Em tudo, em tudo você terá a seu favor o corpo.
O corpo está sempre ao lado da gente.
É o único que, até o fim, não nos abandona.
Clarice Lispector
O corpo está sempre ao lado da gente.
É o único que, até o fim, não nos abandona.
Clarice Lispector
1) A luta pela autonomia sobre o próprio corpo nas décadas de 60 e 70 já anunciava que a biopolítica era irreversível;
2) Depois desse período todo o embate travado contra o poder passou, de maneira mais evidente, pela vida;
3) Agamben disse sabiamente que todo o pensamento que tem como objeto a vida compartilha desse objeto com o poder e deve confrontar-se com as suas estratégias;
4) A estratégia do poder não é outra senão a do controle da sexualidade e do prazer para favorecer a acumulação de capital, portanto não é mero acaso que as pessoas sejam impelidas ao consumo desenfreado;
5) Controla-se a sexualidade através do imperativo de gozo que manda comprar sem que com isso o corpo tenha prazer, ou seja, o investimento libidinal é todo concentrado na mercadoria;
6) A mensagem anestésica que o poder tenta provocar com isso é a de um corpo incapaz de afeto e que só pode ser afetado pela propaganda;
7) O poder se serve dessa afetação pela propaganda para tratar o corpo como um corpo patológico que precisa de medidas de controle ditadas por ele para poder viver;
8) O poder aposta na alienação da consciência para aumentar o seu domínio; mas esquece que a alienação é também a nossa capacidade de se apropriar do imaterial. A alienação sempre nos tira de nós mesmos, ou seja, o corpo não é uma consciência que pode ser modelado na sua totalidade;
9) O poder quer controlar e direcionar nosso desejo, mas desconhece que sempre existirá algo de incontrolável no sujeito. Aquilo que ele nunca poderá sujeitar às suas determinações;
10) É esse incontrolável, esse imponderável, que deve ascender toda vez que o poder vier nos dizer o que fazer com os nossos corpos. O poder é esperto, mas não tem libido. Enquanto ele aposta em uma forma de vida, nós o confrontamos com a força corporal irrefreável. A força do nosso desejo.


Oi Flávia,
Esse post sobre a repressão da sexualidade na sociedade capitalista traz à tona uma discussão muito interessante.
Sobre isso, é sempre bom ler Herbert Marcuse. Uma de suas principais obras, Eros e Civilização, pode ser baixada gratuitamente aqui, se você tiver cadastro no Facebook: http://www.scribd.com/doc/7076260/Herbert-Marcuse-Eros-E-Civilizacao-Texto-IntegralFilosofia-lise
Sobre o aborto, lembro que já na Idade Média a Igreja Católica o condenava. Mas não por uma questão de defesa da vida. Não existia essa preocupação. Mas sim porque o aborto era um sinal de que a mulher havia praticado sexo sem fins de procriação. E o controle do sexo era uma forma de ampliar o poder da Igreja sobre a sociedade. A energia sexual seria canalizada para o trabalho e para a prática religiosa.
Como vemos, a forma como está se debatendo a questão da legalização do aborto é bastante simplista e, obviamente, oportunista e eleitoreira.
Oi, Daniel,
O Marcuse é um autor que eu sempre deixo pra mais tarde, mas acho que chegou a hora de ler. Sobre o aborto é uma brincadeira o jeito que tratam. É triste não reconhecerem justamente que é a repressão do prazer da mulher. Agora como não se canaliza mais a energia para a prática religiosa, né, porque eles meio que desistiram, vai tudo para o trabalho. Sim, oportunista, eleitoreira e desrespeitosa. Um atraso para o Brasil.
Obrigada, Daniel, que bom que você não desistiu do blog. Fico bem feliz =). Um abraço.
Flávia,
me guia aqui. Eu não compreendi o ponto 4. Me parece algo antitético que o impelir ao consumo desenfreado esteja a serviço do acúmulo de capital. Pelo menos em termos webberianos, aquela coisa do puritanismo da disciplina protestante que cria um sujeito disposto ao trabalho e ao refreamento do gozo justo para o acúmulo do produto do trabalho. Acúmulo esse visto como símbolo da boa vontade divina para com o crente, símbolo de sua salvação.
Vou dar um belo de um chute de quem nunca entende nada, mas eu acho que essa instância de controle do sujeito que ordena ao gozo, e é claro que é um gozo alienado em sua significação, deve ter marcado ou ser sinal de uma inflexão no capitalismo, não mais baseado tanto no acúmulo regrado do capital. Sei lá qual é o centro constitutivo desse novo capitalismo, não sei a que serve esse dirigismo do corpo, o Agamben, o Deleuze, o Fucô já devem ter dito, mas eu tenho uma memória tão capenga... Sou típico da morte da experiência que tem nos acometido... =)
Um beijo!
É, Flávia, o chamado Poder é um tema interessante e até divertido.
Quem tem Poder e quer aumentá-lo, confessa que é menos poderoso do que aparenta. Sem contar que para aumentar o seu Poder ele deve "gastar" uma parte desse Poder, o que provavelmente vai apenas deslocar a parcela faltante do Poder (um buraco a ser fechado) para outro lugar do seu mundo fictício.
Mas existe o Poder direto, verdadeiro, que é o Poder de você pegar uma semente (literalmente) e transformá-la, com a ajuda do tempo, e dos deuses gregos, numa árvore frondosa. Exemplo, semente, muda e depois Jacarandá. Ou você pegar uma tela, um pincel e tintas e criar um belo quadro.
E existe o Poder indireto, ao meu ver um falso Poder. É o Poder do indivíduo impotente, provavelmente com pouca coordenação motora, que se auto-aleijou (por medo do fracasso) e agora depende dos outros para obter algum objeto ou realização. É o caso das patéticas figuras dos Poderosos (que nem têm coragem de aparecer) e de seus paus-mandados (Figuras de Proa no sentido original, isto é, depreciativo) tipo Bush ou FHC.
O poderoso que quer tirar o prazer sexual das outras pessoas é um impotente que não consegue, ou já não consegue, alcançar esse prazer. Machista, ao meu ver, e seguindo um modo de explicação de Gregory Bateson, é um que precisa de alguém que finja submissão a ele (isto é, que ele está "acima" desta pessoa, geralmente mulher, e portanto - acha ele - acima de uma parte da Humanidade), e não que lhe dê prazer sexual e outros prazeres mais difusos como o companheirismos e até a divergência saudável. O machista compensa assim, precariamente e insatisfatoriamente, um sentimento que lhe vem "do fundo" e que não é nada lisonjeiro para ele.
Uma vez tive um caseiro "tomando conta" da minha chácara (agora moro nela). Não demorou dois meses para eu perceber que eu não era o dono da chácara, e sim, o caseiro, que ou não obedecia minhas ordens ou só obedecia ordens corriqueiras. A chácara não seguia o meu estilo, mas sim, o estilo dele. O pior é que poucas pessoas percebem isto. Um vizinho meu comprou a chácara para o cachorro dele, um insuportável boxer. Todo fim de semana todos ficam trancados na casa, assistindo TV ou jogando games, e o canídeo passeia pela chácara, tentando expulsar com latidos intermináveis os humanos das casas vizinhas.
Se uma pessoa não consegue mandar no caseiro, você acha que outra (o homem mais poderoso do mundo, que não é, evidentemente, o presidente yanque) consegue mandar em 7 bilhões de pessoas? Alguém acredita que a diferença entre mim e essa criatura é representada pela razão 1/7000000000 ? É claro que um dono de chácara menos sutil não iria manchar a sua auto-estima admitindo a realidade!...
Acho que o Poder, o Grande Poder, é um Castelo de Cartas. Pode desabar a qualquer momento, como já aconteceu antes na História...
Felipe,
não vou te guiar, porque o seu comentário me fez ler a tarde inteira pra ver o que eu poderia responder =)
Quando eu falo da acumulação do capital não estou falando que o capitalismo está centrado na produção, pelo contrário, ele saiu da produção para se concentrar no consumo. Porém, não existe consumo sem produção, e se tem consumo e produção temos os donos dos meios de "produção" (donos do google tb vale) e consequentemente a acumulação de capital (daí a insuficiencia da proposta batailliana do dispêndio). Que, sim, está certo, não é regrada, é difusa e "concentrada" virtualmente nas bolsas de valores. São os anéis da serpente e não os buracos da toupeira como dizia Deleuze. Eu também não sei qual é o centro do capitalismo, mas concordo com o Debord quando ele diz que "o espetaculo é o capital em tal grau de acumulação que se tornou imagem", daí nossa dificuldade de apreender sua acumulação e de compreender a própria apreensão do corpo no meio disso tudo. O Foucault em 1975 disse que o poder penetrou no corpo e que ele encontra-se exposto no próprio corpo... São os imperativos de saúde, de beleza, as regras morais da sexualidade que trazem supostamente "felicidade" e são um inferno.
Não seja tão pessimista, a experiência não morreu. Estamos cheios de bons encontros pela vida (vide nós), essa é a nossa experiencia: fazer durar o que é alegre =)
Um beijo.
Pronto, ta aí a inflexão que eu chutei! Onde é que a Hannah Arendt fala disso? Acho que é quando ela diz que todos somos animal laborans, produzimos para consumir, e o consumo é pura destruição. E o consumo também é o absolutamente necessário, daí essa assujeitação (assujeitamento?) do sujeito com as marcas do corpo. De modo que não se fabrica - fabricar, aquilo que faz durar etc. - mais o mundo, nem se dedica mais à política da ação e do discurso que configuram a tradição da memória e.... Cadê a experiência que tava aqui?! Vixe!
Já que são rápidas as especulações, vou dar meus rápidos pitacos por aqui. Lendo seu decálogo, me veio à memória o conceito deleuze-guattariano de "corpo sem órgãos", onde tudo é traçado e foge ao mesmo tempo; parafraseando-os, o Corpo-sem-órgãos "é não desejo, mas também desejo. Não é uma noção, um conceito, mas antes uma prática, um conjunto de práticas. Ao Corpo sem Órgãos não se chega, não se pode chegar, nunca se acaba de chegar a ele, é um limite. Diz-se: que é isto - 0 CsO - mas já se está sobre ele - arrastando-se como um verme, tateando como um cego ou correndo como um louco, viajante e nômade da estepe. É sobre ele que dormimos, velamos, que lutamos, lutamos e somos vencidos, que procuramos nosso lugar, que descobrimos nossas felicidades inauditas e nossas quedas fabulosas, que penetramos e somos penetrados, que amamos."
Um corpo sem órgãos é um corpo livre de automatismos, ao qual foi devolvida a verdadeira liberdade.
Curiosamente, me lembrei também de Castoriadis, e sua descolonização do imaginário, que "trata justamente de libertar o indivíduo, trazendo-o de volta à singularidade roubada pelas forças normalizadoras e homogeneizadoras que subvertem o pensamento, fazendo-o acreditar nos ideais que o sistema estabalecido propaga."
Desculpe pela deriva, mas ando meio "internacional-situacionista-guy-debordiano" ultimamente...
Valdir,
foi uma interessante comparação. Eu também acho que o poder pode desabar. O problema é que hoje não reconhecemos a cara do poder que vem de maneira até gentil nos adular - as medidas de saúde, de beleza, etc. O Foucault dizia que o poder se metamorfoseia e que temos que perceber suas mudanças, que era preciso aceitar o indefinido da luta. Mas que isso, entretanto, não significava que ele não iria acabar um dia. Bom mesmo, seria se a força de um sopro fizesse ruir o castelo de cartas, né?
Obrigada pelo comentário. Um abração!
Oi, Rafael:
que boas lembranças! É bem por aí mesmo. Descolonizar o imaginário que é construído pelo poder e fazer ascender a imaginação, que é singular e irrefreável. Desnaturalizar a norma é uma tarefa importante, era o que queria Debord com as "denúncias" da sociedade do espetáculo. O problema dele foi querer voltar a um estado original em que tudo era supostamente perfeito. Ainda bem que depois de Debord veio Deleuze e nos mostrou que é preciso trabalhar com o que temos, encarar a homogeinização de frente e para frente.
Obrigada, Rafael. Bem-vindo ao blog e volte sempre. Um abraço.
Felipe:
está aqui, mas já estava lá. Eu quis ser filósofa e escrever mini-teses e agora tenho que me explicar aqui. Bem-feito pra mim! hahaha Falando em Hannah Arendt, Agamben diz que temos que lê-la como uma crítica à modernidade e não como modelo de mundo. A experiência está no encontro, isso é também Hannah Arendt: a política é fazer durar as instituições. Se quisermos chamar as amizades, os encontros, de "instituições" para fazermos política, então, temos que fazê-las durar. A materialidade das coisas está também fora da sua materialidade, na sua alienação; não são só as construções (o que se fabrica) que duram, porque mais do que as construções, as imagens duram. É com a recepção e a projeção de imagens, nessa movimentação infinita de sensível, que temos experiência.
Um beijo!
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