Entrar em contato com a morte nunca é razoável. Existem os casos que dizem: "é melhor, ele vai descansar". Existem as mortes revoltantes, daquelas que pensamos com Renato Russo: "é tão estranho os bons morrem jovens". Entretanto ela nunca é simples e ela nunca passa. Se existe mentira nesse mundo é que a dor passa. Passa nada. Uma vez ouvi que não existe memória nem para dor nem para o amor. Eu acho que existe sim. Toda dor de agora é mais intensa que a dor passada, todo amor do presente é maior que o amor do passado. Mas as dores e os amores passados estão sempre ali, latentes, inviabilizando e ativando ao máximo essa memória. Eles não passam, eles sempre retornam. Entrar em contato com a morte é entender que, sim, existe tarde demais. E que muitas vezes não se pode na vida como, por exemplo, se pode na literatura, viabilizar e potencializar o que não foi. Na vida não dá. Quando alguém morre, morre e pronto. Tudo aquilo que poderia ter sido feito não pode, definitivamente, ser feito. A morte arrasta tudo para o infinito do finito. Ela diz a todo tempo que existe limite.
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MUNDO-ABRIGO é proposição
o dia-dia experimentalizado
não exclui
dirige-se ao
que é vida. Hélio Oiticica
o dia-dia experimentalizado
não exclui
que é vida. Hélio Oiticica
Flávia Cera é doutoranda em Teoria Literária na UFSC.
O desenho que abriga este blog é de Christiano Balz, colorido e tratado digitalmente.
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Eu estava nesta semana traduzindo Sêneca. Numa das cartas ele diz que não se deve pensar a morte como algo lá na frente (e pela primeira vez vi o tal do 'differre' do Derrida, no sentido de postergar), mas que cada momento vivido já pertence a ela. A princípio pensaríamos contra isso nessas coisas tipo 'vive em nós', 'o legado deixado', a 'memória involuntária', 'foi feliz', etc. Que bom se fosse assim. Mas bem lá no fundo a gente não acredita nisso não. Ou acredita em contradição. E nem sempre consolos são benéficos. Louvável a tua lucidez em separar nossa teorizações com a simplicidade e fragilidade da vida.
Um grande abraço