Aeroportos

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Os aeroportos são lugares felizes e tristes. Tive que passar horas em um deles por um vacilo gigantesco meu, nem vou contar porque é muito patético! Fiquei tão brava com a merda da empresa aérea e, para ajudar, perdi meu livro. Mas tudo bem, mais um dia na cidade me fez um bem imenso. Como eu tinha muita coisa para fazer no domingo, fui obrigada a aceitar que não poderia fazê-lo e pronto. O que é raro de acontecer nessa vida de meu deus.
Então, voltando, sempre que vou ao aeroporto me sinto estranha. Dessa vez foi um pouco pior. Como um lugar de fronteira que se lança para o infinito do espaço, o aeroporto se apresenta para mim como um lugar indiscernível. É diferente das rodoviárias, por exemplo. Elas geralmente ficam dentro da cidade, ao passo que o aeroporto fica no limite. Você compartilha aquele espaço que não tem nada seu com pessoas que talvez nunca mais veja na vida. É claro que esse é o mundo todo dia. Mas acho que é diferente no aeroporto, lá dá tempo para pensar nisso. De lá você vai para outro lugar, de lá você volta para o seu lugar. Mas aquele lugar não representa nada, a não ser, a transitoriedade do momento. Enquanto você está ali, você está em suspensão. Entretanto, ainda dá tempo de tomar decisões incríveis: ficar na cidade, mudar de destino, não embarcar, etc. Fico imaginando como é trabalhar no aeroporto. Todo dia ir para esse limite. Ver olhos cabisbaixos, ver olhos radiantes, ou nem ver os olhos. Tem gente agarrada no seu laptop, outros com o fone pendurado nos ouvidos, outros com a cabeça atolada em algum livro, outros chorando baixinho. Deve ser muito louco. Eu não suportaria essa efemeridade do contato, eu acho. E acho também que piraria porque a minha imaginação se potencializaria infinitamente. Tenho certeza que ficaria pensando por horas e horas no que as pessoas fazem ali, para que lugar elas vão, se elas vão a trabalho, o que elas vão resolver, se elas deixam alguém querido, se elas vão ver alguém querido. Já faço isso sem trabalhar lá, imagina trabalhando. Sem contar o procedimento de tortura, não é? Você tem que chegar pelo menos uma hora antes do vôo, daí se tem despedidas, elas são insuportavelmente longas, tem gente que chora tanto que dói em mim; tem gente que ri tanto e desata a bater fotografias que não consigo entender. Ah, mas essa deve ser a utilidade da máquina: aliviar a tensão da despedida tentando encontrar o foco. Ao mesmo tempo em que os encontros são insuportavelmente breves: a porta se abre, a pessoa que chega sorri, as que esperam abrem os braços, elas se aproximam, se abraçam, e vão embora. Nem dá para curtir tanto a alegria alheia, uma pena.
Pensando bem, acho que viajar é triste e feliz. Ou a viagem é triste na ida e feliz na volta, ou vice-versa. Esse movimento, esse deslocamento sempre deixa alguma marca, mesmo que seja pequenininha. Pensando melhor ainda, acho que o que eu não consigo é suportar despedidas. Acho que é por isso que me sinto esquisita no aeroporto. Nunca consegui e faço o possível para evitar. Mas ainda me despeço, antes um beijo de tchau e uma olhadinha para trás para um breve aceno, que a definitiva caminhada para frente.