PAE: Programa de Aceleração do Esquecimento

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Dilma Rousseff, presidenta desta nação, foi saudar, comemorar, brindar, aplaudir, etc, o aniversário de 90 anos da Folha de S. Paulo. Sua ida "à cova dos leões" como denominou Leandro Fortes, não foi menos controversa. Suscitou inclusive manifestações de altas esferas PT que precisou justificar a aproximação da grande mídia ao governo dizendo que não se trata de um alinhamento ideológico, mas sim de interesses econômicos. A adesão, segundo a fonte, não será mal recebida. Portanto, essa diferença sutil fica restrita aos olhos de lince do alto escalão do PT porque eu não consigo perceber.

Ora, se a imprensa é livre por que diabos um partido político tem que justificar uma "aproximação"? E sem ingenuidade, por favor, esse movimento não é de mão única, ou seja, não é a imprensa que se aproxima do governo, mas também o governo que se aproxima da imprensa. E tudo acontece nessa atmosfera etérea, uma discussão sem pé nem cabeça que mostra que o governo entende a postura da imprensa e não se incomoda em tê-la a seu favor. Dá-se a isso o nome de liberdade de imprensa ou liberdade de expressão. Puxa! Quanta inovação! Maurício Caleiro, no seu último post, mostra com clareza que Dilma fez sua opção.
 
Em seu discurso na Folha, é importante frisar, Dilma reforçou sua fórmula repetida à exaustão durante eleições: "devemos preferir um milhão de vezes os sons das vozes críticas de uma imprensa livre ao silêncio das ditaduras". Leandro Fortes explica bem como é falaciosa essa "liberdade de imprensa" reivindicada pela Folha e endossada, ali, por Dilma. Mas o que me incomoda na presença de Dilma na tal festa é o gesto simbólico de jogar no lixo a memória do país. "Um governo deve saber conviver com as críticas dos jornais para ter um compromisso real com a democracia. Porque a democracia exige sobretudo este contraditório, e repito mais uma vez: o convívio civilizado, com a multiplicidade de opiniões, crenças, aspirações". Que convívio civilizado, que multiplicidade, que crítica é essa de compromisso com a  democracia de um jornal que, em 2009, tem coragem de dizer que a Ditadura brasileira foi uma Ditabranda?

O vínculo da Folha com a Ditadura, como eu já disse aqui, ironicamente, defendendo Dilma, não tem que ser medido pelo passado, mas pelo presente. Dilma foi comemorar com o mesmo jornal que concedeu autoridade de julgamento a um homem que a espionou durante a Ditadura para comprovar a tese de que ela era um "lobo em pele de cordeiro". A matéria saiu intitulada, sem o menor pudor, como "Espião de Dilma". O ilustre reacionário Jair Bolsonaro só dá entrevistas incitando à violência para que se "corrija" os homossexuais dizendo que o país descambou depois do fim da Ditadura porque esse país não tem memória. O "ambiente democrático" em que se dá essa discussão é de uma anomalia sem precedentes. Ah! Mas as histórias estão desatreladas, podem argumentar os mais céticos. Explico porque não: um país em que um deputado justifica uma "lei moral e de bons costumes" que nega direitos aos seus cidadãos recorrendo à Ditadura sem esta ter sido revista, sem que ao sujeito que pronuncia esse discurso seja imputada a responsabilidade diante de centenas de mortes, torturas e desaparecimentos, só pode ser considerado uma democracia anômala.
 
Daí a exaltação da tecnocracia que tudo pode "resolver" e "progredir", afinal, os ajustes econômicos - absolutamente necessários, ou melhor, uma obrigação de cada governante eleito - serão suficientes para dar conta da "justiça" em uma sociedade. É a própria Dilma quem pronuncia no discurso na Folha: "tenho certeza que cada um de nós percebe, hoje, que o Brasil é um país em desenvolvimento econômico acelerado. Que aspira ser, ao mesmo tempo, um país justo, uma nação justa, sem pobreza, e com cada vez menos desigualdade. Para todos nós isso não é concebível sem democracia. Uma democracia viva, construída com esforço de cada um de nós, e construída ao longo destes anos por todos aqui presentes". Dilma está certa: uma nação é justa quando a pobreza é erradicada, mas não é só isso. Uma nação é justa também quando tem memória, ou melhor, quando é possível construir sua memória. E acelerar talvez seja a melhor estratégia para o esquecimento. Para tanto, é preciso da conciliação, fórmula predominante na política brasileira, que não cessa de aprofundar a zona cinza entre vítima e carrasco ofuscada e esquecida em nome do incrível desenvolvimento econômico acelerado.
 
Tudo se funde em um espetáculo econômico que justifica todas as ações: de Belo Monte à retirada do selo CC do site do Ministério da Cultura. O espetáculo triunfa e monta uma cortina de fumaça que dá a ver esse espectro do desenvolvimentismo elevado à sua máxima potência. As conseqüências desse processo que marcarão profundamente o futuro não querem ser ouvidas. Enquanto uns agem pelo princípio cristão de fidelidade ao acontecimento - ao acontecimento do governo Lula, que "continua com Dilma", que "não pode parar", porque qualquer crítica ao governo vem respondida com argumentos estapafúrdios que acusam o sujeito de ser contra a distribuição de renda, ou ser de "direita", esse significante mais esvaziado do que a cabeça dos que o pronunciam - a política se esvai nessa realpolitk.

2 Comentários

Assino embaixo de todas as críticas à Folha que você fez, mas não vejo problema na aproximação entre Dilma e o jornal.

Acho, pelo contrário, que Dilma mostra grandeza de espírito ao relevar os ataques que sofreu. Eleita com grande votação, aproveita o capital político para promover uma distensão com seus críticos.

Nunca concordei com a política de Lula de enfrentamento com a imprensa. E acho obtuso o bloco dirigente ficar relembrando o papel da Folha na ditadura, quando, posteriormente, o jornal se realinhou politicamente, e apoiou as eleições diretas e o impeachment.

Eu sou do tempo em que a Folha era considerada um bastião da democracia. Infelizmente o Projeto Folha degringolou depois, mas mesmo assim, o comportamento mais razoável para um presidente é tentar uma convivência civilizada com os meios de comunicação.

E não vejo nenhum problema de a Folha conferir legitimidade a Bolsonaro ou àquele carcereiro da Dilma. Pode ser odioso, mas é simplesmente manifestação da liberdade de expressão. Às vezes a gente tem a tentação de padronizar, regulamentar tudo, mas, no embate de idéias na imprensa, quanto mais liberdade, melhor.

"[A] política se esvai nessa realpolitk".

Essa frase resume bem o fulcro da questão. Mas, se possível - pois, aparentemente, indesejável - deixe-me retomar alguns pontos discutidos quando da eleição.

Foi, assim me parece, polêmica muito forte na dita "esquerda" a aproximação inevitável do projeto de governo Dilma com o "centro" (para não dizer uma guinada à direita, se ainda quisermos usar esses desgastados epítetos); as ditas alianças conservadoras - PMDB e congêneres - incômodas.

Ora, apesar das acertadas críticas de "governo tecnocrático", não me lembro de, em momento algum, a campanha petista ter apontado um rumo diferente e, portanto, vejo coerência na recente aproximação com a famigerada Falha (se por aproximação entendermos não-beligerância).

Nunca foi do feitio da máfia do PMDB se indispor com a grande mídia; o bloco governista, atualmente maioria nas duas casas legislativas, não teria razão prática para desgastar seu capital político duramente conquistado nos 8 anos do governo anterior e, para não digitar mais do que queria e só para observar o óbvio, Dilma não cultiva o perfil de liderança "lulista".

Então, de que se fala? Alguém realmente esperava um governo ou uma presidenta que enfrentasse questões políticas polêmicas, como união civil de casais do mesmo sexo e descriminalização do aborto, por exemplo, ou as mais áridas, como reforma política e projeto de país?

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