

Miscigenação
Logo na chegada aos seus grandes centros urbanos, como a Paulicéia, se descobre que o Brasil não é só uma democracia racial, mas também uma pujante democracia social. Homens de classe média baixa fazem piadas machistas, enquanto um morador de rua dorme na mesma calçada, uma estudante uniformizada caminha para casa vinda do colégio particular, um engravatado com pasta de couro chama um táxi e universitários do Mackenzie fazem um churrasco na calçada do prédio da USP na Rua Maria Antônia. Tudo num raio de dez metros. Tudo sob o sol escaldante do meio dia. Tudo ao mesmo tempo sem que ninguém se incomode ou se sinta incomodado pelos demais. É compreensível que isto se dê na cidade abrigo do tucanato, mas imperdoável que se repita - como de fato se repete - em cidades como Porto Alegre ou Belo Horizonte, governadas tanto tempo pelo PT.
Arquivo
Os arquivos brasileiros se regem por uma máxima: neles não estão armazenados documentos que esperam a intervenção do pesquisador para escaparem do esquecimento, mas sim documentos que já estão esquecidos, independente de quem (e se alguém) os leia. No Brasil há, de fato, um "mal de arquivo": os arquivos encadernam jornais furando o texto, permitem que os textos se apaguem, disponibilizam ao pesquisador, junto aos documentos, recomendações de uso interno sobre uma microfilmagem jamais realizada. Ao resgatar do esquecimento um documento armazenado em arquivos brasileiros, o pesquisador leva como saber supremo o de que o passado que resgatou já está irremediavelmente perdido.
Felicidade
No Memorial da Resistência, há uma sala escura - uma das antigas celas do DEOPS -, com bancos e fones de ouvido. Neles, se pode ouvir depoimentos de presos políticos que passaram por ali. Talvez o momento mais bonito dos relatos seja quando um deles fala que, apesar da dureza nada branda da situação, havia certa disposição à alegria dos que estavam ali. Mas a beleza do relato não está aí, o que faria dele tão perverso quanto A vida é bela, mas na explicação que dá para isso: se os presos que ali estavam não fossem pessoas dispostas à alegria, nem estariam ali - eles estavam ali justamente porque queriam ser felizes - ou melhor, explica o depoimento, eles estavam ali justamente porque queriam que todos pudessem ser felizes. Não conheço definição melhor de democracia - ou comunismo: a possibilidade de todos serem felizes.
Livros
No último dia de Paulicéia, esqueço dois livros recém comprados no balcão de um café. No ônibus que me leva para outro estado, não consigo parar de me culpar pelo esquecimento. Minha companheira, a certa altura, me consola: pode ser que quem encontre os livros tenha a vida completamente transformada pela sua leitura. Passamos a noite em claro imaginando os caminhos tomados pelos livros e pelas vidas reconfiguradas por eles. Chegamos ao nosso destino cansados, mas aliviados. Muitas horas antes, ainda na Paulicéia, os dois livros, com capas de papelão confeccionados por catadores, já haviam chegado ao seu destino, que, no caso, era também a sua origem: a lata de lixo. Os livros, como os homens, não tem Destino.
Post-scriptum
Como se depreende deste "Diário", estive viajando para São Paulo, onde fui muito bem recebido pelos amigos Pádua Fernandes e Fabio Weintraub, aos quais agradeço muito pela atenção, pelo carinho, pela hospitalidade - pela amizade. Em seguida, fui a Dourados, junto com colegas de pós-graduação, participar de um congresso e conhecer o Idelber Avelar, bem como reencontrar o velho amigo Rodrigo. Por isso, peço desculpas por não ter respondido aos comentários feitos aqui no blog, bem como por não tê-lo atualizado. Agora, ele deve voltar ao ritmo normal. O debate sobre o Extinção, livro de Paulo Arantes, continua marcado para o dia 15 de julho.

A idéia surgiu nesta caixa de comentários d'O Biscoito: uma discussão sobre o Extinção, do filósofo e professor da USP Paulo Arantes. O livro integra a coleção "Estado de sítio" da Boitempo, coordenada por ele, e pela qual foram publicados o já clássico Estado de exceção, de Giorgio Agamben, Bem vindo ao deserto do real!, de Slavoj Zizek, Evidências do real, de Susan Willis (que já resenhei aqui pro blog), entre outros. Extinção vai desde a discussão conceitual até críticas miúdas ao governo Lula, passando pela análise estrutural e/ou de conjuntura. Paulo Arantes doutorou-se com a belíssima tese Hegel - a ordem do tempo e criou uma baita polêmica que faz dele um cara odiado por muitos ainda hoje com Um departamento francês de ultramar - Estudos sobre a formação da cultura filosófica uspiana (Uma experiência nos anos 60). Mais tarde coordenou a excelente coleção "Zero à esquerda", da Vozes. Arantes é, ao mesmo tempo, um grande polemista e um baita filósofo, e possui aquela virulência ou acidez que enchem o exercício da crítica de uma intensa vitalidade - uma amostra condensada disto pode ser conferida no seu oswaldiano Diccionario de bolso. 
(Não se preocupe comigo, Marcelo Yuka)

Este post inaugura a mais nova seção do blog, nomeada com a expressão de José de Alencar. O senso comum tem razão quando vê na linguagem jurídica (e, mais ainda, na judiciária) um emaranhado de palavrões que tem como única função tornar incompreensível o que está por trás deles. Ou seja, enrolação pura. Mas o que está por trás, geralmente, não é alguma coisa de valor, mas mero bullshit, achismo, teorias e argumentos de quinta, sociologia de boteco quando muito. O sentido da enrolação obtida pela linguagem jurídico-judiciária é uma neutralização da significação em nome da profusão de significantes, uma neutralização do campo onde o Direito pode ter ainda uma função progressista: aquele em que se dá um novo sentido às instituições. Quanto mais contorcionista a linguagem dos juristas, mais eles querem dizer coisas do tipo (e a estas coisas se dedica esta seção):
"É no mínimo curiosa a tese de defesa do deputado Gervásio Silva (PSDB), acusado no Supremo Tribunal Federal de atentado violento ao pudor. Segundo a denúncia, o deputado teria levado uma servidora até um hotel. Após tomar um banho, Gervásio teria surgido nu no quarto e se jogado sobre a moça na cama.
- Essa versão é totalmente inverossímil. Trata-se de uma pessoa com 140 quilos. Nem ela nem a cama aguentariam - argumentou o advogado de Gervásio, José Eduardo Alckmin."
(Fonte: Diário Catarinense, 16 de maio de 2009)
Obs.: A mesma coluna do jornal da RBS - veículo que adora plantar argumentos esdrúxulos do governo estadual como se fossem teses prováveis - informa, no tocante ao processo de cassação de diploma do Governador de SC, Luiz Henrique Silveira, o exterminador do futuro, que "O ingresso do vice Leonel Pavan, dizem os advogados, deu maior sustentação às teses da defesa". Detalhe: o advogado do governador é o mesmo José Eduardo Alckmin (que defendeu também o cassado Jackson Lago); talvez ele tenha argumentado que um Pavão, não sendo um sujeito de direito, não pode cometer crimes eleitorais...
Que Carlos Minc não é um décimo de sua antecessora no Ministério do Meio Ambiente, Marina Silva, não é novidade. Que talvez ele tenha sido indicado ao cargo para acelerar as licenças ambientais também não. Mas isso não significa que ele não possa, como cidadão - e mesmo como ministro - participar de uma marcha reivindicatória. Mesmo que seja a Marcha da Maconha. Eu, particularmente, acho esta marcha contra-producente, ainda que ela tenha levantado a discussão sobre o assunto, ao menos na blogosfera (do ponto de vista jurídico, a melhor argumentação é essa feita n'O Descurvo): a nossa sociedade é das mais autoritárias, tem pouco ou nada de branda - e, em certos campos, de tão viciados, o conflito aberto produz péssimos resultados: basta lembrar o referendo sobre o desarmamento, sobre o qual escrevi de outra perspectiva. É este autoritarismo que aparece em reações, travestidas de interesse pelas questões públicas, como essa de Régis Bonvicino, a começar pelo título "Fumando um em Ipanema". O poeta pergunta, depois de criticar a política ambiental, "O que fazia então o ministro Minc na tal passeata?". Trocando em miúdos, por que ele não tá fazendo o seu trabalho, em vez de lutar pelo direito de fumar um baseado? Enquanto o aquecimento global ameaça queimar a todos, o ministro só pensa em queimar um. É fácil retrucar uma argumentação esdrúxula como essa (o que poderia ser feita no formato das Frases Feitas): por que - retorcendo a famosa questão levantada por Adorno - Bonvincino continua escrevendo seus poemas (prum público leitor mínimo) enquanto milhares de pessoas morrem de fome todos os dias?
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P.S.: Auto-jabá: saiu, na revista italiana Confluenze, um artigo meu sobre a Antropofagia. O número está ótimo e é um orgulho ser publicado ao lado de Sandra Pesavento, Boaventura de Sousa Santos e de Raúl Antelo, meu orientador. O artigo de Flávia Cera, sobre a constelação corpo e favela em Hélio Oiticica e Cesar Aira, é outro belo texto da edição: aborda o tema espinhoso da inclusão, que sempre é excludente, da periferia no modelo da cidade.



