Flávia: agosto 2009 Arquivos

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Ontem estávamos conversando no twitter sobre Marina Silva. Várias opiniões, ainda bem. Pontos de vista completamente diferentes, melhor ainda. Então, manifesto-me sobre o que penso sobre Marina além dos 140 caracteres. Bem, além do consenso de que ela é uma mulher maravilhosa, com uma história mais do que respeitável, que foi a melhor Ministra do Meio-ambiente que já tivemos, e que tem percalços imperdoáveis, como a não adesão a Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT, acho que temos que parar para ouvir um pouco sobre o projeto da Marina. Não necessariamente para achar que isso será feito, porque sei das partes envolvidas e, infelizmente, ainda não consigo crer que se reprograme um partido em tão pouco tempo. Condição essa que Marina praticamente impôs para a sua candidatura. Mas vamos aos fatos.

Ontem eu procurava uma declaração de Marina Silva em que ela se posicionasse em relação à descriminalização do aborto. Bruno Pinheiro me passou esse link (merci). Então, ali na entrevista ela diz que é contra o aborto, mas acha que isso deveria ser colocado em questão através de um plebiscito. O que é menos mal, ela é contra pessoalmente, mas entende o aborto como uma questão de saúde pública. Embora eu odeie plebiscito no Brasil (o do desarmamento acabou comigo; o da descriminalização do aborto me deixaria em cinzas.), tenho que reconhecer que ela arruma uma saída para o debate (o PV também criou uma "clausula de consciência" para tentar mediar esse tipo de disparidade entre os militantes e Marina, vamos ver no que dá). Mas enfim, essa é uma bola que tem que ser levantada no Congresso Nacional. É claro que uma força do presidente é mais do que bem-vinda. Mas o episódio do Lula recuando com a vinda do Bento XVI pra cá, também revela que essa questão está longe de ser discutida. O que é uma merda. Mas, em todo caso, não sejamos ingênuos: nenhum candidato vai colocar isso em questão, nem Dilma, nem Marina, nem Serra, por motivos diferentes, é claro.
Outra coisa que eu acho deprimente e impertinente, é o contraste que fazem ao opor Dilma e Marina (o Maurício Caleiro falou sobre isso, entre outras coisas, num post bacanérrimo). Vislumbrar Marina com uma pureza irretocável implica assumir que ela jamais ultrapassaria seus limites éticos. No que acredito. Mas, o tratar Dilma como "impura", que faz cara feia, implica assumir que ela sim, ultrapassaria qualquer limite ético para conseguir o que quer. O que, além de não acreditar, repudio com raios de Júpiter.
Confesso que não me agrada a troca de partido da Marina. Sair do PT pra ir pro PV não é muito jogo para ninguém (Hugo Albuquerque aborda o tema, também entre outras coisas, aqui). Vide Gabeira, que pirou geral. Mas, se pensarmos bem, Marina jamais concorreria à presidência se ficasse no PT. A intransigência do Partido é velha conhecida, não existe a possibilidade de primárias, ainda. Sorte a nossa que a "escolhida" foi Dilma.
Outra coisa que defendo é que a proposta de Marina Silva não é colocar o meio-ambiente na agenda. Meio-ambiente já é uma pasta há tempos, um Ministério. Colocar a coisa toda para funcionar é que é uma novidade. A proposta é que, a partir do meio-ambiente, se reformule os modos de produção e de consumo, como argumenta Alexandre. E, conseqüentemente, isso impacte no funcionamento do sistema econômico e social como um todo - o que acho mais do que importante, essencial. Ou seja, existe uma série de portas de entrada (sociais, econômicas, ambientais), como diz Marina, mas ela quer também as portas de saída. Pois então, daí me preocupa um pouco, e acho que preocupa outros também, que o enfrentamento Marina X Dilma se dê nesse plano. No discurso proferido na filiação ao PV, Marina disse que é a favor (óbvio) do bolsa família, mas que estava na hora de deixar de fazer as coisas pelas pessoas e começar a fazer com as pessoas. Eu concordo plenamente com Marina, assim como Dilma, Lula e tutti quanti, concordam, não é mesmo? Aí é que eu acho que ficará complicado porque pode desenrolar um debate improdutivo, ou melhor, óbvio, com a solução já dada. Mas enfim, também não acho que isso vai fazer com que José Serra ganhe votos. Quem é a favor do bolsa família vota na Dilma ou na Marina e não no Serra. Acho que essas previsões imbecilizam um pouco os eleitores, assim como confia demais na inteligência tucana. Também não acho que a esquerda esteja rachada e se estiver também, não tem problema. Não consigo conceber os blocos hegemônicos (e vamos combinar que o PT é bem rachado), faz mal para a saúde, faz mal para o país. Sem contar que, acho maravilhoso que o discurso de Marina seja ecoado ad infinitum, trata-se de coisas urgentes e sensatas.
Por fim e (in)concluindo: não temos como saber como será, ao mesmo tempo que temos uma pressa que nos consome. Mas acho que as precipitações são menos interessantes do que a espera nesse caso. Vejamos como as coisas se desenvolverão. Wait, wait, wait.

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Hoje era dia de aula. Daí eu estava lá como espectadora do inteligentíssimo, imprescindível, inspiradíssimo, Raúl Antelo. Ele falava do conceito de pulsão de Lacan, de como isso implicava a compreensão da vida como nada. E que, desse modo, passávamos a vida arrumando maneiras, nos apoiando em coisas, para suportá-la. E, last but not least, explicou como isso nos afastava da animalidade e tals. Então, seguindo a minha empreitada contra a designação de monstro, e incluindo minha aversão a aproximação do humano à condição animal, escrevo.
Estava num evento em que um dos participantes dizia, a partir de João Gilberto Noll (que em um dos seus livros, acho que Berkeley em Bellagio se não for esse, é Lorde, diz que queria ser nada), que o homem se aproxima da animalidade na sua condição de ser qualquer, de vida que não é nada. Enfim, de vida que não tem nada a perder. Alguma coisa próxima do pós-humano de Kojève, mas não tanto. Digo isso porque, mais uma vez, presencio uma fala em que o "falador" não se sente implicado. Não consigo entender muito bem a maneira com que as pessoas conseguem apartar a humanidade e, assim, aproximarem uma fração da animalidade e outra da continuidade do humano. E, claro, mais uma vez, a galera simpolga. Tinha gente até dizendo que o futuro do humano seria não-biológico. Não consegui entender, sorry.
Os dois livros mencionados de Noll, excelentes, diga-se de passagem, são "relatos de viajante", diferentes, evidentemente, mas trata-se de um deslocamento geográfico. Um homem que sai do seu país (e aí temos o estranhamento, no mínimo, da língua), um homem desapontado, como é recorrente em Noll, que, ao contrário dos relatos convencionais de viagem, não tem a menor esperança de conhecer algo novo, não sai em busca do maravilhoso, ele tem apenas vontade de não ser nada e não tem nada a perder. Como podemos constatar em Lorde "Indiferente compor novos elementos de cidadania um sentido ou não. Eu era o clássico indivíduo que havia muito, não tinha nada a perder". Isso é bem diferente, por exemplo, de alguém que "não tem nada a perder" socialmente. Basta lembrar que assim foram tratados (como quem não tem nada a perder) os moradores do Capão Redondo, no episódio recente de reintegração de posse. Certo, depois de passar pelo livro de Noll o conferencista enveredou para "os que não têm nada a perder", porque já estão fodidos mesmo, aproximando-os da animalidade. Reitero, porque isso guia meu raciocínio, que o homem mesmo reduzido à condição animal, nunca deixará de ser humano (os judeus eram chamados de porcos pela SS e, apesar de tudo, não eram porcos, eram, sim, humanos).
Pois bem, voltando ao meu argumento de se sentir implicado. Se eu levanto minha mão para fazer-lhe uma pergunta e o chamo de cavalo, porque isso é animalidade, ele xingaria minha mãe, meu pai e rogaria uma praga até a minha décima quinta geração. Mas tudo bem se eu dissesse que a menina que tinha sido assassinada na noite anterior na Villa 31, expressava uma animalidade (e, de fato, rolou essa indecência). Não consigo entender como é não pensar no outro, ou ainda, como é só pensar radicalmente no outro e não ter um compromisso ético de ver-se vendo. Esse, tristemente, é o estado das coisas.

Novidade!

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Cyntia Semíramis criou um blog coletivo para abordar um tema urgente: o sexismo na política. Eu, timidamente (porque as mulheres que participam são incríveis), colaborarei lá também.

Las mujeres argentinas

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Coisa bonita é andar na Argentina. Além de inúmeras manifestações, calientes em sua maioria, é visível o esforço de construção da memória do país. O mais lindo exemplo disso é o Salón Mujeres Argentinas na Casa Rosada: Eva Perón, Mães da Praça de Maio, Victoria Ocampo, Alicia Moreau de Justo, Mariquita Sánchez de Thompson, Cecilia Grierson, Lola Mora, Paloma Efron, Aimé Painé, Tita Merello, Alfonsina Storni, Juana Azurduy, todas juntas para lembrar que mulheres (ó) fizeram parte da história. Nesse salão Cristina recebe a imprensa e anuncia suas decisões entre as Mães da Praça de Maio e Evita com quem divide a cena. É assim que Cristina tenta reconstruir a história: com um gesto absolutamente político. Ela anuncia e faz viver permanentemente, com as fotografias, as mulheres que ajudaram a construir o país: "quería un lugar permanente para las mujeres; un lugar que nos hemos ganado, pero que todavía es muy resistido" (o discurso de inauguração está disponível aqui). De modo que, toda vez que Cristina falar naquele salão, falará junto com (e não por) as mulheres argentinas.

No Brasil as mulheres homenageadas "politicamente" (coloco entre aspas porque, na verdade, é sempre por atuações sociais) geralmente estão vinculadas a função materna (muito diferente, evidentemente, da situação das Mães da Praça de Maio). Ou trata-se da descoberta de uma mistura para nutrir melhor as crianças, ou da que toca uma Fundação para ajudar as crianças carentes. É evidente que não estou contra isso, pelo contrário, antes isso que nada. Mas meu argumento é o do reconhecimento político. Nunca esquecerei de um episódio com um taxista em Buenos Aires (estava acontecendo o translado do corpo de Perón nessa época, mas mesmo assim, não existe a possibilidade de viajar a Argentina e não ter algum acontecimento, esse dado poderia entrar na lista de impossíveis ao lado de: não tem como ganhar na mega-sena sem jogar). Ele me dizia que Eva era inesquecível, mas que Cristina, na época ainda primeira-dama, seria também, e que era ela quem tomava as decisões no país, dizia também que ela nunca poderia ser reduzida a "função" de esposa do presidente porque quando Néstor fosse, realmente, tomar uma decisão, era ela quem consultava. Isso é uma amostra do imaginário da população, pequena é claro, mas mostra que não existe estranhamento, tampouco confusões, na representatividade das mulheres. Vejamos por exemplo, no Brasil: o país é tão machista que consegue manter umas filiações muito loucas com argumentos políticos. Na Argentina, Cristina é anunciada, não raramente, como Cristina Fernández, e não como Cristina Kirchner; no Brasil, Marta, por exemplo, é, ainda, Suplicy, o que lhe garante carisma e reconhecimento. Desvencilhar-se do sobrenome do marido foi uma estratégia política de Cristina que não lhe garante, claro, uma desvinculação, mas por outro lado separa as coisas, o que é muito bom. Cristina será lembrada como Cristina. Marta será lembrada como Marta Suplicy. Não que isso seja um caso de emergência, tem uma série de fatores impressos na decisão de Marta, mas isso reforça, digamos, a mulher na sombra do homem. Ou ainda, temos os banners a favor da candidatura de Dilma Rousseff: Dilma 2010 é Lula outra vez. Não é Lula outra vez, é Dilma. Pode ser: continuaremos o trabalho começado por Lula, mas não é o Lula outra vez. Ou seja, temos sempre a reativação do nome do pai, da filiação, da herança, da fundação. Sem esse enraizamento a pessoa não representa nada.

Para terminar, no Brasil, será que nos falta uma presidenta? Eu, particularmente, acho que sim. Pelo menos para alterar esse imaginário assombroso em relação às mulheres. Mas imagino que vai ser osso duro de roer. Imagino também que irão masculinizar o quanto puderem (basta lembrar, por exemplo, dos boatos sobre Hillary que diziam que usava roupas "masculinas" para não dar a impressão de que apelava (!!!!) para a questão de gênero) para justificar uma posição de comando. Mas para chegarmos lá, teremos que suportar o bombardeio indecente da medição de "colhões". Ora, ora, o órgão mais sensível do homem para justificar o poder. Nada mais contraditório, porém nada mais apropriado para exemplificar a sociedade estúpida em que vivemos.

Presente

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Ele diz: eu só sei como as coisas são. Não pergunte como poderiam ser, como seriam, como serão. Ele só sabe viver no presente. Arrasta-se. Não sabe dizer do amanhã. Nem pensa. Nem imagina. Levanta-se todo o dia como se fosse o primeiro. Ele não tem memória. Cria sempre um universo ao redor de si. Para lhe dar conforto. Que se apaga. Quando fecha os olhos. Cria seus afetos. Simula conversas. Seleciona seus gostos. Ele é pura invenção. Conheceu uma pessoa nova. Velha conhecida. Queria que aquele momento durasse para sempre. Precisava congelar o tempo. Tentou nunca mais dormir. Ele não tinha futuro. Mas queria sentir saudades.

Balé

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Era corpo sutil. Mas era corpo. Sempre chegava antes da cabeça. Quando aparecia, aparecia exacerbado pela comoção. Longe do natural. Mais deformador que o próprio símbolo. Ignorava a anatomia. Rodava, rodava. Até encontrar seu eixo. Sempre descentrado. Estendia a mão. Fazia um convite. O mundo o girava. Movimento e repouso. Movimento e repouso. Ia e vinha. Seus passos, passionais. Colava o rosto no vento. Estendia os braços. Punha-se a andar. Ele só tinha frente: o infinito. Não tinha verso. Trazia tudo com ele. Rodava, rodava. A vertigem dominou seu tempo. Passado, presente, futuro. Tudo concentrado. Naquele corpo.

Das impossibilidades da vida

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Era quarta-feira e ela deveria estar trabalhando. Não devia perder o seu tempo com bobagens. Muito menos fazendo planos impossíveis. Tinha que ficar onde estava. Nenhum passo a frente. Nenhum passo atrás. Pensou que isso era natural. Como uma árvore plantada no meio de uma calçada. Era bem ali que ela ficaria, para sempre. Ingressou com um pedido de transplante de cérebro no SUS. Precisava mudar alguma coisa. Disseram que só atenderiam casos graves. Mas não existia caso mais grave que o dela. Avisaram que existia risco de morte. Mas ela pensava que viver era estar à beira da morte. Apressar ou retardar dependeria do contexto. Foi ler Os sofrimentos do jovem Werther. Porque acreditava no que seu professor do colégio contou: muitos se suicidaram lendo esse livro. Ela tomaria coragem. Pegou uma faca. Mas só arrancou as unhas com os dentes. Tudo que ela queria era sair dali. Mas era quarta-feira e ela deveria estar trabalhando.

Brincadeira tem hora

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Sou absolutamente a favor da televisão. Assisto várias séries americanas, dou uma olhadela na novela das oito, na boa. Adoro. Agora, se tem uma coisa que não consigo entender é aquele reality show No Limite que passa na Globo. Coisa mais idiota para se fazer. Sem contar que, passando na Globo, não posso deixar de pensar no seu caráter exemplar: "todos podem sobreviver com pouco, desde que tenham um objetivo na vida". Ideologia branca e burguesa, própria da emissora. Nesta edição, duas meninas justificaram o abandono do programa porque presenciaram uma cena degradante, que disseram ser "o limite": encontraram um mamão podre, dividiram com todos da "tribo" que, por sua vez, comeram como se fosse um manjar dos deuses. A artificialidade, a necessidade forçada, do programa consegue elevar à última potência a essência da sociedade do espetáculo: o reino das aparências. Porque ali existe a possibilidade de desistir, como também se sabe que ninguém sairá morto, ou seja, o programa não é medido pela força, mas sim pela capacidade de abstração de cada um. Além disso, a conjugação entre técnica e natureza é sua marca distintiva. Os participantes do programa estão em um "paraíso", como chamam, e são vigiados por câmeras durante as 24 horas do dia. A denominação de tribo, para remeter a um primitivismo, é conjugada com a escatologia (comer olho de bicho, por exemplo) que, na verdade, também revela o propósito do jogo: levar as pessoas ao "limite", ao éskhatos. Enfim, é um show de horrores. Paradoxos atrás de paradoxos que minam o imaginário coletivo, como se pode perceber muito bem nos comentários do blog mantido pelo programa. Lá se pode encontrar: "era eu quem deveria estar aí" "vocês precisam democratizar a seleção dos participantes", "vocês deveriam punir os desistentes","tem muita gente que não tem o que comer e fica feliz só de saber que vai acordar no outro dia vivo" e blábláblá. Resumindo: tem gente que gostaria que as privações fossem bem maiores, outros que gostariam que os selecionados representassem melhor a "bravura" do povo brasileiro que se fode dia e noite, outros que queriam um aumento no valor do prêmio, e por aí vai, um absurdo atrás do outro. Lembrei então, a propósito da fome, que algumas tribos indígenas mantêm a estratégia de parar de comer para resistir. Essa ação Flávio de Carvalho denominou como Resistência Passiva. Para não cederem, para não saírem vencidos, os índios se negam a comer. É uma estratégia de sobrevivência em tempos de guerra. Agora, abordar a sobrevivência num jogo em que os telespectadores, até então, decidiam, em última instância, quem deveria viver (ficar no jogo) e quem deveria morrer (sair do jogo) mostra o ponto degradante que a sociedade conseguiu chegar e revela o gozo que se tem sobre uma situação que, sabemos, não é fictícia, ao contrário, é predominante em muitos lugares, uns mais perto e outros mais longe de nós. Só que com uma diferença definitiva: nesses lugares, é a vida que está em jogo.

Monstros: o gozo acadêmico

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Semana passada assisti uma conferência sobre literatura caribenha. O falante, Kristian Van Haesendonck, pesquisador do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa, apresentou uma parte da sua pesquisa, uma série de autores e duas "vertentes" para ler a literatura caribenha. Uma delas opta por pensar uma concepção "monstruosa" de construção nacional pós-moderna, e a outra aponta para a invisibilidade. Ainda estou em busca dos livros, eu, brasileira, confesso. Mas, mesmo assim, quando Kristian acabou de falar, nós, (os ouvintes e ele), começamos a discutir as tais possibilidades. Voltei para casa perplexa porque achei uma coisa impressionante a defesa do monstro. Não nego minha quedinha surrealista-dissidente-acefálica-batailleana, mas venho pensando recorrentemente que essa é uma categoria um pouco perigosa. Sendo assim, tendo a crer que a estratégia da invisibilidade seja mais pertinente (outro dia me explicarei quanto a isso). Deixo registrado: saí derrotada do debate porque a galera simpolga geral com os monstrinhos. Então, vamos lá: porque não defendo essa história de monstro e hibridismo antropomórfico na literatura e na vida. A monstruosidade, embora tenha um caráter de mostração e exposição, etimologicamente falando, e ambas tenham importância na invisibilidade, evoca algo que causa estranhamento e horror. Repulsa e atração. Sobre ela não existe lei. Ok, pode-se argumentar que essa é a grande sacada do monstro. Mas eu não acho não. Basta lembrar que "o Estado de Exceção em que vivemos é a regra". O monstro é uma vida materializável que, nessas condições, só podemos denominar como sacra, Homo Sacer (aquele que pode ser morto por qualquer um sem que esse ato seja considerado crime). Já li e ouvi algumas vezes estudiosos tratarem o Homo Sacer como uma figura heróica porque monstruosa. O que é, além de ser um erro crasso de leitura do livro homônimo, uma absoluta falta de responsabilidade. Bom, pode ser também que argumentem que o monstro não tem identidade, que ele não tem forma pré-estabelecida, que é informe, constituído de fragmentos, e todas as categorias do "presente" em voga. Não me convencerão. Não tem jeito. É só olhar o que aconteceu com Cara de Cavalo: um "monstro". Ou não? Os monstros literários (por exemplo, os defendidos na ocasião eram os que misturavam as línguas: inglês com espanhol) são facilmente apreendidos, absorvidos e domesticados. Ok, de novo, podem dizer que, assim, ele deixou de ser um monstro. Mas tudo pode deixar de ser. O monstro pode ser agrupado e identificado, logo, capturado. E, tem mais, eu já assisti dublado e legendado, nas madrugadas eternas da vida, um filme que, sei lá, não é uma obra-prima nem aqui nem na China, chamado Spanglish. O que me leva a pensar: que monstro é esse absolutamente institucionalizado numa língua? Ok, que ela seja uma língua hibrida, menor (no sentido de Deleuze e Guattari), e que não seja reconhecida oficialmente. Mas, se bobear, até George Bush já sabe falar. Além disso, penso que o discurso do monstro nos leva num pulinho para barbáries irremediáveis. Ainda mais se vem no pacote do pseudo-discurso de diferença. Ou seja, aquela estúpida receita gozoza de "aceitar a diferença" que é juntar tudo num bolo, num cercadinho, de preferência, e ficar admirando e fingindo a convivência. Bom, temos aí, como exemplos cabais, hoje, ainda (!), a homofobia, o racismo, e agora a pouco, a escravidão e Auschwitz. E se Auschwitz nos ensinou alguma coisa foi que o homem jamais será reduzido à animalidade, e que ele não deve ser rotulado de monstro. Mas o que me incomoda mesmo nessa história de aclamar o monstro é que todo mundo curte falar, mas geralmente desconhecem como o tratamento dado a um monstro (na verdade, foi Giorgito quem me ensinou). A universidade é cheia disso. As pessoas acham que freqüentando lugares "cults", ouvindo músicas "alternativas", assistindo Godard e cia e abominando a TV, são monstros, são diferentes. Hipocrisia pura. Queria ver quando fossem apontados como tal e abrisse um clarão em volta deles o que iriam fazer. O monstro é uma fabulação perigosa, uma exemplaridade para ser colocada, como novo deus, num altar. Por isso acho importante seguir a lição de Agamben na ponta do lápis: se você pensa a vida, você está disputando um objeto com o poder, então, cara, tem que prestar atenção! Caso contrário, ficaremos discutindo no vazio, relativizando infinitamente, e perpetuando a catástrofe.

Tempo

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Metade dela se foi num lapso. Ouviu My Way. Não lembrava o que era caminho. Não pensava mais nisso. Teria que fazer tudo de novo. E diferente. Quando pequena, se imaginava como uma maça verde. Seu maior desejo era tornar-se vermelha. Imaginou errado. Continuou verde. Não sabia que, para crescer, esticariam seu corpo inteiro. Achava que tudo seria em VHS. Ficaria ouvindo o barulhinho da fita voltando e pararia quando quisesse. Estava voando quando foi atropelada pelo tempo. Os faróis apagaram. Bateu a cara numa placa. Quebrou-se ao meio. Tentou juntar o que tinha caído. Enquanto tudo se espalhava pelo chão. Como as batatinhas. Ela pôs a mão no coração. E o boi da cara preta a recolheu. Tudo dela se foi num lapso.

Enlatados

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Essa é a história de Jurema, uma moça amarela. Jurema era triste. Ninguém sabia muito bem a razão. Talvez porque tivesse um metro trinta e seis centímetros e dois milímetros medidos com duas fitas métricas inspecionadas e aprovadas segundo as normas do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial. Seus cabelos, sem volume, eram também amarelos. Os olhos, dois pontinho pretos. Seu corpo, redondinho. Tinha vinte e sete centímetros e quatro milímetros de pernas. Riam muito da Jurema na escola. Chamavam-na das coisas mais carinhosas que uma criança no auge do seu período insano e autoritário pode dizer: bola, rolha, baleia, saco de areia. Um dia, porém, chamaram-na de grão de milho. Amarela! Perna curta! Jurema ficava cada vez mais triste. Na escola seu rendimento caiu vertiginosamente. Ia para aula e não dava um pio. Jurema não tinha nem aquela amiguinha, alma solidária, que estende a mão para todos. Ninguém, ninguém. Era Jurema contra o mundo. Ela fazia os trabalhos em grupo sozinha. Provas em dupla só com o seu alter-ego: uma menina igualzinha a ela, só que verde como uma ervilha. Seus pais não se preocupavam muito. Ela quase não falava em casa. Um dia ela resolveu ir para o alto de um prédio. Pensou em se jogar. O mundo era muito forte para Jurema lutar contra ele. Lá embaixo do prédio todos olhavam sem entender muita coisa. Como não a identificavam perfeitamente, olhavam e iam embora. Nessa passagem a pergunta recorrente era: "o que é aquele pontinho amarelo no alto do prédio?" Ah, sim, especulavam os passantes, é um grão de milho suicida. E assim nasceu a piada.
Estou aqui imaginando o que os chegadinhos numa fumaça fariam agora dentro de um estabelecimento em São Paulo, no auge da sua bebedeira de quinta, para dar aquela tragadinha goxtosa. Durante a quinta-feira acompanhei a contagem regressiva dos portais de notícias da internet para a implementação da lei antifumo (a salvação da lavoura, a redução de R$ 90 milhão de reaus para a Saúde Pública. blablabla). Bom, então me deparo com uma coisa no mínimo curiosa no site da Uol: um Pub chamado O'Malley's que, paradoxalmente, se apresenta como "Your home away from home", no intuito de obedecer à lei, colocará a disposição seguranças armados com pistolas d'água para zelar pelas pobres vítimas da fumaça do cigarro alheio. Não fosse só contra-senso propagandístico (cara, se estou na minha casa fora da minha casa, logo eu posso fumar, porque fumar em casa é permitido, rará), os seguranças ainda vão metralhar água na cara da galera! Que é isso, minha gente?! E a descrição que o proprietário do bar oferece é que a pistola serve "para apagar, subitamente, o fumígeno ofensivo". É a banalidade do mal mesmo. Salve Hannah Arendt, que, alías, gostava de puxar um fuminho também. É claro que na matéria se explica que "a intenção é jogar água somente no cigarro, e não no rosto das pessoas", mas, convenhamos, vai ter mira boa assim lá na equipe do Capitão Nascimento. Bom, para completar e tornar menos agressiva a implementação da lei, o Pub reservou um espaço na calçada para os fumantes fumegarem desde que não levem bebida. Ô, reservar espaço na calçada? Onde já se viu uma coisa dessas? Na calçada se faz o que quiser, amigo. É uma barbaridade atrás da outra. O risco mesmo é morrer do coração, porque não dá para agüentar, né? Matar aos poucos por matar, deixe que fumem, né, Zé? Ou você quer autoria exclusiva? 

Retorno

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Hoje reiniciei minhas atividades docentes. (Confesso que escrevo a linha anterior com uma quase-vergonha: "atividades docentes". Mas enfim, é basicamente isso). Tenho uma missão praticamente irrealizável: durante o meu doutorado divido as disciplinas de graduação com o professor Raúl Antelo. Além de ser uma honra, é uma tarefa árdua, porque manter o nível de Raúl é uma coisa que demanda um esforço e, inegavelmente, uma paixão que só foram despertas em mim na realização da minha incrível tarefa. Mas eu agüento. Ainda mais depois de hoje. Vou para a Universidade capotando de sono, depois de uma noite com uma tosse dos infernos e, claro, acompanhada do meu pessimismo congênito.  Chego na sala e tenho quatro alunos me esperando. Expliquei quem era aquela pessoa que iria tagarelar por alguns minutos e pedi desculpas porque me sentia muito indisposta e não poderia dar as três horas de aula. Entram mais uns 6 alunos. Entre um cof cof e outro falei de Aleijadinho e Barroco. Eles prestavam atenção no que eu dizia. Coisa engraçada é ver os outros anotando o que você diz. As vezes me dá um desespero, uma vontade de correr no pobre anjo e dizer, não faça isso. Mas depois penso que pode ser só uma estratégia para abaixar a cabeça. Como a sala é pequena, dificilmente os alunos fixam o seu olhar no meu. É impressionante como todos desviam. E é claro que no auge da minha paranóia, imagino que eles devem estar me comparando com o Raúl, ou me xingando das maiores baixezas intelectuais, ou reparando no meu penteado, ou nos meus dentes, ou nos meus olhos, ou achando que o que falo é a mais pura e solene das mentiras, enfim que sou uma farsa. E eu coço o nariz recorrentemente. Bastarão poucas aulas para eles reconhecerem meu tique nervoso. Prossigo, porque quando entro em sala me baixa um santo.  A primeira aula que eu dei, juro, achei que eu nunca mais pararia de falar na minha vida. Cheguei em casa e vomitei na mais crua conjugação de antropofagia e antropoemia. Mas, esse santo que baixava me abandonava ainda no caminho de volta pra casa. E eu achava sempre que era uma bosta mesmo e que estava tudo perdido. Então, hoje, com meus jovens a postos senti uma coisa que nunca tinha sentido: meu santo está de pé aqui ainda. Pelo menos até a hora desse post. Mesmo tossindo como uma porca velha eu perguntei se os adoráveis anjinhos tinham dúvidas: e tinham. Um menino não teve a menor cerimônia e levou o êxtase de Santa Teresa até Sade, Bataille, etc, exigindo de mim um raciocínio mais rápido do que eu tinha preparado para oferecer, dada minha experiência com a turma do semestre anterior (conto esse drama outro dia).  Foi renovador. Foi um "êxtase". Essa aula me fez voltar a acreditar que estar em sala é um exercício maluco de intensidades e, surpreendentemente, ela me trouxe um fiozinho de esperança. Empreenderei todos os meus esforços para que isso dure, porque esses alunos nem imaginam como eles definem o meu amanhã. Viva viva! \o/

MUNDO-ABRIGO é proposição
o dia-dia experimentalizado
não exclui  seta2.gif  dirige-se ao
que é vida.
   Hélio Oiticica

Flávia Cera é doutoranda em Teoria Literária na UFSC.

O desenho que abriga este blog é de Christiano Balz, colorido e tratado digitalmente.

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