabe falar. Além disso, penso que o discurso do monstro nos leva num pulinho para barbáries irremediáveis. Ainda mais se vem no pacote do pseudo-discurso de diferença. Ou seja, aquela estúpida receita gozoza de "aceitar a diferença" que é juntar tudo num bolo, num cercadinho, de preferência, e ficar admirando e fingindo a convivência. Bom, temos aí, como exemplos cabais, hoje, ainda (!), a homofobia, o racismo, e agora a pouco, a escravidão e Auschwitz. E se Auschwitz nos ensinou alguma coisa foi que o homem jamais será reduzido à animalidade, e que ele não deve ser rotulado de monstro. Mas o que me incomoda mesmo nessa história de aclamar o monstro é que todo mundo curte falar, mas geralmente desconhecem como o tratamento dado a um monstro (na verdade, foi Giorgito quem me ensinou). A universidade é cheia disso. As pessoas acham que freqüentando lugares "cults", ouvindo músicas "alternativas", assistindo Godard e cia e abominando a TV, são monstros, são diferentes. Hipocrisia pura. Queria ver quando fossem apontados como tal e abrisse um clarão em volta deles o que iriam fazer. O monstro é uma fabulação perigosa, uma exemplaridade para ser colocada, como novo deus, num altar. Por isso acho importante seguir a lição de Agamben na ponta do lápis: se você pensa a vida, você está disputando um objeto com o poder, então, cara, tem que prestar atenção! Caso contrário, ficaremos discutindo no vazio, relativizando infinitamente, e perpetuando a catástrofe.
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que é vida. Hélio Oiticica
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Flávia Cera é doutoranda em Teoria Literária na UFSC.
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