
Ontem estávamos conversando no twitter sobre Marina Silva. Várias opiniões, ainda bem. Pontos de vista completamente diferentes, melhor ainda. Então, manifesto-me sobre o que penso sobre Marina além dos 140 caracteres. Bem, além do consenso de que ela é uma mulher maravilhosa, com uma história mais do que respeitável, que foi a melhor Ministra do Meio-ambiente que já tivemos, e que tem percalços imperdoáveis, como a não adesão a Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT, acho que temos que parar para ouvir um pouco sobre o projeto da Marina. Não necessariamente para achar que isso será feito, porque sei das partes envolvidas e, infelizmente, ainda não consigo crer que se reprograme um partido em tão pouco tempo. Condição essa que Marina praticamente impôs para a sua candidatura. Mas vamos aos fatos.
Ontem eu procurava uma declaração de Marina Silva em que ela se posicionasse em relação à descriminalização do aborto. Bruno Pinheiro me passou esse link (merci). Então, ali na entrevista ela diz que é contra o aborto, mas acha que isso deveria ser colocado em questão através de um plebiscito. O que é menos mal, ela é contra pessoalmente, mas entende o aborto como uma questão de saúde pública. Embora eu odeie plebiscito no Brasil (o do desarmamento acabou comigo; o da descriminalização do aborto me deixaria em cinzas.), tenho que reconhecer que ela arruma uma saída para o debate (o PV também criou uma "clausula de consciência" para tentar mediar esse tipo de disparidade entre os militantes e Marina, vamos ver no que dá). Mas enfim, essa é uma bola que tem que ser levantada no Congresso Nacional. É claro que uma força do presidente é mais do que bem-vinda. Mas o episódio do Lula recuando com a vinda do Bento XVI pra cá, também revela que essa questão está longe de ser discutida. O que é uma merda. Mas, em todo caso, não sejamos ingênuos: nenhum candidato vai colocar isso em questão, nem Dilma, nem Marina, nem Serra, por motivos diferentes, é claro.
Outra coisa que eu acho deprimente e impertinente, é o contraste que fazem ao opor Dilma e Marina (o Maurício Caleiro falou sobre isso, entre outras coisas, num post bacanérrimo). Vislumbrar Marina com uma pureza irretocável implica assumir que ela jamais ultrapassaria seus limites éticos. No que acredito. Mas, o tratar Dilma como "impura", que faz cara feia, implica assumir que ela sim, ultrapassaria qualquer limite ético para conseguir o que quer. O que, além de não acreditar, repudio com raios de Júpiter.
Confesso que não me agrada a troca de partido da Marina. Sair do PT pra ir pro PV não é muito jogo para ninguém (Hugo Albuquerque aborda o tema, também entre outras coisas, aqui). Vide Gabeira, que pirou geral. Mas, se pensarmos bem, Marina jamais concorreria à presidência se ficasse no PT. A intransigência do Partido é velha conhecida, não existe a possibilidade de primárias, ainda. Sorte a nossa que a "escolhida" foi Dilma.
Outra coisa que defendo é que a proposta de Marina Silva não é colocar o meio-ambiente na agenda. Meio-ambiente já é uma pasta há tempos, um Ministério. Colocar a coisa toda para funcionar é que é uma novidade. A proposta é que, a partir do meio-ambiente, se reformule os modos de produção e de consumo, como argumenta Alexandre. E, conseqüentemente, isso impacte no funcionamento do sistema econômico e social como um todo - o que acho mais do que importante, essencial. Ou seja, existe uma série de portas de entrada (sociais, econômicas, ambientais), como diz Marina, mas ela quer também as portas de saída. Pois então, daí me preocupa um pouco, e acho que preocupa outros também, que o enfrentamento Marina X Dilma se dê nesse plano. No discurso proferido na filiação ao PV, Marina disse que é a favor (óbvio) do bolsa família, mas que estava na hora de deixar de fazer as coisas pelas pessoas e começar a fazer com as pessoas. Eu concordo plenamente com Marina, assim como Dilma, Lula e tutti quanti, concordam, não é mesmo? Aí é que eu acho que ficará complicado porque pode desenrolar um debate improdutivo, ou melhor, óbvio, com a solução já dada. Mas enfim, também não acho que isso vai fazer com que José Serra ganhe votos. Quem é a favor do bolsa família vota na Dilma ou na Marina e não no Serra. Acho que essas previsões imbecilizam um pouco os eleitores, assim como confia demais na inteligência tucana. Também não acho que a esquerda esteja rachada e se estiver também, não tem problema. Não consigo conceber os blocos hegemônicos (e vamos combinar que o PT é bem rachado), faz mal para a saúde, faz mal para o país. Sem contar que, acho maravilhoso que o discurso de Marina seja ecoado ad infinitum, trata-se de coisas urgentes e sensatas.
Por fim e (in)concluindo: não temos como saber como será, ao mesmo tempo que temos uma pressa que nos consome. Mas acho que as precipitações são menos interessantes do que a espera nesse caso. Vejamos como as coisas se desenvolverão. Wait, wait, wait.



