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    <title>&quot;Lacan, Perón, un solo corazón...&quot;</title>
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        <![CDATA[<div>No meio de um mergulho nas profundezas da psicanálise conheci Jorge Alemán, um psicanalista argentino muitíssimo inteligente. Arriscaria dizer que é um dos mais interessantes pensadores que tive conhecimento nos últimos anos. Acho que a melhor maneira de apresentá-lo, para os que ainda não conhecem, é através desse <a href="http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-123170-2009-04-14.html">texto publicado no Pagina12 </a>em defesa ao movimento <i><a href="http://www.cartaabierta.org.ar/">Carta Abierta</a>&nbsp;</i>que surgiu junto a crise com os ruralistas na Argentina apoiando, evidentemente, Cristina Fernandéz.&nbsp;É um texto muito bonito, de uma esquerda militante comovente.&nbsp;</div><div>Estava lendo o último livro dele,&nbsp;<i>Para una izquierda lacaniana...,</i> e o texto que abre o livro, <i>Una Izquierda Lacaniana...*,</i> desenvolve essa junção (da esquerda com Lacan) aparentemente inviável de maneira contundente. Alemán, inicialmente, desfaz uma série de equívocos, tais como, atrelar a psicanálise a um liberalismo lúcido ou a um conservadorismo laico e esclarece que sua sugestão passa longe de uma reconciliação da sociedade consigo mesma, dado que o coletivo social, assim como o sujeito, é formado a partir de uma fratura irremediável e sem solução. Então nada de utopias emancipatórias e harmonia geral, o acento ali é nos antagonismos. Alemán afirma que é justamente esse irreconciliável o que permite pensar uma transformação imprevisível e sempre pendente. O texto tenta responder perguntas absolutamente pertinentes, sobretudo, na América Latina: <i>"O que significa ser de esquerda no século XXI? Que valor tem a expressão e que tipo de compromisso designa quando o relato histórico que deu lugar a ela desvaneceu tanto em sua práxis teórico-política quanto em sua eficácia simbólica, para outorgar um princípio de legibilidade sobre o que é a realidade?"</i> Essa é a tarefa da esquerda lacaniana. Vejamos alguns de seus postulados:</div><div><ul><li><i>Não existe classe predestinada a fazer a revolução, ela não possui uma identidade essencial e exige uma construção específica;</i></li><li><i>Ao invés da ontologia, a pré-ontologia lacaniana que tenta mostrar o que é a realidade sem buscar um fundamento último nela. Anti-essencialista e anti-fundamentalista, portanto. Através da pré-ontologia é possível buscar um "outro início" (a esquerda lacaniana) que seria um salto no abismo que borra as margens do progresso.&nbsp;</i></li><li><i>O Real tem uma importância fundamental e não deve ser compreendido como mera exterioridade, mas sim como o que aparecerá contingencialmente. &nbsp;Desse modo, a política não pode ser entendida como um acontecimento vazio, mas sim como um encontro contingente com a língua. Os efeitos desse encontro podem construir uma coletividade contingente.</i></li><li><i>Nenhuma realidade pode ser entendida como definitiva, nem mesmo a capitalista. Ser de esquerda implica insistir no caráter contingente da realidade histórica do capitalismo. Entretanto, a saída histórica é irrepresentável. E convém deixar, por enquanto, esse lugar depois do capitalismo vazio para que evitar que não se reinscreva ou se capture esse lugar em um sentido já consumado historicamente.&nbsp;</i></li><li><i>O capitalismo não é uma evolução progressiva dos modos de produção, trata-se de uma série de bifurcações históricas contingentes que se entrelaçaram de modo instável a técnica, a mercadoria, o saber, naquilo que denominamos o relato moderno.&nbsp;</i></li><li><i>A dupla possível-necessário é ofuscada pela impossível-contingente: são precisamente as interrupções contingentes do impossível que dão força ao fato histórico que devem acontecimento. Não se trata de entender o contingente como o que é de "outra maneira", mas sim como o que desfundamenta o aparato ontológico da realidade.</i></li><li><i>O princípio de dominação é, antes de mais nada, de ordem política, ainda que no caso do capitalismo a economia tenha um papel determinante, ela não é a determinação em última instância. O mercado também está atravessado pela fratura entre o Real e a realidade e enquanto tal pode deslocar-se. </i>[Inevitável lembrar da Sociedade do Controle: "Os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que o buraco de uma toupeira"]</li><li><i>A dominação não é própria do capitalismo: há dominação porque o sujeito em sua própria constituição não pode dar-se a si mesmo como sua própria representação. A barreira simbólica que o constitui, separa-o da pulsão, mas estabelece a doação de um excedente de satisfação pulsional que se associa a uma série de imperativos que não representam o sujeito, mas determinam o seu lugar.</i></li><li><i>A ideologia é uma não é uma ilusão ou uma falsa consciência: é uma articulação entre os significantes dominadores que surgem fora de sentido como designadores do encontro com o real e os objetos a que o próprio sujeito perde no acesso ao simbólico. A ideologia é a aproximação tendencial em cada um dos significantes dominadores que ordena a realidade para o sujeito e os objetos que necessitou rechaçar do simbólico para dar sua própria consistência. Uma mescla de servidão e satisfação sádica. &nbsp;</i></li><li><i>Reconhecer que o neoliberalismo produz um sujeito de gozo autista do objeto técnico que se realiza como mercadoria subjetiva na cultura de massas e não rechaçá-lo do alto da nostalgia pseudo-aristocrática: o tempo da sua existência estabelece as condições necessárias para que esse indivíduo possa ser desestabilizado em seus próprios fundamentos e aí, nesses resquícios e pontos de fuga, é onde a psicanálise deve intervir.</i></li><li><i>Pensar que a exploração da força de trabalho e a ausência de justiça não só seguem sendo um insulto de primeira ordem à constituição da subjetividade, como também é a brecha ontológica em que o sujeito se constitui, a divisão incurável, que marca a sua existência com singularidade irredutível, só pode ser captada em sua "diferença absoluta", por fora e mais além das hierarquias e divisões instauradas pelo poder do mercado.&nbsp;</i></li><li><i>A esquerda marxista pode elaborar seu final unicamente no âmbito em que o final pode adquirir um valor distinto ao de fechamento ou cancelamento, um final que não é tempo cumprido, mas sim uma oportunidade eventual para outro começo.</i></li><li><i>Pensar as conseqüências da "parte maldita" (do mais de gozo) nos processos de subjetivação é uma exigência política de novo cunho. Se é certo que atualmente o poder é biopolítico, em uma perspectiva lacaniana agregaríamos que, tratando-se da vida dos corpos falantes, sexuados e mortais, é a vida do mais de gozo. &nbsp;</i></li><li><i>O relato não pode ser mais do que inconcluso, inacabado, feito de entrada para sua ramificação.</i></li><li><i>Ser de esquerda é que a vontade política, a invenção política cifrada nessa vontade, só é possível quando se admite que não há universal que apague a contingência do real. Só surgirá nas falhas do universal uma nova subjetividade se ela não estiver de antemão seqüestrada por uma identidade reconhecida e já sabida.</i></li><li><i>Para os autores do acontecimento, do estado de exceção, da contingência só há política quando não há representação (Estado). Isso decorre de uma paixão pelo acontecimento como um elemento absoluto que emerge na situação como uma ruptura que só deve ser tratada axiomaticamente e que termina rechaçando a construção política. A partir da vertente axiomática ou performativa desses pensadores, o espaço da esquerda social-democrata é o mesmo que o da direita conservadora e todo seu entusiasmo está naquilo que ainda não tem forma.&nbsp;</i></li><li><i>A formação de um nó (à maneira do nó borromeu lacaniano) que reuniria três elementos: o Estado (nos casos em que a esquerda pode ascender a ele), os movimentos sociais e a construção política. O nó é necessário porque os três elementos permanecem sem resolução histórica. Só no nó e no seu entrelaçamento (que não é síntese, nem unificação) se recriariam os três âmbitos ao redor do vazio irredutível. Mas para que eles não dispersem é necessário um quarto nó suplementar: o da escritura de esquerda que assuma indagar-se sobre: a divisão inaugural do sujeito, o antagonismo lógico e constitutivo de toda sociedade, e a intervenção do olhar e da voz que funcionam como objetos fantasmáticos que congelam e petrificam o sujeito em uma inércia que se articula em sua própria ideologia (tanto na obediência retardada quanto na servidão voluntária). Esses pontos foram negligenciados pela esquerda. Mas talvez, considerando-os numa escritura nova da práxis, eles possam abrir uma nova temporalidade distinta da do progresso: a do futuro anterior.</i></li><li><i>Por fim, temos o problema da dupla tradição: a tradição européia está marcada pela Shoa e pelo colapso da URSS em sua dimensão stalinista e não conheceu diretamente as conseqüências de um genocídio em que estava envolvido os Estados Unidos, tal como foi evidente na América Latina. O maior desafio da Europa: não repetir uma experiência totalitária. Por outro lado, a esquerda latino-americana conheceu as políticas do Império em sua versão mais cruel e por distintos motivos históricos e mais além das críticas e impasses, nunca desejará reconhecer Cuba com o colapso stalinista. Tentará, ao contrário, articular seu discurso no horizonte dos movimentos "nacionais e populares", ponto de partida incerto e instável, porém inevitável, tanto pelo que impõe na assunção-inversão do legado histórico, quanto pela exigência sempre presente de tentar atravessar o fantasma "etnocêntrico" que impregna o imaginário da esquerda européia.&nbsp;</i></li></ul></div><div>São esses, mais ou menos, os pontos da esquerda lacaniana. O entusiasmo evidente com a virada à esquerda latino-americana, que por vários motivos, abriu a possibilidade de se pensar uma nova esquerda, mas ainda esquerda, justifica o título do post (que é uma frase do texto de Alemán enunciada, segundo ele, por um "célebre pós-marxista"): <i>Lacan, Perón, un solo corazón...</i></div><div>Por um lado não sou muito partidária dessa visão porque já não sei se dá para acreditar em uma reformulação do Estado, sociedade e estrutura política. Não sei se uma política atuando nessa estrutura aponta para um futuro diferente, se assim dá mesmo para sair da lógica da dominação capitalista. Quer dizer, é óbvio que as melhorias econômicas, sociais, etc, estão abarcadas aí, mas seriam elas suficientes? Entretanto, acho muito pertinente a provocação que Alemán faz aos pós-marxistas que colocam a esquerda e a direita no mesmo pacote. Mas, prossegue dizendo, eles "reservam energia política para um tempo por vir do qual não se dispõe representação alguma". O que me leva a pensar em uma possível contradição: o "lugar pós-capitalista", como ele mesmo diz, tem que permanecer vazio para não sofrer apropriações; não seria então, esse "tempo por vir" ao invés de um lugar (que, inclusive, remete à utopia que ele tanto nega), a temporalidade distinta do progresso que a esquerda lacaniana pode formular? Tendo a achar que os "pensadores" tentam marcar seus territórios tentando se diferenciar uns dos outros, mas muitas vezes querem dizer a mesma coisa. &nbsp;Digo isso porque o segundo ensaio do livro, intitulado<i> Derivas sobre la inserción-desinserción</i>, bate forte na teoria do Agamben do Estado de exceção e da vida nua. Alemán diz que não é possível esquecer o antagonismo que constitui a sociedade e diz que Agamben, grosso modo, equaliza os sujeitos. Até aí tudo bem, é uma leitura, podemos concordar ou discordar. O problema é que no fim do texto ele vai estabelecer uma "tarefa" (para ficarmos no termo de Agamben) que é pensar o <i>singular</i> e o <i>comum</i>. Tarefa que, sejamos francos, Agamben não menospreza e tem, inclusive, um livro dedicado ou tema: <i>A comunidade que vem</i>. O que mostra, mais uma vez, que essas diferenças não são tão decisivas e que essa história de tomar partido de um ou de outro pode ser uma bobagem (desde que não se perca numa loucura sem pé nem cabeça muito comum quando não se tem cuidado filológico, por exemplo). Ao mesmo tempo reconheço que essas divergências tenham uma causa aparente indicada, justamente, no último ponto: a Europa, não é, definitivamente, a América Latina. E com isso eu concordo absolutamente, mas deixo claro que não é uma defesa "fenomenológica" do tipo: só quem vive aqui pode falar daqui. De jeito nenhum. Mas não é raro encontrarmos em autores europeus um entusiasmos com as favelas, por exemplo, o que é um imenso equívoco.</div><div>Mas enfim, a proposta é muito interessante pelo que ela apresenta de mais urgente, e que talvez seja o mais urgente na sociedade contemporânea, a saber, a idéia de que o capitalismo não é a realidade definitiva e que são necessárias interferências no Real, para que a realidade não se totalize como estrutura universal e permanente. Ou seja, que mais importante do que pensar "anti-capitalisticamente", é pensar contingencialmente. Desfundamentar a realidade, o capitalismo, ou desativar seus dispositivos.</div><div><br /></div><div><font class="Apple-style-span" style="font-size: 0.8em; ">*Não posso, como boa deleuziana, deixar passar em branco o formato desse título. As reticências e o artigo indefinido são os elementos que dão o tom do último e mais lindo texto de Deleuze: A imanência: uma vida... O que prova que, por mais distantes que possam parecer a teoria deleuziana da psicanálise, é possível um namoro entre as duas.</font>&nbsp;</div><div><br /></div> ]]>
        
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    <title>Comissão da (meia) verdade</title>
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    <published>2010-01-15T18:50:02Z</published>
    <updated>2010-01-15T18:54:10Z</updated>

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        Antes de mais nada deixo claro que sou a favor do PNDH 3, embora não seja uma entusiasta porque, na minha singela opinião, nenhum dos 3 serve para alguma coisa. Enquanto tivermos um problema escancarado de aplicabilidade da lei, porque muitas das propostas estão previstas na Constituição, não haverá Plano que resolva o problema. Enquanto a polícia continuar atuando do jeito que atua, não haverá Direitos Humanos. Mas o assunto da hora diz respeito à Comissão da Verdade. Como o PNDH 3 não tem força de lei, nesse momento, ele é eficaz apenas como discurso. Vide a histeria dos militares, ruralistas, etc. Mas já que é uma carta de intenções, muito boas por sinal, e tem força como discurso, substituir um termo que define um momento histórico é subtrair sua força. Modificar o termo &quot;repressão política&quot; mantendo os objetivos da Comissão da Verdade (&quot;a fim de efetivar o direito à memória e à verdade história e promover a reconciliação nacional&quot;) não faz mais do que reiterar a história oficial. A piedade dos responsáveis pelo PNDH 3 com os torturadores é enorme. Não consigo nem compreender a histeria, o medo de revanchismo que eles têm. Fico imaginando se, ao serem torturadas, as pessoas foram poupadas de adjetivos. A Comissão da Verdade começa com omissão. Mas também não temos porque nos surpreender já que ela pretende a &quot;reconciliação nacional&quot; (a reconciliação em um processo penal visa a conciliação recíproca entre o autor e o acusado de crime de calúnia ou injúria, tendo como conseqüência o arquivamento do processo). Ao fim e ao cabo, todos deverão se entender. Todos estarão reconciliados com a história que, mais uma vez, sopra a favor dos vencedores. 
        
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    <title>2010: pode vir quente que eu estou fervendo!</title>
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    <published>2010-01-02T15:52:23Z</published>
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        <![CDATA[Esse ano que chega tem tudo para ser um grande ano. É provável que duas mulheres concorram a presidência do país. É mais provável ainda que uma mulher seja eleita presidente do país. O que seria o máximo. Há quem diga ser uma grande bobagem ter esperança diante das catástrofes que acontecem diariamente. Sobretudo depois dessas catástrofes naturais que vêm assombrar o fim de ano. Eu, particularmente, acho uma grande bobagem não ter esperança, não ter a felicidade no horizonte a ser almejado. O Brasil vai bem, obrigada. O Lula se&nbsp; consolidou como "o cara" em 2009 merecidamente. As previsões para o futuro são as melhores possíveis. Então, podemos ter esperança, sim, caso contrário estamos mortos. O fundamental é não esquecer que, como diz Walter Benjamin, não existe documento de cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie. Que todo progresso traz consigo uma parcela de destruição. Essa é a lembrança importante para não sermos invadidos pela cegueira ou pela inocência de acreditar que vivemos no melhor dos mundos. Ou ainda, essa lembrança não nos deixa esquecer que temos que criar e construir constantemente e que "o amor cessa se não existe combate". Então, um pouco de paixão para todos nós! Que venha 2010.<br /><br /><br />]]>
        
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    <title>Lula em Copenhagen</title>
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<![endif]-->Continuando o post de ontem. Minha reação ao ouvir o discurso do Lula de hoje em Copenhagen foi de um lamento profundo em constatar que Marina Silva e Lula não estejam mais, necessariamente, lado a lado. Foi um discurso lindíssimo, sobretudo quando ele disse que sua meta em 2003 era garantir as refeições para o povo brasileiro e que isso, para os países desenvolvidos, era coisa do passado, mas que para América Latina, África e muitos países da Ásia ainda é coisa do futuro. Jésus! É de chorar. Lula fez o exato oposto do que Dilma se propôs a fazer. Enquanto ela se recusava a qualquer gesto, recusava o acompanhamento dos índices, Lula foi em outra direção. Dilma apresentou um comportamento aparentemente irredutível com uma justificativa de fundo de que o Brasil não é mais um quintal dos países desenvolvidos. Dilma não foi nada diplomática, nem tampouco, demonstrou preocupação com o que estava sendo debatido. Digo isso mais no sentido de parecerem irrevogáveis as suas decisões. Eis que aparece Lula e, como eu disse ontem, desautoriza Dilma e toma decisões absolutamente opostas ao rumo que Dilma estava tomando, contribuições para os países pobres, definição de metas, investimento no Brasil, etc. Pois bem, temos o Lula para parar Dilma, porque senão ela passa o trator, e não é a primeira vez (e tomara que não seja a última) que essas coisas acontecem no que diz respeito ao meio-ambiente. Entristece-me saber que a união de Marina com Lula não será mais possível (Entre outros fatores, foi a política ambiental de Dilma que fez Marina sair do governo. Marina sabia que, se permanecesse no PT, não haveria a menor chance de ser ouvida e foi para o PV. E aí temos os dois lados com suas parcelas de culpa e erros). Enterra-se aí uma possibilidade (e não temos muitas) de "outro mundo possível".<br /><br />&nbsp;<br />P.S: Depois de escrever esse post, vi @caetano_pacheco falando que "a liberação da commodity do etanol a países subdesenvolvidos acaba de consolidar o povo dos países pobres como os pagadores da conta do aquecimento global". Ou seja, o Brasil não é mais quintal dos países desenvolvidos, mas, na qualidade de em desenvolvimento, transformará os países subdesenvolvidos no seu quintal, dada as condições de trabalho nas lavouras de cana. Lindo de ver, não?! Sendo assim, terei que rever minha opinião sobre o post acima. Mas deixo um palpite: se Marina Silva fosse a Dilma do Lula, as coisas ainda poderiam ser diferentes. <br /><br />]]>
        
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    <title>Seria simples...</title>
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    <published>2009-12-17T16:49:23Z</published>
    <updated>2009-12-17T16:50:50Z</updated>

    <summary>Marina Silva foi considerada uma das 50 pessoas que podem salvar o planeta. Isso é público e notório. Daí vai para Copenhagen discutir meio-ambiente uma comitiva do governo capitaneada por Dilma Rousseff que, convenhamos, não liga muito para essas coisas...</summary>
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        <![CDATA[Marina Silva foi considerada uma das 50 pessoas que podem salvar o planeta. Isso é público e notório. Daí vai para Copenhagen discutir meio-ambiente uma comitiva do governo capitaneada por Dilma Rousseff que, convenhamos, não liga muito para essas coisas (vide seu ato falho: "O meio ambiente é uma ameaça ao desenvolvimento sustentável"). Lá estão também Marina Silva e José Serra. Marina propõe a contribuição de US$ 1 bi para os países pobres. José Serra assina embaixo e sai dando coletiva como se estivesse muito preocupado com isso. Enquanto ele se aproveita da Marina, que é colocada em reuniões em que previamente não estava incluída, dada a sua relevância. Dilma resolve alfinetar Marina dizendo que US$ 1 bilhão não faz nem cócegas e blábláblá. Chega Lula, hoje, e diz que vai contribuir não com US$ 1 bi, mas com US$ 5 bi. Ora, se a mesa de negociações, como bem disse Dilma, estava em US$ 120, US$ 150 e até US$ 500 bi, cinco ou um não faria nem as cócegas que Dilma se negou a fazer. Mas, felizmente, não é assim que pensa Lula porque, sim, o <b>gesto</b> é muito importante. Não seria mais simples (e mil vezes mais inteligente) se o governo convidasse Marina Silva para a sua comitiva e sentasse para ouvir o que ela tinha a dizer e fizesse uma proposta junto com a sua ex-Ministra? Mas não, prefere optar pela precipitação e rompantes de Dilma que, no final das contas, acaba sendo desautorizada pelo presidente. Enquanto isso. Serra dá entrevistas coletivas, diz que apóia Marina, ou seja, pega carona. Em 2010, se Dilma perder e Serra ganhar, ainda vai ter gente dizendo que foi por causa da candidatura da Marina. Agora, pergunto, isso fará sentido? ]]>
        
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    <title>Coisas curiosas</title>
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    <published>2009-12-11T05:07:30Z</published>
    <updated>2009-12-11T05:48:27Z</updated>

    <summary>Agora tem ar condicionado com função swing. Essa função é apresentada ao lado das funções timer, sleep e auto. Achei curioso porque todas essas funções podem, desde que você não seja um poço de pureza, ter uma conotação sexual. Interessante...</summary>
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        <![CDATA[Agora tem ar condicionado com função <i>swing</i>. Essa função é apresentada ao lado das funções <i>timer</i>, <i>sleep</i> e <i>auto</i>. Achei curioso porque todas essas funções podem, desde que você não seja um poço de pureza, ter uma conotação sexual. Interessante a sexualização das máquinas ou, "marketeiramente" falando, a atenção dada pelos produtores aos seus consumidores e suas mudanças de hábitos.<br />Continuando na linha dos eletrodomésticos, poderíamos argumentar que a revolução sexual está vinculada ao progresso tecnológico desde, pelo menos, a centrifugação das máquinas de lavar roupa. Isso já faz tempo.<br />Daí minha mãe estava procurando um ar condicionado e ofereceram para ela um portátil. Ela estava convencida, não fosse um pequeno detalhe pré-histórico. Diz o vendedor: a senhora coloca um pouco de gelo em cima dele que daí sim, ele vai gelar que é uma beleza. Brincadeira, né? Como podemos observar acima os eletrodomésticos evoluíram muito. O que me faz esperar que um ar condicionado pudesse, ao menos, gelar a porra do ambiente. Porque se enfiar no gelo é coisa que se fazia quando NÃO existia o tal do ar condicionado. Mas aposto minhas fichas que esse mesmo aparelho que precisa de gelo tem as funções <i>sleep,</i> <i>auto</i>, <i>timer</i> e, claro, <i>swing</i> (vou pesquisar, para não fazer afirmações levianas). Afinal, são elas que importam.<br />Apresentados os fatos, creio que os eletrodomésticos estão bem avançados. Às satisfações humanas (inclusive as que jamais pensaríamos que pudessem atingir) eles estão respondendo satisfatoriamente. Que bela bosta :-)<font style="font-size: 0.8em;"><br /></font><br /> ]]>
        
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    <title>Caetano ou Lula?</title>
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    <published>2009-11-09T02:20:10Z</published>
    <updated>2009-11-09T02:34:16Z</updated>

    <summary>É curioso pensar, em tempos &quot;pós-modernos&quot;, binariamente. Existem tantos filósofos quanto motivos para compreender mais interessante que pensar A ou B, é pensar A e B. Mas, diante dos fatos, nem tudo pode ser visto assim. Acho isso bem engraçado...</summary>
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        <![CDATA[É curioso pensar, em tempos "pós-modernos", binariamente. Existem tantos filósofos quanto motivos para compreender mais interessante que pensar A <b>ou</b> B, é pensar A <b>e</b> B. Mas, diante dos fatos, nem tudo pode ser visto assim. Acho isso bem engraçado porque implica, para mim, questionar as próprias fontes, os próprios mestres, e blá. Embora eu pense que um projeto político para o Brasil ou para qualquer lugar do planeta tenha que superar esse tipo de escolha, quando me deparo com uma coisinha dessas http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/sergiomalbergier/ult10011u649479.shtml minha fúria se acende. Af! <br />Amo Caetano Veloso de todo meu coração. Amo mesmo. Amo Lula de todo meu coração. Amo mesmo. Então, teoricamente, o mais interessante aqui seria termos Lula e Caetano e não Lula ou Caetano. Mas não dá. Lendo a coluna da Folha, definitivamente, não dá. O problema todo não é Caetano dizer que Lula é analfabeto, whatever. Eu não sou boba de pensar que Caetano descarte Lula em nome disso. O problema é que o "ingênuo" Caetano acaba alimentando a mídia safada que ele tanto critica. Ele dá argumentos para o cara chamá-lo de "um dos poucos machos políticos" e "corajoso". Não preciso manifestar meu repúdio a associação de coragem e macho, da associação de inteligência e macho, de inventividade e macho e todas as variações positivas com macho. Assim fica difícil querer eleger uma presidenta, fica difícil de acreditar no que ele "quer dizer". Daí o que nos resta é a velha fórmula "Tupi or not tupi?" Resta, enfim, escolher: Lula <b>ou</b> Caetano?<br /><br />PS: O caso FHC nem comentarei, ele merece minha insignificante indiferença.<br /><br /> ]]>
        
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    <title>This is for you</title>
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    <published>2009-10-23T17:48:29Z</published>
    <updated>2009-10-23T17:51:02Z</updated>

    <summary>Colocando as roupas na máquina de lavar, percebi como os nossos armários são azuis.Isso nos explica tanto. Explica o nosso desejo de tocar o céu....</summary>
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        <![CDATA[Colocando as roupas na máquina de lavar, percebi como os nossos armários são azuis.<br />Isso nos explica tanto. <br />Explica o nosso desejo de tocar o céu. ]]>
        
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    <title>Revendo o post anterior e otras cositas más</title>
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    <published>2009-10-17T06:45:14Z</published>
    <updated>2009-10-17T18:20:51Z</updated>

    <summary>Minha relação com Deus nunca foi muito problemática. Mas cheguei a um ponto da vida que atribuir qualquer sucesso ou fracasso a ele me parecia um tanto ridículo. Ainda penso assim. Entretanto, pensando assim e radicalizando, deixei de acreditar em...</summary>
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        <![CDATA[Minha relação com Deus nunca foi muito problemática. Mas cheguei a um ponto da vida que atribuir qualquer sucesso ou fracasso a ele me parecia um tanto ridículo. Ainda penso assim. Entretanto, pensando assim e radicalizando, deixei de acreditar em Deus, na presença de Deus, na possibilidade de Deus, etc. Passei a acreditar que existia uma "força" (preferia não chamar de Deus, todo descrente usa esse termo) que se apresentava a todo o momento na possibilidade do ser, na vida humana e, de alguma maneira, na humanidade. Mas uma experiência recente me fez rever essa posição. Fazia três anos que não visitava minha avó. Na hora em que soube que ela tinha sido internada, corri para perto dela. Quando cheguei e vi o que estava acontecendo, pensei que estar presente naquele momento não faria diferença para ela. Ela já não me reconhece, eu já não posso mais conversar com ela, contar da minha vida, dos meus planos, ou mesmo, relembrar o que passamos. Mas a minha presença lá faria diferença para mim. É provável que tenha uma ponta de egoísmo nisso tudo. Uma maneira, talvez, de livrar a consciência do peso da ausência, de estar mais perto que uma ligação telefônica, de dizer obrigada, sabe lá. Então eu desatava a falar enquanto ela me mirava com olhos perdidos. Foi o jeito que encontrei de estar presente. E até arranquei algumas palavrinhas dela, mas nada muito convincente, nada muito consolador. Tudo isso me fez perceber a conjunção mais radical entre teoria e prática que já vivenciei. Entendi ali que, realmente, a vida não se expressa somente através da linguagem. Ao contrário, em situações limites as sensações e o próprio corpo, debilitado o quanto esteja, falam. Minha avó, além dos derrames, sofre, em decorrência de uma série de enfermidades, o que a fisioterapeuta me explicou como síndrome da imobilidade, seus movimentos são hiper limitados. Em síntese, ela mexe levemente o pescoço e consegue, com muito esforço, movimentar num ângulo que calculo de dez graus os braços e, por vezes, as pernas. Numa das noites em que eu estava no hospital com ela, a noite que ela estava mais animada, ela começou a mexer a boca como quem queria dizer alguma coisa. Abaixei meu rosto de maneira que eu pudesse escutá-la de perto. Num movimento súbito ela levantou e sustentou seu fraco pescoço erguido e cobriu minha bochecha de beijos. Foi nesse instante que entendi o que é Deus. Essas possibilidades da vida, de se dizer uma vida, de ser uma imanência absoluta. Nunca se fez tão claros textos como o de Deleuze <i>A imanência: uma vida...</i> (último texto escrito por ele) e o fato de ele recorrer ao termo spinozista da beatitude. Se, de acordo com Spinoza, beatitude e alegria andam juntas, a presença de Deus é um instante revelador, um encontro, uma sensação de felicidade que pode ser levada para além da morte e que pode ser atualizada constantemente nas singularidades, nos acontecimentos, em <i>uma vida</i>. Ou ainda um estado de redenção tão proclamado por Spinoza quanto por Benjamin, que Agamben explica em duas linhas: "O mundo - enquanto absolutamente, irreparavelmente profano - é Deus". E, se a ordem do profano, como explica Benjamin, tem que erigir-se sobre a idéia de felicidade, o mundo enquanto puro estado de felicidade é Deus. No momento em que minha avó me beijou, ela inscreveu a nossa história, ela empurrou todas as forças para esse estado de felicidade, de beatitude que se cumpriu em um tempo eterno e fugaz e que levarei marcado no meu corpo, na minha memória. Um momento que, para sempre, roubará um sorriso meu e que, talvez, desapareça com a dor. Uma felicidade eterna e fugaz. ]]>
        
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    <title>Breve nota sobre o amor II</title>
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    <published>2009-10-14T23:25:05Z</published>
    <updated>2009-10-15T00:02:05Z</updated>

    <summary>Eu falo como uma matraca. Demais, demais. Mas adoro quando fico sem palavras. Quando encontro algum texto perfeito. Daqueles que eu gostaria de ter escrito, daqueles que não dá vontade de ler, mas de gritar. Como no caso desse Spinoza...</summary>
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        <![CDATA[Eu falo como uma matraca. Demais, demais. Mas adoro quando fico sem palavras. Quando encontro algum texto perfeito. Daqueles que eu gostaria de ter escrito, daqueles que não dá vontade de ler, mas de gritar. Como no caso desse Spinoza com Agamben:<br /><br />"'O afeto por uma coisa que imaginamos ser livre é maior do que por uma coisa necessária e, conseqüentemente, ainda maior do que o afeto por uma coisa que imaginamos possível ou contingente. Mas imaginar uma coisa como livre só pode significar imaginá-la, simplesmente, ignorando as causas pelas quais ela foi determinada a agir. Portanto, o afeto por uma coisa que simplesmente imaginamos é, em igualdade de circunstâncias, maior do que o que se tem por uma coisa necessária, possível ou contingente e, por conseguinte, é o maior de todos' (Ética, V).<br />Ver simplesmente algo no seu ser-assim: irreparável, mas nem por isso necessário; assim, mas nem por isso contingente - é isto o amor".<br /><br />PS: Relendo o post vi como falo como uma matraca mesmo e não fico
sem palavras, seria melhor dizer que fico encantada, qualquer coisa que
não envolva o silêncio, pois digo em seguida que tenho vontade de
gritar. Afe! Só Lacan me salvará. Ou melhor, me salvaria, porque ele já
morreu.
Sendo assim, não tenho salvação. Sou um ser irreparável, todo errado, mas irreparável. Aleluia! ]]>
        
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    <title>Morrer, quase-morrer</title>
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    <published>2009-10-12T21:43:54Z</published>
    <updated>2009-10-12T21:45:59Z</updated>

    <summary>Entrar em contato com a morte nunca é razoável. Existem os casos que dizem: &quot;é melhor, ele vai descansar&quot;. Existem as mortes revoltantes, daquelas que pensamos com Renato Russo: &quot;é tão estranho os bons morrem jovens&quot;. Entretanto ela nunca é...</summary>
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        Entrar em contato com a morte nunca é razoável. Existem os casos que dizem: &quot;é melhor, ele vai descansar&quot;. Existem as mortes revoltantes, daquelas que pensamos com Renato Russo: &quot;é tão estranho os bons morrem jovens&quot;. Entretanto ela nunca é simples e ela nunca passa. Se existe mentira nesse mundo é que a dor passa. Passa nada. Uma vez ouvi que não existe memória nem para dor nem para o amor. Eu acho que existe sim. Toda dor de agora é mais intensa que a dor passada, todo amor do presente é maior que o amor do passado. Mas as dores e os amores passados estão sempre ali, latentes, inviabilizando e ativando ao máximo essa memória. Eles não passam, eles sempre retornam. Entrar em contato com a morte é entender que, sim, existe tarde demais. E que muitas vezes não se pode na vida como, por exemplo, se pode na literatura, viabilizar e potencializar o que não foi. Na vida não dá. Quando alguém morre, morre e pronto. Tudo aquilo que poderia ter sido feito não pode, definitivamente, ser feito. A morte arrasta tudo para o infinito do finito. Ela diz a todo tempo que existe limite. 
        
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    <title>Breve nota sobre o amor</title>
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    <published>2009-09-26T21:36:57Z</published>
    <updated>2009-09-26T21:44:15Z</updated>

    <summary>Giorgio Agamben tem uma das definições de amor mais bonitas que já li. Está no Idéia da Prosa, um livro cheio de idéias como diz o próprio título. Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele,...</summary>
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        <![CDATA[Giorgio Agamben tem uma das definições de amor mais bonitas que já li. Está no I<i>déia da Prosa,</i> um livro cheio de idéias como diz o próprio título. <br /><br /><i>Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente - tão inaparente que seu nome possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.</i><br /><br />Amar não significa, portanto, se fundir em um só. Ao contrário, significa ser-dois, viver-junto, estar lado-a-lado. Em outro livro, <i>O tempo que resta</i>, ele diz que a única lei do mundo, segundo São Paulo, seria a lei do amor. Uma lei que suspenderia todas as outras leis. Seria esse o "verdadeiro estado de exceção" que fala Walter Benjamin. Entretanto, o amor é um termo muito carregado. A tradição cristã se fundamenta no amor incondicional ao próximo, com pedidos esdrúxulos de amar o inimigo, blábláblá. O amor se fundamenta ali, enfim, como Lei. Mas isso implica considerar que no amor não existisse a dimensão do desejo, justamente. Sorry, eu não posso amar meu inimigo.<br /><br />Tudo isso para dizer que o modo mais bonito de se dizer <i>eu te amo</i>, o modo que expressa essa dimensão do desejo e que implica o corpo, é o da língua espanhola: <i>yo te quiero</i>. Porque o amor se realiza e não se cumpre como lei. <br /><br /> ]]>
        
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    <title>Política subterrânea</title>
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    <published>2009-09-24T16:53:54Z</published>
    <updated>2009-09-24T17:15:38Z</updated>

    <summary>Quando escrevemos uma tese, uma dissertação, qualquer coisa, sempre nos alertam para manter distância do objeto estudado. É claro que eu, pessoa intensa que sou, jamais conseguiria isso. Hélio Oiticica é uma das paixões da minha vida (uma porque tenho...</summary>
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        <![CDATA[Quando escrevemos uma tese, uma dissertação, qualquer coisa, sempre nos alertam para manter distância do objeto estudado. É claro que eu, pessoa intensa que sou, jamais conseguiria isso. Hélio Oiticica é uma das paixões da minha vida (uma porque tenho várias, Mosotta, Lacan, Agamben, são tantas e nem posso falar todas). Foi com ele que mudei absolutamente o meu jeito de olhar a arte. Foi ele quem me ensinou que arte, vida e política se confundem a todo momento. Que não são campos autônomos. Que são imagens que nos rondam no dia a dia. Me ensinou que política e arte se faz na rua, que o contato é a melhor arma contra imunidade que nos assombra.<br />Hélio Oiticica na década de 1960 criou uma nova categoria para os seus trabalhos. Passou a chamá-los de subterrâneos. Dizia que seu exercício se dava através de uma prática-grito. Oiticica cria um conceito de povo. <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8"><meta name="ProgId" content="Word.Document"><meta name="Generator" content="Microsoft Word 12"><meta name="Originator" content="Microsoft Word 12"><link rel="File-List" href="file:///C:%5CUsers%5CNodari%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml"><link rel="themeData" href="file:///C:%5CUsers%5CNodari%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx"><link rel="colorSchemeMapping" href="file:///C:%5CUsers%5CNodari%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml"><!--[if gte mso 9]><xml>
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<![endif]--><span style="font-size: 12pt; line-height: 115%; font-family: &quot;Times New Roman&quot;,&quot;serif&quot;;"> </span>Esse caráter sub do povo, entretanto, não implica uma interioridade ou ocultamento, ao contrário, é a exterioridade que garante esta condição, é enquanto corpo nu, enquanto pura exposição que a vida é subterrânea: o que está em baixo, o que "fede", o que amedronta, e que pode, a qualquer momento, emergir, não para o confronto, mas para um transbordamento, alguma coisa de incontrolável que fuja de qualquer amarra do poder: um <i>estado de emergência </i>do povo:<br /><br /><i>Um pensamento político ou a participação nascem organicamente como a planta na planta do pé no mundo dos conceitos no do dia a dia: a luta toda se resume na ascensão de um pensamento não opressivo, de pensamentosações, para a absorção do que oprime: é o encosta-na-parede longe da encosta, na América do Sul, no Brasil que oprime - mar e guela [sic] - amerdicância tem que acabar no sul: de onde vem o mal? De dentro, de fora? Está em nós? - participar político é participar na vida: ser politicamente vivo é estar vivo: aspirar à felicidade: a não-utopia - (...) - pegar nas armas, tirar as amarras, limpar o lugar, o lazer, o prazer de se cuspir nas medalhas (...) - nos subterrâneos do mundo eu fico, por entre paredes, sob as gorgetas, embaixo da vida: 3 dias e 3 noites: o limite do desvario<br />[...]<br />A descoberta do mundo: extra-Brasil: é lógico que se ambicione a êle: estamos no hemisfério sul, ao sul e fora de jogada, na reserva do mundo - subterrânea é para mim a descoberta do que representa o sul do sul no mundo: só um tipo de comunicação (...) novo (...) (não-assimilatório), na prática (não-ritual): underground seriam a consciência e a eficácia da marginalidade das criações do que cria: a criação torna-se manifestação coletiva, não-ritualística: libertad! - a idéia de uma "integração" do artista no contexto social é falsa: ao artista caberia comandar as transformações que sobem: de dentro, de baixo, do sub ao subombear, puxar a liberdade, fazê-la crescer - <br />[...]<br />para o mundo: ou no mundo. </i><br /><br />Uma prática subterrânea reconhece que a política nasce da planta do pé. Reconhece que mais interessante do que olhar com os olhos seria, à maneira de Georges Bataille, olhar com o dedão do pé. A possibilidade de política e de pensamento está na criação, na tentativa reinventar todos os dias, de criar constantemente a diferença, o múltiplo. Uma criação que, entretanto, não alimenta uma paixão do Real, a marca, segundo Alain Badiou, do século XX; que não tenta representá-lo, acolhê-lo, absorvê-lo, desenvolvê-lo, mas que deixa o outro viver ao seu modo de gozo. Essa criação subterrânea esfumaça as fronteiras entre arte e vida, abandona os mediadores. Privilegia o momento que se apresenta como eternidade e felicidade fugaz: "não me interessa a reprodução desse momento em palavras nem em obras, mas o momento ou a verificação futura dele por outrem". A prática ou política subterrânea trata, enfim, de um pensamento que advém do corpo: uma paixão que alavanca a imaginação, que implica os fantasmas, que implica o outro. Agamben chama a atenção para a <i>viv-ibilidade</i>, procedimento de contemplação da potência que desprenderia a vida dos determinismos biológicos, sociais e econômicos:<br /><br /><i>Spinoza chama contemplação da potência, uma inoperosidade interna, por assim dizer, à mesma operação, uma praxis sui generis que consiste em tornar inoperante cada potência específica de agir e de fazer. A vida, que contempla a (própria) potência de agir, se rende inoperosa&nbsp; em todas as suas operações, vive somente a (sua) vivibilidade (...) A subjetividade, é isto que se abre como uma inoperosidade central em cada operação, como a viv-ibilidade de cada vida. Nessa inoperosidade, a vida que vivemos é somente a vida através da qual vivemos, apenas a nossa potência de agir e de viver, a nossa, agibilidade e a nossa vivibilidade. A bios coincide aqui sem resíduos com a zoé. </i><br /><br />Quarenta anos antes, Oiticica, da América Latina subterrânea, em pleno exercício da sua prática-grito, definiu a arte como a "criação de uma possibilidade de vida". Nos corpos dançantes dos <i>Parangolés </i>já se aventava uma coincidência sem resíduos entre bios e zoé.<br /><br /> ]]>
        
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    <title>Eu tenho uma amiga que diz coisas lindas</title>
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    <published>2009-09-22T22:26:46Z</published>
    <updated>2009-09-22T22:50:24Z</updated>

    <summary>Eu tenho uma amiga aqui. Ela sempre diz coisas lindas. Embora viva num silêncio discreto. Ela escreve poemas lindos. Sempre que ela os lê meu coração transborda em comoção. Ela é assim vagarosa e eu um foguete. Mas tudo se...</summary>
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        <![CDATA[Eu tenho uma amiga aqui. Ela sempre diz coisas lindas. Embora viva num silêncio discreto. Ela escreve poemas lindos. Sempre que ela os lê meu coração transborda em comoção. Ela é assim vagarosa e eu um foguete. Mas tudo se equipara quando tomamos, vez ou outra, litros de cervejas. Nós duas sempre resistimos bravamente. Ou insistimos bravamente, não sei. Júlia Studart representa o que Spinoza chamou de bom encontro. Aquele que te enche de alegria em ver ou ouvir. Ler essa entrevista (que roubei <a href="http://torvelim.blogspot.com/">daqui)</a> feita por <a href="http://memoriaeprojeto.wordpress.com/">Carlos Augusto Lima</a> é um alento. Ela abre uma fresta no dia para a felicidade.<br /><br />uma conversa: poesia,<br />por Carlos Augusto Lima<br />(Coluna no Diário do Nordeste, Caderno 3, 18.09.09)<br />ver também: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=671882<br /><br /><i>Escritor precisa ter obra? Precisa ter livro, livro desses grossos, de se manter em pé, de ter volume e aparência de força? E quando um bom poeta se anuncia com vagar, ocupando espaços pequenos, publicando discretamente, aqui e ali, o que acontece? Penso que essa forma de ser (poeta) e discreto, a melhor. Pois tem um tempo trabalhado, chegando aos poucos, com arrumação de idéias, de experiências e discreta naturalidade. É pensando nisso que convido para esta conversa, sobre poesia, que já está no sexto número, como um projeto de mapear um bom pensamento novo nesta cidade, Júlia Studart, que nasceu em Fortaleza, 1979, mas já vê a cidade com a distância, necessária, quase abandono e teimosia de não estar. Júlia é autora de "Wittgenstein e Will Eisner" (Lumme Editor) e de "Livro, Segredo e Infâmia" (Editora da Casa). Publicou também "Marcoaurélio!" uma plaqueta com Milena Travassos (Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura). Faz doutorado em Teoria Literária na Universidade Federal de Santa Catarina/CNPq, a partir das linhas narrativas de Gonçalo M. Tavares. Júlia vive em Florianópolis e observa à distância. O que é bom.</i><br /><br />1) Por que escrever poesia, essa insistência?<br />Penso a poesia como uma espécie de provocação, de afronta. E por outro lado, também como um grande mal-entendido. E, acho que você deve lembrar bem, Carlos, que, de alguma forma, tudo isso começou com um convite seu para participar do projeto das plaquetas, quando você ainda estava no Centro Dragão do Mar. Ou seja, igualmente uma espécie de provocação, que me colocou num fogo cruzado com a poesia. Porque até então eu era apenas uma boa leitora de poesia, porém uma leitora muito distraída. Mas foi precisamente assim que apareceu o meu primeiro poema, Marcoaurélio!, que não deixa de ser uma provocação desdobrada, porque ainda tinha ali, do lado, o trabalho interessante da Milena Travassos. E aí, depois, vieram outros convites para escrever e publicar poemas, sempre entre uma provocação imprevista e todos os meus embaraços com essa linha de texto desajustada, abusada, quase uma zombaria. Hoje escrevo exatamente para tentar manter o mal-entendido, para sustentar a provocação, todas elas, e o convite aberto, esticado para o mundo e, principalmente, para perder o prumo. Acho que meu poema é meio desequilibrado, porque não sei direito como ele começa, nem como termina, mas sei bem o que não quero que esteja ali, escrito. E gosto que ele seja assim mesmo. Por isso escrevo tão pouco, tão devagar, aliás, o poema apenas me segue, porque faço tudo muito devagar. A idéia é reunir esta pequena produção num livro, quando conseguir, se conseguir, e óbvio, este primeiro livro vai ter que se chamar mal-entendido. E pode não aparecer nunca, também. Mas vou manter a insistência.<br /><br />2) Me faça um paralelo entre poesia/mundo. O que é ser poeta na condição de hoje?<br />O escritor Gonçalo M. Tavares - que pesquiso no meu doutorado em literatura, aqui em Florianópolis/SC -, diz em um pequeno verbete intitulado Clarice Lispector, que está no seu livro Biblioteca, ainda inédito no Brasil, que: Uma barata pode ser mais importante que um imperador. Se os teus olhos olharem mais tempo para uma barata do que para um imperador, a barata torna-se mais importante que o imperador. E continua: O que é um revolucionário, pergunta-me a minha filha de três anos, e eu respondo: é quem olha mais tempo para uma barata que para um imperador. E o que é um imperador, pergunta-me a minha filha. É aquele que não deixa que se olhe demasiado tempo para a barata - respondi. Acho que o poeta é este revolucionário impreciso, o que procura manter um convite aberto para esta pequena "revolução", que passa por um desvio de olhar, uma saída do olhar médio e da linha central da história, para provocar uma deformação, um assombramento, uma perturbação, que pode ser figurada nesta imagem em ato, tão simples e banal: olhar mais tempo para uma barata que para o imperador. Ou seja, provocar um desequilíbrio na história, no monumento; esquecer-se do imperador, quem é o imperador, se há um imperador. O poeta pode até não existir, não tem precisão de existência, mas não sei o quanto o mundo pode ficar mais estranho de tão igualzinho sem esta figura desimportante.<br /><br />3) Simples: o que é escrever poesia em Fortaleza. Que tipo de reflexões pode apontar a partir desse dado?<br />Bem, estou fora de Fortaleza há quase seis anos. Tanto que a cidade hoje me parece muito mais apenas um nome bonito, uma falta, um sei lá bem o quê. E escrevo de um outro lugar, escrevo meio sem cartografia; mas se posso pensar em uma, escrevo a partir de uma ilha, o que parece mais estranho ainda, que pode até trazer também uma mesma linha de mar, mas que não tem linha nenhuma, nenhuma cartografia. Muitas vezes acho que escrevo do meu corpo, da minha casa, do que vi passar ou do que queria muito ver passar diante do meu olho, como uma barata. O fato é que Fortaleza está muito pouco em meu trabalho, quase nada. Acho que devorei Fortaleza há muito tempo, numa espécie de ritual antropofágico, e que hoje ela não me visita mais, ou visita como um devorador. Perdemos as marcas, as duas.<br />]]>
        
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    <title>Falta</title>
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    <published>2009-09-22T04:01:50Z</published>
    <updated>2009-09-22T04:28:21Z</updated>

    <summary>Existem coisas que nos deixam sem palavras. Encontrar um documento genial em um arquivo, por exemplo, pode bloquear o pensamento. Uma grande idéia pode não sair da cabeça. Reencontrar alguma coisa perdida no tempo pode bagunçar tudo. Acontece, as vezes,...</summary>
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        <![CDATA[Existem coisas que nos deixam sem palavras. Encontrar um documento genial em um arquivo, por exemplo, pode bloquear o pensamento. Uma grande idéia pode não sair da cabeça. Reencontrar alguma coisa perdida no tempo pode bagunçar tudo. Acontece, as vezes, de ficarmos sem ter como dizer nada. O silêncio, diria Blanchot, é o que não cessa de dizer na obra. As vezes é ele quem nos diz coisas que não podemos ler. Deve ser o tal encontro com o Real de Lacan. Quando a linguagem é, definitivamente, insuficiente. O desejo só pode ser dito com o corpo. Hélio Oiticica conseguiu juntar todas essas coisas quando definiu um objetivo para a arte: a felicidade. Irrepresentável, incomunicável e inapreensiva.<br /> ]]>
        
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