A esquerda progressita e o bonde da história

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Nem ia me manifestar, mas me deu uma ânsia, sabe?

Esse encontro que chamam de "histórico" dos blogueiros com o presidente Lula é, de fato, histórico. O primeiro fato histórico é Lula ter se encontrado com blogueiros reconhecendo que os meios de comunicação e sua capacidade de mobilização também está fora dos meios tradicionais. O que é sensacional.

O segundo fato histórico já foi relatado pela Lola e pela Flávia (Lady Rasta) e, convenhamos, é muito patético. Idelber ontem no seu post sobre a entrevista dizia que o sexismo na seleção dos entrevistadores não era um dado subjetivo do organizador e acrescentou que "na medida em que as mulheres estão sub-representadas num certo conjunto de lideranças jornalísticas na internet (mesmo dentro da esquerda), a assimetria de gênero visível em nossa sociedade se reproduziu na composição do grupo que está agora em Brasília".
 
Entendo o que o Idelber quer dizer, porque se tem homem feminista nesta blogosfera de meu deus o Idelber está no topo da lista, mas quero objetar no seguinte: a ordem das coisas está aí para ser mudada. A sub-representação feminina continuará sendo sub-representação feminina enquanto uma intervenção não for feita. Para acabar com o machismo é preciso ação e intervenção e não apenas mimetizar o ambiente em que se vive. Mas pode-se argumentar: dona Flávia, a senhorita não acha que as mulheres têm que tomar iniciativa? Acho. E elas tomam. Lola e Cynthia, para ficar só nas duas que acompanho mais de perto, fazem isso com maestria. Meu feminismo é diferente do feminismo que ambas defendem, mas é inegável, inquestionável, que elas são capazes de mudar a vida ou pelo menos o ponto de vista das pessoas. Basta, por exemplo, dar uma olhada nos comentários dos posts da Lola. A atuação das duas (repito, das duas porque acompanho mais de perto e sei que são pessoas abertíssimas ao diálogo) nessas eleições foi divina. Mas então se eu acho que as mulheres devem se mexer para fazer as coisas (gente, eu acho mesmo, eu freqüento meu curso de psicanálise todo sábado; Freud e Lacan são testemunhas da minha dedicação) porque reclamar da ausência de mulheres nessa entrevista? Simples: são blogueiros progressistas de esquerda, não são? Assim são chamados. Elegemos uma mulher presidente da república combatendo fortemente todo o tipo de machismo que tentaram colar nela, não elegemos? Elegemos. E, por fim, não é um encontro histórico? Sim, é um encontro histórico.

E o que aconteceu? A "esquerda progressista" perdeu o bonde da história. PERDEU. Fez um puta de um rombo no que eles chamam de progresso, de avanço e de democratização. Espero que dessa vez, pelo menos, faça-se uma autocrítica para rever esses rótulos de esquerda, progressista, whatever (porque distribuir rótulos a esquerda progressista, que conta com PHA nos seus quadros, faz muito bem; vide a elegância, educação e respeito com que trataram os eleitores da Marina).

Para quem tanto brigou, durante as eleições, para que as coisas permanecessem como estavam, conseguiram. Deve ser a ironia da História.

 


PS1: resisti a tentação de não colocar aspas em todos os históricos desse post. Porque, na boa, o Lula sabe exatamente a quem agradecer. Ele não perde o bonde da história. Ele não deixaria de ser o primeiro presidente a conversar com pessoas (que eram, em sua maioria, apoiadores de seu governo, mas quanto a isso não tenho nenhuma objeção porque a entrevista foi super boa) que atuaram em um meio que ajudou a reverter graves acusações à Dilma nas eleições presidenciais.

PS2: Eu sei que foram convidadas duas mulheres para as entrevistas sei também que uma delas, a Conceição Oliveira, atuante blogueira, fez uma pergunta via twitcam. Mas, como vocês pode ler no post da Lola, o buraco é mais embaixo.

PS3: Teve esquerdista progressista que questionou se era entrevista com o presidente ou um congresso de ginecologia, como podemos ler no post da Lola. Quero ver esse cabra invocar a ginecologia para falar com Dilma Rousseff. Ô se quero.

PS4: Não me considero uma blogueira. Muito menos progressista. E menos ainda progressista de esquerda.

4 Comentários

Os blogueiros que participaram da entrevista foram escolhidos democraticamente, por homens e mulheres, no Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas. Não vejo machismo algum - neste fato específico - de haver apenas homens na referida entrevista. Temos de tomar cuidado para não reduzir o mundo à um debate sexista.

Oi, Bruno,

não duvido mesmo que os entrevistadores tenham sido escolhidos democraticamente. Sei que são pessoas sérias. Mas aí você me dizer que não tem sexismo e que temos que tomar cuidado para não reduzir o mundo ao debate sexista é o que os movimentos feministas ouvem desde o começo, nada é sexista quando não queremos ver sexistmo. Se não você não vê machismo algum eu vejo todo o machismo do jornalismo, da blogosfera, das universidades. É pura reprodução, lamentável, desses meios.
Um abraço.

Utilizar o termo progressista ainda me incomoda um pouco. Porém, tenho de dizer, o seu texto e os da Lola fizeram com q eu me incomodasse bem menos com o q aconteceu. :-)

Oi, Ulisses

é bem incômodo o termo mesmo. Concordo com você. Que bom saber que o texto ajudou =) Fico bem feliz! Um abração.

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