Retorno

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Hoje reiniciei minhas atividades docentes. (Confesso que escrevo a linha anterior com uma quase-vergonha: "atividades docentes". Mas enfim, é basicamente isso). Tenho uma missão praticamente irrealizável: durante o meu doutorado divido as disciplinas de graduação com o professor Raúl Antelo. Além de ser uma honra, é uma tarefa árdua, porque manter o nível de Raúl é uma coisa que demanda um esforço e, inegavelmente, uma paixão que só foram despertas em mim na realização da minha incrível tarefa. Mas eu agüento. Ainda mais depois de hoje. Vou para a Universidade capotando de sono, depois de uma noite com uma tosse dos infernos e, claro, acompanhada do meu pessimismo congênito.  Chego na sala e tenho quatro alunos me esperando. Expliquei quem era aquela pessoa que iria tagarelar por alguns minutos e pedi desculpas porque me sentia muito indisposta e não poderia dar as três horas de aula. Entram mais uns 6 alunos. Entre um cof cof e outro falei de Aleijadinho e Barroco. Eles prestavam atenção no que eu dizia. Coisa engraçada é ver os outros anotando o que você diz. As vezes me dá um desespero, uma vontade de correr no pobre anjo e dizer, não faça isso. Mas depois penso que pode ser só uma estratégia para abaixar a cabeça. Como a sala é pequena, dificilmente os alunos fixam o seu olhar no meu. É impressionante como todos desviam. E é claro que no auge da minha paranóia, imagino que eles devem estar me comparando com o Raúl, ou me xingando das maiores baixezas intelectuais, ou reparando no meu penteado, ou nos meus dentes, ou nos meus olhos, ou achando que o que falo é a mais pura e solene das mentiras, enfim que sou uma farsa. E eu coço o nariz recorrentemente. Bastarão poucas aulas para eles reconhecerem meu tique nervoso. Prossigo, porque quando entro em sala me baixa um santo.  A primeira aula que eu dei, juro, achei que eu nunca mais pararia de falar na minha vida. Cheguei em casa e vomitei na mais crua conjugação de antropofagia e antropoemia. Mas, esse santo que baixava me abandonava ainda no caminho de volta pra casa. E eu achava sempre que era uma bosta mesmo e que estava tudo perdido. Então, hoje, com meus jovens a postos senti uma coisa que nunca tinha sentido: meu santo está de pé aqui ainda. Pelo menos até a hora desse post. Mesmo tossindo como uma porca velha eu perguntei se os adoráveis anjinhos tinham dúvidas: e tinham. Um menino não teve a menor cerimônia e levou o êxtase de Santa Teresa até Sade, Bataille, etc, exigindo de mim um raciocínio mais rápido do que eu tinha preparado para oferecer, dada minha experiência com a turma do semestre anterior (conto esse drama outro dia).  Foi renovador. Foi um "êxtase". Essa aula me fez voltar a acreditar que estar em sala é um exercício maluco de intensidades e, surpreendentemente, ela me trouxe um fiozinho de esperança. Empreenderei todos os meus esforços para que isso dure, porque esses alunos nem imaginam como eles definem o meu amanhã. Viva viva! \o/

3 Comentários

Identifiquei-me muito com o texto. Vejo que somos da tribo dos que vivem intensamente a tal da "atividade docente".

Há a tribo rival, dos que não tão nem aí, mas, super profissionais, ainda assim dão aula bem. Nutro um misto de inveja (por não ficarem nervosos) e desprezo (por não usufruirem do prazer intenso que é dar aula com o cérebro e o coração) em relação a esses outros selvagens.

Mas prefiro os perigos do tobogã da docência com envolvimento!

Flávia,

uma das coisas mais bonitas que já ouvi foi "dar aula não é uma questão de autoridade, mas de intensidade". Eu, que ainda não dei aula, mesmo assim, sinto essa intensidade, que também é questão de contágio.

flavinha, novidade boa esse blog. coisa mais linda.
boa sorte em mais um semestre. amo você e sou só torcida sempre.
(vamos nos encontrar hein. cheguei ontem)