Não é de hoje que a filosofia insiste na impossibilidade de dizer eu. Também não é nenhuma surpresa saber que o autor é um fantasma, ou que o autor morreu. Mas é complicado, digamos, no mundo egóico acadêmico, não chamar para si a autoria e, mais ainda, não dizer eu. Ensinando, então, é praticamente um evento impossível. Portanto, tudo parece uma mera masturbação intelectual. Mas não é não. Emanule Coccia em La trasparenza delle immagini. Averroè e l'averroismo, creio eu, é quem melhor explicita essa questão. Com o percurso que começa em Averroes, passando por toda tradição averroísta, o filósofo mostra como o pensamento (aí implícito o eu) é possibilidade. E como o ato de ensinar deve atuar dessa maneira, abrindo as tais possibilidades. Porque o pensamento pode ser transmitido e ensinado ele é desapropriado do sujeito e pode ser entendido como uma experiência de uma possibilidade. Bom, para um projeto de professora que sou, ler isto me fez muito bem. Compartilho com vocês:
A morte do sujeito não comporta o fim do pensamento, do mesmo modo que o ensino não se refere ao seu início: isso se refere menos ao ser ou ao não ser do pensamento do que ao modo de sua existência. Quando o sujeito morre, um saber se transforma de algo atual em algo puramente possível; a morte produz uma mudança modal no ser mesmo dos conhecimentos e dos pensamentos. Do mesmo modo, todo ensino transforma o que é puramente atual no pensamento (na mente do mestre) em algo que é possível pensar. Nisto radica precisamente a grandeza de todo mestre: não se trata de multiplicar e reproduzir um pensamento já atual, mas sim de impor uma troca precisa de modalidade ao saber que possui. Para ensinar algo é necessário constituir um pensamento como algo que pode ser pensado. Deve transformar-se o que existe em nós como pura atualidade (presente) em algo que é possível aprender (em um futuro indefinido). Daí o difícil de ensinar: restituir possibilidade ao pensamento, obrigar o saber a mudar de estado, a transformar-se em uma possibilidade que não nos pertença simplesmete, mas sim que exista independentemente (e como possibilidade de ser pensado) da nossa existência. Nesse sentido, ensinar - e escrever, posto que toda escritura coincide com esse movimento - significa morrer para os próprios pensamentos.Neste movimento particular, morte do sujeito e ensino chegam coincidir, paradoxalmente.
A morte do sujeito não comporta o fim do pensamento, do mesmo modo que o ensino não se refere ao seu início: isso se refere menos ao ser ou ao não ser do pensamento do que ao modo de sua existência. Quando o sujeito morre, um saber se transforma de algo atual em algo puramente possível; a morte produz uma mudança modal no ser mesmo dos conhecimentos e dos pensamentos. Do mesmo modo, todo ensino transforma o que é puramente atual no pensamento (na mente do mestre) em algo que é possível pensar. Nisto radica precisamente a grandeza de todo mestre: não se trata de multiplicar e reproduzir um pensamento já atual, mas sim de impor uma troca precisa de modalidade ao saber que possui. Para ensinar algo é necessário constituir um pensamento como algo que pode ser pensado. Deve transformar-se o que existe em nós como pura atualidade (presente) em algo que é possível aprender (em um futuro indefinido). Daí o difícil de ensinar: restituir possibilidade ao pensamento, obrigar o saber a mudar de estado, a transformar-se em uma possibilidade que não nos pertença simplesmete, mas sim que exista independentemente (e como possibilidade de ser pensado) da nossa existência. Nesse sentido, ensinar - e escrever, posto que toda escritura coincide com esse movimento - significa morrer para os próprios pensamentos.Neste movimento particular, morte do sujeito e ensino chegam coincidir, paradoxalmente.

