Política subterrânea

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Quando escrevemos uma tese, uma dissertação, qualquer coisa, sempre nos alertam para manter distância do objeto estudado. É claro que eu, pessoa intensa que sou, jamais conseguiria isso. Hélio Oiticica é uma das paixões da minha vida (uma porque tenho várias, Mosotta, Lacan, Agamben, são tantas e nem posso falar todas). Foi com ele que mudei absolutamente o meu jeito de olhar a arte. Foi ele quem me ensinou que arte, vida e política se confundem a todo momento. Que não são campos autônomos. Que são imagens que nos rondam no dia a dia. Me ensinou que política e arte se faz na rua, que o contato é a melhor arma contra imunidade que nos assombra.
Hélio Oiticica na década de 1960 criou uma nova categoria para os seus trabalhos. Passou a chamá-los de subterrâneos. Dizia que seu exercício se dava através de uma prática-grito. Oiticica cria um conceito de povo. Esse caráter sub do povo, entretanto, não implica uma interioridade ou ocultamento, ao contrário, é a exterioridade que garante esta condição, é enquanto corpo nu, enquanto pura exposição que a vida é subterrânea: o que está em baixo, o que "fede", o que amedronta, e que pode, a qualquer momento, emergir, não para o confronto, mas para um transbordamento, alguma coisa de incontrolável que fuja de qualquer amarra do poder: um estado de emergência do povo:

Um pensamento político ou a participação nascem organicamente como a planta na planta do pé no mundo dos conceitos no do dia a dia: a luta toda se resume na ascensão de um pensamento não opressivo, de pensamentosações, para a absorção do que oprime: é o encosta-na-parede longe da encosta, na América do Sul, no Brasil que oprime - mar e guela [sic] - amerdicância tem que acabar no sul: de onde vem o mal? De dentro, de fora? Está em nós? - participar político é participar na vida: ser politicamente vivo é estar vivo: aspirar à felicidade: a não-utopia - (...) - pegar nas armas, tirar as amarras, limpar o lugar, o lazer, o prazer de se cuspir nas medalhas (...) - nos subterrâneos do mundo eu fico, por entre paredes, sob as gorgetas, embaixo da vida: 3 dias e 3 noites: o limite do desvario
[...]
A descoberta do mundo: extra-Brasil: é lógico que se ambicione a êle: estamos no hemisfério sul, ao sul e fora de jogada, na reserva do mundo - subterrânea é para mim a descoberta do que representa o sul do sul no mundo: só um tipo de comunicação (...) novo (...) (não-assimilatório), na prática (não-ritual): underground seriam a consciência e a eficácia da marginalidade das criações do que cria: a criação torna-se manifestação coletiva, não-ritualística: libertad! - a idéia de uma "integração" do artista no contexto social é falsa: ao artista caberia comandar as transformações que sobem: de dentro, de baixo, do sub ao subombear, puxar a liberdade, fazê-la crescer -
[...]
para o mundo: ou no mundo.


Uma prática subterrânea reconhece que a política nasce da planta do pé. Reconhece que mais interessante do que olhar com os olhos seria, à maneira de Georges Bataille, olhar com o dedão do pé. A possibilidade de política e de pensamento está na criação, na tentativa reinventar todos os dias, de criar constantemente a diferença, o múltiplo. Uma criação que, entretanto, não alimenta uma paixão do Real, a marca, segundo Alain Badiou, do século XX; que não tenta representá-lo, acolhê-lo, absorvê-lo, desenvolvê-lo, mas que deixa o outro viver ao seu modo de gozo. Essa criação subterrânea esfumaça as fronteiras entre arte e vida, abandona os mediadores. Privilegia o momento que se apresenta como eternidade e felicidade fugaz: "não me interessa a reprodução desse momento em palavras nem em obras, mas o momento ou a verificação futura dele por outrem". A prática ou política subterrânea trata, enfim, de um pensamento que advém do corpo: uma paixão que alavanca a imaginação, que implica os fantasmas, que implica o outro. Agamben chama a atenção para a viv-ibilidade, procedimento de contemplação da potência que desprenderia a vida dos determinismos biológicos, sociais e econômicos:

Spinoza chama contemplação da potência, uma inoperosidade interna, por assim dizer, à mesma operação, uma praxis sui generis que consiste em tornar inoperante cada potência específica de agir e de fazer. A vida, que contempla a (própria) potência de agir, se rende inoperosa  em todas as suas operações, vive somente a (sua) vivibilidade (...) A subjetividade, é isto que se abre como uma inoperosidade central em cada operação, como a viv-ibilidade de cada vida. Nessa inoperosidade, a vida que vivemos é somente a vida através da qual vivemos, apenas a nossa potência de agir e de viver, a nossa, agibilidade e a nossa vivibilidade. A bios coincide aqui sem resíduos com a zoé.

Quarenta anos antes, Oiticica, da América Latina subterrânea, em pleno exercício da sua prática-grito, definiu a arte como a "criação de uma possibilidade de vida". Nos corpos dançantes dos Parangolés já se aventava uma coincidência sem resíduos entre bios e zoé.