Minha relação com Deus nunca foi muito problemática. Mas cheguei a um ponto da vida que atribuir qualquer sucesso ou fracasso a ele me parecia um tanto ridículo. Ainda penso assim. Entretanto, pensando assim e radicalizando, deixei de acreditar em Deus, na presença de Deus, na possibilidade de Deus, etc. Passei a acreditar que existia uma "força" (preferia não chamar de Deus, todo descrente usa esse termo) que se apresentava a todo o momento na possibilidade do ser, na vida humana e, de alguma maneira, na humanidade. Mas uma experiência recente me fez rever essa posição. Fazia três anos que não visitava minha avó. Na hora em que soube que ela tinha sido internada, corri para perto dela. Quando cheguei e vi o que estava acontecendo, pensei que estar presente naquele momento não faria diferença para ela. Ela já não me reconhece, eu já não posso mais conversar com ela, contar da minha vida, dos meus planos, ou mesmo, relembrar o que passamos. Mas a minha presença lá faria diferença para mim. É provável que tenha uma ponta de egoísmo nisso tudo. Uma maneira, talvez, de livrar a consciência do peso da ausência, de estar mais perto que uma ligação telefônica, de dizer obrigada, sabe lá. Então eu desatava a falar enquanto ela me mirava com olhos perdidos. Foi o jeito que encontrei de estar presente. E até arranquei algumas palavrinhas dela, mas nada muito convincente, nada muito consolador. Tudo isso me fez perceber a conjunção mais radical entre teoria e prática que já vivenciei. Entendi ali que, realmente, a vida não se expressa somente através da linguagem. Ao contrário, em situações limites as sensações e o próprio corpo, debilitado o quanto esteja, falam. Minha avó, além dos derrames, sofre, em decorrência de uma série de enfermidades, o que a fisioterapeuta me explicou como síndrome da imobilidade, seus movimentos são hiper limitados. Em síntese, ela mexe levemente o pescoço e consegue, com muito esforço, movimentar num ângulo que calculo de dez graus os braços e, por vezes, as pernas. Numa das noites em que eu estava no hospital com ela, a noite que ela estava mais animada, ela começou a mexer a boca como quem queria dizer alguma coisa. Abaixei meu rosto de maneira que eu pudesse escutá-la de perto. Num movimento súbito ela levantou e sustentou seu fraco pescoço erguido e cobriu minha bochecha de beijos. Foi nesse instante que entendi o que é Deus. Essas possibilidades da vida, de se dizer uma vida, de ser uma imanência absoluta. Nunca se fez tão claros textos como o de Deleuze A imanência: uma vida... (último texto escrito por ele) e o fato de ele recorrer ao termo spinozista da beatitude. Se, de acordo com Spinoza, beatitude e alegria andam juntas, a presença de Deus é um instante revelador, um encontro, uma sensação de felicidade que pode ser levada para além da morte e que pode ser atualizada constantemente nas singularidades, nos acontecimentos, em uma vida. Ou ainda um estado de redenção tão proclamado por Spinoza quanto por Benjamin, que Agamben explica em duas linhas: "O mundo - enquanto absolutamente, irreparavelmente profano - é Deus". E, se a ordem do profano, como explica Benjamin, tem que erigir-se sobre a idéia de felicidade, o mundo enquanto puro estado de felicidade é Deus. No momento em que minha avó me beijou, ela inscreveu a nossa história, ela empurrou todas as forças para esse estado de felicidade, de beatitude que se cumpriu em um tempo eterno e fugaz e que levarei marcado no meu corpo, na minha memória. Um momento que, para sempre, roubará um sorriso meu e que, talvez, desapareça com a dor. Uma felicidade eterna e fugaz.


Nossa, que lindo! Confesso que chorei muito.
Curioso que esta semana me deu muita saudades de meus avós (não tenho mais nenhum, mas gostava muito de todos) e eu comecei a escrever um post. Mas logo parei porque senti que seria um exercício catártico de emoção para o qual não estava aberto naquele momento.
lindo, flávia.
Abujamra perguntaria: "Você chora diante da beleza?"
Choro. Chorei.
vim lhe fazer uma visita. sinta-se então visitada, de verdade e com carinho, porque agora pensei muito em você e li essa boniteza que você escreveu, no meio da minha distração e quase nenhuma visita a blogs. cheguei na horinha certa. você é linda, amiga. beijo em você.