No meio de um mergulho nas profundezas da psicanálise conheci Jorge Alemán, um psicanalista argentino muitíssimo inteligente. Arriscaria dizer que é um dos mais interessantes pensadores que tive conhecimento nos últimos anos. Acho que a melhor maneira de apresentá-lo, para os que ainda não conhecem, é através desse texto publicado no Pagina12 em defesa ao movimento Carta Abierta que surgiu junto a crise com os ruralistas na Argentina apoiando, evidentemente, Cristina Fernandéz. É um texto muito bonito, de uma esquerda militante comovente.
Estava lendo o último livro dele, Para una izquierda lacaniana..., e o texto que abre o livro, Una Izquierda Lacaniana...*, desenvolve essa junção (da esquerda com Lacan) aparentemente inviável de maneira contundente. Alemán, inicialmente, desfaz uma série de equívocos, tais como, atrelar a psicanálise a um liberalismo lúcido ou a um conservadorismo laico e esclarece que sua sugestão passa longe de uma reconciliação da sociedade consigo mesma, dado que o coletivo social, assim como o sujeito, é formado a partir de uma fratura irremediável e sem solução. Então nada de utopias emancipatórias e harmonia geral, o acento ali é nos antagonismos. Alemán afirma que é justamente esse irreconciliável o que permite pensar uma transformação imprevisível e sempre pendente. O texto tenta responder perguntas absolutamente pertinentes, sobretudo, na América Latina: "O que significa ser de esquerda no século XXI? Que valor tem a expressão e que tipo de compromisso designa quando o relato histórico que deu lugar a ela desvaneceu tanto em sua práxis teórico-política quanto em sua eficácia simbólica, para outorgar um princípio de legibilidade sobre o que é a realidade?" Essa é a tarefa da esquerda lacaniana. Vejamos alguns de seus postulados:
- Não existe classe predestinada a fazer a revolução, ela não possui uma identidade essencial e exige uma construção específica;
- Ao invés da ontologia, a pré-ontologia lacaniana que tenta mostrar o que é a realidade sem buscar um fundamento último nela. Anti-essencialista e anti-fundamentalista, portanto. Através da pré-ontologia é possível buscar um "outro início" (a esquerda lacaniana) que seria um salto no abismo que borra as margens do progresso.
- O Real tem uma importância fundamental e não deve ser compreendido como mera exterioridade, mas sim como o que aparecerá contingencialmente. Desse modo, a política não pode ser entendida como um acontecimento vazio, mas sim como um encontro contingente com a língua. Os efeitos desse encontro podem construir uma coletividade contingente.
- Nenhuma realidade pode ser entendida como definitiva, nem mesmo a capitalista. Ser de esquerda implica insistir no caráter contingente da realidade histórica do capitalismo. Entretanto, a saída histórica é irrepresentável. E convém deixar, por enquanto, esse lugar depois do capitalismo vazio para que evitar que não se reinscreva ou se capture esse lugar em um sentido já consumado historicamente.
- O capitalismo não é uma evolução progressiva dos modos de produção, trata-se de uma série de bifurcações históricas contingentes que se entrelaçaram de modo instável a técnica, a mercadoria, o saber, naquilo que denominamos o relato moderno.
- A dupla possível-necessário é ofuscada pela impossível-contingente: são precisamente as interrupções contingentes do impossível que dão força ao fato histórico que devem acontecimento. Não se trata de entender o contingente como o que é de "outra maneira", mas sim como o que desfundamenta o aparato ontológico da realidade.
- O princípio de dominação é, antes de mais nada, de ordem política, ainda que no caso do capitalismo a economia tenha um papel determinante, ela não é a determinação em última instância. O mercado também está atravessado pela fratura entre o Real e a realidade e enquanto tal pode deslocar-se. [Inevitável lembrar da Sociedade do Controle: "Os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que o buraco de uma toupeira"]
- A dominação não é própria do capitalismo: há dominação porque o sujeito em sua própria constituição não pode dar-se a si mesmo como sua própria representação. A barreira simbólica que o constitui, separa-o da pulsão, mas estabelece a doação de um excedente de satisfação pulsional que se associa a uma série de imperativos que não representam o sujeito, mas determinam o seu lugar.
- A ideologia é uma não é uma ilusão ou uma falsa consciência: é uma articulação entre os significantes dominadores que surgem fora de sentido como designadores do encontro com o real e os objetos a que o próprio sujeito perde no acesso ao simbólico. A ideologia é a aproximação tendencial em cada um dos significantes dominadores que ordena a realidade para o sujeito e os objetos que necessitou rechaçar do simbólico para dar sua própria consistência. Uma mescla de servidão e satisfação sádica.
- Reconhecer que o neoliberalismo produz um sujeito de gozo autista do objeto técnico que se realiza como mercadoria subjetiva na cultura de massas e não rechaçá-lo do alto da nostalgia pseudo-aristocrática: o tempo da sua existência estabelece as condições necessárias para que esse indivíduo possa ser desestabilizado em seus próprios fundamentos e aí, nesses resquícios e pontos de fuga, é onde a psicanálise deve intervir.
- Pensar que a exploração da força de trabalho e a ausência de justiça não só seguem sendo um insulto de primeira ordem à constituição da subjetividade, como também é a brecha ontológica em que o sujeito se constitui, a divisão incurável, que marca a sua existência com singularidade irredutível, só pode ser captada em sua "diferença absoluta", por fora e mais além das hierarquias e divisões instauradas pelo poder do mercado.
- A esquerda marxista pode elaborar seu final unicamente no âmbito em que o final pode adquirir um valor distinto ao de fechamento ou cancelamento, um final que não é tempo cumprido, mas sim uma oportunidade eventual para outro começo.
- Pensar as conseqüências da "parte maldita" (do mais de gozo) nos processos de subjetivação é uma exigência política de novo cunho. Se é certo que atualmente o poder é biopolítico, em uma perspectiva lacaniana agregaríamos que, tratando-se da vida dos corpos falantes, sexuados e mortais, é a vida do mais de gozo.
- O relato não pode ser mais do que inconcluso, inacabado, feito de entrada para sua ramificação.
- Ser de esquerda é que a vontade política, a invenção política cifrada nessa vontade, só é possível quando se admite que não há universal que apague a contingência do real. Só surgirá nas falhas do universal uma nova subjetividade se ela não estiver de antemão seqüestrada por uma identidade reconhecida e já sabida.
- Para os autores do acontecimento, do estado de exceção, da contingência só há política quando não há representação (Estado). Isso decorre de uma paixão pelo acontecimento como um elemento absoluto que emerge na situação como uma ruptura que só deve ser tratada axiomaticamente e que termina rechaçando a construção política. A partir da vertente axiomática ou performativa desses pensadores, o espaço da esquerda social-democrata é o mesmo que o da direita conservadora e todo seu entusiasmo está naquilo que ainda não tem forma.
- A formação de um nó (à maneira do nó borromeu lacaniano) que reuniria três elementos: o Estado (nos casos em que a esquerda pode ascender a ele), os movimentos sociais e a construção política. O nó é necessário porque os três elementos permanecem sem resolução histórica. Só no nó e no seu entrelaçamento (que não é síntese, nem unificação) se recriariam os três âmbitos ao redor do vazio irredutível. Mas para que eles não dispersem é necessário um quarto nó suplementar: o da escritura de esquerda que assuma indagar-se sobre: a divisão inaugural do sujeito, o antagonismo lógico e constitutivo de toda sociedade, e a intervenção do olhar e da voz que funcionam como objetos fantasmáticos que congelam e petrificam o sujeito em uma inércia que se articula em sua própria ideologia (tanto na obediência retardada quanto na servidão voluntária). Esses pontos foram negligenciados pela esquerda. Mas talvez, considerando-os numa escritura nova da práxis, eles possam abrir uma nova temporalidade distinta da do progresso: a do futuro anterior.
- Por fim, temos o problema da dupla tradição: a tradição européia está marcada pela Shoa e pelo colapso da URSS em sua dimensão stalinista e não conheceu diretamente as conseqüências de um genocídio em que estava envolvido os Estados Unidos, tal como foi evidente na América Latina. O maior desafio da Europa: não repetir uma experiência totalitária. Por outro lado, a esquerda latino-americana conheceu as políticas do Império em sua versão mais cruel e por distintos motivos históricos e mais além das críticas e impasses, nunca desejará reconhecer Cuba com o colapso stalinista. Tentará, ao contrário, articular seu discurso no horizonte dos movimentos "nacionais e populares", ponto de partida incerto e instável, porém inevitável, tanto pelo que impõe na assunção-inversão do legado histórico, quanto pela exigência sempre presente de tentar atravessar o fantasma "etnocêntrico" que impregna o imaginário da esquerda européia.
São esses, mais ou menos, os pontos da esquerda lacaniana. O entusiasmo evidente com a virada à esquerda latino-americana, que por vários motivos, abriu a possibilidade de se pensar uma nova esquerda, mas ainda esquerda, justifica o título do post (que é uma frase do texto de Alemán enunciada, segundo ele, por um "célebre pós-marxista"): Lacan, Perón, un solo corazón...
Por um lado não sou muito partidária dessa visão porque já não sei se dá para acreditar em uma reformulação do Estado, sociedade e estrutura política. Não sei se uma política atuando nessa estrutura aponta para um futuro diferente, se assim dá mesmo para sair da lógica da dominação capitalista. Quer dizer, é óbvio que as melhorias econômicas, sociais, etc, estão abarcadas aí, mas seriam elas suficientes? Entretanto, acho muito pertinente a provocação que Alemán faz aos pós-marxistas que colocam a esquerda e a direita no mesmo pacote. Mas, prossegue dizendo, eles "reservam energia política para um tempo por vir do qual não se dispõe representação alguma". O que me leva a pensar em uma possível contradição: o "lugar pós-capitalista", como ele mesmo diz, tem que permanecer vazio para não sofrer apropriações; não seria então, esse "tempo por vir" ao invés de um lugar (que, inclusive, remete à utopia que ele tanto nega), a temporalidade distinta do progresso que a esquerda lacaniana pode formular? Tendo a achar que os "pensadores" tentam marcar seus territórios tentando se diferenciar uns dos outros, mas muitas vezes querem dizer a mesma coisa. Digo isso porque o segundo ensaio do livro, intitulado Derivas sobre la inserción-desinserción, bate forte na teoria do Agamben do Estado de exceção e da vida nua. Alemán diz que não é possível esquecer o antagonismo que constitui a sociedade e diz que Agamben, grosso modo, equaliza os sujeitos. Até aí tudo bem, é uma leitura, podemos concordar ou discordar. O problema é que no fim do texto ele vai estabelecer uma "tarefa" (para ficarmos no termo de Agamben) que é pensar o singular e o comum. Tarefa que, sejamos francos, Agamben não menospreza e tem, inclusive, um livro dedicado ou tema: A comunidade que vem. O que mostra, mais uma vez, que essas diferenças não são tão decisivas e que essa história de tomar partido de um ou de outro pode ser uma bobagem (desde que não se perca numa loucura sem pé nem cabeça muito comum quando não se tem cuidado filológico, por exemplo). Ao mesmo tempo reconheço que essas divergências tenham uma causa aparente indicada, justamente, no último ponto: a Europa, não é, definitivamente, a América Latina. E com isso eu concordo absolutamente, mas deixo claro que não é uma defesa "fenomenológica" do tipo: só quem vive aqui pode falar daqui. De jeito nenhum. Mas não é raro encontrarmos em autores europeus um entusiasmos com as favelas, por exemplo, o que é um imenso equívoco.
Mas enfim, a proposta é muito interessante pelo que ela apresenta de mais urgente, e que talvez seja o mais urgente na sociedade contemporânea, a saber, a idéia de que o capitalismo não é a realidade definitiva e que são necessárias interferências no Real, para que a realidade não se totalize como estrutura universal e permanente. Ou seja, que mais importante do que pensar "anti-capitalisticamente", é pensar contingencialmente. Desfundamentar a realidade, o capitalismo, ou desativar seus dispositivos.
*Não posso, como boa deleuziana, deixar passar em branco o formato desse título. As reticências e o artigo indefinido são os elementos que dão o tom do último e mais lindo texto de Deleuze: A imanência: uma vida... O que prova que, por mais distantes que possam parecer a teoria deleuziana da psicanálise, é possível um namoro entre as duas.


Flávia,
Belissímo post, eu o enviei para uns amigos meus. Coisa fina, difícil de achar por essa blogosfera de meu Deus. Nunca estudei psicanálise à sério, mas tenho cada vez mais vontade de fazê-lo, em especial, para poder compreender alguns debates que Zizek promove de uma forma mais profunda, em especial.
A obra de Marx é sob inúmeros aspectos diretamente influenciada por Espinosa que, por sua vez, considerava que as coisas acontecem por uma operação de necessidade, sendo a contingência um mero defeito de nossa percepção (tal como o possível), o que ecoa na obra marxista fortemente - e que trazida da metafisíca para a materialidade se manifesta em muito da sua concepção de como as relações econômicas influenciam as demais esferas de vida.
Nos acostumamos com isso e de certa maneira toda a esquerda ecoa essa perspectiva - inclusive pensadores vulgares como eu. Por isso, eu gostaria que você espusesse um pouco mais daquilo que você quer dizer com "Ou seja, que mais importante do que pensar 'anti-capitalisticamente', é pensar contingencialmente. Desfundamentar a realidade, o capitalismo, ou desativar seus dispositivos.", até que ponto isso é válido?
beijos
Hugo,
primeiro, obrigada pelo comentário. É sempre bom poder discutir esses temas com alguém inteligente. Vamos lá:
Sim, o pensamento marxista, materialista está mais perto da necessidade do que da contigência. E, de fato, jamais conceberia a imaginação, por exemplo, como uma práxis, como vem fazendo Agamben e Coccia. Mas é claro que a esfera econômica determina, em partes, a realidade, mas não toda. Os discursos que se articulam no decorrer da história mostram que muitos agentes atuam na estipulação de "formas de vida" e não só a economia. A dominação existe, antes de mais nada, por causa da esfera política que não necessariamente está vinculada a econômica (esqueci de dizer no post que dá para perceber uma certa distância entre o projeto do Alemán e do Safatle, por exemplo, embora os dois tenham essa pegada psicanalítica o último representa o que convencionalmente chamamos de materialista). Tenta-se associá-las a qualquer custo justamente para evocar o princípio da necessidade, os princípios biológicos. É aí que acontece a merda toda.
Não pensar anti-capitalisticamente significa reconhecer que o capitalismo não tem um ponto, um lugar para cortar (essa terminologia é muito usada na psicanálise lacaniana o "corte do gozo"). Ele é um "rizoma", então estabelecer uma luta anti-capitalista significa brigar com um gigante sem fim, um Wolverine que tem poder de regeneração. Daí que pensar contingencialmente, pensar uma maneira que se insira nas entranhas do capitalismo, mas não para lutar contra ele, e sim para desativá-lo, é mais interessante do que lutar contra ele. Pensando contingencialmente outras maneiras de fazer para o futuro e, retrospectivamente, tirando o fundamento de que o capitalismo é a regra (é "o necessário") que deve valer e que temos que arranjar modos mais "humanos" de conviver com a desigualdade que ele pressupõe. Viveremos assim sempre: na opção do menos pior, porque sempre estará ruim. Então eu acho válido até o infinito, acho inclusive que é para isso que vivemos, para imaginar (e digo isso porque a imaginação está plenamente conjugada com a práxis) a vida fora do controle da política, fora das amarras do poder soberano cujo passado, presente e futuro é produzir e consumir as vidas nuas.
Vixe! Será que deu de entender? Meio confuso, né?
Obrigada, Hugo. Beijos
Flávia
Qué isso, tadinho de mim, eu venho aqui para aprender mesmo. Eu entendi sim o que você quer dizer. Aliás, muito bem abordada a questão da imaginação, algo com o qual eu me pego constante em conflito e que já na obra de Espinosa tinha uma conotação negativa - e dentro do materialismo-dilético-histórico acaba realmente sendo posta de lado, eis um dos problemas do pensamento de Marx, talvez ter feito uma leitura um pouco extrema de mais de certos conceitos, estabelecendo cortes "para dentro de mais" das coisas no intuito de superar a metafisíca.
Ainda assim, eu costumo ver uma vinculação sempre muito forte entre Economia e Política, o problema é que a análise da primeira normalmente é muito ruim - o que não raro gera numa interpretação por demais reducionista da segunda, quando não sua própria desconsideração. Dependendo da escola da qual estamos falando, a Economia é praticamente reduzida a algumas operação matemáticas, o que é absurdo, mas é uma irracionalidade que reflete a própria irracionalidade do sistema - e eis aí outro erro nossa ao longo do tempo: Confudir uma análise racional das coisas com a prática de uma racionalização a qualquer custo (o que não está em Espinosa, mas decorre sim de uma leitura do racionalismo).
Acho que a análise das coisas requer sim a busca pelas proposições necessárias, mas a construção de saídas políticas exige certa consideração pelas contingências; o que eu penso sobre o Capitalismo é que ele deve ser superado, sim eu considero isso possível, seria um caminho alheio a tentativa de humaniza-lo ou a crença catastrofrista de que ele deve ser destruído a qualquer custo (não importando como) - ambas as saídas são fruto do pensamento kautiskyano, inclusive do seu conceito de vanguarda que foi absorvido por um certo Lenin ao mesmo tempo em que inspirou a social-democracia.
Indo adiante no debate, sobre outro ponto do texto, mais simples, temos o seguinte postulado, que foi o que mais me chamou a atenção:
"Para os autores do acontecimento, do estado de exceção, da contingência só há política quando não há representação (Estado). Isso decorre de uma paixão pelo acontecimento como um elemento absoluto que emerge na situação como uma ruptura que só deve ser tratada axiomaticamente e que termina rechaçando a construção política. A partir da vertente axiomática ou performativa desses pensadores, o espaço da esquerda social-democrata é o mesmo que o da direita conservadora e todo seu entusiasmo está naquilo que ainda não tem forma."
Creio que a última frase acende um debate muito forte em toda a esquerda, especialmente na minha geração. Vivemos às voltas com o Governo petista que realizou determinados avanços ao mesmo tempo em que deixou de sonhar e refletir; nosso presente é melhor do que aquilo que consideravámos presente há dez ou vinte anos atrás, mas o nosso futuro é mais tenebroso. Em muitos momentos nos pegamos numa encruzilhada na qual temos de escolher entre uma esquerda social-democrata e fagocitada pelo sistema - mas que realiza coisas - e uma esquerda "performativa", que ainda se dá ao luxo de sonhar coisas, ir para além do cálculo de forças frio - e normalmente insuficiente - da disputa institucional. Essa é uma impressão que compartilho com muitos amigos. Os companheiros lacanianos parecem já ter escolhido o seu caminho, mas eu não acho que ele seja tão simples: Eles parecem subestimar a natureza dialética da política institucional (eu transformo a sociedade por dentro do Estado buguês, mas o Estado buguês também me transforma) e como isso gera sínteses neutralizadas, em suma, partidos absorvidos pelo sistema - você, por outra perspectiva, apresentou também uma inqueitação quanto a isso, comente mais sobre esse ponto.
um beijo
Hugo, desculpe-me a demora. Estava aqui cumprindo uns prazos doidos.
Então, eu não gosto da idéia de superação, embora eu compreenda que vc não quer nenhuma idéia de "conciliação" com o termo, mas prefiro a idéia de inoperância. Deixar impossível de funcionar. Superar dá uma idéia de tempo muito progressiva e linear. Temos que passar por A para chegar em B, uma idéia, creio eu, bem mais próxima do par necessidade-possível. Esse "tempo outro" abordado tanto por Alemán quanto pelos "autores do acontecimento, estado de exceção" que ele cita, concebe outra forma de pensar as mudanças, com outra concepção de tempo (o tempo messiânico do W. Benjamin, por exemplo). Essa concepção está bem mais próxima do impossível-contingente: quando as forças irrompem num acontecimento que altera o curso da história. Porque tem forças atuando, existe uma "luta" no interior de tudo isso que move em direção ao "acontecimento", só que ela não prevê uma superação do capitalismo, mas sim a sua inoperância, a sua incapacidade de fazer obras, de agir, que aparece quando se "mina" o problema.
Pois é, esse dilema da esquerda é forte e, sim, Alemán escolheu uma "reforma" no estado das coisas, com as mesmas instituições, etc. A psicanálise em geral acredita em uma lei (não necessariamente Lei), eles pensam que é necessária um certo padrão de conduta para que não se viva numa sociedade de puro gozo, o que explica um pouco essa posição dele. Em muito eles têm razão, em muito mesmo. Mas a questão é: se não pensarmos outra forma possível, serão esses ajustes, essas reconfigurações, as melhorias que restam. E, você tem razão, o estado burguês também nos transforma, ou seja, se mantivermos a estrutura institucional (estado, sociedade civil, estrutura política) e sairmos da lógica capitalista mudaremos para que lugar? Um lugar onde a distribuição de renda é justa, onde não haverá fome, nem miséria, etc. Ótimo, como boa "humanista" isso para mim é o mínimo que se pode querer de uma boa gestão econômica, por isso critico a mão única de certo pragmatismo de alas da esquerda. As coisas funcionando de maneira justa é o mínimo que se DEVE fazer. Mas queremos mais, muito mais e diferente.
Acho que era isso. Obrigada, Hugo, mais uma vez, por essa conversa interessante e estimulante. Um beijo
Flávia,
De fato, eu realmente não penso na ideia de conciliação quando falo de superação, mas também não estou falando necessariamente em tempo - que é apenas um modo de pensar admissível para ordenar os fenômenos que se passam no plano da existência -, mas sim em critério qualitativos, em suma: Não temos de passar em A para chegar em B, mas sim estamos em A, por algum motivo que temos de determinar, e precisamos construir um projeto fundamentado na análise de sua natureza que mire na sua melhora - em suma, "B" - e da aplicação de B em A, teremos algo melhor. Não há um futuro, mas um aqui-agora no qual podemos aplicar nossa capacidade criativa sobre as circunstâncias para buscar uma saída para além do conformismo e da sua contraparte, um certo implosivismo (como no bloshevismo, por exemplo) - nesse ponto, eu entendo o seu posicionamento e considero ele mais válido que os dois extremos que eu citei, mas discordo da questão de tornar o capitalismo inoperante, prefiro a ideia de dar uma novo significado para alguns de seus elementos de modo a fazê-los funcionar de uma maneira diferente, em suma, não torna-los inoperantes, mas alterar a sua forma de operar, ainda que, evidentemente, uma parte dele deva ser desoperacionalizada.
Essa reconfiguração, ao meu pensar, passa por dentro do sistema e por fora dele também em duas ações coordenada. Alemán pensa por demais no "por dentro", justamente por que ele substima a capacidade de transformação que o Estado burguês estabelece sobre o próprio agente transformador, isto é, o Estado não é inerte em relação ao indivíduo mas sim relação ao sistema econômico que ele ordena(e que pelo qual foi parido), em suma, o sistema se move e o Estado se move junto com ele na mesma proporção e velocidade, mas não em relação à coletividade ou ao indivíduo. A tentativa de conduzi-lo a despeito dos movimentos sociais e da própria coletividade, leva à condução dos próprios agentes - e isso é muito comum na história dos partidos social-democratas.
um beijo