
Hoje era dia de aula. Daí eu estava lá como espectadora do inteligentíssimo, imprescindível, inspiradíssimo, Raúl Antelo. Ele falava do conceito de pulsão de Lacan, de como isso implicava a compreensão da vida como nada. E que, desse modo, passávamos a vida arrumando maneiras, nos apoiando em coisas, para suportá-la. E, last but not least, explicou como isso nos afastava da animalidade e tals. Então, seguindo a minha empreitada contra a designação de monstro, e incluindo minha aversão a aproximação do humano à condição animal, escrevo.
Estava num evento em que um dos participantes dizia, a partir de João Gilberto Noll (que em um dos seus livros, acho que Berkeley em Bellagio se não for esse, é Lorde, diz que queria ser nada), que o homem se aproxima da animalidade na sua condição de ser qualquer, de vida que não é nada. Enfim, de vida que não tem nada a perder. Alguma coisa próxima do pós-humano de Kojève, mas não tanto. Digo isso porque, mais uma vez, presencio uma fala em que o "falador" não se sente implicado. Não consigo entender muito bem a maneira com que as pessoas conseguem apartar a humanidade e, assim, aproximarem uma fração da animalidade e outra da continuidade do humano. E, claro, mais uma vez, a galera simpolga. Tinha gente até dizendo que o futuro do humano seria não-biológico. Não consegui entender, sorry.
Os dois livros mencionados de Noll, excelentes, diga-se de passagem, são "relatos de viajante", diferentes, evidentemente, mas trata-se de um deslocamento geográfico. Um homem que sai do seu país (e aí temos o estranhamento, no mínimo, da língua), um homem desapontado, como é recorrente em Noll, que, ao contrário dos relatos convencionais de viagem, não tem a menor esperança de conhecer algo novo, não sai em busca do maravilhoso, ele tem apenas vontade de não ser nada e não tem nada a perder. Como podemos constatar em Lorde "Indiferente compor novos elementos de cidadania um sentido ou não. Eu era o clássico indivíduo que havia muito, não tinha nada a perder". Isso é bem diferente, por exemplo, de alguém que "não tem nada a perder" socialmente. Basta lembrar que assim foram tratados (como quem não tem nada a perder) os moradores do Capão Redondo, no episódio recente de reintegração de posse. Certo, depois de passar pelo livro de Noll o conferencista enveredou para "os que não têm nada a perder", porque já estão fodidos mesmo, aproximando-os da animalidade. Reitero, porque isso guia meu raciocínio, que o homem mesmo reduzido à condição animal, nunca deixará de ser humano (os judeus eram chamados de porcos pela SS e, apesar de tudo, não eram porcos, eram, sim, humanos).
Pois bem, voltando ao meu argumento de se sentir implicado. Se eu levanto minha mão para fazer-lhe uma pergunta e o chamo de cavalo, porque isso é animalidade, ele xingaria minha mãe, meu pai e rogaria uma praga até a minha décima quinta geração. Mas tudo bem se eu dissesse que a menina que tinha sido assassinada na noite anterior na Villa 31, expressava uma animalidade (e, de fato, rolou essa indecência). Não consigo entender como é não pensar no outro, ou ainda, como é só pensar radicalmente no outro e não ter um compromisso ético de ver-se vendo. Esse, tristemente, é o estado das coisas.

