Depois de ter assistido à manifestação "Cultura pró Dilma" e depois de ouvir seu discurso de quase uma hora falando sobre o Brasil que temos e o Brasil que queremos, amoleci total. Lá ela estava muito mais altiva, enérgica e "fogosa" (lembrem-se que Leonardo Boff disse que Dilma tinha dito para ele que estava cansada, mas que tinha fogo) do que em qualquer debate. A partir de então meu voto deixou de ser um voto, assim, "xôxo", ou apenas mais um voto contra José Serra. E foi menos pela questão cultural, que também pesou, claro; menos pelo discurso da Marilena Chauí, que foi legal e tal, mas sei lá, a Marilena apoiando o PT não é nenhuma novidade no mundo; como também não é novidade o Chico Buarque, etc. Agora o discurso do Gog me pegou de jeito. Porque tudo o que defendi e ainda defendo com Marina Silva estava ali em uma frase: "porque não somos pela igualdade, somos pela diferença" (não consigo encontrar o vídeo, mas se não foi exatamente assim, foi bem parecido). E só podemos ser pela diferença - Gog pode dizer isso hoje assim como todos nós - porque estamos conquistando igualdade em vários níveis. E sem ela não é possível pensar na verdadeira diferença, a que incorpora, também, o ambientalismo.
Me dei conta de que no post anterior, em que defendo o casamento igualitário, menciono a universalização dos direitos. E não existe direito mais elementar nessa vida que comer e ter uma vida decente. Se isso não for universalizado, estamos perdidos. Se Lacan já alertou que não existe relação sexual, quem dirá com fome. Portanto, a esquerda libidinosa que combate quem cerceia o corpo e entende que depois de Freud fome não é fome, é desejo, reconhece que está ali, também, as suas bases ;-)
Dilma lembrou mais uma vez que havia o discurso do medo em 2002: se Lula ganhasse, alertavam-nos os histéricos, ele instauraria o caos. E não deu outra. O "caos" foi instalado: agora os pobres ascendem, vão para faculdade, comem, freqüentam lugares que não podiam freqüentar, etc. Quer caos maior para a classe média, branca, escolarizada? Não tem, gente, não tem.
Pois bem, estou escrevendo um texto, que apresento na semana que vem, e nele argumento que o tropicalismo rompe com a idéia, que se apresentava "consciente e engajada", de que era preciso um intelectual para mediar o acesso das pessoas às coisas do mundo; que era preciso um pastor para guiar o rebanho. Embora muitas pessoas se comportem assim, como se Lula fosse deus, como se tivéssemos que nos ajoelhar para agradecer cada coisa que ele fez, e ele não fez mais do que devia - por favor, pai e mãe cada um tem o seu, e um Édipo dessa magnitude seria demais até para Freud (ou pensando bem, nem Freud daria conta e jogaria tudo no âmbito da religião). Mas embora e muito além do discurso personalista, o que podemos perceber hoje é que aquela mediação dada como necessária para mudar a ordem das coisas caiu por terra. E caiu por terra porque, em alguma medida, foi recuperada a capacidade de pensar e de viver o presente podendo projetar o futuro. Às vezes é meio brutalista, é, mas Zé Celso também foi mal entendido por isso. Zé Celso, inclusive, diz num depoimento poucos dias antes de receber Anistia que o tupi or not tupi de Oswald de Andrade foi o que nos abriu para o outro, e que Lula foi quem concretizou esse projeto abertura para a diferença. E ele está certo (pra variar): só estamos abertos ao outro porque esse outro se tornou visível. Foi isso que Lula fez. Daí, concluo aqui, rápida e rasteiramente, que o primeiro tropicalista a chegar ao poder foi Lula. Foi ele que soube, em alguma medida, deixar de entender "o corpo social como se fosse constituído pela universalidade das vontades". Ainda falta muito para que o Brasil seja tropicalista. Mas esse "projeto" só se torna viável se houver distribuição de renda, se tirarmos as pessoas da miséria devolvendo a elas possibilidades de escolha - que tinha sido sequestrada -, devolvendo a possibilidade de olhar, acima do chão, para o futuro. E é, acredito, com Dilma Rousseff que tudo isso seguirá mudando. Sem contar que já está na hora desse país ter uma mulher na presidência, o tão sonhado matriarcado de Pindorama. Então pronto: coração conquistado, paixão aquecida!
Cá está minha aposta no sonho para que continuemos saindo dessa realidade desigual insuportável que nos assola. É preciso combatê-la a favor da igualdade, a favor da diferença.
PS1: Tem gente muito bonita que me fez acreditar em Dilma com paixão. Uma delas é o Tiago Mesquita, sempre doce e consistente.
PS2: Insanidade é como chamo o "atentado" ao Serra. Estou amplificando o ato porque ele é inadmissível e porque só desfavorece. Está certo que Serra é um cretino e que tem um médico mais cretino ainda que diz que ele precisa de repouso depois de uma tomografia porque foi atingido por uma bolinha de papel. Mas por favor, né? Nem bolinha de papel, nem bala de canhão.
PS3: Por outro lado essas eleições me deixaram absurdamente angustiada. Duas pessoas, que amo demais,se engalfinharam ontem parecendo que nunca tinham se entendido na vida. Foram horas de tensão, mas tudo acabou bem. Mas e se não acabasse? Poucas coisas devem valer mais do que o que essas duas pessoas têm. Pouquíssimas. Talvez só mesmo a luta por colocar a Dilma na presidência da República, porque naquele carinho ninguém mexia. Mais um motivo para acreditar. Conto-lhes que, na briga de ontem, o amor venceu, literalmente. Espero que dia 31 também. Com Dilma, rumo à Ginecocracia!
PS4: Espero, do fundo do meu coração, não me arrepender, sobretudo na questão ambiental e nessa putaria religiosa, de ter escrito esse post. Mas já que estamos no inferno, não custa dar um abraço no capeta!
Me dei conta de que no post anterior, em que defendo o casamento igualitário, menciono a universalização dos direitos. E não existe direito mais elementar nessa vida que comer e ter uma vida decente. Se isso não for universalizado, estamos perdidos. Se Lacan já alertou que não existe relação sexual, quem dirá com fome. Portanto, a esquerda libidinosa que combate quem cerceia o corpo e entende que depois de Freud fome não é fome, é desejo, reconhece que está ali, também, as suas bases ;-)
Dilma lembrou mais uma vez que havia o discurso do medo em 2002: se Lula ganhasse, alertavam-nos os histéricos, ele instauraria o caos. E não deu outra. O "caos" foi instalado: agora os pobres ascendem, vão para faculdade, comem, freqüentam lugares que não podiam freqüentar, etc. Quer caos maior para a classe média, branca, escolarizada? Não tem, gente, não tem.
Pois bem, estou escrevendo um texto, que apresento na semana que vem, e nele argumento que o tropicalismo rompe com a idéia, que se apresentava "consciente e engajada", de que era preciso um intelectual para mediar o acesso das pessoas às coisas do mundo; que era preciso um pastor para guiar o rebanho. Embora muitas pessoas se comportem assim, como se Lula fosse deus, como se tivéssemos que nos ajoelhar para agradecer cada coisa que ele fez, e ele não fez mais do que devia - por favor, pai e mãe cada um tem o seu, e um Édipo dessa magnitude seria demais até para Freud (ou pensando bem, nem Freud daria conta e jogaria tudo no âmbito da religião). Mas embora e muito além do discurso personalista, o que podemos perceber hoje é que aquela mediação dada como necessária para mudar a ordem das coisas caiu por terra. E caiu por terra porque, em alguma medida, foi recuperada a capacidade de pensar e de viver o presente podendo projetar o futuro. Às vezes é meio brutalista, é, mas Zé Celso também foi mal entendido por isso. Zé Celso, inclusive, diz num depoimento poucos dias antes de receber Anistia que o tupi or not tupi de Oswald de Andrade foi o que nos abriu para o outro, e que Lula foi quem concretizou esse projeto abertura para a diferença. E ele está certo (pra variar): só estamos abertos ao outro porque esse outro se tornou visível. Foi isso que Lula fez. Daí, concluo aqui, rápida e rasteiramente, que o primeiro tropicalista a chegar ao poder foi Lula. Foi ele que soube, em alguma medida, deixar de entender "o corpo social como se fosse constituído pela universalidade das vontades". Ainda falta muito para que o Brasil seja tropicalista. Mas esse "projeto" só se torna viável se houver distribuição de renda, se tirarmos as pessoas da miséria devolvendo a elas possibilidades de escolha - que tinha sido sequestrada -, devolvendo a possibilidade de olhar, acima do chão, para o futuro. E é, acredito, com Dilma Rousseff que tudo isso seguirá mudando. Sem contar que já está na hora desse país ter uma mulher na presidência, o tão sonhado matriarcado de Pindorama. Então pronto: coração conquistado, paixão aquecida!
Cá está minha aposta no sonho para que continuemos saindo dessa realidade desigual insuportável que nos assola. É preciso combatê-la a favor da igualdade, a favor da diferença.
PS1: Tem gente muito bonita que me fez acreditar em Dilma com paixão. Uma delas é o Tiago Mesquita, sempre doce e consistente.
PS2: Insanidade é como chamo o "atentado" ao Serra. Estou amplificando o ato porque ele é inadmissível e porque só desfavorece. Está certo que Serra é um cretino e que tem um médico mais cretino ainda que diz que ele precisa de repouso depois de uma tomografia porque foi atingido por uma bolinha de papel. Mas por favor, né? Nem bolinha de papel, nem bala de canhão.
PS3: Por outro lado essas eleições me deixaram absurdamente angustiada. Duas pessoas, que amo demais,se engalfinharam ontem parecendo que nunca tinham se entendido na vida. Foram horas de tensão, mas tudo acabou bem. Mas e se não acabasse? Poucas coisas devem valer mais do que o que essas duas pessoas têm. Pouquíssimas. Talvez só mesmo a luta por colocar a Dilma na presidência da República, porque naquele carinho ninguém mexia. Mais um motivo para acreditar. Conto-lhes que, na briga de ontem, o amor venceu, literalmente. Espero que dia 31 também. Com Dilma, rumo à Ginecocracia!
PS4: Espero, do fundo do meu coração, não me arrepender, sobretudo na questão ambiental e nessa putaria religiosa, de ter escrito esse post. Mas já que estamos no inferno, não custa dar um abraço no capeta!


Texto lindo e consistente, né?
Falaste de como a questão da cultura, da diferença e do meio ambiente te tocam, envolvem, mobilizam e te põe em movimento (isso sim é desejo, pq ele só existe agenciado e sempre produz a diferença, né? ;)).
Minhas motivações são as tuas, viu? Explico o porque de minha ferina (as vezes beirando o destempero) defesa de Dilma desde o primeiro turno: além de estudar um poquito de filosofia trabalho no SUS a um bom tempo, antes indiretamente, nos últimos anos diretamente. Não tenho o monopólio da sensibilidade social, longe disso, mas o fato de atender muita gente sofrendo me transformou bastante, gente que não tem grana pra comprar um remédio qualquer que o SUS não fornece, que, pior do que isso, não se alimenta bem, de comida e de cultura, não tem perspectiva, vive uma vida de resistência, mesmo sem lazer, sem carinho, sem ser olhada, ao menos olhada. Esses são maltratados todo tempo pelo Estado, não existem para a iniciativa privada e frequentemente são mal atendidos no SUS por colegas meus que não percebem que são uma agulhinha a mais na máquina de tortura do Kafka, nessa imensa colônia penal da miséria. Sabemos o final do conto, né? A Miséria é a dos que são feridos, mas também dos que ferem.
Bem, apesar dos pesares, acho que a coisa toda melhorou bastante nos últimos anos, mas precisamos aprofundar e consolidar o que está mudando. O Estado não deve ser assistencialista e nem paternalista, mas essas acusações ao governo Lula me parecem tão injustas... o Estado agora está fazendo sua obrigação, exatamente como você disse. Mas para alguns isso é demais, confundem apostar na autonomia com abandonar os já desvalidos. Autonomia não brota da terra do nada, brota após cuidado e estímulo. Dizem que o governo não pode dar o peixe, tem de ensinar a pescar... tá bem: vai aí Dona Maria, vai pescar na caatinga...
Então, ao pensar na possibilidade de Serra se eleger, quase perco a capacidade de pensar. Porque me dói no estômago, porque me queima a pele. Porque sei o que vai acontecer com essa semente de uma dose ainda pequena, mas ao mesmo tempo imensa, de respeito às pessoas pobres deste país. Porque sei que eles, da direita -direita, sim!- não têm, no geral, um grau decente de compaixão (num sentido budista mesmo); porque não têm noção e muito menos exercício de empatia. Seria inconcebível, insuportável que esse pessoal pautasse o Estado pelos próximos 4 anos. E os mais desprotegidos é que sofreriam pacas, isso pode significar, no extremo, sofrimentos agudos, desesperança, morte real ou vidas tão desassistidas que dá quase no mesmo. Seria o pior dos coitos interrompidos; do sorriso calado com um tapa de uma mão suja e pesada. Por isso, às vezes, perco a vontade de teorizar demais, de relativizar, de dobrar e redobrar questões e conceitos. Deixo as teorias pra depois das eleições; um pouco porque quero, mais porque simplesmente não consigo fazer diferente; é o momento. Depois de tudo, bem, aí então voltarei a ser anarquista ontológico :) e me preocupar com o que envolve a luta contra a crueldade aos animais, o especismo e essas coisas. E voltarei a estudar porque minha disserta está terrivelmente atrasada.
Até lá, vou alternar alegria calma e bons momentos com prováveis indignações, destemperos e ansiedades. Mas posso garantir que não vou atirar bolinhas de papel, rolos de durex ou material orgânico que meus queridos felinos produzem em abundância, na careca daquele senhor ou dos membros da sua legião.
Não vais te arrepender, não, viu? Porque a tua avaliação é a que deve ser feita agora. Contudo, no varejo do futuro governo que queremos e estamos tornando real agora, talvez surjam problemas com o desenvolvimentismo bulldozer da Dilma e, principalmente, com alguns ministérios do PMDB - aí sim, preparemos as bolinhas de papel.
Valeu.
Maurício,
que bonita sua definição do desejo. Acabei tão imersa em Lacan que acabei esquecendo dos agenciamentos. É isso mesmo =)
Ah, nem precisava explicar o destempero. Sua "braveza" é doce, eu ficaria putassa se viesse um louco defender José Serra, ao fim e ao cabo, com você sempre deu para argumentar. Com outras pessoas não, mas eles passarão...
Sim, é verdade. A saúde pública funciona como a máquina kafkiana, e dói demais. Neles e em nós. As acusações ao governos são injustas em alguma medida, mas necessária em outras, justamente para não cair no paternalismo. Mas o que dizer para alguém que passou a comer depois do governo Lula, né? Entendo bem os limites que você coloca.
Você falou da compaixão. E concordo com você. Jean-Luc Nancy diz que a compaixão não é piedade é uma paixão com os outros. Andar lado a lado solidariamente, dar conta que estamos no mundo com os outros.
Eu não perco a vontade de teorizar nunca ;) Sabe por que? Porque pela primeira vez, talvez nem com Lula fosse assim (o caso era mais grave econômico e socialmente) podemos falar de política com todas as possibilidades desse termo. E nisso eu acho que a Marina ajudou. Percebi isso no segundo turno em Dilma, no primeiro não.
Pode alternar seus momentos de alegria e destempero. Ainda bem que ainda há comoção, sorte a nossa!
Sim, concordo com você. As bolinhas de papel ficam para depois. Agora a batalha é outra.
Um beijo grande e obrigada pelo lindo comentário =)
Flávia,
Acho que essa campanha eleitoral está sendo marcada pelos limites da nossa cultura autoritária, intolerante, violenta. A declaração de voto agora quase vira declaração de guerra, porque os defensores do outro candidato invariavelmente, quase instantaneamente, começam a atirar insultos [ingênuo, babaca, otário, hipócrita, fanático, cínico, etc]. Acho que o voto em Serra é um tremendo equívoco, mas faço questão de aceitar que os outros votem no Serra também. E assim eu penso: "se pudermos conversar sobre o assunto, tudo bem; se não der então vamos ter que mudar de assunto" - só que mudar de assunto não nos interessa porque certos assuntos, como o aborto, a legalização das drogas e o casamento entre pessoas do mesmo sexo têm que ser discutidos mesmo. O debate entre opiniões contrárias no Brasil freqentemente descamba da contundência para o xingamento e daí chega às vias de fato, porque nós somos autoritários, intolerantes, violentos; mas não podemos silenciar.
Eu me lembro de uma entrevista com Helio Oiticica para um livro sobre a polêmica das Patrulhas Ideológicos no final dos anos 70. O entrevistador pergunta a ele quais as perspectivas para a implantação do socialismo no Brasil e ele se vira e diz assim: “Socialismo no Brasil? Eu estou achando quase impossível, o Brasil é um país bem fascista…”
Eu espero apenas que essa vertente fascista da cultura brasileira fique cada vez mais visível para que assim mais gente se disponha a combatê-la de frente, oferecendo um outro discurso, capaz de contundências mas com respeito e uma certa dose humildade, coisas que fazem parte da nossa cultura também.
Foda como sempre.
Você é mais #esquerdalibidinosa que eu, sabe o ponto certo para falar. Esse negócio do sequestro, que é uma coisa que eu penso sempre em termos heideggarianos de ser-com, ou Mitsein, porque o alemão deles é sempre mais portentoso que o nosso, fica bem melhor com o Zé Celso, né? A questão da bolinha pra mim foi exemplar, tuitei meio de brincadeira que vale um estudo ontológico, mas isso é sério. O sequestro do ser pela tecnocracia nos impede de dizer até que uma bolinha de papel é uma bolinha de papel. Tem que vir o Molina dizer... Eu acho fantástico que o consenso de mentirinha e o bom senso de plástico venham caindo por terra e que a realidade, prenhe de sentido, possa voltar a ser exposta à toda sorte de novas narrativas. Também não boto minha mão no fogo, não digo que Dilma significa esse novo tempo, mas ela já me fez entusiasmar e vai ter que ser com ela, né não?
Um beijo!
Paulo,
estou em pleno acordo com você. Fui massacrada por "dilmistas ferozes" porque votei em Marina no primeiro turno. Queriam me dizer que eu tinha feito "mal" para o Brasil, que eu era uma irresponsável. Até de burra me chamaram, justo eu que estudo tanto... E concordo também que aborto, casamento igualitário tem que ser discutido. Meu voto será na Dilma porque suponho que ela tenha mais sensibilidade para essas demandas. E porque, né? O Serra conseguiu fazer disso tudo um inferno. E, sim, Hélio nunca foi tão atual: o Brasil e em boa parte os brasileiros, são bem fascistas. Mas o que se pode esperar de um país que não teve a capacidade de ouvir a única lei do mundo: "só me interessa o que não é meu"? Oswald sacou tudo. Outro de uma atualidade soberba é Glauber Rocha da "estética do sonho". Brizola já dizia: "querem liquidar os nossos sonhos", mas não podemos deixar. Sou uma tropicalista irremediável, ainda tenho esperanças. Obrigada por passar aqui e seja muito bem- vindo. Um abraço.
Felipe, querido,
a esqueda libidinosa realmente é um modo de vida ;-)
E o sequestro está aí mesmo, em quererem separar o que está, desde sempre, junto, com o outro. Zé Celso é imbatível, era o homem que deveria ser presidente desse país.
Sim, a tecnocracia e os burocratas de plantão querem acabar com a sensibilidade. Mas é em vão. Ali onde eles tentam nos iludir, um outro regime de verdade se sobrepõe com toda força (vide os TTs do tuíter). O consenso é quebrado aos poucos, até que possamos deixá-lo sem as pernas. É para lá que, espero, estamos caminhando. E vai ter que ser com Dilma, mas Marina volta em 2014. Queiram os burocratas, ou não.
Um beijo grande e obrigada por esse comentário bonito.
Flávia,
preciso, antes de mais nada, confessar que engrossei o coro daqueles que vc chama de “dilmistas ferozes”. Muito por ingenuidade, muito por simplesmente querer evitar a possibilidade de retorno a um governo tucano, e também por motivos pessoais, de convívio, que fazem este segundo turno ser motivo de grandes transtornos emocionais. Reconheço em mim o autoritarismo e a intolerância que vc denuncia, sempre. Critiquei o voto em Marina, sobretudo pela ênfase naquilo que me parecia um motivo meramente estético, que sobrevalorizava o aspecto simbólico e me parecia pouco prático. Desde o início defendi o voto em Dilma, por entender que o governo que se tem hoje não poderia ser apenas um intervalo, e acreditando que todas as críticas ao que não foi feito encontravam melhor acolhimento na oportunidade de que isso que se tem hoje continuasse, para terminar o que parece ainda inconcluso. Mas, seu texto me deixou do jeito que a esquerda libidinosa gosta: de quatro. Entendo que a polarização contribui para extinção da diferença, acirra os ânimos e reduz as possibilidades de afirmação da identidade. Mas ainda não consegui equacionar, em mim, um bom termo, tolerante, de convívio com os intolerantes. E sei que assim acabo por me igualar àquilo que eu mais abomino. Como não fazê-lo? É o que tenho me perguntado. O segundo turno piorou as coisas, baixou o nível, e só valeu mesmo até aqui pelo evento “Cultura pró-Dilma” e por esse texto, fabuloso, q vc escreveu. Tenho aprendido muito por aqui. Você, e porque não a Dilma e a Marina também, me fazem lembrar de um belo texto do Nietzsche que diz que a verdade é uma mulher e que os filósofos, dogmáticos, nada entendem de mulheres. Ser pela diferença passa necessariamente pela possibilidade de questionar o valor dos argumentos ditos “de autoridade”. Eis o papel da internet, na pluralização das fontes de informação e de opinião. Eis o papel desse seu espaço, tão particular, e, pra mim tão novo. Seu olhar, e o das pessoas que aqui freqüentam, têm sido um contraponto que me faz melhor, que me faz pensar para além de um pragmatismo que é, de fato, muito limitado. Obrigado.
Flávia,
quando leio algo como o seu texto aqui no blog, recordo (em todo o sentido cardíaco do termo) porque escrever um texto é tão importante. Não se trata simplesmente de escrever. Nunca só se escreve. A palavra, como meio, segundo nos dizia o Emanuele Coccia no lindo livro sobre "A vida sensível", é sempre mais do que letra morta em preto sobre papel branco. O texto - e para além da breguice do "prazer do texto" - é uma bomba: pode acabar com o nosso dia, mas também pode valer por uma vida inteira a ponto de podermos pensar "como é bom estar vivo pra ler isso". É uma estratégia de intensidades - e não há melhor pessoa pra lidar com as intensidades do que vc! Sendo uma estratégia de intensidades, é o nosso corpo que entra na roda. E não há nada mais libertador e mais desejoso do que sentir o corpo, as entranhas se mexendo, a pele suando, os pelos se eriçando! Isso é política e política tropicalista (tropical tudo bem, mas também cheia de tropos, imagens que incidem nos corpos de um modo bem diferente daquele adotado pelo espetáculo). O texto é político ainda mais porque imagino - nem precisaria, basta ver os comentários acima - que não fui o único a sentir essa onda sinestésica passando pela carne e fazendo com que meus dedos saiam da letargia costumeira para escrever aqui. Obrigado, infinitamente!
Mil beijos,
Di.
Thiago,
você não imagina quanta alegria o seu comentário me proporcionou.
As eleições acirram os ânimos mesmo. É quase normal as pessoas tornarem-se intolerantes. Mas você não me parece, assim, um intolerante... =)
A intolerância não deixa de ser uma marca de paixão. O problema é que, às vezes, machuca. E bastante. A tolerância, por outro lado, tem seus limites: como tolerar a intolerância, afinal? Acho que estar aberto ao diálogo é importante. Julgar menos, ouvir mais. Produzir diferenças ao invés de tentar o consenso. O que mais me irritou nessas eleições é que tinha gente que nem queria que elas acontecessem. E mais, são essas pessoas que defendem um "governo democrático". Depois disso, não entendi mais nada.
Mas, como sou uma pessoa que alimenta esperanças para não enlouquecer, acho que tudo isso pode mudar. Por isso acredito em uma política de afetos. Ela surge assim, nesses encontros ao acaso que rendem frutos.
Enfim, seu comentário me deixou muito contente. Saiba que o carinho é recíproco. Apareça sempre =) Um abraço.
Di, querido,
que coisa mais bonita. Fico feliz assim, enorme!
As ondas sinestésicas se movimentam: vão daqui para aí e daí para cá. Assim são as intensidades =)
Um beijo.
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