
"Two Castro Couples -- Love, sweet love" de Crawford Barton
Apresentada a mim pelo sweet Fabiano Camilo
Apresentada a mim pelo sweet Fabiano Camilo
A.S.1: Este texto não defende nenhuma candidatura, mas a causa do casamento igualitário.
A.S.2: Embora a Dilma tenha assinado aquela mensagem odiosa e repugnante ao povo de deus (fuck them all) sim, ela continua sendo a melhor opção porque (ainda) acredito que ela escutará essa demanda. E também, né? Não posso visualizar o Serra debatendo esse assunto porque não acredito que ele pense na importância de um beijo de língua salivento e delicioso sob a luz do luar (ou solar, tanto faz) para quem quiser ver.
Dito isso e visto que o capeta me espera com o tridente afiado no inferno graças a deus, vamos à defesa:
E começo dizendo que não sou uma ardorosa defensora do matrimônio. Tampouco acho essa instituição sagrada, assim como não penso que a família não deve ser afrontada, sou panfletária do Kaos seguindo o mestre Mautner. Mas depois de acompanhar por horas a fio a votação no Senado argentino que decidiu pela aprovação do matrimônio igualitário, eu entendi o peso desse termo.
María Eugenia Estenssoro, senadora argentina, significou precisamente o que representava a aprovação da Lei do matrimônio igualitário: trata-se de deixar de viver em guetos. É isso o mais bonito da condição igualitária: superar o discurso da tolerância. A união civil é um sinal de que se tolera que pessoas do mesmo sexo mantenham uma sólida relação comprovada por um contrato comercial que garante direitos econômicos. Ou seja, se der merda, o(a) parceiro(a) não ficará na mão. Tudo bem que o casamento não seja uma coisa muito diferente. Entretanto, no caso da união civil se garante os direitos por uma exceção, se diferencia porque o entende como uma exceção.
E, claro, não podemos descartar a mágica do momento tão esperado. Enquanto um casal heterossexual dirá: "quer casar comigo?", o homossexual dirá: "quer se unir civilmente a mim?" Pô, isso acaba com qualquer lua de mel... E não adianta argumentar que basta aos interessados substituírem o termo união civil por casamento. Já basta a fantasia de inúmeros casais que sonham em andar de mãos dadas em um passeio no parque ou simplesmente trocar um carinho ou dar aquele beijo cinematográfico sem se sentirem em um zoológico. Se é para mudar simbolicamente que se mude a palavra e diga: CASAMENTO. Com todas as letras. Se é a lei que garante igualdade, que "assim seja", e diga-se: CASAMENTO.
Os três candidatos mais votados no primeiro turno insistem idiotamente em dizer que são a favor da união civil, mas não do casamento porque o casamento é religioso. E todos estamos cansados de saber que o casamento não é religioso. Precisa da constituição? Então tá, lá diz no Art. 226: § 1º - O casamento é civil e gratuita a celebração. A razão da ausência de perguntas dos jornalistas sobre essa contradição não consigo justificar. Mas gostaria muito de saber.
O que não posso deixar de pensar é que os candidatos se recusam a dizer CASAMENTO porque não querem confundir o eleitorado (não me permito a crença no desconhecimento da Constituição por parte dos três candidatos). E esse fato torna tudo muito pior porque ao invés de esclarecerem o assunto de uma vez por todas, só levam água para o moinho do obscurantismo*. Prova de que a política mais do que nas ações, realiza-se na linguagem. Uma coisa pode, outra não pode. Homossexuais podem fazer o que quiserem dentro de casa, mas fora não. Porque deus vai castigar. (Salve Freud que livrou-nos do mal, amém).
Cristina Kirchner estava na China quando convocou os jornalistas para se manifestar a favor do matrimônio igualitário porque sabia que em pouco tempo esse debate seria anacrônico. Cristina encorajou o debate, centenas de religiosos se manifestaram contra, mas mesmo assim ela bancou e mais, levou dois senadores que teoricamente votariam contra para a China junto com ela. Jogo sujo? Não mesmo! Se os parlamentares acham que ir para a China comprar porcelana é mais importante que votar uma lei no Senado, sorte a da Argentina.
Aos que se acham mais realistas que o rei e dizem ser contra o casamento gay ou hetero, saibam que fazem parte de uma nova geração, a anarco-capitalista. Uma geração fascista travestida de anarquista que nem sequer brigou pela universalização dos direitos e quer aboli-los. Foi Daniel Link, el muso, que disse isso e endosso sua formulação.
A presidenta ou o presidente eleito não tem a obrigação de encaminhar ao congresso um projeto de lei a favor do casamento gay ou da descriminalização do aborto. O lamentável é ver ambos se comprometendo a NÃO fazê-lo de antemão. É triste, mas é o que temos. Para mim, pelo menos por enquanto, bastaria que eles parassem de dizer união civil e dissessem: CASAMENTO. Tem diferença, uma sutil diferença na linguagem, que pode fazer toda a diferença em um país que deixa morrer milhares de homossexuais por conta do ódio que não quer combater, porque recusa-se a dizer CASAMENTO.
*e dizer que foi Marina quem levou o debate para esses termos é falso. A posição dela é odiosa e burra como a do Serra e Dilma. Dele, já disse, espero o pior. Mas Dilma, ainda no primeiro turno, assinou uma carta dizendo que não encaminharia nenhum projeto de lei para o congresso que dissesse respeito ao aborto, ao casamento gay, e todos os temas "polêmicos".


Excelente esse seu texto sobre a questão do CASAMENTO homossexual.
Por mais que a pessoa não acerdite nesta falida instituição - eu sou um deles - e que hoje eu conheça gente mais interessada no dia da festa que no casamento para o resto da vida, entendo que essa palavra ainda carrega um senso de completude social, de rito de passagem. É absurdo que um ritual tão valorizado pela sociedade seja possível somente entre aqueles homens e mulheres que resolvem fazê-lo, e não entre dois homens ou duas mulheres.
Ao apoiar a "união civil", os três candidatos endossam a hipocrisia e a crueldade perpetrada por essa dita "maravilhosa" sociedade, esquecendo de ver exatamente isso que você falou, que vivemos num Estado laico e o casamento é civil.
Um dos problemas dessa questão é que muitos espalham por ai que a permissão do casamento homossexual faria com que as igrejas fossem obrigadas a celebrar tais matrimônios, o que é um absurdo, porque, mais uma vez, lembremos que o casamento é CIVIL.
Acredito que o Serra deva até ser a favor do casamento mesmo, mas o seu eleitorado não é. A abordagem fascisto-religiosa desse assunto é umas das coisas que me faz votar em Dilma. Confesso que não é somente a figura do Serra que me causa repugnância, mas principalmente parte do seu eleitorado, a fedida classe média alienada, que torra rios de dinheiro em casamentos extravagantes e poda o direito legítimo de gays e lésbicas de torrar os mesmos rios de dinheiro.
Oi, Flávia. Excelente texto, como sempre. A importância do significante, no caso, é crucial. Entretanto, parece que nenhum dos dois presedenciáveis deve colocá-lo em vias de fato, né? Eu fiquei bastante instigado com o termo do Daniel Link, ele desenvolve isso em algum livro ou só nas conversas?
um abraço!
Oi, meu queridão!!!
sabe que eu acho que o Serra e a Dilma, pessoas inteligentes que parecem ser, são a favor da descriminalização do aborto, favoráveis aos casamento gay, etc. O que me incomoda é usarem o discurso para manobrar a massa. Aí é brincadeira, né? É ridículo que o casamento se reduza a um espaço de exceção. Resta celebrar a Argentina que está a mil anos na nossa frente. Obrigada, Batata (num consigo chamar de Raphael). Um beijão com saudades.
Querido João,
a formulação é do Link em relação ao casamento igualitário. O anarco-capitalismo é uma crítica ao Estado, uma categoria da filosofia política elaborada pelos americanos. É uma ampliação dos poderes para além do Estado osso duro de roer. Merci. Um beijo!
Oi, Flávia!!! O texto é emocionante e faz o coração palpitar de alegria!!! Mais do que isso: ele me emociona tanto a ponto de me lembrar de que estou vivo, não que continuo vivo, mas que ESTOU vivo. Sim, tudo bem que se possa constantemente sentir as entranhas vivendo e impulsionando-se ao mundo, mas ler algo como o que vc nos apresentou hoje é como sentir o corpo em dobro, com mais ar. Com o ar de quem tem a chance de pensar um mundo que não seja apenas zoologia do exotismo ou matéria barata para manter "nichos" (guetos) de consumo. Esse texto consente a vida, consente o instante, consente mais ainda que a palavra não é apenas "flatus vocis". A palavra, em si, abstratamente considerada até pode ser mesmo "fatus vocis". Mas enquanto um homem usar a linguagem para traduzir a corrente e o movimento dos pensamentos que excitam a medula e eriçam os pelos do corpo, a palavra sempre poderá ser algo mais - e muito mais: decisiva -, porque é relacional, contextual por excelência. Ou seja: estratégia que lida justamente com uma possibilidade de vida. Além disso, vc me fez lembrar algo que me parece uma perversidade em dobro nessa sistemática obliteração do CASAMENTO gay. Há alguns anos, ouvi a frase odiosa de um professor que dizia "odeio os Estados Unidos, mas fico feliz por um aspecto: são todos gays e gays não se reproduzem". Algo dessa frase, talvez como outro lado da moeda, aparece quando os gays são considerados como focos de um valiosíssimo e promissor mercado de consumo. Segundo essa lógica, como "gays não se reproduzem", eles podem gastar todo o seu dinheiro com viagens, roupas, perfumes, restaurantes, seja lá o que for. Mas nesse ponto um beijo entre pessoas do mesmo sexo nunca é um beijo, uma demonstração de carinho, uma explosão de afeto, de desejo, é tão somente um-beijo-de-homem-com-homem-na-balada-tal ou um-beijo-de-mulher-com-mulher-na-balada-tal (quando também não incluem nessa série o horário e o dia do beijo, indicando bem diretamente a possibilidade do caráter inquisitivo e policialesco da observação).
Concordo plenamente que a política se realize na linguagem. E, se já não se pode simplesmente borrar do mapa um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo porque seria voltar as costas para um mercado valioso, o aspecto reacionário se apresenta de modo ainda mais odioso ao tirar do vocabulário dos gays a palavra CASAMENTO. Se podem fazer parte da sociedade de consumo como "nicho", ao dizer-se que eles podem "unir-se civilmente", a lógica de direcionamento - e controle - se mantém a mesma. Tanto em uma como a outra, trata-se de manter o exotismo do ser qualificado de antemão. Seja na perversidade da nomenclatura mercantil, seja no reacionarismo hipócrita das categorias cinzentas do direito, o gay já está enfiado num armário. E desse é bem mais difícil de sair... Sem palavras, a política não vinga. Quando vc usa a palavra CASAMENTO em letras garrafais, vc permite que qualquer gay possa abrir a porta do armário das qualificações para sentir seu corpo palpitando assim como o meu está agora.
Um beijão do seu amigo,
Diego.
Didididididi,
taí, a palavra pode ser uma flatulência e causa mal-estar no ambiente inteiro ;-) Porque mexe, justamente, com o sensível. A frase do professor é emblemática: é a prova de que querem esterelizar o corpo. Custe o que custar. Custem os direitos, custem os prazeres, custem as próprias vidas. O problema é que esse discurso sai da "direita" e contamina a "esquerda" que caiu que nem patinho no conto do fundamentalismo. A política tem que se realizar na linguagem para poder tomar o corpo. É claro que já toma e se fossemos sucumbir às determinações estaríamos todos NÃO fodidos. Enquanto isso, resistimos bravamente. É uma pena você não estar aqui para o levante da esquerda libidinosa (rs). É um movimento que levará Zé Celso a presidência do país. Mas quando você voltar será muito bem vindo à luta. Um beijo e obrigada pelo carinho.
Lindo, Flavia. Fez cair uma ficha enorme pra mim, eu realmente não entendia qual a importância política do significante casamento nessa discussão. Claro que, desde que ouvi a notícia, fiquei orgulhosíssima da "rainha" pelas outras questões que a lei aprovada envolvia, como a adoção, por exemplo. Mas só agora, com esse seu texto, fez sentido porque deve ser casamento e não apenas união civil... e é tão óbvio, né? Obrigada por, mais uma vez, clarear tudo aqui. Beijo grande
A "curtida" que o Diego deu no seu post através do Facebook me jogou aqui, olha só! nem tudo está perdido no Facepetaculum.
Quanto ao post, acho que você pega levemente pesado com a Dilminha. Afinal, você sabe que ela tá numa sinuca de bico porque tão querendo pregar que ela é do capeeeeta.
AAAAAh! Também quero "levantar" nessa esquerda libidinosa!!! Ainda mais com o Zé Celso na presidência!!! Apoio completamente com todo o tesão de meu corpo!!! E tenho dito!!!
PS: em clima de eleições, vale a pena lembrar um acontecimento (e não importa que seja simples lenda) que eu gostaria muito de ter visto. Na cerimônia em que o FHC ganhou o prêmio de intelectual do ano, o Roberto Piva também estava presente. Parece que lá pelas tantas, no meio da comemoração, o Roberto Piva virou ou subiu numa mesa e gritou em alto e bom som "Se o Fernando Henrique é o intelectual do ano eu sou o intelectual do ânus!". Tá aí o bom uso da paronomásia! Rs.
Yes, I do.
Ana, querida:
um significante nunca é só um significante. Ele pode mover montanhas ;-)
Que bom que você gostou. Fico feliz. Beijo
Giorgio,
que bom te ver por aqui. Não pego pesado com a Dilma, foi ela quem pegou. Antes mesmo de a vincularem com o capeta elajá se comprometeu a não mover uma pena. Lançaram a isca evangélica e ela mordeu. Uma pena, mas claro acredito muito mais nela que no Serra, enfim isso nem é uma justificativa razoável porque né? o Serra... Um beijo.
Di,
a lembrança do Piva é perfeita! Aguardamos seu retorno para compor o levante. Beijos
Ana,
do it! Beijo
Estou sem paciência para ler. Mas o pouco que liz, você diz "sou defensora do caos". Sinto que você é defensora da harmonia, pois quem combate os valores atuais está combatendo o caos. Vivemos no momento um grande caos, as pessoas estão lutando contra isto, são guerreiros de outra forma de ser, talvez harmonia, sei lá e isto existe, se não é fruto da mente coletiva doente. As energias estão sempre em conflito, mas o fluxo de energia atual de nossa cultura é uma merda...
José,
compreendo que você não tenha paciência para ler. Obrigada por achar que sou a favor da harmonia e não do caos. É que o Kaos ali é com K, como o de Jorge Mautner, mas ele quer mesmo é a harmonia das diferenças. Então, mesmo sem ler, você sacou tudo. Um abraço.
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