"Evang'Hélio"

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Para Alexandre, meu amor.

Meu contato com Hélio Oiticica decorreu de certo gosto pela marginalidade e de uma paixão romântica pelos bandidos e os "fora da lei". Ainda na dissertação de mestrado, sob orientação do professor Carlos Capela, Oiticica figurou como um contraponto para a literatura marginal que vem se produzindo no Brasil. No doutorado, a pesquisa sobre Hélio já não era apenas um contraponto, mas também uma fissura. Esta fissura só pode ser atribuída as "políticas canibais" - apropriadas do meu orientador, Raul Antelo, que lembra dos múltiplos significados do termo: a perda do objeto como desbordamento, mas também como resto e abjeção; a fissura como acontecimento que se escreve na própria carne, que compromete o corpo e que se desdobra. Conseqüentemente, essa fissura acarretou, para mim, a marca de uma subjetividade fissurada, cindida e não toda, e se deu, sobretudo, quando li em Oiticica: "a fundação de uma obra não é a produção infinita de objetos: é a formulação de uma possibilidade de vida". Esta definição operou como uma metamorfose, como um acontecimento que se inscreveu no meu corpo e no corpo do texto numa vontade de cosmografia, como apontou Hélio em relação ao trabalho de Vergara. Desdobrar, redobrar e levar a sério esta definição de arte foi o que tentei fazer nesta tese que defendo hoje.
 
O conceito de acontecimento é central na tese para pensar Oiticica como um inventor de acontecimentos. Para tanto, lancei mão da noção de síntese-disjuntiva que atravessa as produções dos happenings que começaram a irromper nos anos 60. A criação de outros ambientes, espaços heterotópicos de justaposição, intensificavam as sensações no intuito de retirar os corpos de uma anestesiante estratégia ditatorial. Hélio, então, quis concentrar seus esforços neste princípio do fim, o apocalipse, na produção de experiências. Era no corpo a corpo, na simultaneidade das proposições, e não menos na simultaneidade de mundos que eram criados pelos participantes, e na simultaneidade de existências que eram vislumbradas nos Ovos de Lygia Pape, no "combate-entre", para usar um termo de Deleuze, que se apossa das forças somando-se a elas num novo devir, que a hipótese de Apocalipopótese foi lançada. Este acontecimento não deixa de ser um esforço cosmológico e político de Oiticica e Rogério Duarte que envolvia a loucura e a cultura de massas em uma apropriação vital e limite. O encontro entre fim e começo, entre morte e vida, atravessados pela experiência da loucura, apresentaram uma política de sobrevivências, uma política da insistência. Ou ainda, especulações metafísicas guiadas pela curiosidade e pela aventura. A experiência, segundo Hélio, livra-se do seu caráter laboratorial de testes que produzem um resultado científico comum para todos, e passa a ser uma relação radical com um mundo de subjetividades singulares e impessoais abrindo a hipótese de destruição do mundo a um devir-mundos. Neste sentido, mais do que um combate contra o juízo de deus, Apocalipopótese era uma tentativa de "acabar de vez com deus e o juízo" (Deleuze. Crítica e Clínica). Assim, poderíamos dizer sem titubear que Hélio era um "desajuizado", ou melhor, que ele propunha um modo de existência "sem juízo". Se a opção era entre cultura e loucura, como ele dizia, então, estava em jogo ali a questão civilizatória.

Para compreender esta crítica, que era um verdadeiro "programa além da arte", foi preciso inventar mapas conectivos do arquivo de Oiticica. Subterrânia foi um dos caminhos que escolhi para percorrer e montar uma crítica ao desenvolvimentismo. Para dar consistência a este conceito precisei mobilizar uma série de elementos que compunham além dos trabalhos, o percurso pelo mundo feito por Oiticica. As capas feitas no corpo, a noção fantasmática e da poeira do sub, a sua obsessão pelo O Inferno de Wall Street de Sousândrade, o rechaço de Garcia Lorca, a eleição de "subsisto", retirada de Colidouescapo de Augusto de Campos, que se juntariam à leitura d'A Sociedade do Espetáculo de Guy Debord na composição de uma política subterrânia. Esta implicava atividades clandestinas e a formação de um campo de imanência que tirasse a economia (libidinal e política) do campo da transcendência. Em um gesto que recupera a terra, como no seu contra-bólide "devolver terra a terra", pude vislumbrar o que Eduardo Viveiros de Castro vem propondo como "reenvolvimento cosmopolítico". A atualidade do pensamento de Hélio, no entanto, não deriva exclusivamente de uma continuidade atualizada que tracei na tese, embora ela seja absolutamente sintomática. Antes, mostra que sua proposta, a proposta que rolava na atmosfera tropicalista de repensar vigorosamente a cultura, isto é, o processo civilizatório, diferenciava-se da pauta que outrora (e ainda hoje) se apresentava entre direita e esquerda explicitando, assim, que mais do que posições políticas de um lado ou de outro, a subterrânia pensava camadas de mundos horizontais. Forças intensivas e diabólicas que ao invés de separar as especialidades - ecologia, economia, cultura, por exemplo -, reenvolvia-as em um pensamento cosmopolítico, cosmococas, que surgia na planta do pé, no corpo. Para mim, Oiticica parece que veio do futuro, pois é possível colocá-lo na pauta política que, ainda hoje, anuncia um processo de aniquilação de mundos com uma série de mega-projetos que ameaçam e extinguem modos de vidas que não coadunam com a política desenvolvimentista. A clandestinidade e o grito reaparecem como meio de rearticular o contato com um mundo perdido do qual falava Flávio de Carvalho. Contudo, não se trata de um saudosismo, o mundo perdido é o que foi deixado para trás e dado como superado na escala evolutiva e limpa do progresso. Subterrânia é, assim, o procedimento crítico que implica tomar o subdesenvolvimento como um sintoma, e mais ainda, como um método de saber-fazer com o sintoma que não deve ser curado como uma peste, mas inventado na multiplicação das diferenças. Neste sentido, a insistência da subsistência ou da sub-existência, revela que é preciso resistir em um exercício de teimosia que não afirme a conservação, mas que insista na transformação. É por este caminho que pude perceber que a arte, enquanto criação de possibilidades de vida, atua em duas frentes: da resistência e da metamorfose. Toda arte teria, portanto, um Programa Ambiental dos Parangolés capaz de inventar mundos.

Em 1963, Hélio já deixava claro do que se tratava a arte: a experiência com o objeto continha a possibilidade de transmutação do espectador criando outras maneiras de ser. Para tanto, foi preciso que Oiticica desse ênfase ao conceito de participação e ao processo de criação deste participador, passando também por uma reformulação do conceito de objeto. Já não mais importava o que era ou deixava de ser um objeto de arte, mas sim a experiência e a relação que era possível manter com este. Esta experiência exigia um estranhamento no confronto com o espelho, ou ainda, no confronto com a civilização, uma desabituação, uma mudança dos hábitos. Não por acaso, Hélio denominará os Parangolés e as homenagens a Cara de Cavalo como anti-cultura e dará um passo além em relação ao conceito de participação entendendo-a como incorporação e possessão. O capítulo sobre os Parangolés talvez seja o mais ambicioso da tese porque tomei para mim o desafio lançado por Hélio em um texto de 1964, no qual dizia que era preciso pensar uma ontologia das capas: "resta talvez uma procura da definição de uma 'ontologia da obra', uma análise profunda da gênese da obra enquanto tal". Tornou-se ainda mais ambicioso quando percebi que, para elaborar esta ontologia dos Parangolés, eu precisaria necessariamente pensar o conceito de ficção. O Estádio do Espelho de Lacan, cuja publicação é contemporânea às formulações dos Parangolés, foi um dos pontos de partida para que esta tarefa fosse empreendida. Ao lado deste, algumas releituras de Freud feitas por Oswald de Andrade também foram destacadas para pensar o que o antropófago chamou de "estados de ficção". Ali, a alienação (a loucura) reaparece como formação do sujeito que se abre para a incorporação do ambiente, do mundo e do outro através do mimetismo. Mas não só, não é o sujeito apenas que cria o objeto, o ambiente, o mundo e o outro, ele é criado também por estes a ponto de se confundir com eles. O corpo destes sujeitos parangolísticos que Oiticica apresenta é um corpo extensivo e intensivo. Um corpo do tamanho do mundo.

Esta alienação, no entanto, significa que há uma perda - o que torna possível a relação -, que cria a falta através da qual é possível desejar e se metamorfosear. Neste sentido, o eu nunca é total e único, senão coletivo, um devir-outro. Foi com a proposição do suprasensorial que ficou mais claro o que tentei explicar como uma crítica à cultura. Ali, se estabelece uma passagem da cultura ao sensível, uma vez que Oiticica pensa em termos de transmissão, isto é, não se trata de ensinar, de conscientizar, mas de transmitir experiências. E esta passagem tem conseqüências profundas para pensarmos o mundo, porque se a levamos às últimas conseqüências teremos ao invés de um "Ministério da Cultura, os Mistérios do Sensível" (roubado de um tuite de Eduardo Viveiros de Castro), ao invés dos corpos determinados biologicamente, corpos selvagens atravessados pelas experiências, ao invés do inconsciente freudiano, o consciente antropofágico do sexo e do estômago, e o consciente ético da alteridade. 

Em 1973, os Parangolés são redefinidos por Hélio e a performance passa a ser a forma por excelência das suas proposições. Ele a define como travestimento e os Parangolés passam a ser incorporação. Neste momento, o conceito de ficção se amplia: já não se trata mais da sua indiferenciação com a realidade, mas da incorporação e invenção de novas realidades. De modo que a arte não seria apenas ameaçadora da ordem, mas capaz de fazer incorporar e inventar novos mundos e modos de vida. Um "auto-teatro" descentrado dos papéis sociais, um auto que é incorporação do outro, que leva a realidade e o corpo ao limite dos mundos, ao contato com outros mundos. Esta contestação pelo experimental de uma cosmovisão restrita por uma série de determinações era o objetivo das vivências mágicas dos Parangolés, cuja ontologia, concluí, não poderia ser outra senão a da devoração dos mundos e do outro. Cosmovisões que se desdobrarão nas Cosmococas.

Nestas, Hélio arma uma poética da fragmentação radical com seus procedimentos de não-narração, com a utilização da gilete e da navalha que faziam das imagens projetadas nos cosmos criados por Cosmococas, instrumentos capazes de libidinizar os corpos. Com o uso da cocaína, a fissura se apresenta como uma força de ação e como lugar de intervenção. As frestas dos corpos, o corpo dilacerado, são as formas perversas de intervenção da arte: o festim canibal da baba antropofágica de Lygia Clark. A cocaína era também a promotora de mundos simultâneos, da extensão dos corpos ao mundo e das coexistências. Ao seu uso, Oiticica atribuía uma saída da vida do trabalho e da competição porque os modos de vida não precisam ser superados, eles coexistem. A prima, como Oiticica chamava a coca, era a alienação nas imagens das infinitas experiências simultâneas. Experiências que eram uma aproximação entre vida e morte, a transmutação do corpo em outra coisa. Nas Cosmococas, Hélio atenta para os perigos da identificação com a imagem. Aí está a importância dos seus cortes e da não coincidência entre corpo e imagem que só poderia se apresentar enquanto movimento, enquanto força que tiraria os corpos da constância e da consistência da identificação que é a base de todo autoritarismo. Assim, as imagens das Cosmococas ganham a força pulsional que torna os sujeitos inconstantes e proporcionam o contato entre os mundos. Mas, ao mesmo tempo, o circuito pulsional é capaz de aprisionar os sujeitos em um gozo mortífero. O corte, neste sentido, a "per-versão", como queria Hélio, seria o meio para operar uma desmontagem, para mudar o caminho, para curto-circuitar a repetição neurótica. Este corte, que também institui a falta, o objeto perdido destacado do corpo pela lâmina libinal lacaniana, a relação com a Coisa freudiana, é o espaço por onde emerge o desejo. Daí que não se possa identificar corpo e imagem porque isto implicaria o sufocamento do desejo do outro. Nesta relação com a Coisa, a posição feminina aparece com o uso das máscaras que destituem a pretensa unidade e totalidade dos sujeitos para fazê-los devir enquanto travestis, enquanto outra coisa que não eles mesmos. Daí talvez a opção de Hélio por um "quase-cinema", uma formação mais que uma forma, que não é outra coisa senão a iminência. Abrir espaços, criar vácuos, criar descontinuidades, avacalhar são os procedimentos das Cosmococas que instituem lugares vazios enquanto pura virtualidade, enquanto puro vir a ser. Frestas cortadas pela navalha para que seja possível visualizar pontos de luz, animar as imagens e multiplicar os corpos.

Os três eixos da tese, Subterrânia, Parangolés e Cosmococas, articulam a arte, o corpo, a vida e o mundo como desdobramentos das sobrevivências das hipóteses apocalípticas. Se não há fim do mundo anunciado, se ainda temos futuro, é porque podemos construí-lo e pensá-lo no presente para além de uma linha progressiva e vertical. O que defendo nesta tese é que Oiticica deixou como lição, ou melhor, como "fios soltos", nos seus procedimentos, conceitos que se opõem à concepção linear e evolutiva do capitalismo. Ou mais precisamente: que os lampejos das experiências que podem surgir da relação com a arte suscitam acontecimentos capazes de inventar outros mundos e possibilidades de vida. A arte é, portanto, o nosso pouco de possível sem a qual sufocamos.

À espreita

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A fotografia abaixo é a imagem que melhor apresenta o que Hélio Oiticica nos deixou como legado:

2113.79-p2.jpgA foto é de 1979. O fotógrafo, ninguém menos que Eduardo Viveiros de Castro, também conhecido como xamã da #ATOA. O retrato de Hélio à espreita, posição definitiva do devir-animal, foi capturada por Viveiros que já sabia que a intensidade subterrânea está no olhar enviesado que desconfia da ordem das coisas. O encontro de dois gênios traduz uma visão de mundo: o olhar à espreita é a possibilidade de ver o mundo com os olhos livres. 

A natureza é mundo

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Lutar pelo ambiente exige que coloquemos nossos corpos em jogo. Implica sair de uma posição de observador e iluminado. É uma luta que inclui seu corpo, sua vida, no mundo; que o coloca como efeito do mundo. O ambientalismo não é uma causa a qual se adere através da conscientização. Não nos preocupamos com a natureza como se fôssemos exteriores a ela, somos natureza. A natureza é mundo e não o lugar para cálculos torpes da objetividade de engenheiro; é poesia e violência.
 
Os que encaram o ambientalismo como santuarismo, ignoram o que sabemos desde muito: a natureza é profana. E se vinga. De qualquer modo, é melhor ser um santuarista do que ser um exterminador de futuros (a semelhança com o filme não é mera coincidência). Afinal, o mote do grande projeto, como já disse Nelson Jobim, é que "não precisamos tratar do futuro porque estaremos todos mortos". É esse o fascínio narcisista que move a fé cega em um projeto criminoso: não sendo comigo, tudo bem.

O crescimento brasileiro confunde desejo com dominação e se funda em uma necessidade incontrolável de energia, de produção, de exportação. Esquece, não sei se por má-fé ou por ingenuidade, que essa produção de "desejos" é o projeto em que se engaja o mais mortífero capitalismo que só é possível através de uma ampla dominação. Chamavam de Imperialismo até outro dia, hoje chamam de Potência. "Não é hora de parar de comprar nem de produzir", diz a presidenta. É hora de explodir.

O que está em curso é a propagação de um modo de vida em que cada um goze com seus objetinhos comprados no shopping, na concessionária ou na loja de departamentos dentro de suas casinhas. Que as propagandas de seguro aumentem vertiginosamente para que se consiga conservar as aquisições. Um Brasil muito fascista com uma classe média formada em um exclusivo conceito de cidadania: o consumo. O que reforça, por outros meios, a propriedade privada e sua defesa com armas, extermínio, higiene e racismo.
 
Um modo de vida tão fascista que é incapaz de respeitar outros modos de vida ("Será que um país deste tamanho não tem condições de oferecer outro local para as populações daquela região?", pergunta o progressista). Tão perverso que acha que todos devem ser desenvolvidos ao seu modo. Não deixa de ser um curioso paradoxo a defesa dos direitos das mulheres e das relações homoafetivas, por exemplo, por pessoas que são a favor deste modelo desenvolvimentista. Seria interessante rever essas bandeiras e seu grau de hipocrisia porque a única coisa que o desenvolvimentismo nos mostra é que não há espaço para a diferença. E uma mostra da consistência hegemônica do reacionário projeto Brasil Trator Potência é o consenso que une um governo petista e a revista Veja, Progressistas e Reinaldo Azevedo na defesa de Belo Monte. Ou ainda, a inacreditável suspensão feita pela presidenta do kit anti-homofobia depois de uma matéria escrota na Record (que se refere até hoje ao kit como kit gay) e da pressão da bancada religiosa.  
 
Os observadores, cuja objetividade os coloca como iluminados, deviam entender que o olhar é uma via de mão dupla. O que vemos, também nos olha. O mundo que observamos da janelinha do terceiro andar, também nos olha. Não será a objetividade de engenheiro, que tenta a todo custo "tirar o corpo fora", que impedirá que se saiba deste projeto civilizatório carregado de barbárie. Congelados em um presente de previsões de necessidades infinitas, os apoiadores do modelo entendem que o passado está morto e que o futuro será encantado. Só que, ao contário, este projeto de crescimento promove uma dinâmica entre passado-presente-futuro que governo e governistas preferem não ver: a posta em prática do projeto econômico nefasto da ditadura militar em que agita este presente fascista em nome de um futuro sem mundo.  

Peguei esse título de Nina Saroldi que prefacia o excelente livro da Denise Maurano: Histeria. O princípio de tudo. Creio que ele seja suficiente para entender que esse post não é uma aversão à histeria ou uma consideração de que a histeria é uma patologia, pelo contrário entende-se aqui, de acordo com Maurano, que ela é uma forma de subjetivação.

A psicanálise surge com a histeria. Freud deixa de lado a hipnose e investe na associação livre. Ou seja, sem nós mulheres, o Ocidente não teria a psicanálise para confortar ou confrontar o sofrimento. Mas Freud não estava sozinho no estudo das histéricas. Charcot e Breuer também estavam tratando pacientes. Freud e Breuer publicam juntos Estudos sobre Histeria em 1895. Mas aí o racha (hihi) fundamental: Freud acha que deve incluir a etiologia da sexualidade e Breuer resiste.  É daí também que surge o meme freudiano de que tudo é sexual. E, de fato, para Freud, é. Contudo, leituras posteriores de Freud, e ele mesmo, esclarecem o que é esse "sexual": é o que está relacionado ao prazer e não necessariamente aos órgãos genitais. Mas enfim.

A histeria, durante boa parte do século XX (e até hoje) é vista como uma doença feminina: para a histérica nada é suficiente. Ou ainda, a histérica é um excesso, um transbordamento tanto é que seus sintomas são refletidos no corpo. Daí que estávamos conversando no tuíto sobre feminismo e afins e a Deborah Leão me passou um link de um texto incrível da Maria Rita Kehl aqui.

Daí que eu estava lembrando que uma das justificativas de certo movimento feminista é, justamente, se livrar da histeria ("não queremos que nos chamem de histéricas", "não somos histéricas reclamando por igualdade", etc). Enquanto, na verdade, o feminismo só pode existir pela condição histérica (pensem em Anna O.), por esse excesso de demanda que, como diz Kehl, embora acredite no "poder do falo", desestabiliza a posição masculina já que a histérica diz: quero mais. Tudo vem abaixo! A satisfação compulsória pelo casamento, pela maternidade, pela vida estável, familiar, etc. O que acontece aí é uma reafirmação desse transbordamento ou, lacanianamente, dessa ausência de significante, dessa falta tão vertiginosa, dessa demanda insaciável da histérica. Na histérica, nas mulheres em geral, está um lugar de invenção permanente, de metamorfose e de devir. E nesse sentido, reafirma a necessidade do feminismo ser considerado uma prática e não uma essência. Não adianta dizer: sou feminista, tornei-me feminista, então devo fazer assim, assim, assado. Como prática, enquanto movimento, no sentido pleno do termo, cria-se e recria-se um lugar, ou melhor, um não-lugar, uma vez que ele jamais pode ser estabilizado, para esse feminino inquietante que se expande para outros muitos devires. Ou seja, mais do que abrigar sobre um rótulo, mais do que definir seus preceitos, mais do que instaurar palavras de ordem, mais do que um discurso pronto, o feminismo precisa de histeria, dessa paixão que se inscreve no corpo e que, por isso, grita.



PS: é lógico que a histeria pode causar sofrimento, taí a psicanálise, ou qualquer outro meio de seu gosto, para resolver essas questões. O que está em jogo aqui é um agenciamento político dessa demanda para que ela não se domestique, ao contrário, para que se torne desejo, infinitos desejos.

dos possíveis

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Às vezes me pergunto se ainda existem no mundo acontecimentos incompreensíveis que geram espanto. As notícias não comovem, os corpos não chocam, as descobertas parecem cada vez mais previsíveis. Enfim, existe certa incapacidade de surpresa mesmo diante de notícias comoventes, imagens chocantes, descobertas imprevisíveis. O espanto, ou a surpresa, parece fugidio com o tempo e com a "experiência". Tudo se normaliza e naturaliza como se houvesse a possibilidade de reter todo conhecimento do mundo que explicasse porque isso, porque aquilo, porque aquilo outro. Walter Benjamin em uma de suas teses sobre filosofia da história dizia que não deveríamos nos surpreender com as catástrofes que teimam em ainda acontecer, que se repetem e repetem, e retornam e retornam. É certo que não temos que tomar como novidade, mas a falta de surpresa também pode nos levar a lugares nefastos. Daí que tudo no mundo pareça muito sem saída: o Brasil não tem como não construir Belo Monte, a polícia é assim mesmo, violenta e cruel, é impossível uma solução na Líbia sem a intervenção militar coalizão internacional; as coisas se tornam necessárias, porque sem isso não tem aquilo, blábláblá. Temos também a hipótese da anestesia social que também não é uma verdade incondicional. Basta ver os acontecimentos nas ruas aqui ou fora daqui, manifestações diárias de movimentos sociais organizados ou não.
 
Contudo, dá para perceber que mais do que nunca o "realismo", ou melhor, a ilusão de domínio da realidade (vide Japão e suas usinas nucleares "absolutamente seguras"), se sobrepõe aos possíveis. E o real, sempre à espreita, não cessa de (re)aparecer. Há um esforço sem tamanho em naturalizar esse irrepresentável do real quando se elimina o espanto. Curiosamente, esse esforço já não é exclusivo das esferas que concentram o capital ou dos meios de comunicação, mas se estende para espaços onde o confronto ao invés do apaziguamento deveria ser colocado, por exemplo, no que convencionamos chamar de política, mas que deveria atender única e exclusivamente pelo nome de governo. Não por querer sacralizar a política, ao contrário: é justamente para retirá-la da esfera separada, o governo, cuja atuação burocrática e técnica não mede forças para naturalizar o espanto, e trazê-la para um espaço em que ela se realize, ou seja, em que a política tenha a força de um acontecimento suscitado pelo espanto e pelo incompreensível. A diferença está em não naturalizar o incompreensível, em mantê-lo sempre estranho, em torná-lo mola propulsora de possíveis (senão sufoco, diria Deleuze).

Dilma Rousseff, presidenta desta nação, foi saudar, comemorar, brindar, aplaudir, etc, o aniversário de 90 anos da Folha de S. Paulo. Sua ida "à cova dos leões" como denominou Leandro Fortes, não foi menos controversa. Suscitou inclusive manifestações de altas esferas PT que precisou justificar a aproximação da grande mídia ao governo dizendo que não se trata de um alinhamento ideológico, mas sim de interesses econômicos. A adesão, segundo a fonte, não será mal recebida. Portanto, essa diferença sutil fica restrita aos olhos de lince do alto escalão do PT porque eu não consigo perceber.

Ora, se a imprensa é livre por que diabos um partido político tem que justificar uma "aproximação"? E sem ingenuidade, por favor, esse movimento não é de mão única, ou seja, não é a imprensa que se aproxima do governo, mas também o governo que se aproxima da imprensa. E tudo acontece nessa atmosfera etérea, uma discussão sem pé nem cabeça que mostra que o governo entende a postura da imprensa e não se incomoda em tê-la a seu favor. Dá-se a isso o nome de liberdade de imprensa ou liberdade de expressão. Puxa! Quanta inovação! Maurício Caleiro, no seu último post, mostra com clareza que Dilma fez sua opção.
 
Em seu discurso na Folha, é importante frisar, Dilma reforçou sua fórmula repetida à exaustão durante eleições: "devemos preferir um milhão de vezes os sons das vozes críticas de uma imprensa livre ao silêncio das ditaduras". Leandro Fortes explica bem como é falaciosa essa "liberdade de imprensa" reivindicada pela Folha e endossada, ali, por Dilma. Mas o que me incomoda na presença de Dilma na tal festa é o gesto simbólico de jogar no lixo a memória do país. "Um governo deve saber conviver com as críticas dos jornais para ter um compromisso real com a democracia. Porque a democracia exige sobretudo este contraditório, e repito mais uma vez: o convívio civilizado, com a multiplicidade de opiniões, crenças, aspirações". Que convívio civilizado, que multiplicidade, que crítica é essa de compromisso com a  democracia de um jornal que, em 2009, tem coragem de dizer que a Ditadura brasileira foi uma Ditabranda?

O vínculo da Folha com a Ditadura, como eu já disse aqui, ironicamente, defendendo Dilma, não tem que ser medido pelo passado, mas pelo presente. Dilma foi comemorar com o mesmo jornal que concedeu autoridade de julgamento a um homem que a espionou durante a Ditadura para comprovar a tese de que ela era um "lobo em pele de cordeiro". A matéria saiu intitulada, sem o menor pudor, como "Espião de Dilma". O ilustre reacionário Jair Bolsonaro só dá entrevistas incitando à violência para que se "corrija" os homossexuais dizendo que o país descambou depois do fim da Ditadura porque esse país não tem memória. O "ambiente democrático" em que se dá essa discussão é de uma anomalia sem precedentes. Ah! Mas as histórias estão desatreladas, podem argumentar os mais céticos. Explico porque não: um país em que um deputado justifica uma "lei moral e de bons costumes" que nega direitos aos seus cidadãos recorrendo à Ditadura sem esta ter sido revista, sem que ao sujeito que pronuncia esse discurso seja imputada a responsabilidade diante de centenas de mortes, torturas e desaparecimentos, só pode ser considerado uma democracia anômala.
 
Daí a exaltação da tecnocracia que tudo pode "resolver" e "progredir", afinal, os ajustes econômicos - absolutamente necessários, ou melhor, uma obrigação de cada governante eleito - serão suficientes para dar conta da "justiça" em uma sociedade. É a própria Dilma quem pronuncia no discurso na Folha: "tenho certeza que cada um de nós percebe, hoje, que o Brasil é um país em desenvolvimento econômico acelerado. Que aspira ser, ao mesmo tempo, um país justo, uma nação justa, sem pobreza, e com cada vez menos desigualdade. Para todos nós isso não é concebível sem democracia. Uma democracia viva, construída com esforço de cada um de nós, e construída ao longo destes anos por todos aqui presentes". Dilma está certa: uma nação é justa quando a pobreza é erradicada, mas não é só isso. Uma nação é justa também quando tem memória, ou melhor, quando é possível construir sua memória. E acelerar talvez seja a melhor estratégia para o esquecimento. Para tanto, é preciso da conciliação, fórmula predominante na política brasileira, que não cessa de aprofundar a zona cinza entre vítima e carrasco ofuscada e esquecida em nome do incrível desenvolvimento econômico acelerado.
 
Tudo se funde em um espetáculo econômico que justifica todas as ações: de Belo Monte à retirada do selo CC do site do Ministério da Cultura. O espetáculo triunfa e monta uma cortina de fumaça que dá a ver esse espectro do desenvolvimentismo elevado à sua máxima potência. As conseqüências desse processo que marcarão profundamente o futuro não querem ser ouvidas. Enquanto uns agem pelo princípio cristão de fidelidade ao acontecimento - ao acontecimento do governo Lula, que "continua com Dilma", que "não pode parar", porque qualquer crítica ao governo vem respondida com argumentos estapafúrdios que acusam o sujeito de ser contra a distribuição de renda, ou ser de "direita", esse significante mais esvaziado do que a cabeça dos que o pronunciam - a política se esvai nessa realpolitk.

Gente! Eu ia dar uma pausa, né? Mas tive que abrir uma exceção porque no meio do caminho veio o resultado do vestibular da minha irmã mais nova. O bebezão da casa e tal. E, saibam: ELA PASSOU! E que coisa linda ela ter passado no vestibular. No primeiro vestibular dela, para Biologia, na Universidade Federal de Santa Catarina. Eu sou capaz de repetir essa notícia por uma semana com o mesmo sorriso e com a mesma vibração. \o/

Tudo isso representa o começo de uma nova etapa na minha casa. Minha irmã do meio, jornalista, esse ano conseguiu o emprego que ela tanto queria e, muito merecidamente, está lá trabalhando como louca e feliz da vida. Eu qualifico minha tese em breve. E no começo do ano que vem devo receber meu título de doutora. E agora, o bebezão da casa, ai meu deus, saber que eu troquei as fraldas dessa menininha, entra na universidade.

Mas deixa eu explicar a nova etapa: na minha casa, meus pais nos educaram com uma severidade singular: estudo e independência. Eram essas as metas que ambos tanto martelaram nas nossas cabeças. A velha história: não temos herança para vocês exceto a educação e isso ninguém pode tirar, sabe? Então! Lá em casa isso foi repetido à exaustão. Tivemos uma educação muito boa na escola e em casa. Tanto é que, se alguém perguntar porque sou entusiasta do feminismo eu poderia tranquilamente atribuir aos meus pais boa parte dele porque eles nunca acharam que a nossa posição deveria ser de submissão ou nos ensinaram que a ordem do mundo era essa mesmo e que tínhamos que obedecer e tal. Ou se fizeram, minha memória e minha felicidade podem me trair, trabalharam tão bem as possibilidades de subverter a ordem que seguimos por esse caminho, as três. Meu pai é tão orgulhoso de ter três filhas e sempre nos impulsionou para mais e mais; e minha mãe tem um ímpeto libertário que muitas feministas não tem. Ambos não chegaram a universidade, o que não reduz em nada a visão do mundo que eles têm porque, definitivamente, a universidade não é vacina. Mas, claro, eles mantinham esse desejo para as três filhas.

É minha mãe que sempre me conta uma história triste: quando ela dizia para algumas pessoas, as imbecis e reacionárias que não enxergam nada além do seu quadrado, que queria ter três filhas e que as três iriam para a universidade, essas pessoas riam dela dizendo que "até parece que isso será possível". O que vocês quiserem colocar aqui de machista e escroto, podem colocar porque era assim. Minha mãe foi criada num ambiente hostil que tentou colocá-la um pouco mais abaixo do chão. Quiseram acabar com o sonho da minha mãe e ela, tão linda, não deixou. Ao contrário, nos criou longe disso tudo, embora não nos protegesse disso tudo porque, né? o mundo é bem complexo e nos deparamos com essas situações mais do que gostaríamos. Mas minha mãe e meu pai construíram, para eles e para nós, o mundo que eles sonharam. E, olha, não foi fácil. Sou a filha mais velha e acompanhei tudo mais de perto e digo sem titubear que a coragem dos meus pais é uma das coisas mais admiráveis que já vi na minha vida.

Pois bem, a mami conseguiu realizar seu "sonho impossível": as três filhas na universidade, as três filhas na Universidade Federal (esse é um dado importante, primeiro porque, sem dúvida, as federais são excelentes universidades, e depois porque faz parte do imaginário esse lance todo de federal, da dificuldade, etc. Meus pais nunca vão dizer: minhas duas filhas são  formadas e uma acabou de entrar na faculdade, eles dirão: elas todas  estudaram/estudam na FEDERAL, sabe como é, uma gracinha eles, não?). Nem posso mensurar o que se passa na cabeça da minha mãe agora, nesse exato momento, poucas horas depois de eu ter ligado lá e contado que a Bibi passou (eu contei pra minha irmã do meio e queria contar pra a mais nova também, porque né? irmã mais velha coruja absoluta \o/). O que eu consegui dizer para os meus pais é que eles conseguiram. E, puxa! Como conseguiram!

Uma nova etapa começa e, infelizmente, ela veio com a perda de um grande homem, o meu avô, que nos deixou recentemente e de forma tão repentina. Meu avô era um homem lindo. Aos 88 anos ele conversava sobre homossexualidade, desigualdade, meio-ambiente, política com os olhos de um menino, cheios de esperança e de sonho. Ele queria tanto que a Dilma ganhasse a presidência, embora eu ligasse para ele pra dizer que a Marina Silva era uma excelente candidata. Puxa, vô! eu dizia, a Marina é ambientalista (meu avô era super sensível às causas ambientais, daí meu argumento)! Como o senhor não vai torcer pela ambientalista!
Ele até dizia que sim, que o importante era que ganhasse uma mulher. Mas ele queria mesmo a Dilma, mulher forte e de coragem. E ele a viu ganhar e tenho certeza que chorou com aquele discurso em que ela dizia que " a mulher pode"! Meu avô admirava as mulheres como poucos homens e tinha tanto orgulho de nós três. Ele achava tão incrível estudarmos, estarmos na universidade (meu avô era apaixonado por livros, mas não teve muito estudo formal. Desde pequena meu sonho era levá-lo para a Itália - que eu não realizei - mas quando eu dizia para ele alguma coisa relacionada à viagem e tal ele dizia: não preciso viajar, eu conheço o mundo todinho pela televisão. Olha que coisa mais linda! Meu avô tinha os olhos e o olhar mais lindos do mundo!). Eu dediquei minha dissertação de mestrado a ele porque ele sempre acreditou no "mundo-abrigo" (nome de um projeto incrível do Hélio Oiticica que foi inspirado em seu avô anarquista), porque ele sempre sonhou com um mundo melhor e mais justo. E, caramba! Ele estaria tão, tão, mas tão feliz com a notícia que a Bibi passou no vestibular! E tenho certeza que quando minha mãe lembrasse de quando as pessoas pisotearam seu sonho ele diria: "tá vendo?" E hoje sei, pela sua generosidade, que um sonho dele estaria se realizando só por ser um sonho da minha mãe e do meu pai. Então, vô, estamos aqui vendo tudo isso de pertinho e com seus olhos lindos. E saiba que eu continuarei indo atrás dos seus sonhos, porque os compartilho com você, porque eles são meus também. 
 
Essa nova etapa, apesar da dor da perda, se abre com a felicidade do sonho (im)possível: com a celebração dos meus pais e com enormes parabéns para minha irmãzinha que estudou tanto. E, não menos importante, com um grande vai tomar no cu para quem debochou desse sonho.



PS: Eu consegui a proeza de ser estudante universitária ao mesmo tempo que as minhas irmãs. No dia da formatura da minha irmã mais nova eu ainda disse: você vai entrar na universidade, a Rafa já saiu, e eu ainda estou lá \o/ (e lá continuarei!)

PS2: A pausa continua, mas eu não podia deixar de compartilhar essa felicidade aqui. Volto logo =)



Uma paradinha rápida

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Queridos leitores e queridas leitoras (a Dilma realmente contagia \o/)

Farei uma pequena pausa aqui e no tuíto. É bem rapidinha, então não se animem muito porque eu já volto! Tenho que qualificar minha tese e tenho poucos dias para finalizar tudo.

Uma viagem inesperada, os atrasos habituais, o tempo de maturação das idéias (cabem aqui todas as desculpas procrastinadoras também) exigem de mim um trabalho muito intenso agora. So, wish me luck!

Volto em breve. Beijos e abraços em todos. Até =)


PS: Se alguém quiser falar comigo, me mandar correntes de motivação coisas do tipo "você é capaz", "não desista", "tudo vai dar certo", ou se quiserem saber se estou sobrevivendo com sanidade, ou se já materializei Hélio Oiticica que ainda é um amigo imaginário etc, etc, etc, deixo meu e-mail flaviabc arroba gmail ponto com
Minha tese é sobre a tropicália e suas sobrevivências, como já deve ter dado para perceber, e certo dia uns amigos iam discutir um texto clássico e deveras marxista sobre o tropicalismo que o criticava em pontos decisivos. Pontos estes que serviam para a sua potencialização política, incompreendida até hoje, ou compreendida como festiva, desordeira, alienada, enfim, uma putaria. E como eu gosto de uma putaria, me embrenhei nesse momento/movimento tropicalista que, a cada dia, percebo mais contemporâneo. E foi assim que surgiu o partido imaginário da esquerda libidinosa: eu estava um pouco assustada com a adesão dos meus colegas aquele texto de marxismo duro e massificante, que excluia o desejo, a singularidade, que queria fazer a revolução levando aos ignorantes a consciência da opressão, etc. O texto realmente tira tudo de bom do tropicalismo para contrapor a uma coisa tão distante da sua proposta. Daí, em defesa da tropicália e um pouco receosa de não me fazer clara falando da importância do corpo, etc, eu disse: essa esquerda não tem libido! Pra ver se eu causava um choque e tal =)

Tenho pensado muito sobre o tema e conclui que um dos maiores prejuízos do pensamento de esquerda no Brasil foi não ter apreendido a proposta política da tropicália que tinha como norte a ética radical da singularidade. Eu escrevi um texto enorme para explicar tudo isso, mas não publiquei aqui com o temor de causar tédio e horror embora seja um assunto delicioso. Quem sabe publico em doses homeopáticas ou alguma coisa menor no dia em que meu poder de síntese for ativado pelo poder divino. Em minha defesa argumento que está nos detalhes as propostas mais bonitas da tropicália, por isso é quase impublicável em um post. Tentarei ser breve.
 
Como todos devem saber a tropicália sofreu uma patrulha ideológica que reverbera até hoje nas esquerdas. Qualquer desvio de conduta, pimba! é de direita não sabe bem o que quer, de que lado está, etc. Basicamente sua proposta era acabar com as regras morais de comportamento que reprimiam os corpos e os modos de vida. Do mais reacionário ao mais libertário, todos seriam vistos em sua singularidade. O que não tolhia um movimento, desorganizado, claro, que combatia duramente as estruturas do poder.
 
Minha leitura, creio, é sintetizada magnificamente por Hélio Oiticica em 1968 quando ele define a arte (de maneira decisiva de tão aberta e potente) como a criação de possibilidades de vida. Os parangolés de Oiticica eram isso: a singularidade dos corpos em contato com capas coloridas cuja autoria era completamente apagada quando alguém se apropriava delas. O que Hélio queria, entretanto, era que isso se estendesse para o cotidiano, que toda roupa fosse uma capa, que toda capa projetasse as imagens desses corpos singulares para o mundo. Não é a toa que se eles se confundiam com a moda que ao contrário do que se pensa não é massificante, ao contrário, é o meio pelo qual projetamos as imagens no mundo para compô-lo e nos apropriamos das imagens do mundo para compor-nos. Por isso diz-se cada um ao seu modo, à sua moda.

Mas o que quero dizer é que toda a lógica do dever ser, praticada inclusive pela "esquerda oficial", o Partidão, era apagada para fazer devir o desejo de cada sujeito. Isso era visto, ainda é visto, como uma forma impraticável de se organizar em sociedade. Como lidar com as diferenças e os desejos, ou seja, com a singularidade, na civilização Freud já se perguntava no "Mal-estar da cultura". E não é fácil, embora seja a única saída: tem muito conflito porque tem o outro; e porque tem o outro, tem desejo; e porque tem desejo é singular. Era essa dimensão singular que não seria apagada em nome da massificação em classes, por exemplo. Era tudo ao mesmo tempo com a exacerbação radical das diferenças para que se alcançasse, um dia, um estágio de indiferença. Ou seja, pouco importa o que você é ou deixa de ser, importa que você é assim, um ser tal qual você é, ao seu modo, singular. Parece redundante, mas é a chave para entender a ética que eu dizia anteriormente.

O combate a opressão, por seu turno, não era entendido pela tropicália como uma questão revolucionária de tomada de poder. Ao contrário, era no cotidiano que se pretendia inserir essas possibilidades de vida das quais Hélio falava. E isso era também Caetano cantando no programa do Chacrinha: uma atuação dentro das estruturas para reverter as estruturas. Sabia-se da audiência, sabia-se da repressão. A abordagem política era feita, portanto, através da linguagem e da imagem que já havia se tornado independente dos corpos (isso acontece com os meios de comunicação em massa mais facilmente, por isso eles não são o horror na terra, as emissoras é que são, seus donos é que são, etc).

Mas é claro que a tropicália não vingou como proposta política, afinal onde já se viu o desbunde, a desinstitucionalização, servirem como mote político? Infelizmente no meio do caminho se perdeu muita coisa. A mais significativa delas foi deixar de entender a política como esfera não separada, a linguagem como esfera não separada, o corpo como esfera não separada. Ou seja, deixaram de entender que autonomizar as esferas (o corpo, a política, a arte, a linguagem) é a estratégia do poder para que tenhamos que acessar essas esferas através de alguma coisa que nos autorize a atuar nelas. É foi justamente nisso que o espetáculo se aperfeiçoou: criando uma suposta unidade das esferas que só reúne enquanto separado, já dizia Debord. E é nessa instância que o capitalismo atua separando infinitamente até nosso estranhamento transformando-se, como dizia Benjamin, em uma religião sem dogma, de puro culto. Como sair daí, né? Difícil, mas vou tentar.

Equivocadamente as críticas que se opõe ao sistema identificam o problema em uma excessiva superficialidade e aí entra o que quiserem: a aparência, a beleza, as relações, etc. A superficialidade das imagens e dos corpos (as imagens e os corpos são superfícies, os efeitos das imagens nos tocam a pele) nunca foi tão importante como é hoje (Agamben chega a afirmar que a pornografia e a publicidade são as parteiras inconscientes de um novo corpo da humanidade). É essa superficialidade que é capaz de reverter essa separação incessante que privilegia o culto ao uso, a sacralização ao contato. Contudo, os corpos são cada vez mais aprisionados, não raro vemos nos portais da internet aconselhamentos relacionados a sexualidade que tem uma amplitude incrível e vão desde "a mulher deve transar no primeiro encontro" até promessas do pote de ouro no fim do arco-íris se mantivermos a abstinência sexual. Ou seja, uma aparente liberdade coordenada por instrumentos de controle que estimulam e reprimem indiscriminadamente o uso do corpo.

As reações feministas, que geralmente são de esquerda, ou assim se denominam, à imagem de Marcela Temer não foram diferentes. A confusão entre o julgamento moral e a sexualidade subiu e reinou tão indiscriminadamente quanto os aconselhamentos dos portais da internet. Jogar com as mesmas categorias que nos são oferecidas aos berros para oprimir é um erro clássico e nocivo. Dizer que beleza, juventude, gostosura, cobiça (olha as coisas que eu tenho que apontar... pareço uma carmelita!) - a imagem, essa coisa que nos faz confundir os valores (ai, jisuis!) - é superficialidade e o que importa mesmo é a "profundidade" da inteligência e competência não faz sentido para mim como tentativa de "emancipar" as mulheres. As identificações midiáticas sempre vão acontecer, sempre. É preciso que esses discursos sejam desarticulados ao invés de colaborar com eles.
 
O limiar que se compartilha com o poder quando se quer pensar o corpo é muito tênue e delicado. É preciso estar preparado para não alimentar o que se quer combater para não colocar os corpos, novamente, em trilhas massificantes que advogam um dever ser quando existe ali o desejo. E existe alguma coisa do desejo, alguma coisa do sujeito, que não sucumbe ao poder, é essa singularidade, essa coisa sem significante e inapreensível, que guarda secretamente as possibilidades de mudança. Ao invés de suprimir a libido em nome de uma causa, é mais interessante alimentá-la até o limite do insuportável, até o ponto de se transformar em uma imagem independente do corpo que possa ser apropriada livremente por qualquer pessoa.
 
O texto de que eu falava no início do post foi escrito em meados dos anos 70. Em 2011 ainda é preciso dizer que os movimentos de esquerda, whatever, precisam de libido, precisam criar possibilidades de vida, apostar nas singularidades e não na categorização fundamentada num dever ser que acaba por oprimir os corpos.

 
   
PS: Ontem conversando com o @Andre_V no tuíto falávamos sobre a quase exigência de que gays se comportem bem. Que não sejam barulhentos, nem espalhafatosos, nem afeminados, nem masculinizadas, porque isso passa dos limites. Acho que entra nessa mesma leitura. Existe um medo enorme dessas imagens se tornarem independentes e apropriáveis que, para poder conformar as diferenças, se impõe disciplina e controle de novo. Gay sim, pero no mucho. A homofobia travestida de compreensão das diferenças clássica que ouvimos por aí: "ai, eu não tenho nada contra gays, desde que eles sejam discretos". É isso: para que não vire um contágio, para que o mundo não seja tomado por esse outro, insuportável para as "pessoas de bem" que não querem excluir, e essas imagens passem a ser usadas livremente, se dá limite.
 
PS2: A Aline e a Lu escreveram lindo sobre o assunto posse da Dilma, Marcela Temer, etc. Aqui e aqui.
 

Da felicidade simples

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Acabei de assistir Somewhere de Sofia Coppola, o primeiro presente de 2011. Eu não entendo muito de cinema, mas não resisti e escrevi umas linhas sobre esse filme bonito.

Somewhere é um filme sobre coisas simples. É também um filme sem lição. A ausência de sentido na vida de um astro hollywoodiano, seus excessos esvaziados de prazer, são tão clichês quanto nossos dias tediosos. Mas não porque o filme tem um viés realista ou de identificação, e sim pela sua capacidade de narrar uma história singular fazendo com que prestemos atenção no seu modo. Trata-se, portanto, de falar sobre como viver junto, como se estabelece uma relação que, embora seja com a própria filha, não é natural, nem óbvia, é sempre construída. Sofia Coppola fala sobre como fazer, e não sobre o que fazer mantendo a normalidade dos acontecimentos sem nenhuma ruptura brusca para que se repense a vida, o comportamento, os hábitos, etc. Por isso, é um filme sem lição.

É o cotidiano trazido à superfície imagética tão visível quanto invisível aos nossos olhos. Tão recheado de acontecimentos e possibilidades que sequer percebemos ou aproveitamos. As decisões tomadas, os compromissos cumpridos tudo segue cotidianamente dentro de uma vida normal sem muitas explicações (como as sensacionais mensagens do celular). Mas há a experiência e o sentido construído sempre depois dela. A diferença é que em Somewhere, a excepcionalidade dos acontecimentos, porta aberta para a felicidade, não é catártica; ela surge quando se torna possível ver uma parte do mundo embaixo d'água. É uma mudança de perspectiva. E assim é nosso cotidiano: incrivelmente tedioso e potencialmente mágico. O mágico, no caso de Somewhere, é que Coppola consegue inserir na superficialidade e aparente automatismo do dia-a-dia uma felicidade simples, que está sempre ali, à espreita: somewhere, sometime.

PS: Leando Calbente, que sabe, de verdade, sobre cinema, escreveu lindamente sobre Somewhere aqui.