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        <title>mundo-abrigo</title>
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        <copyright>Copyright 2011</copyright>
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            <title>A natureza é mundo</title>
            <description><![CDATA[Lutar pelo ambiente exige que coloquemos nossos corpos em jogo. Implica sair de uma posição de observador e iluminado. É uma luta que inclui seu corpo, sua vida, no mundo; que o coloca como efeito do mundo. O ambientalismo não é uma causa a qual se adere através da conscientização. <a href="http://culturaebarbarie.org/sopro/outros/suficiencia.html">Não nos preocupamos com a natureza como se fôssemos exteriores a ela, somos natureza</a>. A natureza é mundo e não o lugar para cálculos torpes da objetividade de engenheiro; é <a href="https://godotnaovira.wordpress.com/2011/12/01/eletric-funeral/">poesia</a> e violência.<br />&nbsp;<br />Os que encaram o ambientalismo como santuarismo, ignoram o que sabemos desde muito: a natureza é profana. E se vinga. De qualquer modo, é melhor ser um santuarista do que ser um exterminador de futuros (a semelhança com o filme não é mera coincidência). Afinal, o mote do grande projeto, como já disse Nelson Jobim, é que "não precisamos tratar do futuro porque estaremos todos mortos". É esse o fascínio narcisista que move a fé cega em um projeto criminoso: não sendo comigo, tudo bem. <br /><br />O crescimento brasileiro confunde desejo com dominação e se funda em uma necessidade incontrolável de energia, de produção, de exportação. Esquece, não sei se por má-fé ou por ingenuidade, que essa produção de "desejos" é o projeto em que se engaja o mais mortífero capitalismo que só é possível através de uma ampla dominação. Chamavam de Imperialismo até outro dia, hoje chamam de Potência. "Não é hora de parar de comprar nem de produzir", diz a presidenta. É hora de explodir.<br /><br />O que está em curso é a propagação de um modo de vida em que cada um goze com seus objetinhos comprados no shopping, na concessionária ou na loja de departamentos dentro de suas casinhas. Que as propagandas de seguro aumentem vertiginosamente para que se consiga conservar as aquisições. Um Brasil muito fascista com uma classe média formada em um exclusivo conceito de cidadania: o consumo. O que reforça, por outros meios, a propriedade privada e sua defesa com armas, extermínio, higiene e racismo.<br />&nbsp;<br />Um modo de vida tão fascista que é incapaz de respeitar outros modos de vida ("Será que um país deste tamanho não tem condições de oferecer outro local para as populações daquela região?", pergunta o progressista). Tão perverso que acha que todos devem ser desenvolvidos ao seu modo. Não deixa de ser um curioso paradoxo a defesa dos direitos das mulheres e das relações homoafetivas, por exemplo, por pessoas que são a favor deste modelo desenvolvimentista. Seria interessante rever essas bandeiras e seu grau de hipocrisia porque a única coisa que o desenvolvimentismo nos mostra é que não há espaço para a diferença. E uma mostra da consistência hegemônica do reacionário projeto Brasil Trator Potência é o consenso que une um governo petista e a revista Veja, Progressistas e Reinaldo Azevedo na defesa de Belo Monte. Ou ainda, a inacreditável suspensão feita pela presidenta do kit anti-homofobia depois de uma matéria escrota na Record (que se refere até hoje ao kit como kit gay) e da pressão da bancada religiosa. &nbsp; <br />&nbsp;<br />Os observadores, cuja objetividade os coloca como iluminados, deviam entender que o olhar é uma via de mão dupla. O que vemos, também nos olha. O mundo que observamos da janelinha do terceiro andar, também nos olha. Não será a objetividade de engenheiro, que tenta a todo custo <a href="http://www.youtube.com/watch?v=JhYd48tQav4">"tirar o corpo fora", </a>que impedirá que se saiba deste projeto civilizatório carregado de barbárie. Congelados em um presente de previsões de necessidades infinitas, os apoiadores do modelo entendem que o passado está morto e que o futuro será encantado. Só que, ao contário, este projeto de crescimento promove uma dinâmica entre passado-presente-futuro que governo e governistas preferem não ver: a posta em prática do projeto econômico nefasto da ditadura militar em que agita este presente fascista em nome de um futuro sem mundo. &nbsp;<br /><br /> ]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/12/a-natureza-e-mundo.html</link>
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            <pubDate>Sun, 04 Dec 2011 21:13:04 -0300</pubDate>
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            <title>&quot;Histéricas do mundo, uni-vos&quot;</title>
            <description><![CDATA[Peguei esse título de Nina Saroldi que prefacia o excelente livro da Denise Maurano: <a href="http://www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=25010"><i>Histeria. O princípio de tudo</i></a>. Creio que ele seja suficiente para entender que esse post não é uma aversão à histeria ou uma consideração de que a histeria é uma patologia, pelo contrário entende-se aqui, de acordo com Maurano, que ela é uma forma de subjetivação.<br /><br />A psicanálise surge com a histeria. Freud deixa de lado a hipnose e investe na associação livre. Ou seja, sem nós mulheres, o Ocidente não teria a psicanálise para confortar ou confrontar o sofrimento. Mas Freud não estava sozinho no estudo das histéricas. Charcot e Breuer também estavam tratando pacientes. Freud e Breuer publicam juntos Estudos sobre Histeria em 1895. Mas aí o racha (hihi) fundamental: Freud acha que deve incluir a etiologia da sexualidade e Breuer resiste.&nbsp; É daí também que surge o meme freudiano de que tudo é sexual. E, de fato, para Freud, é. Contudo, leituras posteriores de Freud, e ele mesmo, esclarecem o que é esse "sexual": é o que está relacionado ao prazer e não necessariamente aos órgãos genitais. Mas enfim.<br /><br />A histeria, durante boa parte do século XX (e até hoje) é vista como uma doença feminina: para a histérica nada é suficiente. Ou ainda, a histérica é um excesso, um transbordamento tanto é que seus sintomas são refletidos no corpo. Daí que estávamos conversando no tuíto sobre feminismo e afins e a <a href="http://twitter.com/#%21/deborahleao">Deborah Leão</a> me passou um link de um texto incrível da Maria Rita Kehl <a href="http://www.mariaritakehl.psc.br/resultado.php?id=166">aqui</a>. <br /><br />Daí que eu estava lembrando que uma das justificativas de certo movimento feminista é, justamente, se livrar da histeria ("não queremos que nos chamem de histéricas", "não somos histéricas reclamando por igualdade", etc). Enquanto, na verdade, o feminismo só pode existir pela condição histérica (pensem em Anna O.), por esse excesso de demanda que, como diz Kehl, embora acredite no "poder do falo", desestabiliza a posição masculina já que a histérica diz: quero mais. Tudo vem abaixo! A satisfação compulsória pelo casamento, pela maternidade, pela vida estável, familiar, etc. O que acontece aí é uma reafirmação desse transbordamento ou, lacanianamente, dessa ausência de significante, dessa falta tão vertiginosa, dessa demanda insaciável da histérica. Na histérica, nas mulheres em geral, está um lugar de invenção permanente, de metamorfose e de devir. E nesse sentido, reafirma a necessidade do feminismo ser considerado uma prática e não uma essência. Não adianta dizer: sou feminista, tornei-me feminista, então devo fazer assim, assim, assado. Como prática, enquanto movimento, no sentido pleno do termo, cria-se e recria-se um lugar, ou melhor, um não-lugar, uma vez que ele jamais pode ser estabilizado, para esse feminino inquietante que se expande para outros muitos devires. Ou seja, mais do que abrigar sobre um rótulo, mais do que definir seus preceitos, mais do que instaurar palavras de ordem, mais do que um discurso pronto, o feminismo precisa de histeria, dessa paixão que se inscreve no corpo e que, por isso, grita.<br /><br /><br /><br />PS: é lógico que a histeria pode causar sofrimento, taí a psicanálise, ou qualquer outro meio de seu gosto, para resolver essas questões. O que está em jogo aqui é um agenciamento político dessa demanda para que ela não se domestique, ao contrário, para que se torne desejo, infinitos desejos. <br /><br /> ]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/06/histericas-do-mundo-univos.html</link>
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            <pubDate>Tue, 21 Jun 2011 22:06:22 -0300</pubDate>
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            <title>dos possíveis</title>
            <description><![CDATA[Às vezes me pergunto se ainda existem no mundo acontecimentos incompreensíveis que geram espanto. As notícias não comovem, os corpos não chocam, as descobertas parecem cada vez mais previsíveis. Enfim, existe certa incapacidade de surpresa mesmo diante de notícias comoventes, imagens chocantes, descobertas imprevisíveis. O espanto, ou a surpresa, parece fugidio com o tempo e com a "experiência". Tudo se normaliza e naturaliza como se houvesse a possibilidade de reter todo conhecimento do mundo que explicasse porque isso, porque aquilo, porque aquilo outro. Walter Benjamin em uma de suas teses sobre filosofia da história dizia que não deveríamos nos surpreender com as catástrofes que teimam em ainda acontecer, que se repetem e repetem, e retornam e retornam. É certo que não temos que tomar como novidade, mas a falta de surpresa também pode nos levar a lugares nefastos. Daí que tudo no mundo pareça muito sem saída: o Brasil não tem como não construir Belo Monte, a polícia é assim mesmo, violenta e cruel, é impossível uma solução na Líbia sem a intervenção militar coalizão internacional; as coisas se tornam necessárias, porque sem isso não tem aquilo, blábláblá. Temos também a hipótese da anestesia social que também não é uma verdade incondicional. Basta ver os acontecimentos nas ruas aqui ou fora daqui, manifestações diárias de movimentos sociais organizados ou não.<br />&nbsp;<br />Contudo, dá para perceber que mais do que nunca o "realismo", ou melhor, a ilusão de domínio da realidade (vide Japão e suas usinas nucleares "absolutamente seguras"), se sobrepõe aos possíveis. E o real, sempre à espreita, não cessa de (re)aparecer. Há um esforço sem tamanho em naturalizar esse irrepresentável do real quando se elimina o espanto. Curiosamente, esse esforço já não é exclusivo das esferas que concentram o capital ou dos meios de comunicação, mas se estende para espaços onde o confronto ao invés do apaziguamento deveria ser colocado, por exemplo, no que convencionamos chamar de política, mas que deveria atender única e exclusivamente pelo nome de governo. Não por querer sacralizar a política, ao contrário: é justamente para retirá-la da esfera separada, o governo, cuja atuação burocrática e técnica não mede forças para naturalizar o espanto, e trazê-la para um espaço em que ela se realize, ou seja, em que a política tenha a força de um acontecimento suscitado pelo espanto e pelo incompreensível. A diferença está em não naturalizar o incompreensível, em mantê-lo sempre estranho, em torná-lo mola propulsora de possíveis (senão sufoco, diria Deleuze).<br /><br /> ]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/03/dos-possiveis.html</link>
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            <pubDate>Sun, 27 Mar 2011 19:26:59 -0300</pubDate>
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        <item>
            <title>PAE: Programa de Aceleração do Esquecimento</title>
            <description><![CDATA[Dilma Rousseff, presidenta desta nação, foi saudar, comemorar, brindar, aplaudir, etc, o <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha90anos/879101-dilma-diz-que-governo-deve-conviver-com-criticas-da-imprensa.shtml">aniversário de 90 anos da Folha de S. Paulo</a>. Sua ida <a href="http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2011/02/22/dilma-na-cova-dos-leoes/">"à cova dos leões"</a> como denominou Leandro Fortes, não foi menos controversa. Suscitou inclusive manifestações de <a href="http://twitter.com/#%21/iavelar/status/40428261200769025">altas esferas PT</a> que precisou justificar a aproximação da grande mídia ao governo dizendo que não se trata de um alinhamento ideológico, mas sim de interesses econômicos. A adesão, segundo a fonte, não será mal recebida. Portanto, essa diferença sutil fica restrita aos olhos de lince do alto escalão do PT porque eu não consigo perceber. <br /><br />Ora, se a imprensa é livre por que diabos um partido político tem que justificar uma "aproximação"? E sem ingenuidade, por favor, esse movimento não é de mão única, ou seja, não é a imprensa que se aproxima do governo, mas também o governo que se aproxima da imprensa. E tudo acontece nessa atmosfera etérea, uma discussão sem pé nem cabeça que mostra que o governo entende a postura da imprensa e não se incomoda em tê-la a seu favor. Dá-se a isso o nome de liberdade de imprensa ou liberdade de expressão. Puxa! Quanta inovação! <a href="http://cinemaeoutrasartes.blogspot.com/2011/02/primavera-digital-chega-ao-fim.html">Maurício Caleiro</a>, no seu último post, mostra com clareza que Dilma fez sua opção. <br />&nbsp;<br />Em seu discurso na Folha, é importante frisar, Dilma reforçou sua fórmula repetida à exaustão durante eleições: "devemos preferir um milhão de vezes os sons das vozes críticas de uma imprensa livre ao silêncio das ditaduras". Leandro Fortes <a href="http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2011/02/22/dilma-na-cova-dos-leoes/"></a>explica bem como é falaciosa essa "liberdade de imprensa" reivindicada pela Folha e endossada, ali, por Dilma. Mas o que me incomoda na presença de Dilma na tal festa é o gesto simbólico de jogar no lixo a memória do país. "Um governo deve saber conviver com as críticas dos jornais para ter um compromisso real com a democracia. Porque a democracia exige sobretudo este contraditório, e repito mais uma vez: o convívio civilizado, com a multiplicidade de opiniões, crenças, aspirações". Que convívio civilizado, que multiplicidade, que crítica é essa de compromisso com a&nbsp; democracia de um jornal que, em 2009, tem coragem de dizer que a Ditadura brasileira foi uma Ditabranda?<br /><br /><a href="http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2010/09/de-volta-sobre-o-espiao-de-dil.html">O vínculo da Folha com a Ditadura, como eu já disse aqui, ironicamente, defendendo Dilma, não tem que ser medido pelo passado, mas pelo presente</a>. Dilma foi comemorar com o mesmo jornal que concedeu autoridade de julgamento a um homem que a espionou durante a Ditadura para comprovar a tese de que ela era um "lobo em pele de cordeiro". A matéria saiu intitulada, sem o menor pudor, como <a href="http://www.linearclipping.com.br/fecomerciodf/detalhe_noticia.asp?cd_sistema=7&amp;codnot=1308521">"Espião de Dilma"</a>. O ilustre reacionário J<a href="http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI212480-15223,00-A+FRENTE+GAY+NO+PAREDAO+DO+CONGRESSO.html">air Bolsonaro</a> só dá entrevistas incitando à violência para que se "corrija" os homossexuais dizendo que o país descambou depois do fim da Ditadura porque esse país não tem memória. O "ambiente democrático" em que se dá essa discussão é de uma anomalia sem precedentes. Ah! Mas as histórias estão desatreladas, podem argumentar os mais céticos. Explico porque não: um país em que um deputado justifica uma "lei moral e de bons costumes" que nega direitos aos seus cidadãos recorrendo à Ditadura sem esta ter sido revista, sem que ao sujeito que pronuncia esse discurso seja imputada a responsabilidade diante de centenas de mortes, torturas e desaparecimentos, só pode ser considerado uma democracia anômala.<br />&nbsp;<br />Daí a exaltação da <a href="http://moysespintoneto.wordpress.com/2011/02/20/tecnocracia-de-esquerda/">tecnocracia</a> que tudo pode "resolver" e "progredir", afinal, os ajustes econômicos - absolutamente necessários, ou melhor, uma obrigação de cada governante eleito - serão suficientes para dar conta da "justiça" em uma sociedade. É a própria Dilma quem pronuncia no discurso na Folha: "tenho certeza que cada um de nós percebe, hoje, que o Brasil é um país em desenvolvimento econômico acelerado. Que aspira ser, ao mesmo tempo, um país justo, uma nação justa, sem pobreza, e com cada vez menos desigualdade. Para todos nós isso não é concebível sem democracia. Uma democracia viva, construída com esforço de cada um de nós, e construída ao longo destes anos por todos aqui presentes". Dilma está certa: uma nação é justa quando a pobreza é erradicada, mas não é só isso. Uma nação é justa também quando tem memória, ou melhor, quando é possível construir sua memória. E acelerar talvez seja a melhor estratégia para o esquecimento. Para tanto, é preciso da conciliação, fórmula predominante na política brasileira, que não cessa de aprofundar a zona cinza entre vítima e carrasco ofuscada e esquecida em nome do incrível desenvolvimento econômico acelerado.<br />&nbsp;<br />Tudo se funde em um espetáculo econômico que justifica todas as ações: de Belo Monte à retirada do selo CC do site do Ministério da Cultura. O espetáculo triunfa e monta uma cortina de fumaça que dá a ver esse espectro do desenvolvimentismo elevado à sua máxima potência. As conseqüências desse processo que marcarão profundamente o futuro não querem ser ouvidas. Enquanto uns agem pelo princípio cristão de fidelidade ao acontecimento - ao acontecimento do governo Lula, que "continua com Dilma", que "não pode parar", porque qualquer crítica ao governo vem respondida com argumentos estapafúrdios que acusam o sujeito de ser contra a distribuição de renda, ou ser de "direita", esse significante mais esvaziado do que a cabeça dos que o pronunciam - a política se esvai nessa realpolitk.<br /><br /> ]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/02/pae-programa-de-aceleracao-do.html</link>
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            <pubDate>Wed, 23 Feb 2011 22:35:22 -0300</pubDate>
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            <title>A felicidade do sonho (im)possível</title>
            <description><![CDATA[Gente! Eu ia dar uma pausa, né? Mas tive que abrir uma exceção porque no meio do caminho veio o resultado do vestibular da minha irmã mais nova. O bebezão da casa e tal. E, saibam: ELA PASSOU! E que coisa linda ela ter passado no vestibular. No primeiro vestibular dela, para Biologia, na Universidade Federal de Santa Catarina. Eu sou capaz de repetir essa notícia por uma semana com o mesmo sorriso e com a mesma vibração. \o/<br /><br />Tudo isso representa o começo de uma nova etapa na minha casa. Minha irmã do meio, jornalista, esse ano conseguiu o emprego que ela tanto queria e, muito merecidamente, está lá trabalhando como louca e feliz da vida. Eu qualifico minha tese em breve. E no começo do ano que vem devo receber meu título de doutora. E agora, o bebezão da casa, ai meu deus, saber que eu troquei as fraldas dessa menininha, entra na universidade. <br /><br />Mas deixa eu explicar a nova etapa: na minha casa, meus pais nos educaram com uma severidade singular: estudo e independência. Eram essas as metas que ambos tanto martelaram nas nossas cabeças. A velha história: não temos herança para vocês exceto a educação e isso ninguém pode tirar, sabe? Então! Lá em casa isso foi repetido à exaustão. Tivemos uma educação muito boa na escola e em casa. Tanto é que, se alguém perguntar porque sou entusiasta do feminismo eu poderia tranquilamente atribuir aos meus pais boa parte dele porque eles nunca acharam que a nossa posição deveria ser de submissão ou nos ensinaram que a ordem do mundo era essa mesmo e que tínhamos que obedecer e tal. Ou se fizeram, minha memória e minha felicidade podem me trair, trabalharam tão bem as possibilidades de subverter a ordem que seguimos por esse caminho, as três. Meu pai é tão orgulhoso de ter três filhas e sempre nos impulsionou para mais e mais; e minha mãe tem um ímpeto libertário que muitas feministas não tem. Ambos não chegaram a universidade, o que não reduz em nada a visão do mundo que eles têm porque, definitivamente, a universidade não é vacina. Mas, claro, eles mantinham esse desejo para as três filhas. <br /><br />É minha mãe que sempre me conta uma história triste: quando ela dizia para algumas pessoas, as imbecis e reacionárias que não enxergam nada além do seu quadrado, que queria ter três filhas e que as três iriam para a universidade, essas pessoas riam dela dizendo que "até parece que isso será possível". O que vocês quiserem colocar aqui de machista e escroto, podem colocar porque era assim. Minha mãe foi criada num ambiente hostil que tentou colocá-la um pouco mais abaixo do chão. Quiseram acabar com o sonho da minha mãe e ela, tão linda, não deixou. Ao contrário, nos criou longe disso tudo, embora não nos protegesse disso tudo porque, né? o mundo é bem complexo e nos deparamos com essas situações mais do que gostaríamos. Mas minha mãe e meu pai construíram, para eles e para nós, o mundo que eles sonharam. E, olha, não foi fácil. Sou a filha mais velha e acompanhei tudo mais de perto e digo sem titubear que a coragem dos meus pais é uma das coisas mais admiráveis que já vi na minha vida.<br /><br />Pois bem, a mami conseguiu realizar seu "sonho impossível": as três filhas na universidade, as três filhas na Universidade Federal (esse é um dado importante, primeiro porque, sem dúvida, as federais são excelentes universidades, e depois porque faz parte do imaginário esse lance todo de federal, da dificuldade, etc. Meus pais nunca vão dizer: minhas duas filhas são&nbsp; formadas e uma acabou de entrar na faculdade, eles dirão: elas todas&nbsp; estudaram/estudam na FEDERAL, sabe como é, uma gracinha eles, não?). Nem posso mensurar o que se passa na cabeça da minha mãe agora, nesse exato momento, poucas horas depois de eu ter ligado lá e contado que a Bibi passou (eu contei pra minha irmã do meio e queria contar pra a mais nova também, porque né? irmã mais velha coruja absoluta \o/). O que eu consegui dizer para os meus pais é que eles conseguiram. E, puxa! Como conseguiram!<br /><br />Uma nova etapa começa e, infelizmente, ela veio com a perda de um grande homem, o meu avô, que nos deixou recentemente e de forma tão repentina. Meu avô era um homem lindo. Aos 88 anos ele conversava sobre homossexualidade, desigualdade, meio-ambiente, política com os olhos de um menino, cheios de esperança e de sonho. Ele queria tanto que a Dilma ganhasse a presidência, embora eu ligasse para ele pra dizer que a Marina Silva era uma excelente candidata. Puxa, vô! eu dizia, a Marina é ambientalista (meu avô era super sensível às causas ambientais, daí meu argumento)! Como o senhor não vai torcer pela ambientalista!<br />Ele até dizia que sim, que o importante era que ganhasse uma mulher. Mas ele queria mesmo a Dilma, mulher forte e de coragem. E ele a viu ganhar e tenho certeza que chorou com aquele discurso em que ela dizia que " a mulher pode"! Meu avô admirava as mulheres como poucos homens e tinha tanto orgulho de nós três. Ele achava tão incrível estudarmos, estarmos na universidade (meu avô era apaixonado por livros, mas não teve muito estudo formal. Desde pequena meu sonho era levá-lo para a Itália - que eu não realizei - mas quando eu dizia para ele alguma coisa relacionada à viagem e tal ele dizia: não preciso viajar, eu conheço o mundo todinho pela televisão. Olha que coisa mais linda! Meu avô tinha os olhos e o olhar mais lindos do mundo!). Eu dediquei minha dissertação de mestrado a ele porque ele sempre acreditou no "mundo-abrigo" (nome de um projeto incrível do Hélio Oiticica que foi inspirado em seu avô anarquista), porque ele sempre sonhou com um mundo melhor e mais justo. E, caramba! Ele estaria tão, tão, mas tão feliz com a notícia que a Bibi passou no vestibular! E tenho certeza que quando minha mãe lembrasse de quando as pessoas pisotearam seu sonho ele diria: "tá vendo?" E hoje sei, pela sua generosidade, que um sonho dele estaria se realizando só por ser um sonho da minha mãe e do meu pai. Então, vô, estamos aqui vendo tudo isso de pertinho e com seus olhos lindos. E saiba que eu continuarei indo atrás dos seus sonhos, porque os compartilho com você, porque eles são meus também.&nbsp; <br />&nbsp;<br />Essa nova etapa, apesar da dor da perda, se abre com a felicidade do sonho (im)possível: com a celebração dos meus pais e com enormes parabéns para minha irmãzinha que estudou tanto. E, não menos importante, com um grande <b>vai tomar no cu</b> para quem debochou desse sonho.<br /><br /><br /><br /><b>PS</b>: Eu consegui a proeza de ser estudante universitária ao mesmo tempo que as minhas irmãs. No dia da formatura da minha irmã mais nova eu ainda disse: você vai entrar na universidade, a Rafa já saiu, e eu ainda estou lá \o/ (e lá continuarei!)<br /><br /><b>PS2</b>: A pausa continua, mas eu não podia deixar de compartilhar essa felicidade aqui. Volto logo =)<br /><br /><br /><br />]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/01/a-felicidade-do-sonho-impossiv.html</link>
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            <pubDate>Thu, 20 Jan 2011 12:59:03 -0300</pubDate>
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            <title>Uma paradinha rápida</title>
            <description><![CDATA[Queridos leitores e queridas leitoras (a Dilma realmente contagia \o/)<br /><br />Farei uma pequena pausa aqui e no tuíto. É bem rapidinha, então não se animem muito porque eu já volto! Tenho que qualificar minha tese e tenho poucos dias para finalizar tudo.<br /><br />Uma viagem inesperada, os atrasos habituais, o tempo de maturação das idéias (cabem aqui todas as desculpas procrastinadoras também) exigem de mim um trabalho muito intenso agora. So, wish me luck! <br /><br />Volto em breve. Beijos e abraços em todos. Até =)<br /><br /><br />PS: Se alguém quiser falar comigo, me mandar correntes de motivação coisas do tipo "você é capaz", "não desista", "tudo vai dar certo", ou se quiserem saber se estou sobrevivendo com sanidade, ou se já materializei Hélio Oiticica que <i>ainda</i> é um amigo imaginário etc, etc, etc, deixo meu e-mail flaviabc arroba gmail ponto com <br /> ]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/01/uma-paradinha-rapida.html</link>
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            <pubDate>Fri, 14 Jan 2011 17:37:53 -0300</pubDate>
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        <item>
            <title>Tropicália, corpos, etc</title>
            <description><![CDATA[Minha tese é sobre a tropicália e suas sobrevivências, como já deve ter dado para perceber, e certo dia uns amigos iam discutir um texto clássico e deveras marxista sobre o tropicalismo que o criticava em pontos decisivos. Pontos estes que serviam para a sua potencialização política, incompreendida até hoje, ou compreendida como festiva, desordeira, alienada, enfim, uma putaria. E como eu gosto de uma putaria, me embrenhei nesse momento/movimento tropicalista que, a cada dia, percebo mais contemporâneo. E foi assim que surgiu o partido imaginário da esquerda libidinosa: eu estava um pouco assustada com a adesão dos meus colegas aquele texto de marxismo duro e massificante, que excluia o desejo, a singularidade, que queria fazer a revolução levando aos ignorantes a consciência da opressão, etc. O texto realmente tira tudo de bom do tropicalismo para contrapor a uma coisa tão distante da sua proposta. Daí, em defesa da tropicália e um pouco receosa de não me fazer clara falando da importância do corpo, etc, eu disse: essa esquerda não tem libido! Pra ver se eu causava um choque e tal =)<br /><br />Tenho pensado muito sobre o tema e conclui que um dos maiores prejuízos do pensamento de esquerda no Brasil foi não ter apreendido a proposta política da tropicália que tinha como norte a ética radical da singularidade. Eu escrevi um texto enorme para explicar tudo isso, mas não publiquei aqui com o temor de causar tédio e horror embora seja um assunto delicioso. Quem sabe publico em doses homeopáticas ou alguma coisa menor no dia em que meu poder de síntese for ativado pelo poder divino. Em minha defesa argumento que está nos detalhes as propostas mais bonitas da tropicália, por isso é quase impublicável em um post. Tentarei ser breve.<br />&nbsp;<br />Como todos devem saber a tropicália sofreu uma patrulha ideológica que reverbera até hoje nas esquerdas. Qualquer desvio de conduta, pimba! é de direita não sabe bem o que quer, de que lado está, etc. Basicamente sua proposta era acabar com as regras morais de comportamento que reprimiam os corpos e os modos de vida. Do mais reacionário ao mais libertário, todos seriam vistos em sua singularidade. O que não tolhia um movimento, desorganizado, claro, que combatia duramente as estruturas do poder.<br />&nbsp;<br />Minha leitura, creio, é sintetizada magnificamente por Hélio Oiticica em 1968 quando ele define a arte (de maneira decisiva de tão aberta e potente) como a criação de possibilidades de vida. Os parangolés de Oiticica eram isso: a singularidade dos corpos em contato com capas coloridas cuja autoria era completamente apagada quando alguém se apropriava delas. O que Hélio queria, entretanto, era que isso se estendesse para o cotidiano, que toda roupa fosse uma capa, que toda capa projetasse as imagens desses corpos singulares para o mundo. Não é a toa que se eles se confundiam com a moda que ao contrário do que se pensa não é massificante, ao contrário, é o meio pelo qual projetamos as imagens  no mundo para compô-lo e nos apropriamos das imagens do mundo para compor-nos. Por isso diz-se cada um ao seu modo, à sua moda. <br /><br />Mas o que quero dizer é que toda a lógica do <i>dever ser</i>, praticada inclusive pela "esquerda oficial", o Partidão, era apagada para fazer devir o desejo de cada sujeito. Isso era visto, ainda é visto, como uma forma impraticável de se organizar em sociedade. Como lidar com as diferenças e os desejos, ou seja, com a singularidade, na civilização Freud já se perguntava no "Mal-estar da cultura". E não é fácil, embora seja a única saída: tem muito conflito porque tem o outro; e porque tem o outro, tem desejo; e porque tem desejo é singular. Era essa dimensão singular que não seria apagada em nome da massificação em classes, por exemplo. Era tudo ao mesmo tempo com a exacerbação radical das diferenças para que se alcançasse, um dia, um estágio de indiferença. Ou seja, pouco importa o que você é ou deixa de ser, importa que você é assim, um ser tal qual você é, ao seu modo, singular. Parece redundante, mas é a chave para entender a ética que eu dizia anteriormente. <br /><br />O combate a opressão, por seu turno, não era entendido pela tropicália como uma questão revolucionária de tomada de poder. Ao contrário, era no cotidiano que se pretendia inserir essas possibilidades de vida das quais Hélio falava. E isso era também Caetano cantando no programa do Chacrinha: uma atuação dentro das estruturas para reverter as estruturas. Sabia-se da audiência, sabia-se da repressão. A abordagem política era feita, portanto, através da linguagem e da imagem que já havia se tornado independente dos corpos (isso acontece com os meios de comunicação em massa mais facilmente, por isso eles não são o horror na terra, as emissoras é que são, seus donos é que são, etc).<br /><br />Mas é claro que a tropicália não vingou como proposta política, afinal onde já se viu o desbunde, a desinstitucionalização, servirem como mote político? Infelizmente no meio do caminho se perdeu muita coisa. A mais significativa delas foi deixar de entender a política como esfera não separada, a linguagem como esfera não separada, o corpo como esfera não separada. Ou seja, deixaram de entender que autonomizar as esferas (o corpo, a política, a arte, a linguagem) é a estratégia do poder para que tenhamos que acessar essas esferas através de alguma coisa que nos autorize a atuar nelas. É foi justamente nisso que o espetáculo se aperfeiçoou: criando uma suposta unidade das esferas que só reúne enquanto separado, já dizia Debord. E é nessa instância que o capitalismo atua separando infinitamente até nosso estranhamento transformando-se, como dizia Benjamin, em uma religião sem dogma, de puro culto. Como sair daí, né? Difícil, mas vou tentar.<br /><br />Equivocadamente as críticas que se opõe ao sistema identificam o problema em uma excessiva superficialidade e aí entra o que quiserem: a aparência, a beleza, as relações, etc. A superficialidade das imagens e dos corpos (as imagens e os corpos são superfícies, os efeitos das imagens nos tocam a pele) nunca foi tão importante como é hoje (Agamben chega a afirmar que a pornografia e a publicidade são as parteiras inconscientes de um novo corpo da humanidade). É essa superficialidade que é capaz de reverter essa separação incessante que privilegia o culto ao uso, a sacralização ao contato. Contudo, os corpos são cada vez mais aprisionados, não raro vemos nos portais da internet aconselhamentos relacionados a sexualidade que tem uma amplitude incrível e vão desde "a mulher deve transar no primeiro encontro" até promessas do pote de ouro no fim do arco-íris se mantivermos a abstinência sexual. Ou seja, uma aparente liberdade coordenada por instrumentos de controle que estimulam e reprimem indiscriminadamente o uso do corpo. <br /><br />As reações feministas, que geralmente são de esquerda, ou assim se denominam, à imagem de Marcela Temer não foram diferentes. A confusão entre o julgamento moral e a sexualidade subiu e reinou tão indiscriminadamente quanto os aconselhamentos dos portais da internet. Jogar com as mesmas categorias que nos são oferecidas aos berros para oprimir é um erro clássico e nocivo. Dizer que beleza, juventude, gostosura, cobiça (olha as coisas que eu tenho que apontar... pareço uma carmelita!) - a imagem, essa coisa que nos faz confundir os valores (ai, jisuis!) - é superficialidade e o que importa mesmo é a "profundidade" da inteligência e competência não faz sentido para mim como tentativa de "emancipar" as mulheres. As identificações midiáticas sempre vão acontecer, sempre. É preciso que esses discursos sejam desarticulados ao invés de colaborar com eles.<br />&nbsp;<br />O limiar que se compartilha com o poder quando se quer pensar o corpo é muito tênue e delicado. É preciso estar preparado para não alimentar o que se quer combater para não colocar os corpos, novamente, em trilhas massificantes que advogam um <i>dever ser</i> quando existe ali o desejo. E existe alguma coisa do desejo, alguma coisa do sujeito, que não sucumbe ao poder, é essa singularidade, essa coisa sem significante e inapreensível, que guarda secretamente as possibilidades de mudança. Ao invés de suprimir a libido em nome de uma causa, é mais interessante alimentá-la até o limite do insuportável, até o ponto de se transformar em uma imagem independente do corpo que possa ser apropriada livremente por qualquer pessoa.<br />&nbsp;<br />O texto de que eu falava no início do post foi escrito em meados dos anos 70. Em 2011 ainda é preciso dizer que os movimentos de esquerda, whatever, precisam de libido, precisam criar possibilidades de vida, apostar nas singularidades e não na categorização fundamentada num <i>dever ser</i> que acaba por oprimir os corpos.<br /><br />&nbsp;<br />&nbsp; &nbsp;<br />PS: Ontem conversando com o <a href="http://twitter.com/#%21/@AndreV_">@Andre_V</a> no tuíto falávamos sobre a quase exigência de que gays se comportem bem. Que não sejam barulhentos, nem espalhafatosos, nem afeminados, nem masculinizadas, porque isso passa dos limites. Acho que entra nessa mesma leitura. Existe um medo enorme dessas imagens se tornarem independentes e apropriáveis que, para poder conformar as diferenças, se impõe disciplina e controle de novo. Gay sim, pero no mucho. A homofobia travestida de compreensão das diferenças clássica que ouvimos por aí: "ai, eu não tenho nada contra gays, desde que eles sejam discretos". É isso: para que não vire um contágio, para que o mundo não seja tomado por esse outro, insuportável para as "pessoas de bem" que não querem excluir, e essas imagens passem a ser usadas livremente, se dá limite.<br />&nbsp;<br />PS2: A Aline e a Lu escreveram lindo sobre o assunto posse da Dilma, Marcela Temer, etc. <a href="http://godotnaovira.wordpress.com/2011/01/03/miettes-5/">Aqui</a>&nbsp;e <a href="http://ebompraquemgosta.wordpress.com/2011/01/03/belamarcela/">aqui</a>. <br />&nbsp;]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/01/tropicalia-corpos-etc.html</link>
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            <pubDate>Tue, 04 Jan 2011 07:36:15 -0300</pubDate>
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            <title>Da felicidade simples</title>
            <description><![CDATA[<span class="mt-enclosure mt-enclosure-image" style="display: inline;"><img alt="somewhere2.jpg" src="http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/somewhere2.jpg" class="mt-image-center" style="margin: 0pt auto 20px; text-align: center; display: block;" height="280" width="530" /></span><br /><br />Acabei de assistir <i>Somewhere</i> de Sofia Coppola, o primeiro presente de 2011. Eu não entendo muito de cinema, mas não resisti e escrevi umas linhas sobre esse filme bonito.<br /><br /><i>Somewhere</i> é um filme sobre coisas simples. É também um filme sem lição. A ausência de sentido na vida de um astro hollywoodiano, seus excessos esvaziados de prazer, são tão clichês quanto nossos dias tediosos. Mas não porque o filme tem um viés realista ou de identificação, e sim pela sua capacidade de narrar uma história singular fazendo com que prestemos atenção no seu <i>modo</i>. Trata-se, portanto, de falar sobre <i>como</i> viver junto, <i>como</i> se estabelece uma relação que, embora seja com a própria filha, não é natural, nem óbvia, é sempre construída. Sofia Coppola fala sobre <i>como</i> fazer, e não sobre <i>o que</i> fazer mantendo a normalidade dos acontecimentos sem nenhuma ruptura brusca para que se repense a vida, o comportamento, os hábitos, etc. Por isso, é um filme sem lição. <br /><br />É o cotidiano trazido à superfície imagética tão visível quanto invisível aos nossos olhos. Tão recheado de acontecimentos e possibilidades que sequer percebemos ou aproveitamos. As decisões tomadas, os compromissos cumpridos tudo segue cotidianamente dentro de uma vida normal sem muitas explicações (como as sensacionais mensagens do celular). Mas há a experiência e o sentido construído sempre depois dela. A diferença é que em <i>Somewhere</i>, a excepcionalidade dos acontecimentos, porta aberta para a felicidade, não é catártica; ela surge quando se torna possível ver uma parte do mundo embaixo d'água. É uma mudança de perspectiva. E assim é nosso cotidiano: incrivelmente tedioso e potencialmente mágico. O mágico, no caso de <i>Somewhere</i>, é que Coppola consegue inserir na superficialidade e aparente automatismo do dia-a-dia uma felicidade simples, que está sempre ali, à espreita: somewhere, sometime.<br /><br />PS: Leando Calbente, que sabe, de verdade, sobre cinema, escreveu lindamente sobre <i>Somewhere</i> <a href="http://ensaiosababelados.blogspot.com/2010/12/um-lugar-qualquer-somewhere-de-sofia.html">aqui</a>.&nbsp; &nbsp; <br /><br /> <div><br /></div><div><br /></div>]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2011/01/da-felicidade-simples.html</link>
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            <pubDate>Sun, 02 Jan 2011 20:33:05 -0300</pubDate>
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            <title>2011</title>
            <description><![CDATA[2010 foi tão incrível. As coisas, em geral, tornam-se legais quando se transformam em imagens. Quando os fantasminhas que nos desesperaram ou nos alegraram passam ao nosso convívio imagético (que, claro, tocam nossos corpos porque os acontecimentos deixam marcas), as coisas começam a fazer sentido, pois conseguimos montar séries, juntar as pecinhas e essa é sempre uma experiência bacana. É assim que podemos olhar para frente; é assim que percebemos que estamos construindo nossas histórias e as histórias do mundo (ou dos mundos, sabe lá), que elas têm erros e acertos, que estamos no mundo, que estamos com os outros, etc.<br />&nbsp;<br />Acho que <i>etc</i> foi a palavra que mais usei esse ano. Creio que esse uso abusivo tenha sido por causa da eleição presidencial que demandou discussões infinitas, cansativas, agressivas, ou seja, <i>etc</i> (mas ela não foi só chatice, foi por causa das eleições e do meu falatório infinito que conheci um amigo queridíssimo). Ou, talvez, o <i>etc</i> tenha sido a saída que encontrei para dizer que não é possível dizer tudo, que sempre tem um excesso ou uma carência de sensível que fica fora da linguagem. Isso pode ser uma consequência grave das muitas leituras de Freud que fiz esse ano. Freud me ajudou olhar a vida com mais leveza, com mais paciência, me orientou em um pensamento ético radical. O que foi muito muito bom. Em decorrência ou não disso tive gastrite e dores musculares terríveis porque nem tudo é só alegria e a vida é uma experiência intensa. <br />&nbsp;<br />Em março conheci pessoalmente um filósofo italiano que me apresentou uma perspectiva radicalmente nova das imagens e foi determinante para me fazer voltar a acreditar que o mundo é mágico, que Mickey Mouse pode ser a resposta para muitas questões filosóficas, que nosso corpo tem o tamanho do mundo, etc<br /><br />E voltei com o blog, que só me trouxe alegrias e bons encontros. Aliás, este ano fiquei cercada de pessoas incríveis (aqui, em casa, na rua, no mundo, enfim), foram elas também que tornaram todos esses acontecimentos, essas conclusões e meu sorriso satisfeito neste fim de ano, possíveis. Thanks =) <br /><br />Feliz ano novo!<br /><br /><br /><b>PS: Dilma assume amanhã. A primeira mulher presidente do país. O ano começa bem =)</b> <br />]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2010/12/2011.html</link>
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            <pubDate>Fri, 31 Dec 2010 07:21:52 -0300</pubDate>
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        <item>
            <title>Jóga, por PS22 Chorus</title>
            <description><![CDATA[Walter Benjamin em uma de suas mais famosas Teses sobre Filosofia da História, a tese VIII, diz: "A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção no qual vivemos é a regra. Precisamos chegar a um conceito de história que dê conta disso. Então surgirá diante de nós nossa tarefa, a de instaurar o real estado de exceção".<br /><br />O real estado de exceção, para Benjamin, não era outro senão o estado de felicidade em uma ordem profana. "A ordem do profano deve erigir sobre a idéia de felicidade", anota no seu Fragmento Político-Teológico. O verdadeiro estado de exceção na leitura de Agamben seria, segundo Paulo e Benjamin, um estado de suspensão de todas as leis e a vigência de apenas uma lei, a do amor. <br /><br />Jóga, da Bjork, é uma versão dessa tese de Benjamin. A música começa assim: "All these accidents that happen. Follow the dot. Coincidence makes sense only with you". É a felicidade do encontro que dá sentido aos acidentes. Mais um indício de que a felicidade acontece no acaso e no imprevisível. E o que tentamos sempre, talvez seja isso que confundimos com a "busca da felicidade", é fazer durar o acontecimento. Fazer durar esse encontro, fazer dele um verdadeiro estado de exceção. Bjork prossegue: "And you push me up to this. State of emergency how beautiful to be. State of emergency is where I want to be".<br />&nbsp;<br />Encontrei as crianças do PS22 Chorus cantanto Jóga. Esse efeito heterogêneo de vozes dá um sentido mágico, esperançoso e multitudinário a todos os versos: uma pequenina coletividade cantando o desejo de instaurar um real estado de exceção. Nas vozes das crianças, esses versos expressam o desejo de um novo conceito de história. Um conceito capaz de amplificar as possibilidades de um mundo sempre novo e aberto em que a felicidade possa se realizar em cada olhar, em cada gesto, em cada encontro. Diante desse desejo, diante desses olhares, diante dessas crianças, a felicidade ganha um sentido político que reafirma a tarefa que Benjamin nos deixou.<br /><br />Nada melhor para começar a semana =)<br /><br /><br /><object height="385" width="480"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/OKPC-T3jjRg?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><embed src="http://www.youtube.com/v/OKPC-T3jjRg?fs=1&amp;hl=pt_BR" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" height="385" width="480"></object>]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2010/12/joga-por-ps22-chorus.html</link>
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            <pubDate>Mon, 13 Dec 2010 02:23:13 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Estado de exceção biopolítico</title>
            <description><![CDATA[Os episódios no Rio de Janeiro tomaram o rumo previsto: <a href="http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/noticias/policia-apreendeu-466-armas-no-alemao-e-vila-cruzeiro-20101203.html">pouquíssimos traficantes presos</a>, perto dos 500 que diziam ter (chovem, é claro, o número de "suspeitos"), escândalos de <a href="http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1632848-17665,00-TRAFICANTE+DO+ALEMAO+TINHA+CASA+COM+HIDROMASSAGEM+E+PISCINA.html">casas luxuosas de traficantes</a>, <a href="http://oglobo.globo.com/rio/mat/2008/04/21/bope_hasteia_bandeira_na_vila_cruzeiro-426988514.asp">bandeira do BOPE hasteada na Vila Cruzeiro</a>, <a href="http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2010/11/29/interna_brasil,225344/moradores-da-vila-cruzeiro-e-do-alemao-denunciam-abusos-dos-policiais.shtml">abuso dos polícias e corpos sem nomes perfurados por balas e engolidos por porcos</a>. Tudo isso em nome da grande "paz" trazida pelo "bem", anunciada por Cabral, apoiada pelo presidente da República, e seus exércitos e, claro, defendida pelos cães de guarda - <a href="http://www.conversaafiada.com.br/economia/2010/12/03/o-pig-tem-razao-a-ocupacao-do-alemao-e-uma-derrota/">PHA insuperável achando que a Sky e o Banco Santander começam a resolver os problemas</a> - (note-se que o PIG, que PHA gosta tanto de xingar, defende com unhas e dentes as "ocupações" - basta assistir a GloboNews - como também os inimigos de Lula, vide Marcelo Tas e sua limpeza do Congresso).<br /><br />Os motivos dessa guerra anunciada tornam-se, dia após dia, obsoletos. A entrevista do Luiz Eduardo Soares ao programa <a href="http://www.tvcultura.com.br/rodaviva/">Roda Viva</a>, além <a href="http://luizeduardosoares.blogspot.com/2010/11/crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico.html">desse texto</a>, deixou isso bem claro: uma polícia corrupta atuando no combate ao crime. Maior paradoxo não pode haver nesse mundo. E o pior de tudo isso é que ele vem chancelado com os <a href="http://blogdosakamoto.uol.com.br/2010/11/27/o-estado-pode-usar-os-metodos-de-criminosos/">métodos de exceção que o Estado mesmo quer combater</a>. Juro que me esforço todo dia para entender a truculência dessas ações e de quem as justifica. Juro. Mas é impossível, porque ao fazê-lo, dadas as notícias dos últimos dias, se está valorando uma vida ou várias vidas. O argumento mais que batido de que a vida na favela não vale o que vale uma vida no asfalto fica ainda mai evidente quando esses eventos acontecem. "Lamenta-se muito", entretanto, "é necessário". Discurso mais lixo do que esse não pode existir. <br /><br />Contardo Calligaris escreveu um <a href="http://contardocalligaris.blogspot.com/2010/12/delinquencia-e-privacao.html">artigo atordoante</a> exaltando uma das grandes falhas da psicanálise que é generalizar as condições do sujeito em nome da sua implicação diante das ações. Essa ética da psicanálise é muito importante (e para mim, é a melhor definição de ética) quando temos garantidos direitos iguais para todos, enquanto houver exceções (pessoas que têm privações e não procuram o crime), e mesmo exceções dentro das exceções (as pessoas que têm privações e procuram o crime), não podemos isentar os outros culpados (a ausência de políticas públicas, de educação, saúde, saneamento básico, emprego, etc). Calligaris esquece da atuação da polícia (que precisa começar a ser reformada para ontem) e da ausência do Estado o que não é um dado menor. Nesses casos pensar pela auto-determinação do sujeito é sempre mais fácil, porque a culpa vira ladainha, "talvez, desta vez, sem as ladainhas da culpa, algo mude no Rio de Janeiro", diz ele no fim do seu artigo que também esquece de se perguntar quantas vidas pagarão para que seja feito isso que ele ainda, depois de todas as notícias, consegue chamar de "mudança".<br /><br />As escolhas do sujeito devem ser assumidas por eles, se declaram guerra, como eu disse no post anterior, deve-se suportar a guerra (com isso espero deixar claro, mais uma vez, que não estou defendendo traficantes). Não deve haver, em hipótese alguma, pessoas governadas pelo medo de um estado paralelo que age sem dó nem piedade. Mas substituir o medo também é inadmissível. Substituir o medo paralelo pelo medo oficial é perverso. E talvez seja essa mesma a característica soberana do Estado: atuar psicologicamente (e, nesse caso, fisicamente) através do medo. &nbsp; <br /><br />Não precisa ser especialista em segurança pública para entender que o que acontece no Rio de Janeiro é repulsivo. Nada do que está acontecendo é em nome da "segurança pública". O espetáculo se reproduz dos discursos dos nobres políticos às ações coordenadas de salvação da Rede Globo, como nos avisava Edu do <a href="http://butecodoedu.blogspot.com/">Buteco do Edu</a> no<a href="http://stockler4.blogspot.com/2010/12/globo-e-as-favelas-pacificadas.html?spref=tw"> tuiter</a>. Ser conivente com a exceção é uma atrocidade. Ser conivente com as ações empreendida no Rio de Janeiro é aceitar que <a href="http://sergyovitro.blogspot.com/2010/12/onde-estao-os-mortos.html">um trabalhador, Rogério Costa Cavalcante, pai de uma criança que carregava no bolso convites do seu aniversário, ou uma adolescente de 14 anos, ou outro adolescente de 17 anos, devorado por porcos, cujo corpo teve que ser retirado do local pela mãe e vizinhos que não suportavam mais o cheiro, e outros muitos anônimos que moram na favela, são negros ou pardos</a>, percam a vida em nome de "um bem maior". Não se pode admitir uma coisa dessas sem admitir que se está sendo conivente com o terror e com a exceção. <br /><br />A Gestapo costumava chamar os judeus presos nos campos de porcos, os mesmos que depois eram queimados ou asfixiados. Em uma versão atroz e contemporânea ressurge esse significante: servimos corpos de comida aos porcos. É a mesma lógica de extermínio e não importa se são dois ou três aqui e na Alemanha nazista, milhares. Não se mede uma catástrofe pelo número de vítimas. Ao contrário, deve-se olhar no presente como seus métodos sobrevivem. É isso que marca o estado de exceção biopolítico do qual nunca saímos: o que decide quem deve viver e quem deve morrer (e sabemos do seu trio preferido: negro, pobre, morador de favela). Some-se a isso o apoio da população e... 64 é logo ali (e não estou sendo exagerada. Se naquela ocasião a exceção foi declarada, de novo, nossa versão contemporânea capricha na perversidade e não declara, porém instaura). A história se repete, lamentavelmente, lavando o chão de sangue e servindo aos porcos os corpos das vidas nuas. <br /><br />]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2010/12/estado-de-excecao-biopolitico.html</link>
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            <pubDate>Sun, 05 Dec 2010 17:13:09 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>A lógica dos tanques</title>
            <description><![CDATA[Não há como não ver as imagens da guerra que se instalou no Rio de Janeiro e não sentir um aperto enorme no coração. A única coisa em que consigo pensar é na quantidade de vidas que são desperdiçadas. Já é duro demais tentar pensar nessas vidas que todos os dias travam uma batalha pra sobreviver. Agora não é diferente. Mas a sobrevida aqui não é excesso de vida, e sim a capacidade de desviar da morte.<br /><br />Diferente é a lógica da guerra que é guiada pelo excesso. E o excesso, para além do que previa Georges Bataille, é muito, mas muito cruel. Implica vidas, perdas, inseguranças, incertezas. É claro que tudo isso está mais ou menos previsto nas nossas vidas, mas não necessariamente com a ameaça de uma bala na cabeça. Mas como não é regra geral, em alguns lugares é essa a realidade que se vive diariamente. Daí a justificativa do governo estadual do Rio: os traficantes foram acuados pelas UPPs e partiram para o ataque. Mas como todo governo, o do Rio também sabia dos efeitos colaterais que isso criaria e não previniu. Se tem coisa que não surpreende o governo é o imprevisto. Tudo está sempre previsto, embora o centro do governo seja vazio, nada escapa. Daí esses acontecimentos serem complicados demais.<br /><br />Quem declara guerra tem que suportar seus efeitos, é verdade. Os traficantes ou "marginais", como os meios de comunicação adoram chamar, começaram, e o revide não veio a galope: veio de tanque. Ou seja, a lógica que o Estado quer combater é duplicada por ele. O problema do tanque é que ele funciona exatamente como os ataques: não mira o inimigo (quem são, afinal, os inimigos?). Ele é uma demonstração da soberania de um Estado acéfalo sedento por estatísticas que, diante de situações como essa, não titubeia: atira para matar.<br /><br />Luiz Eduardo Soares <a href="http://coletivodar.org/mais-cedo-ou-mais-tarde-a-estupidez-da-politica-vigente-ha-de-se-desmascarar-entrevista-com-luiz-eduardo-soares_1294">não cansa</a> de repetir que é preciso <a href="http://luizeduardosoares.blogspot.com/2010/11/crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico.html">cuidado e atenção contínua</a>, é preciso reformar a polícia, rever as políticas de proibição das drogas, etc. Uma série de medidas precisam ser tomadas para que a vida melhore, para que essas vidas não tenham "destino certo". Faz muitos anos que a cidadania foi abandonada nas favelas. Muitos e muitos anos que se decreta "guerra ao tráfico". Faz anos e anos que a polícia é mal aparelhada, mal paga e corrupta (e que nesses dias trabalha em condições desumanas). Daí se forma milícias. E quando tudo isso se torna insustentável e temos dois eventos gigantescos para sediar no Brasil as coisas fogem do controle? <br /><br />Para ajudar, no meio de tudo isso aparecem notas da <a href="http://esporte.uol.com.br/futebol/copa-2014/ultimas-noticias/2010/11/26/fifa-tenta-amenizar-preocupacao-com-seguranca-apos-guerra-contra-trafico-no-rj.jhtm">Fifa</a> declarando que está acompanhando a situação de perto, que o governo está trabalhando com a Interpol e com os organizadores da copa da África do Sul. Ufa! Agora podemos respirar aliviados. Estamos fazendo a limpeza necessária.<br /><br />É claro que não estou defendendo os perseguidos pela polícia. Acho que tem que prender, julgar, etc. Não faz o menor sentido ter comunidades inteiras vivendo sob essa forma de poder paralelo. Agora, a conversa de que o <a href="http://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2010/11/25/ate-onde-pode-chegar-a-guerra-ao-trafico/">tráfico vai acabar depois dessa guerra, que o mal será combatido e o bem vai perseverar</a>, por favor...<br />&nbsp; <br />O maior problema é a forma dessa intervenção e suas promessas, sobretudo depois de ter assistido a coletiva patética do Sérgio Cabral que não fez outra coisa a não ser lamber as botas do governo federal falando de qualquer coisa menos se implicando nas ações. Essa guerra de <a href="http://coletivodar.org/violencia-no-rio-a-farsa-e-a-geopolitica-do-crime_2681">bem contra o mal</a> que o governo lança e a mídia compra é muito violenta. Ninguém está interessado em mostrar as contradições, as linhas tênues que separam bandido de polícia, etc. Impossibilitados de identificar o inimigo, fato que justifica a guerra, segue-se em círculos nos consolando com o "tudo acabará bem".<br /><br />Depois que estoura a bomba, literalmente, colocar tanque na rua é fácil. E bem covarde porque mata inocentes (que também atendem pelo nome de suspeitos ou nem entram nas contas), coloca a vida das pessoas em risco em nome de uma paz mentirosa. Tudo piora quando o discurso começa a ser o da necessidade: "é necessário os tanques irem para as ruas", "eles são prioritariamente para o transporte dos policiais, mas nada impede que surja a necessidade de usá-los", etc. Necessidade com tanque: já vimos essa história. E ela retorna incessantemente. Por força de lei ou em nome da "guerra contra o crime".<br />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <br />Outro gozo monstruoso se dá com a estetização da violência. Todas as imagens são re-significadas (panos brancos, conta-nos o Jornal da Globo, "para celebrar a paz que chegou"). O que não aparece "normalmente" é estampando nas manchetes porque vale tudo na exceção. "A população está do lado da polícia" é o que dizem os jornais. Mas essa referida população se tornou visível agora. Ela não existia antes dos ataques como "população". É incrível a capacidade de metamorfose do discurso para legitimar a violência. E mais incrível ainda a capacidade das pessoas se dobrarem a esses discursos.<br />&nbsp;<br />Quem é conivente com os tanques, com caveirões, com Bope, etc, deve saber que para a realização do desejo no neo-lacerdista Marcelo Tas não é preciso muito esforço. Ele sugeria no tuiter que o Bope, a polícia e as Forças Armadas fizesse uma <a href="http://twitter.com/#%21/marcelotas/status/8188927169007617">limpeza no Congresso Nacional</a>. De novo. De um povo sem memória, de reacionários que nem por um minuto conseguem se colocar no lugar de quem vive nessas comunidades, não podemos esperar nada diferente. É como eu sempre digo: o Brasil adora habitar a zona cinza. E infelizmente quem recebe a fatura é quem não pode pagar. Por enquanto, segue o espetáculo com os aplausos dos palhaços que, confortáveis no seu circo particular, gozam com as cenas de horror.<br /><br /> ]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2010/11/a-logica-dos-tanques.html</link>
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            <pubDate>Sat, 27 Nov 2010 04:26:16 -0300</pubDate>
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            <title>A esquerda progressita e o bonde da história</title>
            <description><![CDATA[Nem ia me manifestar, mas me deu uma ânsia, sabe? <br /><br />Esse encontro que chamam de "histórico" dos blogueiros com o presidente Lula é, de fato, histórico. O primeiro fato histórico é Lula ter se encontrado com blogueiros reconhecendo que os meios de comunicação e sua capacidade de mobilização também está fora dos meios tradicionais. O que é sensacional.<br /><br />O segundo fato histórico já foi relatado pela <a href="http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2010/11/blogueiras-invisiveis-culpa-nossa-de.html">Lola</a> e pela <a href="http://ladyrasta.com.br/2010/11/24/o-machismo-progressista/">Flávia (Lady Rasta)</a> e, convenhamos, é muito patético. Idelber ontem no <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/11/historica_entrevista_do_presidente_lula_a_blogueiros.php">seu post sobre a entrevista</a> dizia que o sexismo na seleção dos entrevistadores não era um dado subjetivo do organizador e acrescentou que "na medida em que as mulheres estão sub-representadas num certo conjunto de lideranças jornalísticas na internet (mesmo dentro da esquerda), a assimetria de gênero visível em nossa sociedade se reproduziu na composição do grupo que está agora em Brasília".<br />&nbsp;<br />Entendo o que o Idelber quer dizer, porque se tem homem feminista nesta blogosfera de meu deus o Idelber está no topo da lista, mas quero objetar no seguinte: a ordem das coisas está aí para ser mudada. A sub-representação feminina continuará sendo sub-representação feminina enquanto uma intervenção não for feita. Para acabar com o machismo é preciso ação e intervenção e não apenas mimetizar o ambiente em que se vive. Mas pode-se argumentar: dona Flávia, a senhorita não acha que as mulheres têm que tomar iniciativa? Acho. E elas tomam. Lola e <a href="http://cynthiasemiramis.org/">Cynthia</a>, para ficar só nas duas que acompanho mais de perto, fazem isso com maestria. Meu feminismo é diferente do feminismo que ambas defendem, mas é inegável, inquestionável, que elas são capazes de mudar a vida ou pelo menos o ponto de vista das pessoas. Basta, por exemplo, dar uma olhada nos comentários dos posts da Lola. A atuação das duas (repito, das duas porque acompanho mais de perto e sei que são pessoas abertíssimas ao diálogo) nessas eleições foi divina. Mas então se eu acho que as mulheres devem se mexer para fazer as coisas (gente, eu acho mesmo, eu freqüento meu curso de psicanálise todo sábado; Freud e Lacan são testemunhas da minha dedicação) porque reclamar da ausência de mulheres nessa entrevista? Simples: são blogueiros progressistas de esquerda, não são? Assim são chamados. Elegemos uma mulher presidente da república combatendo fortemente todo o tipo de machismo que tentaram colar nela, não elegemos? Elegemos. E, por fim, não é um encontro histórico? Sim, é um encontro histórico.<br /><br />E o que aconteceu? A "esquerda progressista" perdeu o bonde da história. PERDEU. Fez um puta de um rombo no que eles chamam de progresso, de avanço e de democratização. Espero que dessa vez, pelo menos, faça-se uma autocrítica para rever esses rótulos de esquerda, progressista, whatever (porque distribuir rótulos a esquerda progressista, que conta com PHA nos seus quadros, faz muito bem; vide a elegância, educação e respeito com que trataram os eleitores da Marina). <br /><br />Para quem tanto brigou, durante as eleições, para que as coisas permanecessem como estavam, conseguiram. Deve ser a ironia da História.<br /><br />&nbsp;<br /><br /><br />PS1: resisti a tentação de não colocar aspas em todos os históricos desse post. Porque, na boa, o Lula sabe exatamente a quem agradecer. <i>Ele não perde o bonde da história</i>. Ele não deixaria de ser o primeiro presidente a conversar com pessoas (que eram, em sua maioria, apoiadores de seu governo, mas quanto a isso não tenho nenhuma objeção porque a entrevista foi super boa) que atuaram em um meio que ajudou a reverter graves acusações à Dilma nas eleições presidenciais.<br /><br />PS2: Eu sei que foram convidadas duas mulheres para as entrevistas sei também que uma delas, a Conceição Oliveira, atuante blogueira, fez uma pergunta via twitcam. Mas, como vocês pode ler no post da Lola, o buraco é mais embaixo.<br /><br />PS3: Teve esquerdista progressista que questionou se era entrevista com o presidente ou um congresso de ginecologia, como podemos ler no post da Lola. Quero ver esse cabra invocar a ginecologia para falar com Dilma Rousseff. Ô se quero.<br /><br />PS4: Não me considero uma blogueira. Muito menos progressista. E menos ainda progressista de esquerda.<br />]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2010/11/a-esquerda-progressita-e-o-bon.html</link>
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            <pubDate>Thu, 25 Nov 2010 01:45:46 -0300</pubDate>
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            <title>Experimentar </title>
            <description><![CDATA[As experiências que temos nunca se vão de todo. Suas marcas sempre ficarão à espreita esperando o momento certo para reaparecer. Esses momentos foram denominados por Walter Benjamin como "instantes de perigo", e aparecem como um lampejo para rearmar o sentido das coisas ou fazer desmoronar tudo. O que é bom também. O que importa é que de uma maneira ou de outra, teremos que juntar os cacos e começar com pouco, como diz Benjamin.<br /><br />É a pobreza de experiência que nos assola. Os amores instantâneos, os tuites com 140 caracteres, a vida na cidade como flashes de civilização e barbárie. De nada disso podemos tirar uma narrativa. De nada disso podemos tirar uma história com pé e cabeça como contavam outrora. Resta-nos essa pobreza. E é aí que está toda a mágica da vida contemporânea. Sua fragmentação e a sua infinita possibilidade de recriação, de reinvenção, de redescoberta. <br />&nbsp; <br />Nossa pobreza de experiências não significa, entretanto, que não as tenhamos. A diferença é que essa experiência se configura, segundo Benjamin, como uma "nova barbárie". Ela não aparece mais para reconstruir um mundo perdido; e sim para revitalizar o mundo em que vivemos, para abrir novas possibilidades. Por isso muitas coisas ainda nos encantam, deixam-nos felizes, arrancam de nós sorrisos, enamoram. A tese de do desencantamento do mundo é falsa. Temos, pelo menos para os mais céticos, a técnica, nosso novo mito, para comprovar isso.<br />&nbsp;<br />Mas os encantamentos dos quais falo são de outra ordem; são da ordem do sonho. É claro que sonhar em uma sociedade basicamente virtual, não só pelos meios, mas pela sua capacidade imagética irrefreável, vertiginosa e exaustiva, é um tanto complicado. Tudo é tão dado, tão oferecido, que a impressão que temos é que descobrem nossos desejos antes de nós mesmos, que formulam nossos sonhos quando ainda estamos acordados. Mas isso não é verdade. O sonho de cada um existe: é a nossa capacidade de singularizar todas as imagens do mundo, de elaborarmos nossas possibilidades, de alimentarmos e criarmos nossos desejos. "Ao cansaço segue o sono, e não raramente o sonho compensa a tristeza e o desânimo do dia, revelando a existência simples e grandiosa para a qual faltam forças quando se está acordado".<br />&nbsp;<br />Não é por acaso que Benjamin, dono do trecho anterior citado, reivindica Mickey Mouse e a partir dele elabora uma frase que explica tão bem nossa realidade: <a href="http://culturaebarbarie.org/sopro/verbetes/mickeymouse.html">"a humanidade prepara-se para sobreviver à civilização"</a>. Mesmo que a humanidade esteja em sua condição pós-humana: não há o que resgatar, não há como resgatar. Para experimentarmos a vida temos que saber nos virar com pouco e captar dos nossos sonhos, das nossas marcas, da nossa pobreza, o que pode aparecer como "iluminação profana" para intervir no mundo, para mudar a ordem das coisas. Nem que seja meio milímetro. Isso pode ser o suficiente para nos depararmos com a felicidade.<br /><br /> ]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2010/11/experimentar.html</link>
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            <pubDate>Wed, 24 Nov 2010 04:23:08 -0300</pubDate>
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            <title>Felicidade não é coisa que se garanta</title>
            <description><![CDATA[O senador Cristovam Buarque e a deputada Manuela D'Ávila tentam aprovar o acréscimo "essenciais à busca da felicidade" aos direitos sociais da Constituição com a <a href="http://legis.senado.gov.br/mate-pdf/80759.pdf">PEC da Felicidade</a>. A PEC é um tanto boba, embora bem intencionada. Apresenta como exemplo o <i>Reino do Butão</i> (!) e seu<i> Índice Nacional de Felicidade Bruta</i> (!). (será que foi daí que surgiu a teoria líquida de Bauman? hehe). Fora esse desatino, a vinculação da felicidade aos direitos sociais é um tanto equivocada, embora eu saiba de todas as boas justificativas de Cristovam: "humanizar a Constituição brasileira para tocar o coração com a palavra felicidade, e não tocar apenas o cérebro com o conceito de direito social" ou "carimbar no imaginário da sociedade a importância da dignidade humana". E está correto pensar que as pessoas não nascem em condições de igualdade e que é preciso construir uma base para que se sustente uma vida. É para isso temos a Constituição, o que não quer dizer que isso implique felicidade, nem mesmo, condições essenciais à busca da felicidade. E, como diz um amigo meu, de boas intenções a Constituição está cheia. Basta cumpri-las.&nbsp; <br /><br />O problema é que na PEC que visa garantir os meios essenciais à busca da felicidade podemos ler coisas do tipo: "<i>Evidentemente as alterações não buscam autorizar um indivíduo a requerer do Estado ou de um particular uma providência egoística a pretexto de atender à sua felicidade. Este tipo de patologia não é alcançado pelo que aqui se propõe, o que seja, repita-se, a inclusão da felicidade como objetivo do Estado e direito de todos"</i>. Vejamos um exemplo extremo, porém legítimo: você para ser feliz precisa ter uma grana para sair para jantar com uma pessoa. Ok, para ter a grana, teoricamente, você precisa ter um emprego (o que não necessariamente garante a grana para o jantar, mas ok). Você tem meio passo para a felicidade garantida, inclusive, pela constituição. Daí a pessoa não quer ir jantar com você. Absurdamente infeliz, você resolve ir bater na porta do "Estado" (no <i>Ministério da Felicidade</i>, talvez?) para resolver seu estado de (in)felicidade. Automaticamente você será um sujeito que sofre de uma patologia egoística porque você já tem os requisitos mínimos para buscar a felicidade então, vire-se. Ou seja, a PEC que diz que a felicidade é um direito de todos patologiza quem quer encontrar a felicidade. Mas a causa disso é mais do que óbvia: eles não sabem o que é felicidade, ou melhor, confundem a felicidade com bem-estar.<br /><br />Para entendermos isso basta dar uma olhadinha na entusiasmante pesquisa feita no Brasil que é relatada na PEC: <i>"Em recente estudo, dois economistas brasileiros se propuseram a analisar, empiricamente, o que trazia felicidade aos brasileiros. Determinantes como renda, sexo, estado civil e emprego se mostraram diretamente ligadas às respostas dos pesquisados a respeito da felicidade. Concluiu-se, com base nesse estudo, que pessoas com maior grau de renda se dizem mais felizes, assim como aquelas pessoas casadas. A relevância do estudo, destarte, é estabelecer elementos concretos como determinantes da felicidade geral, demonstrando que é possível, sim, definir objetivamente a felicidade"</i>. Definir objetivamente a felicidade além de ser ingênuo, é violento. Felicidade não tem necessariamente um objeto, ela é fugidia e efêmera. Ela não está destinada a nós porque a felicidade, como explica Agamben, não é coisa que se mereça e ela está lá onde não esperamos. A felicidade está, portanto, mais perto da magia que da ordem dos fatores ou das condições essenciais.<br />&nbsp;<br /><i>"A busca individual pela felicidade pressupõe a observância da felicidade coletiva"</i> - diz a PEC da Felicidade. Nem vou forçar a mão dizendo que isso é pura prática biopolítica... Mas o que consta ali está absolutamente errado. A felicidade é arrogância e excesso, diz Agamben e tem a ver com sujeito sair de si em um estado de encantamento. Não tem nada a ver com uma abstrata felicidade coletiva, um estado em que todos são felizes ao mesmo tempo sob as mesmas condições. Não tem nada mais cristão e hipócrita que dizer que só se alcançará a felicidade o dia em que o mundo estiver em completa harmonia; esse é o típico argumento que leva os sujeitos à culpa exigindo o cumprimento de boas ações para chegar ao prometido reino da felicidade.<br /><br />A felicidade, ao contrário, é singular e terrena, é da ordem do inesperado e está longe da normalidade. Nada tem a ver com condições essenciais ou necessárias. Nada tem a ver com a previsibilidade de uma lei. Nada tem a ver com um índice. Felicidade não se mede, não se prevê: sente-se, encontra-se, acontece. Em francês diz-se <i>bonheur </i>(<i>bon-heur</i>), i.e., boa hora. Em inglês <i>happiness</i>&nbsp;que deriva de<i> to&nbsp;happen, acontecer.</i>&nbsp;A felicidade é sempre um possível, está sempre à espreita e em estado de latência. Nesse sentido, todo instante é um instante de perigo que pode revelar nossa possibilidade de fazer magia para que a felicidade aconteça. E daí pouco importa estabelecer se ela é pessoal ou coletiva. Essa é sua a magia e também puro afeto e encantamento, uma saída de si para abrir-se ao mundo, sua arrogância e seu excesso: no estado de felicidade quando se diz <i>eu</i>, diz-se&nbsp;<i>todos</i>.<br /><br /> ]]></description>
            <link>http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2010/11/felicidade-nao-e-coisa-que-se.html</link>
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            <pubDate>Fri, 12 Nov 2010 05:10:32 -0300</pubDate>
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