A presidenta do Brasil

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Uél, uél, elegemos uma presidenta no Brasil. Ainda estou sem muitas palavras para falar de Dilma e do que sua vitória representa. Mas uma coisa é certa, o dia 31 de outubro marcou uma virada no imaginário machista do Brasil. Em compensação, o imaginário xenófobo deu as caras. Resquícios de um processo horroroso, marcado por um retrocesso sem igual nessa corrida presidencial. Não quero nem lembrar os episódios, só concluir que não poderia dar outra. Fica aqui registrado os meus parabéns aos meios de comunicação que conseguiram a façanha de inventar um país dividido e, claro, um abraço bem especial no reacionário do José Serra que conseguiu, com sua campanha baixa e suja, trazer à tona os fascistinhas.
 
Eu não gostei muito do pronunciamento da Dilma. Pode ser chatice minha, é claro. Porque eu achava que era a hora de mobilizar politicamente o país inteiro que a assistia, mas acabou sendo um pronunciamento burocrático e protocolar. E eu queria chorar, a verdade é essa. Queria me desmantelar em lágrimas ouvindo o primeiro pronunciamento da primeira presidenta do Brasil. Mas enfim, guardo para a posse e também nunca achei que estivesse votando em uma política, a princípio, super capaz de mobilização (me acostumei mal com Lula) e sabia, desde que tomei minha decisão, que estava votando em uma mulher com extrema capacidade técnica e rara inteligência. Mas é que eu gosto de um discurso politicamente vigoroso, que acenda o que há de mais mobilizador na política que é o devir de um povo, uma crença incontornável nas pessoas que o constituem; e ver como essa paixão se expande para os confins do mundo como um alerta avisando que estamos vivos e presentes, de corpo presente, aqui e agora, construindo nossa história, traçando nosso futuro.
 
Mas Dilma teve dois momentos incríveis. Talvez eles valham por essa falta que notei. O primeiro, claro, foi quando ela disse: "sim, a mulher pode". E pediu para que os pais e mães olhassem para os olhos das meninas em casa para dizer: "sim, a mulher pode". E não temos idéia dos lugares em que essa afirmação chegará, em como ela mudará o futuro das mulheres. Só de saber que bastava essa frase para que muitas e muitas mulheres entendessem que é possível, que pode sim, já podemos começar a entender o significado desse momento.
 
O outro trecho foi: "Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível". Eu estava pensando nisso há dias porque queria escrever a partir da seguinte formulação de Eduardo Viveiros de Castro sobre a campanha de Marina Silva: a política está na articulação do sonho e do possível (aliás, esta fala do Viveiros de Castro foi uma das coisas mais bonitas dessas eleições). Daí Dilma falou do sonho que sempre pareceu impossível, mas que foi se tornando possível pela mobilidade social. E o sonho é o que deve estar sempre na base da política. Sem ele, estamos perdidos, sem ele somos incapazes de imaginar. E não deve haver coisa pior nesse mundo do que perder a capacidade de imaginar e de sonhar. Por muitos anos muitas pessoas foram privadas desse "direito que não se pode proibir", como dizia Glauber. Privadas porque não podiam imaginar um futuro. Porque estavam fora do mundo possível. O que o governo Lula fez foi potencializar esse possível, devolver a capacidade de sonhar. Entretanto, isso vai além das mudanças econômicas. A capacidade de mobilização social tem muito mais a ver com uma prática política do que necessariamente com o crescimento econômico; tem muito mais a ver com compartilhar um mundo, que é, conseqüentemente, mais do que incluir.  

As campanhas foram muito velhas e reacionárias. Não foi por acaso a identificação dos jovens com Marina Silva. Serra perdeu todas as suas chances com seu conservadorismo e hipocrisia (não gosto muito de falar dele porque tenho a boca muito suja e as baixarias me escapam).
 
Dilma no seu pronunciamento falou de educação depois de horas falando sobre a crise financeira mundial, sobre o pré-sal, sobre o micro-empreendedor, sobre o Fundo Social, sobre a meritocracia do serviço público, etc. A educação apareceu apenas duas vezes, e não é porque não se investe, o ProUni e o REUNI, por exemplo, são excelentes projetos de ampliação do acesso e do ensino. Mas é também porque só se investe dinheiro. Não se criou um discurso em que a política da educação fosse o pilar sobre o qual se construiria o futuro do país. A palavra cultura, por exemplo, nem foi mencionada. Está lá no discurso, é só checar.

No dia 31 estivemos de acordo, como dizia Vladimir Safatle, sobre o que não queríamos, que era aquela coisa mascarada de política de boa fé, fundamentada na moral e nos bons costumes e nos mutirões, que atendia pelo nome José Serra. Foi lindo o Brasil ter decidido dizer não a esse retrocesso (e ainda tem cegos que negam). Só isso representa uma vitória imensa. O que quero dizer, na verdade foi Cristina Kirchner quem disse, é que não se deve deixar a economia se sobrepor à política. Ao contrário, a política deve subordinar a economia para que esta sirva como instrumento técnico para atender aos interesses da maioria da população. A última parte, os investimentos econômicos e sociais, vai muito bem. Temos que resolver a primeira, dar uma forçadinha além desse limite economicista, tecnicista e desenvolvimentista. À Dilma falta um pouco de pasión política (uma virada à esquerda libidinosa, hehe). Mas ela virá, creio, no corpo a corpo tão intenso que prevemos para os próximos quatro anos.

Mas, enfim, o Brasil fez bonito e elegeu uma presidenta. Uma mulher que lutou pela democracia, que apostou seu corpo e sua vida na luta contra a Ditadura. Uma mulher que, desde sempre, lutou por um país melhor. Gracias, linda! 


8 Comentários

Flávia,

Não sei se Dilma seria a personagem perfeita para ser mitificada como a 'primeira presidenta do Brasil'. Confesso que gostaria que esse papel fosse dado à Marina Silva.

Votei em Dilma no segundo turno, obviamente porque prefiro a continuidade do ótimo Governo Lula do que um retrocesso à privatização em massa implicitamente proposto pelo candidato do PSDB.

Tenho um certo medo de que Dilma seja instrumento de uma política dirigida pelo PT, algo que o próprio Lula deu a entender no início de mandato mas superou essa dependência fisiológica como poucos poderiam ter feito - apesar das alianças questionáveis com alguns membros do PMDB.

Torço para que Dilma coloque sua história a seu favor na política e conduza o país para um avanço social ainda maior.

Ótimo texto Flávia, beijos!

Quando você escreveu: " "sim, a mulher pode". E não temos idéia dos lugares em que essa afirmação chegará, em como ela mudará o futuro das mulheres" me lembrei de uma cena maior legal que presenciei na Paulista, na comemoração da vitória de Dilma. Umas meninas de doze, catorze anos no máximo, agitando bandeiras e vibrando com os discursos, todos salientando a grande conquista de eleger uma mulher ao primeiro posto do país. De imediato pensei o quão importante essa conquista foi para essas garotas, de que modo essas subjetividades em formação serão beneficiadas pela eleição da Dilma. O Brasil está mudando, e para melhor. Parabéns pelo post.

Assim como você, também ficarei orfão dos discursos de Lula, o apedeuta que transpira oratória e consegue facilmente emocionar uma multidão com os seus pronunciamentos.

A Dilma não nasceu com perfil de eloquência, mas é natural que ela evolua durante o mandato. Ela é uma tecnocrata. Isso ficou ainda mais evidente quando ela fora questionada em uma das entrevistas (não me recordo se foi no JN ou na Record) sobre um provável sonho de ser a presidenta. Prontamente ela respondeu que isso não era um projeto pessoal, e que se enxergava mais como uma servidora pública.

O país exigia continuidade e gestão profissional dos recursos, das benesses e das dificuldades que virão. E entre a grandiloquência de qualquer resultado e a gerentona cabeça-de-planilha, fico com a segunda.

Querida Flávia, houve quem negasse a importância da questão de gênero na vitória de Dilma Rousseff. Mas acho equivocada essa negação. Vi um pequeno exemplo disso. Meu irmão e minha cunhada votaram no Serra. Por isso, adorei ver uma das minhas sobrinhas, que precisa de mais 8 anos para poder votar, descobrindo, no dia do segundo turno, que uma mulher poderia ser eleita presidente da república. Ela percebeu que o horizonte do feminino pode abranger metas como essas. Em termos cívicos, foi muito educativo. Bacci, Pádua.

Tiago F.,

entendo o que você está dizendo. Eu também queria que fosse Marina Silva a primeira presidenta. Mas, não deu. Eu queria ressaltar a importância que é ter uma mulher na presidência, mais do que mitificar. Eu também espero uma guinada menos tecnicista. Vamos ver o que nos aguarda. Um beijo e obrigada.

Leandro,

é super importante ter uma mulher na presidência. A euforia das meninas que você contou já são reflexos disso. Uma conquista desse tamanho, que projeta a imagem da mulher para um lugar antes não imaginado, é para ser comemorada e muito bem cuidada. Um abraço e obrigada.

Tiago G.

eu escolhi a segunda opção também (a gerentona cabeça de planilha hehe). Mas não tem problema querermos mais, não é? Acho que Dilma será uma excelente gestora, e também não acho que seja ruim a presidência não ter sido "um sonho pessoal", sabe? Não desmerece em nada a sua vitória e não põe em questão sua habilidade. Mas a política não se resume à burocracia. O exemplo argentino é bem elucidativo, trata-se de mobilizar a coletividade em torno de valores essenciais para que possamos compartilhar um mundo. Abraços.

Pádua,

A questão do gênero era muitíssimo importante, só um míope podia dizer que não. E que linda a sua sobrinha!! As crianças costumam ter mais sensibilidade que os adultos mesmo... Elas têm a incrível capacidade de olhar para o futuro com mais esperança. Um beijão.

Flávia,
Dilma foi minha escolha desde antes de sua indicação pelo Lula: pela assertividade, pela capacidade gerencial, pela história de vida, pelas idéias e sensibilidade que seu falar expressa e por ser uma mulher que diz "eu posso".
Parabéns pelo post. É para comemorar mesmo. Nós mulheres sabemos que a jornada rumo a ser quem realmente somos é difícil e muito espinhosa.

Oi, Vera,

temos muito o que comemorar. E é verdade que será difícil. Mas acho que ela dá conta, né?
Um abraço.

Sou Portuguesa! mas não posso deixar de dar os parabens aos brasileiros, por serem capazes de elegerem uma mulher.
Um beijo, Muita sorte.

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