Para Ana Carolina Cernicchiaro
Hoje li uma entrevista que Marina Silva concedeu ao Estadão. Foi uma das coisas mais lindas que li e me fez pensar um pouco. A conclusão que eu cheguei é que, definitivamente, o mundo é feito de intensidades. Essa é a minha leitura da "nova política" proposta por Marina Silva. E essa política, como todas as outras, passa pelo outro, atravessa o corpo do outro; e é por isso que ela exige de nós uma ética. Uma ética que pressuponha um amor pelo mundo, uma reconciliação com a natureza. Assim, ela nos pede para abandonar a perspectiva antropocêntrica tão imperativa e para ver no ambientalismo não um discurso vazio e fora de nós, mas um discurso da diferença que constitui o mundo. Como ensina Eduardo Viveiros de Castro o "ambientalismo talvez proponha uma internalização da natureza, uma nova imanência e um novo materialismo - a convicção de que a natureza não pode ser o nome do que está 'fora daqui', porque não existe dentro, nem fora". Essa nova imanência que pressupõe a diferença como motor de funcionamento não é uma proposta de equilíbrio, mas de uma dança. Agamben disse que um dia, talvez, os homens parem de caminhar e passem a dançar. E esse não é desejo banal: a dança é uma metáfora do pensamento, já disse Badiou. Ela é a máxima expressão de que o corpo é capaz. Ela sustenta, e não esgota, as possibilidades no ato de sua execução. Ou ainda, a dança é a maneira de entender um corpo como meio sem fim, como um gesto, ou seja, um corpo sem destino, sem finalidade, uma intensidade pura.
[Hélio Oiticica - que se fosse candidato a presidência ganharia o meu voto - em uma das suas instalações (que não me lembro agora exatamente qual era, se o mundo-abrigo ou o Barracão) propunha uma comunidade do corpo em dança: "sonho não mais de comunidade piritamizada, castificada mas COMUNIDADE DO CORPO EM DANÇA" (as maiúsculas são dele, mantive).]
Talvez uma das maneiras de concretizar essa política de intensidades, que como disse exige de nós uma postura ética diante do outro, seja o amor pelo mundo. Esse amor é o mesmo amor que Deleuze encontrou no conceito de beatitude de Spinoza. Um amor que faz entender o ser como ser-com, eu existo aqui com você, com o outro. Em todo o lugar em que eu estiver estarei com você e com o mundo mais do que no mundo. O amor não é aceitar a diferença, porque a diferença está dada. Amar é estar-com a diferença (por isso não existe dentro ou fora) de modo que poderíamos dizer: temos esse amor-mundi latente, mas não é ele quem mobiliza a política nesse exato momento. Porque o amor que move a política das intensidades é diferente do amor cristão. Ou seja, não se trata de amar o outro como a si mesmo ou de dar a outra face para bater. O amor é feito de suor, fluidos, contatos e intensidades, é feito da nossa capacidade de afeto, por isso ele não pode ser uma lei. O amor é um acontecimento, um encontro em que as forças corporais, as forças do pensamento e da imaginação, unem-se em um afeto ativo.


As mil faces de José Serra:
http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2010/10/478664.shtml
À minha muito querida amiga Flavia,
“Cristãos ou ateus, em nossa universal esquizofrenia precisamos de razões para crer neste mundo” (...) “acreditar na vinculação do homem e do mundo, no amor ou na vida, acreditar nisso como no impossível, no impensável, que, no entanto, só pode ser pensado: ‘algo possível, senão sufoco’” - Deleuze
Em primeiro lugar, gostaria de reiterar aquilo que já lhe disse por email, o quão lindo, amoroso e intenso é seu texto e o quão comovida fiquei com essa carinhosa dedicatória. Em segundo, gostaria de dizer que concordo em gênero, número e grau com tudo, ou melhor, quase tudo o que você disse. E é justamente no quase, na quasidade, que me aterei mais demoradamente, porque, afinal, sobre o todo não há maneira melhor de dizer do que a sua, e porque, assim como você, eu adoro polemizar.
Perfeita sua análise do que significa pensar o ambientalismo e de como isso envolve o outro de uma maneira muito mais extensa do que admite o discurso anti-Marina e o pró-Marina oportunista de Serra, que tenta reduzir o discurso ecológico a um refresco de consciência tão típico do capitalismo e tão bem representado no 3º setor (da mesma maneira que faz com o assistencialismo - aliás, eu acho as classes média-alta e alta engraçadíssimas porque desprezam o bolsa-família por ser assistencialista, mas adoram entregar presentinhos de Natal nos orfanatos). E é nisso que eu acho que você acertou em cheio ao mostrar que pensar o meio-ambiente é pensar o outro, a alteridade em sua diferença, sem reducionismo ou domesticação. O oposto de ambientalismo é antropocentrismo, mas também mesmidade, ipseidade, enfim, é o que nos leva à perseverança no ser, que, como diz Levinas, é a raiz de todo mal (máxima que eu amo e não me canso de repetir).
O antropocentrismo é aquilo que não admite o ser-com e tenta pensar o ser pelo ser, enquanto o ambientalismo é a expressão dessa política de intensidades que você tão bem explicou. É claro que Marina não é nenhuma salvadora-da-pátria, nenhum messias e nem mesmo um Antonio Conselheiro, mas encarna (ou tenta, porque a decisão ética diante do outro é sempre uma tentativa e é sempre constante, nunca está consolidada) muito bem essa política de amor pelo mundo e com o mundo.
Mas falemos do ponto em que eu discordo porque ele é longo, e meu comentário já está ficando gigante. O que eu defendo, diferentemente de você e de todos os teóricos que eu admiro muito (que pretensão, mas, poxa, os textos estão no mundo pra isso), é que o conceito de beatitude de Spinoza, “o amor que faz entender o ser como ser-com, eu existo aqui com você, com o outro” não é diferente do amor cristão, porque o amor cristão também está pautado, independente de tudo o que a igreja tentou fazer com ele (inclusive matá-lo), pelo desejo. Isso porque, quando Jesus diz que o amor é o único mandamento, a única lei, não está transformando o amor numa lei, mas mostrando a impossibilidade da lei; substituir a lei pela lei do amor é o mesmo que abolir a lei, afinal, as duas coisas, você mesma mostrou, são incompatíveis. E, se o líder político, como diz Marina na lindíssima entrevista que você cita, deve liderar pelo exemplo, a vida de Jesus é a exemplificação deste mandamento-anti-mandamento, no sentido de que o amor cristão, como todo amor, é entrega, pura entrega ao outro. E agora vou ter que entrar numa esfera que não domino muito bem, me corrija se eu estiver errada, mas em meu analfabetismo psicanalítico posso apenas intuir que essa entrega só pode se dar na esfera do desejo, porque toda decisão ética (e o amor é a maior delas) só pode se dar pelo desejo. E, assim como decisão ética e lei moral não se coadunam, também desejo e lei, me parece, não combinam.
Daí que muitos pensem, inclusive eu, que Jesus tenha sido, senão o primeiro, o principal utópico da história ocidental. Utópico no sentido de Barthes, para quem a utopia se dá no campo do desejo e a política no da necessidade - por isso estão necessariamente imbricadas, para que a utopia não se torne pura abstração e a política fascismo. Talvez a dissociação desses dois pontos seja o que melhor explica os dois movimentos hegemônicos da política atual: impolítica e bio/tanatopolítica (que descambam no mesmo lugar, nas intervenções humanitárias). Talvez explique também a necessidade de uma política de intensidades, de uma política utópica do amor, que não é nem pura política, nem pura utopia, que não está nem na pura necessidade, nem no puro desejo, mas na prática da decisão ética.
Mas voltemos à utopia cristã e ao exemplo de Jesus (a palavra exemplo pode ter conotações terríveis, mas a uso no sentido restrito que Marina deu a ela e que aceito como uma bela ressignificação). O amor não pode ser lei porque é entrega, desejo de entrega, utopia, aquilo que não tem lugar, ou que tem todos (que se dá por espaçamento), que é pura abolição do lugar enquanto identidade, enquanto lei, enquanto moral. Essa entrega é a decisão ética (desvinculada de qualquer obrigação) de assumir a incompletude do ser, de questionar o próprio ser enquanto coisa separada, (bem) formada, isolada. Por isso a figura da triunidade é, para mim, o mais importante e o mais revoltantemente esquecido da cosmogonia ocidental (se tornou um rito esvaziado). Três pessoas que são uma só, que se reúnem no amor (Deus é amor é uma das frases mais repetidas na Bíblia) e que estão em todas as pessoas é a própria representação do ser-com, do estar-junto no mundo, pelo mundo e com o mundo. Neste sentido, amar ao outro como a si mesmo é admitir que somos seres-uns-com-os-outros, que a existência é sempre ex-istência. Só há amor pelo outro quando ele é igual ao que se tem por si mesmo, porque não há um ser de onde o amor parte e um ser para onde o amor chega, é sempre dança (para lembrar a bela imagem que você usa).
Também por isso é que não se pode se conformar com o mundo (outro preceito do Novo Testamento), porque dar a outra face, não é cruzar os braços, mas transformar com amor - e não com fechamento em si, que é a resposta do ódio (o que é o ódio se não o cúmulo do narcisismo?). Dar a outra face é transformar o mundo com toda a intensidade que o amor pode nos dispor, porque é só nesta explosão de desejo do amor, que seremos verdadeiramente intensos.
O amor (inclusive o cristão) é a própria decisão ética perante o outro. Já somos confrontados com o outro desde sempre e a todo momento, já somos ser-com. O que não está dado, o que nos exige uma resposta é sentirmos este toque do outro, é vivermos como ser-com, admitirmos o contato, e amar este entre, este hífen, este estar-juntos, este nós. Daí que, ao fim e ao cabo, só podemos amar o outro como a nós mesmos, porque só existe um eu com o outro e porque no fundo não há nem eu, nem o outro, mas nós... E o único amor possível é o amor a este nós.
Com amor,
Ana
Ana, querida:
esse texto não podia ser para mais ninguém, só para você e por nossa intermináveis e deliciosas discussões que me fizeram pensar tanto.
Então, precisas são as suas análises do aproveitamento do discurso ambiental como se ele fosse exterior a nós. Eu amei demais isso no texto do Viveiros.
Então, vamos ao amor cristão, deuzmeajude!
Você sabe, não vou ser maldosa, que Deleuze fala mais ou menos isso. Entretanto, ele defende um deus ateu em Spinoza. Mas vou colar aqui o que ele diz: "se é verdade que, do ponto de vista das relações que regem as partes extensas de um corpo ou de uma alma, as partes extensivas, nem todos os corpos convém uns aos outros, todos eles serão concebidos como convenientes uns aos outros se vocês chegarem a um mundo de puras intensidades. Nesse momento, o amor que vocês têm por si mesmos é ao mesmo tempo, como diz Spinoza, o amor às outras coisas, é ao mesmo tempo o amor de Deus, é o amor que Deus tem por si mesmo, etc." É um tanto extenso e complexo, mas vou tentar resumir: o amor de Spinoza seria diferente do "amor cristão" porque é um amor à humanidade. Na vida, aqui e agora, enquanto o amor cristão nos chantageia dizendo que se amarmos uns aos outros ganharemos nosso lugar no céu. A felicidade está sempre mais além daqui. E esse pacote cristão, não dá. Sim, entendo o que você diz: que o amor seria um estado de exceção permanente desejado por Benjamin, mas de qualquer modo é uma lei, um mandamento e é claro que o amor que falo aqui não implica em doses de doçura para o mundo inteiro. É simplesmente um postura ética para com ele. Não significa que eu deixei de odiar meia dúzia e que se o Serra ganhar a presidência da República eu estarei torcendo por ele, para que ele melhore, etc. Amar o mundo, significa também tomar posições e não se entregar ao outro. Não significa que a guerra vai acabar, se as forças se diluirem na entrega ao outro, não teremos mais política. E, claro, Freud já explicava que essa bondade que só não é congênita porque tem o batismo é coisa da Igreja.
Quanto a política utópica do amor: não vejo nada de utópico ou distante, Ana. Não é um mundo encantado esse das intensidades. É, como diz Deleuze, quase uma conveniência com o outro. E não deixa de ter afetos, efeitos, bons e maus encontros. A utopia da Marina é fazer valer o sonho e abandonar o pragmatismo. É menos utopia e muito mais desejo, de carne e osso. Psicanaliticamente falando: só há amor a si mesmo. Ninguém foge completamente do narcisismo (o amor é cúmulo do narcisismo). Trata-se de abrir esse amor ao outro. Quanto a dar a outra face: acho que aí temos que pensar o limite da tolerância. Eu não vou dar, já falamos mil vezes (né?), minha outra face para um neonazista bater. A minha decisão ética perante ele implica a minha decisão ética perante aos que ele fez ou fará sofrer. É desse lado que vou ficar, é esse amor ao mundo que quero dar. Então, assim, meu amor é ateu, e tem ódio também. Sou uma leitora irremediável de Freud.
Bem acho que era isso. Mas saiba, o meu amor ao mundo implica você.
Um beijo! (e que bom tê-la por aqui!!!)
Flávia, querida,
É muito bom estar aqui também. Fiquei super feliz em ver que nossas discussões, sempre muito prazerosas, ganharam mais um espaço (assim o povo do seminário não precisa mais agüentar nossos arranca-rabo infindos... hehe). Mas continuemos o debate, que é a parte mais divertida:
Deleuze pode até ler um amor ateu em Spinoza (não tenho problema nenhum com as inversões, desconstruções, leituras, enfim... você sabe disso), mas ele não pode dizer que o que Spinoza prega é um deus ateu, sendo que, em sua “Ética”, Spinoza parte da idéia de que “ou não existe nada ou um ente absolutamente infinito também existe necessariamente”...
Mas essa não é a questão, não tenho cacife pra discutir Spinoza e nem é disso que eu quero falar, o que eu quero defender é que o amor cristão não é diferente deste amor à humanidade de que todos nós (os quatro) estamos falando. Essa chantagem de um lugar no céu em troca do amor aos outros não existe nos evangelhos, não está na Bíblia. E é essa a briga da Reforma, é isso que Lutero está tentando dizer com suas 95 teses (que dia 31 comemoram aniversário, por sinal). A idéia de graça (em oposição à de obra) é justamente a de que ninguém vai ganhar lugar no céu pelo que faz nessa vida, não há troca, não há mercantilização possível, muito menos chantagem.
A gente ama nessa vida, para essa vida, para os que estão nela aqui e agora. Também por isso, o amor não é um estado de exceção, mas uma tentativa constante (nesta vida), uma busca infinda (terrestre), uma decisão ética (de vivos e não de mortos), um pensamento que é uma prática, uma política (de intensidades...).
Não quis dizer utópico no sentido de distante, pelo contrário, essa decisão ética se dá no presente, a cada instante. É utópico apenas no sentido de que se dá no desejo e não na necessidade (o sentido barthesiano a que me referi), como aquilo que não é obrigatório, que não é lei (“se há regras (...) basta saber quais são as normas e proceder à sua aplicação, e assim não há mais decisão ética”, cito Derrida só pra te provocar); mas também como aquilo que não marca território, identidade (que não escolhe ou acolhe classificações), que não se dá em lugar nenhum propriamente dito, mas em todos. Neste sentido seria uma heterotopia (para usar um termo de Rancière), e não um mundo encantado.
Quando você diz “a utopia da Marina é fazer valer o sonho e abandonar o pragmatismo”, era isso que eu estava tentando dizer, uma utopia de carne e osso que nem por isso deixa de ser utopia, porque está longe de ter lugar neste mundo (por isso é utopia), não está naturalizada (porque é o capitalismo o que está naturalizado), precisa ser inventada, ganhar lugar, mas não um lugar único (topia), antes todos os lugares (heterotopia).
Vou tentar simplificar: o estar-com é fato, somos ser-com e pronto (você me ensinou, lembra?), mas aceitarmos sermos ser-com, amar o mundo, amar este nós que somos com o outro, isto não está dado, isto é muito diferente do pensamento dominante.
Neste sentido é que concordo plenamente que amar o mundo significa tomar posições, foi isso que eu quis dizer quando falei em transformá-lo, em não se conformar a ele. E aí eu volto à questão da outra face: para mim, não significa concordar, ficar quieto, deixar o neonazista espancar uma pessoa; significa, no entanto, não agir da mesma maneira, com ira, desprezo ou raiva, não julgar pelo ódio, mas pela justiça tanto em relação àquele que faz sofrer quanto em relação àqueles que sofrem. Agir com ética é sempre agir pelo amor e nunca pelo ódio (ainda que o ódio ao assassino exista, não é por ele que se age, mas pelo amor à vítima), porque não se está guiando pelo amor próprio, mas pelo amor pelo outro, pelo mundo.
Você sabe que “psicanaliticamente falando” eu sempre terei que ficar quieta, mas, desculpe minha ignorância, dizer que só há amor a si mesmo (que o amor é narcisismo), quando o si mesmo é sempre ser-com, não existe sozinho, isolado do mundo, não faz sentido pra mim. Pra mim, só há amor ao nós, porque só há amor no mundo, com o mundo.
Enfim, para terminar, só queria deixar clara uma coisa, que eu acho que está subentendida e que eu sei que você (porque me conhece) sabe, mas, como eu não sei quem vai ler isso, nunca é demais falar: quando eu digo que este amor não é diferente do amor cristão, não quero dizer que ele pressuponha uma cristianização do amante (Deus me livre tal disparate!), estou dizendo apenas que também o amor cristão, como eu o entendo, parte dessas mesmas premissas...
Ah, outra coisa que não precisa dizer, mas que é sempre gostoso de falar: meu amor ao mundo também implica você, é claro.
Beijos
Ana
Ana,
voltamos a conversar ao vivo? Tenho material bibliográfico para "provar" minha teoria. E estou com saudades. Um beijo
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