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"Não se pode comparar" - é a máxima quando o que se quer proteger é a autonomia de uma obra. Não é contra a comparação que este argumento se volta, é contra qualquer exterioridade: um mecanismo de imunização. Não se pode mencionar outra linguagem que não a do "suporte", não se pode trazer à tona outro momento histórico, mesmo quando é a obra que o requer, não se pode cruzar poetas, mesmo quando um deles cita o outro. Se você fala prum estudante de cinema - ou prum cinéfilo, dá na mesma - que o filme de certo diretor não passa de uma banalização monotemática dos contos de um escritor consagrado nos quais o próprio diretor diz que se inspirou (e mesmo que o próprio diretor ressalte isso em todas as exibições públicas e que a menção aos contos compareça em todas as sinopses, até nas mais curtas), o estudante/cinéfilo te responderá que "Não se pode comparar as duas linguagens" - um argumento que, inconscientemente ou não, é de uma autoridade brutal e visa a infantilização, pois desde pelo menos a alfabetização qualquer um percebe a diferença entre uma imagem de TV e a página de um livro. "Não se pode comparar" é, na verdade, de um eufemismo pra "cada macaco no seu galho", que, por sua vez, quer dizer: há mercado para todos e não venha mexer no meu peixe.

(Um exemplo contrário a esta lógica que a confirma por sua excepcionalidade é o Vistos e escritos, melhor blog "sobre cinema" que conheço. A sua leitura dos filmes de Tarantino é, também, a melhor que já vi. Arte e crítica não são competições olímpicas, mas também não são Jogos Abertos).


Sopro 12

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Os dois totalitarismos (publicado originalmente no London Review of Books), de Slavoj Zizek (em tradução de Rodrigo Cássio), é o artigo de debate do n.12 do Sopro. Completa a edição uma resenha, escrita por este blogueiro, de As estrelas descem à Terra, livro de Theodor Adorno. 

Atualização (04 de julho de 2009): Agora é possível visualizar os números do Sopro em Flash. A visualização nesta linguagem torna o panfleto mais próximo à sua versão impressa, além de permitir efeitos interessantes, como o de virar a página, o de aproximar o texto, etc. Para usar o zoom, basta clicar na página desejada, ativando o modo tela cheia, e aproximar ou diminuir o texto usando a barra de rolagem do mouse. No modo full-screen, um pequeno menu aparecerá no canto superior direito, onde é possível passar à página anterior ou à seguinte.   


Obs.: este post foi atualizado às 20:22 de 29 de junho, com o trecho "Felicidade".

Miscigenação
Logo na chegada aos seus grandes centros urbanos, como a Paulicéia, se descobre que o Brasil não é só uma democracia racial, mas também uma pujante democracia social. Homens de classe média baixa fazem piadas machistas, enquanto um morador de rua dorme na mesma calçada, uma estudante uniformizada caminha para casa vinda do colégio particular, um engravatado com pasta de couro chama um táxi e universitários do Mackenzie fazem um churrasco na calçada do prédio da USP na Rua Maria Antônia. Tudo num raio de dez metros. Tudo sob o sol escaldante do meio dia. Tudo ao mesmo tempo sem que ninguém se incomode ou se sinta incomodado pelos demais. É compreensível que isto se dê na cidade abrigo do tucanato, mas imperdoável que se repita - como de fato se repete - em cidades como Porto Alegre ou Belo Horizonte, governadas tanto tempo pelo PT.

Arquivo
Os arquivos brasileiros se regem por uma máxima: neles não estão armazenados documentos que esperam a intervenção do pesquisador para escaparem do esquecimento, mas sim documentos que já estão esquecidos, independente de quem (e se alguém) os leia. No Brasil há, de fato, um "mal de arquivo": os arquivos encadernam jornais furando o texto, permitem que os textos se apaguem, disponibilizam ao pesquisador, junto aos documentos, recomendações de uso interno sobre uma microfilmagem jamais realizada. Ao resgatar do esquecimento um documento armazenado em arquivos brasileiros, o pesquisador leva como saber supremo o de que o passado que resgatou já está irremediavelmente perdido.

Felicidade
No Memorial da Resistência, há uma sala escura - uma das antigas celas do DEOPS -, com bancos e fones de ouvido. Neles, se pode ouvir depoimentos de presos políticos que passaram por ali. Talvez o momento mais bonito dos relatos seja quando um deles fala que, apesar da dureza nada branda da situação, havia certa disposição à alegria dos que estavam ali. Mas a beleza do relato não está aí, o que faria dele tão perverso quanto A vida é bela, mas na explicação que dá para isso: se os presos que ali estavam não fossem pessoas dispostas à alegria, nem estariam ali - eles estavam ali justamente porque queriam ser felizes - ou melhor, explica o depoimento, eles estavam ali justamente porque queriam que todos pudessem ser felizes. Não conheço definição melhor de democracia - ou comunismo: a possibilidade de todos serem felizes.

Livros
No último dia de Paulicéia, esqueço dois livros recém comprados no balcão de um café. No ônibus que me leva para outro estado, não consigo parar de me culpar pelo esquecimento. Minha companheira, a certa altura, me consola: pode ser que quem encontre os livros tenha a vida completamente transformada pela sua leitura. Passamos a noite em claro imaginando os caminhos tomados pelos livros e pelas vidas reconfiguradas por eles. Chegamos ao nosso destino cansados, mas aliviados. Muitas horas antes, ainda na Paulicéia, os dois livros, com capas de papelão confeccionados por catadores, já haviam chegado ao seu destino, que, no caso, era também a sua origem: a lata de lixo. Os livros, como os homens, não tem Destino.

Post-scriptum
Como se depreende deste "Diário", estive viajando para São Paulo, onde fui muito bem recebido pelos amigos Pádua Fernandes e Fabio Weintraub, aos quais agradeço muito pela atenção, pelo carinho, pela hospitalidade - pela amizade. Em seguida, fui a Dourados, junto com colegas de pós-graduação, participar de um congresso e conhecer o Idelber Avelar, bem como reencontrar o velho amigo Rodrigo. Por isso, peço desculpas por não ter respondido aos comentários feitos aqui no blog, bem como por não tê-lo atualizado. Agora, ele deve voltar ao ritmo normal. O debate sobre o Extinção, livro de Paulo Arantes, continua marcado para o dia 15 de julho.


Qualquer um que tenha acompanhado minimamente (lendo esporadicamente um suplemente cultural dos jornalões já é o suficiente) os debates das ciências humanas da segunda metade do século XX, sabe que tão (ou mais) importante que o "fato em si" é a construção discursiva que se faz dele, o seu relato. Mais perigoso que o revisionismo do passado (e intimamente ligado a ele), é o revisionismo do presente: a narração do presente é que irá pros arquivos, físicos e virtuais, contando nossa história (ou a história dos nossos discursos, melhor dizendo). Nesse sentido, tão (ou mais) importante que o enunciado (o que é dito, o que é comunicado), é a forma da enunciação (como se comunica o que se comunica). "O meio é a mensagem", para usar a frase célebre de Marshall McLuhan. 

Dois exemplos recentes, extraídos do jornalão que leio até expirar minha assinatura, a Folha de S. Paulo:

1) Hugo Albuquerque cantou bem a bola ao argumentar que, diante da assimetria dos confrontos entre estudantes e PM na USP, falar em "pancadaria" ou "confronto" é, no mínimo, de um cinismo atroz. E, de fato, a FSP teve como manchete do dia 10 desse mês: "Policiais e alunos entram em confronto na USP". Mas, mesmo ali onde a assimetria é narrada, a forma com que é narrada transmite simetria: o primeiro parágrafo da reportagem diz: "Uma manifestação de funcionários e estudantes de USP, Unesp e Unicamp acabou em confronto com a Polícia Militar ontem à tarde, no campus Butantã da USP (zona oeste). PMs usaram bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes. Os alunos, pedras e tijolos." Do jeito que o texto está construído, com o uso do contraponto (Os policias, isso; os estudantes, aquilo) cria-se a aparência de uma equivalência. Ou seja, os policiais usaram suas armas no confronto, e os estudantes, as suas - como se fossem equivalentes. O correto seria não expor o tal "confronto" na forma deste contraponto; mas daí seria pedir mais. Todavia, não seria desrespeito a esse tal de "pluralismo" que os jornalões pregam colocar no texto, ali depois de "Os alunos," um "apenas". No dia seguinte, o mesmo discurso: no texto que tinha como título "Após confronto, cresce oposição à reitoria", encontramos a mesma forma de narrar como simétrica a assimetria: "Segundo os professores, Vilela é responsável pelo que chamaram de 'ação violenta da PM no campus', que incluiu o uso de bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes. Do lado dos manifestantes, registraram-se agressões aos PMs com pedras e xingamentos." Aqui, a perversidade com que o discurso construído é ainda maior: a PM usa suas armas, os estudantes agridem a PM com as suas, entre elas o grito. É evidente que, numa situação como a dos protestos na USP, a agressão verbal não está no mesmo nível que um cassetete. Contudo, narrada desse modo, é como se estivesse.

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2) No editorial desta terça, 16, "Mérito comprovado", a FSP rasga elogios ao ProUni, de fato um bom programa. Fala do bom desempenho dos estudantes do programa e - aqui que entra a charada -  do seu baixo custo: no meio do texto, entre as suas duas colunas, um gráfico compara o custo anual por aluno do ProUni e das Universidades Públicas. O texto não faz nenhuma menção a tal comparação, mas nessa omissão diz tudo: os R$1800,00 do aluno do ProUni comparados, de modo "neutro", aos 13mil e poucos reais do estudante das universidades públicas dizem, sem dizer (i.e., pela forma em que não é dito) que estas jogam dinheiro do contribuinte no esgoto. O que o editorial não diz faz toda a diferença: grana em pesquisa, extensão, bibliotecas, diferença dos salários dos professores e servidos, etc etc etc.


Sopro 11

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O décimo primeiro número do Sopro está no ar, com o texto que Michel Leiris escreveu para o dossiê Conhecimento da América Latina da revista Imán (de 1931) - no n.8, foi publicado a participação de Georges Bataille -, uma resenha de Paulo da Luz Moreira, professor na Yale e blogueiro, sobre Borges, volume de Adolfo Bioy Casares publicado recentemente, e o verbete Cara de Cavalo, de Flávia Cera. 

Fizemos uma pequena modificação no site do Sopro, disponibilizando também em .html os verbetes publicados (que compõem, agora, nosso Dicionário crítico), como alguns leitores haviam pedido.

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978-85-7559-090-4_big.jpgA idéia surgiu nesta caixa de comentários d'O Biscoito: uma discussão sobre o Extinção, do filósofo e professor da USP Paulo Arantes. O livro integra a coleção "Estado de sítio" da Boitempo, coordenada por ele, e pela qual foram publicados o já clássico Estado de exceção, de Giorgio Agamben, Bem vindo ao deserto do real!, de Slavoj Zizek, Evidências do real, de Susan Willis (que já resenhei aqui pro blog), entre outros. Extinção vai desde a discussão conceitual até críticas miúdas ao governo Lula, passando pela análise estrutural e/ou de conjuntura. Paulo Arantes doutorou-se com a belíssima tese Hegel - a ordem do tempo e criou uma baita polêmica que faz dele um cara odiado por muitos ainda hoje com Um departamento francês de ultramar - Estudos sobre a formação da cultura filosófica uspiana (Uma experiência nos anos 60). Mais tarde coordenou a excelente coleção "Zero à esquerda", da Vozes. Arantes é, ao mesmo tempo, um grande polemista e um baita filósofo, e possui aquela virulência ou acidez que enchem o exercício da crítica de uma intensa vitalidade - uma amostra condensada disto pode ser conferida no seu oswaldiano Diccionario de bolso

Vamos à parte prática: pra dar tempo aos interessados de conseguir o livro e realizar a leitura (são 300 páginas, mais ou menos), sugiro que façamos a discussão daqui um mês, por volta do dia 10 de julho no dia 15 de julho. Estarei viajando na segunda metade de junho e antes disso acho que não daria tempo aos que ainda não leram. Manifestaram interesse, até agora, o (incansável) Hugo Albuquerque, o João Villaverde e o Idelber. Quem mais? A data está boa?

Atualização: já temos um bom quórum de gente interessada e capacitada para o debate. Portanto, está confirmado para o dia 15 de julho. Quem mais quiser participar, é só aparecer e comentar (e, se possível, avisar aqui na caixa de comentários). Se der certo, já tenho idéia pro próximo. O formato será mais ou menos como o Clube de Leituras do Idelber; eu farei um post inicial sobre o livro e, a partir daí, o debate segue na caixa de comentários - como o livro aborda inúmeras questões e o Paulo Arantes emite opiniões fortes, meu post vai ser só uma faísca.


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Há algumas imagens que vi na televisão que jamais consigo esquecer. Uma delas é a do militante chinês barrando o avanço dos tanques em 1989. Outras duas são das discussões parlamentares sobre as alterações na CLT no final de 2001. A primeira é de Paulo Paim rasgando a Constituição (na tentativa de deixar claro do que se tratava o projeto do governo FHC) e, em seguida, atirando-na em um deputado da base governista que o chamou de "moleque" pelo gesto. A outra é do deputado Babá, dias depois e ainda na discussão sobre o projeto, dizendo a Inocêncio de Oliveira (o Eterno - já condenado por trabalho escravo) que este estava de óculos escuros por "vergonha de aparecer diante da TV Câmara em defesa do projeto". Estas imagens não são marcantes em si, mas o que veio as seguiu: no primeiro caso, quiseram processar Paim por falta de decoro (como já se viu, rasgar a Carta Magna e usá-la como arma?); no segundo, uma série de desagravos a Inocêncio que não estava, de fato, com vergonha (isso ele jamais teve), mas com uma conjuntivite (no olho esquerdo, diga-se de passagem - acho que isso ele sempre teve, só consegue enxergar com o direito). O que essas imagens atestam é algo que, acredito, continua atual, e diz respeito à discussão política brasileira e sua repercussão pelos jornais: a total incapacidade (ou melhor, a total falta de disposição) de compreender imagens (ou metáforas) como imagens (ou metáforas). Basta ver o torcer de nariz a cada metáfora futebolística de Lula.


"última fronteira em que a humanidade pode estabelecer um novo ethos civilizatório"

(Marina Silva. no Dia Mundial do Meio Ambiente, 04 de junho de 2009, para a FSP)


Tiananmen

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Eu que talvez esteja mais próximo que pareça vago num grão da vida 
Ou nas lembranças da beleza 
Não sei se virei fim ou me perdi em mim, 
Mas nessa expressão posso ser historia e recomeço. 
Psicografado, nunca esquecido ou requerido, não se preocupe comigo, 
Mas com a época que devora caminhos e destinos com tanta pressa, 
Apagando rastros que nos ensinam e nos permitem a voltar

(Não se preocupe comigo, Marcelo Yuka)

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Ontem, dia 4 de junho, o massacre da Praça da Paz Celestial (Tiananmen) completou vinte anos. Ao contrário do fuzuê que tomou o ano passado por conta dos quarenta anos do Maio de 68, o "maio" chinês, como é também conhecido o movimento que durou de 15 de abril a 4 de junho de 1989, dia em que entre 200 a milhares (o número varia de acordo com as fontes, sendo que, obviamente, as mais comedidas são do governo chinês) foram mortos na Praça, em Pequim. As similaridades com 68 não se limitam ao principal mês dos acontecimentos/protestos: é impossível resumir tanto um "movimento" quanto o outro, a uma pauta de reivindicações. Em ambos os casos, tratava-se de reinventar a política, a cada dia,  afastando-se do aparato institucional reificador. A "única exigência concreta" do Maio chinês, lembra Agamben, "a reabilitação de Hu Yao-Bang, foi imediatamente concedida". Os estudantes, em Tiananmen, não tentavam comunicar algo, senão a própria comunicabilidade, o ser em comum da linguagem e da política que engloba os homens  - e esta não pode ser comunicada explicitamente (um movimento que se diz sem reivindicação é já uma captura, pelo espetáculo, da comunicabilidade sem conteúdo, uma fetichização do grau zero da linguagem e da política). Daí o recurso a demandas "demasiado genéricas e difusas pra constituírem o objecto real de um conflito", como a democracia e a liberdade. Mas o que levou os tanques às ruas foi o simples fato de que ali, como vinte e um anos antes, a política brotava de um simples estar-junto não regulado pelo Estado. O Estado pode suportar qualquer forma de pertencimento alheia a ele, desde que capturável (basta ver a recente abertura, "lenta e gradual", chinesa). O que ele não pode suportar é que homens se juntem sem uma identidade, sem comunicar algo que não a própria possibilidade de um comum.  "Onde quer que estas singularidades manifestem pacificamente o seu ser comum", arremata Agamben", haverá um Tiananmen e, tarde ou cedo, surgirão os tanques armados". Segundo os jornais, circulou pela internet, essa semana na China, a seguinte mensagem "Use branco em 4 de junho, em homenagem aos mortos da praça da Paz Celestial. O governo não pode proibir cor". O legado do maio chinês se reafirma no simples ser-comum de uma cor que nada reivindica, a não ser a memória do acontecimento da política. Assim como os tanques: relatos dão conta de que em Tiananmen, essa semana, havia mais policias que turistas, que sites onde a mensagem circulou foram tirados do ar, que um dos sobreviventes de 89 está em prisão domiciliar e que as "Mães de Tiananmen" estão em vigilância 24 horas por dia. Nas "Mães", sejam de Tiananmen, sejam as da Praça de Maio, sejam as de Acari, ou "outras tantas por aí", reside a memória não de uma causa, mas do conflito entre Estado e não-Estado, entre morte e nascimento, entre instituição e política; a memória das mães de "desaparecidos" deixa claro que o Estado não inclui, a não ser por um processo de exclusão. 1989 continua sendo lembrado pela queda do muro de Berlim, isto é, pelo fim da ideologia, pelo fim da política. As Mães de Tiananmen, bem como os que usaram branco hoje na China nos fazem ver que 1989 foi, na verdade, como tivera sido 1968, apenas o começo do longo caminho de uma humanidade redimida.

Atualização: o Na prática a teoria é outra escreveu dois posts sobre os vinte anos do Massacre. Um deles, com uma incrível foto tirada momentos antes da foto publicada acima. O outro em que ressalta os impasses do momento, ou a falta de pauta do movimento - que, antes de buscar algo, buscava a própria política: se, por lado, os estudantes "brandiam bandeiras americanas e estátuas da liberdade", por outro "também cantavam a Internacional".


Abaixo um fragmento, o de número 49, de Minima Moralia - reflexões a partir da vida lesada, de Theodor Adorno, na recente tradução de Gabriel Cohn. Considero as mínimas morais de Adorno uma espécie de reescritura do Rua de mão única do Walter Benjamin - enquanto neste se prenuncia a catástrofe, naquele ela já ocorreu. "Moral e ordem do tempo" oferece uma boa chave de leitura aos contos que estão sendo discutidos no Clube de Leitura d'O Biscoito  

Enquanto a literatura tratou de todos os tipos psicológicos de conflitos eróticos, a mais simples matéria externa de conflito ficou à parte pela sua obviedade. Trata-se do fenômeno do compromisso prévio: que uma pessoa querida se nos nega, não por antagonismos e inibições internas, por frieza demais ou demasiado calor reprimido, mas porque já existe uma relação que exclui uma nova. A ordem abstrata do tempo desempenha na verdade o papel que gostaríamos de atribuir à hierarquia dos sentimentos. Estar disponível significa, além da liberdade de escolha e decisão também algo de inteiramente acidental, que parece contestar de ponta a ponta a reivindicação à liberdade. Mesmo e precisamente numa sociedade curada da anarquia da produção de mercadorias dificilmente vigorariam regras sobre a seqüência na qual se conhecessem pessoas. Se fosse diferente, tal arranjo configuraria a mais intolerável intervenção na liberdade. Daí as poderosas razões para a prioridade do acidental: se uma pessoa é preterida por uma nova, então o mal é sempre feito àquela ao se anular o passado da vida em comum, e a própria experiência é como que riscada. A irreversibilidade do tempo propicia um critério moral objetivo. No entanto, assim como o tempo abstrato, ele é aparentado ao mito. A exclusividade inerente ao tempo abstrato desenvolve-se conforme seu próprio conceito na dominação exclusiva de grupos hermeticamente fechados, desembocando na grande indústria. Nada mais comovente do que o temor da mulher amorosa de que a nova pudesse atrair para si o amor e o carinho, sua melhor propriedade justamente porque não se deixam possuir, por força exatamente dessa novidade suscitada pelo privilégio do antigo. Dessa coisa comovente, sem a qual de pronto se dissolveria todo calor e todo aconchego, passa-se contudo de modo inexorável à rejeição pelo irmãozinho àquele que veio depois, ao desprezo do estudante veterano pelo seu calouro, às leis de imigração que na social-democrata Austrália excluem todos os não-caucasianos, até a aniquilação fascista da minoria racial, quando de fato o calor e o aconchego explodem no nada. Não só que, como sabia Nietzsche, todas as coisas boas algum dia foram coisas más: os mais delicados, se abandonados à sua própria gravidade, têm a tendência a culminar na mais inconcebível crueza.

Seria ocioso tentar mostrar a saída desse enredamento. É possível, no entanto, designar o infausto momento que põe em jogo toda aquela dialética. Reside ele no caráter exclusivo do primeiro. A relação original já pressupõe na sua pura e simples imediação precisamente essa ordem do tempo. Historicamente o próprio conceito de tempo se forma com base na ordem da propriedade. Mas o querer possuir reflete o tempo como temor da perda, do irrecuperável. Experimenta-se aquilo que é relativamente ao seu possível não ser. É assim que de fato se torna propriedade e precisamente nessa rigidez torna-se algo funcional, permutável por outra propriedade equivalente. Uma vez convertida plenamente em propriedade, a pessoa querida na realidade nem mais é olhada. A abstração no amor é o complemento da exclusão, que enganadoramente se apresenta como o contrário, no seu agarrar-se neste existente específico. Esse agarrar é que deixa escapar seu objeto na medida mesma em que é convertido em objeto e passa ao largo da pessoa, que degrada em "minha pessoa". Se as pessoas não mais fossem propriedades também não poderiam ser permutadas. A verdadeira afeição seria aquela que se dirige especificamente ao outro, se liga a traços amados e não ao fascínio da personalidade, essa reflexão da propriedade. O específico não é exclusivo: falta-lhe o impulso para a totalidade. Mas em outro sentido é sim exclusivo: quando não proíbe propriamente, mas consoante seu próprio conceito nem mesmo permite que se apresente a substituição da experiência que a ele adere de modo inseparável. A proteção do inteiramente específico consiste em que ele não pode [ser] repetido, e por isso mesmo tolera o outro. Aplica-se certeiramente à relação de propriedade da pessoa, ao direito exclusivo de prioridade, o dito: são todos eles simples seres humanos afinal, e não importa tanto quem é quem. A afeição que ignorasse essa sabedoria não precisaria temer a infidelidade, porque estaria livre da falta de fidelidade.

Theodor Adorno


Os recentes casos judiciais envolvendo direitos autorais - me refiro mais especificamente a livros, mas o raciocínio, creio, vale também para os casos mais conhecidos pelo grande público de "pirataria" de músicas e vídeos -, como o dos sites mantidos por Horacio Potel e o do esdrúxulo acordo firmado pela Universidade de Buenos Aires, trouxeram à tona o arcaísmo dos direitos autorais diante da, para usar o famoso termo de Walter Benjamin, "era da reprodutibilidade técnica". Meu juridiquês no assunto não é dos mais fortes (Túlio Vianna já desmontou A ideologia da propriedade intelectual, e talvez o Hugo Albuquerque possa dar uma palavrinha ou mesmo escrever um post a respeito), mas acredito que a única saída a curto prazo (e que, bem trabalhada, pode dar bons frutos a médio e longo, por motivos teóricos que explicarei mais abaixo) é uma ação por parte dos autores. Dois exemplos, um mais antigo e um mais recente. Em 1933 (quando era ligado ao Partido Comunista), Oswald de Andrade publicou o romance Serafim Ponte Grande, precedido da seguinte nota, que adotei como copyleft aqui do blog (está no final do menu à esquerda): "Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado em todas as línguas". Mesmo nas reedições atuais a nota consta, o que me leva a supor que a reprodução é lícita (já pensei em disponibilizar online o livro só pra ver se a editora e os herdeiros levam a sério Oswald ou preferem considerar isso mais uma troça dele - e diga-se de passagem que esta fama de ser um mero piadista entristecia muito o autor antropófago, que se frustrava de não ser tomado a sério). O outro exemplo, mais recente e mais comedido, é de Giorgio Agamben que, em seu livro O reino e a glória (a Boitempo deve lançar a tradução este ano, tomara que acompanhada da nota que está no original em italiano), a seguinte disposição: "Por vontade do autor, este livro pode ser livremente reproduzido, sem fins lucrativos, em qualquer meio, desde que o texto não sofra alterações. A difusão na Internet e as traduções em línguas estrangeiras devem ser expressamente autorizadas pelo autor" (a tradução macarrônica da nota em italiano é minha). Estes exemplos refletem uma nova "política dos que escrevemos", de que fala Josefina Ludmer, e cuja "consigna central sería que todo libro editado, como los periódicos, sea digitalizado y puesto en Internet cuando aparece, para que pueda ser leído y usado por cualquiera que pueda acceder libremente." 

Deste modo, acredito que, hoje, a grande responsabilidade dos autores conscientes da época em que vivem (e não há porque esperar mudanças no assunto por parte das editoras, que são empresas) é voltar-se contra o dispositivo da responsabilização que a figura mesmo do autor implica. Como se sabe, a obrigatoriedade da identificação do autor (e também do responsável pela publicação, a editora, bem como o ano e o local de publicação; esta identificação se chama imprenta) é uma invenção relativamente recente, destinada a possibilitar um maior controle das obras (em bom português: para facilitar o trabalho da censura, a saber, pra poder ligar um texto herege a uma pessoa) pela Inquisição. O mecanismo se espalha para outras confissões religiosas e também se seculariza e se mantém até hoje: quando se diz que no Brasil de hoje não há censura, não é preciso recorrer aos casos de blogs censurados para provar o contrário, basta ler o dispositivo constitucional que, em tese, proibiria a censura: "é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (isto para não falar da necessidade de depósito de cada livro lançado na Biblioteca Nacional, do ISBN, etc.). A proibição do anonimato, a figura do autor, é o que possibilita a sua responsabilização, sua individualização (por isso, o recurso ao anonimato por grupos radicais, como o Tiqqun). Acredito que o ambiente cultural criado pelo hipertexto guarda íntimas relações com a cultura letrada da medievalidade onde, como se sabe, o anonimato era uma constante: nas "traduções" medievais de textos da antiguidade, por exemplo, nem sempre possível identificar o que é a tradução "propriamente dita", o que são comentários do tradutor, o que é incorporação de outros especialistas no texto traduzido, etc. Além disso, era muito difusa a idéia de que não haveria intelectos individuais, mas um só intelecto comum, ao qual as pessoas "acessariam" por meio da imaginação (escrevi sobre isso, a partir de Averroes, neste livrinho aqui a respeito de Agamben). É evidente que a história não é um ônibus em que se possa pedir pra descer; mas é também evidente que os direitos autorais e a própria idéia de autoria não se sustentam no mundo hipertextual (na verdade, o pensamento é sempre hipertextual, a internet só vem a provar isso sem deixar lugar a contestação possível) - e em questões monetárias, elas favorecem muito mais às editoras, que aos autores. Uma política autoral condizente com os dias atuais não precisa, necessariamente, aderir ao anonimato formal: basta deixar o texto (o pensamento) voltar ao seu lugar de origem, o hipertexto, o lugar onde deixa de ser algo próprio ao autor e passa a ser comum.

Atualização: sobre o assunto, vale a pena ler este texto do Daniel Link.


Sopro 10

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sopro101a.gifO décimo número do Sopro traz o belíssimo ensaio de Jean-Luc Nancy, A independência da Argélia e a independência de Derrida, em tradução de Leonardo D'Ávila de Oliveira, e Nove Poemas de Joan Brossa, selecionados por Victor da Rosa.



Doença infantil do conservadorismo. Movimento pelo qual a Nova Direita elege como arauto da moralidade alguém que até pouco tempo atrás não passava para ela de um viado (por usar tanguinha na praia) e maconheiro (por propor a descriminalização). Udenismo 2.0 que se utiliza de arroubos para não explicar a convergência paradoxal que faz entre ambientalismo e neoliberalismo. Tem problemas com eleições pois os seus adeptos preferem viajar no feriadão a defender a própria causa. Até agora se cristalizou em quatro ações: Cansar (de si mesmos?) - EnXOtar (impostos que ajudaram a criar) - Gabar (-se da sua própria apoliticidade) - Anular (os votos para não ter de queimar os seus dois neurônios ao tentar lembrar em quem votaram).

Obs.: O termo "gabeirismo", que inaugura este Vocabulário, foi cunhado por Idelber Avelar.


O nono número do Sopro se dedica ao debate dos 45 anos do golpe militar-civil completados no primeiro de abril (não haveria data melhor) do mês passado. Militar-civil porque a tomada do poder, bem como o longo regime que se seguiu, teve amplo apoio da sociedade, direta e indiretamente, assim como dos meios de comunicação (sobre o caso da Folha, vale a pena ler Cães de Guarda, de Beatriz Kushnir). A participação de dois juristas, Francisco Campos e Miguel Reale, no processo de moldura (anti-)institucional do regime é o objeto de análise do artigo do professor e poeta Pádua Fernandes. Eu escrevo, a partir de uma ata da reunião do Conselho de Segurança Nacional sobre o Conceito Estratégico Nacional (trata-se da última reunião antes da que decidiu pelo AI-5) recentemente disponibilizada online pelo Arquivo Nacional, sobre a lógica da mediação (ou da harmonização) que dominou as cabeças do regimes. Esta lógica também não é puramente militar, mas incrustada na sociedade.

Peguemos um exemplo, o de Alceu Amoroso Lima, tido por Elio Gaspari (sinceramente, até hoje não entendi porque ele virou referência quando o assunto é a ditadura) como um baluarte anti-64 por ter cunhado a prática de cassações e defenestrações do regime com o nome de "terrorismo cultural" (título, posteriormente, de um dossiê da Revista Civilização Brasileira). Já em abril, Amoroso Lima (também conhecido como Tristão de Ataíde), depois de condenar em tese o golpe (condenando "todo" ato de ruptura institucional dado em "prevenção contra o possível" por criar um círculo vicioso de revanchismo), argumentava que a rápida vitória da "Revolução" que substituiu a "tensão" do governo Jango a colocava "na linha da nossa mais autêntica evolução histórica" e provava "uma vez mais, a lei fundamental de nossa historiografia política: a solução incruenta de nossas crises mais graves". É a harmonização que ele, como bom católico, ressalta: "Essa cordialidade, que Alfonso Reyes atribuía a toda a América Latina e Sérgio Buarque de Holanda considera tipicamente brasileira, não me parece sinal de mau caráter. Ou de falta de caráter. É a marca de um caráter eminentemente humano, lírico, compreensivo, racional, que faz da composição e não da oposição a lei de nossa psicologia nativa e da nossa conseqüente história política. (...) Se alguma coisa devemos cultivar em nosso caráter nacional (...) é precisamente essa tendência inata às soluções pacíficas das nossas mais graves crises políticas. Mesmo com os tanques nas ruas... É a marca da nossa gente, da nossa História, da nossa civilização. Cultivemo-la com carinho. E o 30 de março [sic] a confirmou uma vez mais". A referência a Sérgio Buarque por si só é criminosa, pois recai no erro comum (típico de quem não lê) de tomar cordial como sinônimo de afável. Nas Raízes do Brasil, porém, a cordialidade é remetida a sua etimologia, sua referência ao coração, isto é, ao âmbito privado: ela não designa a doçura, mas a disposição de tratar as relações sociais, mesmo as públicas, como se fossem privadas. O homem cordial pode ser (e é) também violento, mas esta violência se canaliza às pessoas e não às instituições (qualquer semelhança com a cultura dos "escândalos políticos" não é mera coincidência). Concorde-se ou não com a análise, o que Sérgio Buarque de Holanda quer nomear não é uma candura do povo brasileiro, mas, nas palavras sempre certeiras de Oswald de Andrade, um contraponto agressividade-cordialidade".  Em todo caso, não é isso que Alceu Amoroso Lima tem em mente; ele está se referendo a uma certa passividade mesmo. 

E é justamente isso que norteia a sua crítica ao "terrorismo cultural". O terrorismo, sendo  "tão antibrasileiro" como o "clima de radicalismo extremista", só tinha assumido, em maio de 1964, quando escreve o artigo, "os aspectos mais suaves e indiretos, como é por exemplo o terrorismo cultural, a guerra às idéias" - cândidos que somos, estávamos mais pra ditabranda que pra ditadura, diria um jornalão hoje (o mesmo para o qual Gaspari escreve - e devemos lembrar do seu silêncio quanto ao epíteto). A conclusão não deixa margem à dúvidas: o conflito produz conflito e todo conflito é negativo; assim, A.A.L. sentencia: "Até hoje nunca tive medo do comunismo no Brasil. Agora começo a ter". É este medo que guia a sua análise d´O silêncio do povo, feita no mesmo mês:  se "a camada do alto viu no movimento [de 64] a garantia da permanência dos seus privilégios, de sua vida farta, senão de sua dolce vita cosmopolita" e "As classes médias receberam o movimento com alívio e esperança", o povo "se conservou num mutismo terrível": "As poucas e raras expansões que ousou ter morreram à flor dos lábios ou por medo do terror policial. Ocorreu coisa semelhante em [18]89, quando a República foi proclamada perante um povo 'bestificado', segundo a expressão brutal de um político da época. Agora, porém, esse silêncio é muito mais grave, impressionante e simbólico. O povo esperara muito da situação passada. Talvez demais. (...) O povo viu apenas, nessa guinada à direita, a Revolução dos Ricos. Nada mais. E emudeceu. Emudeceu tragicamente. À espera de alguém ou de alguma coisa. Um Ditador? Um Demagogo? Um regime totalitário? A revolução sangrenta? (...) O povo espera mudo, amargo, ressentido, de cabeça baixa. Espera mesmo contra a esperança. De toda a Revolução de abril o que mais me impressiona é esse trágico silêncio do povo". O medo de Amoroso Lima não se concretizou. A ditadura e seu "espetáculo de separação, de desunião, de hostilidade recíproca, imposto por um moralismo puritano de 'Comité de Salut Public', que pretende dividir o Brasil em dois campos irreconciliáveis: de um lado os bons, isto é os que pensam conosco, de outro lado os maus, isto é, os que... não pensam como nós" (como definiria em junho, argutamente, o terrorismo do regime) manteve o silêncio trágico do povo - que só seria rompido quase quarenta anos depois, não por um golpe comunista, mas pela eleição de um líder popular orgânico formado no único partido de massas que o país já conheceu, produto de um longo processo de criação de espaços políticos. Com Lula, o povo voltou a falar. É uma pena, porém, que a harmonia (a cordialidade na acepção errada) ainda domine o ambiente. 

(Os artigos de Alceu Amoroso Lima citados neste post estão compilados em Revolução, Reação ou Reforma, RJ, Ed. Tempo Brasileiro, 1964).



Este post inaugura a mais nova seção do blog, nomeada com a expressão de José de Alencar. O senso comum tem razão quando vê na linguagem jurídica (e, mais ainda, na judiciária) um emaranhado de palavrões que tem como única função tornar incompreensível o que está por trás deles. Ou seja, enrolação pura. Mas o que está por trás, geralmente, não é alguma coisa de valor, mas mero bullshit, achismo, teorias e argumentos de quinta, sociologia de boteco quando muito. O sentido da enrolação obtida pela linguagem jurídico-judiciária é uma neutralização da significação em nome da profusão de significantes, uma neutralização do campo onde o Direito pode ter ainda uma função progressista: aquele em que se dá um novo sentido às instituições. Quanto mais contorcionista a linguagem dos juristas, mais eles querem dizer coisas do tipo (e a estas coisas se dedica esta seção):

"É no mínimo curiosa a tese de defesa do deputado Gervásio Silva (PSDB), acusado no Supremo Tribunal Federal de atentado violento ao pudor. Segundo a denúncia, o deputado teria levado uma servidora até um hotel. Após tomar um banho, Gervásio teria surgido nu no quarto e se jogado sobre a moça na cama.

- Essa versão é totalmente inverossímil. Trata-se de uma pessoa com 140 quilos. Nem ela nem a cama aguentariam - argumentou o advogado de Gervásio, José Eduardo Alckmin."

(Fonte: Diário Catarinense, 16 de maio de 2009)

Obs.: A mesma coluna do jornal da RBS - veículo que adora plantar argumentos esdrúxulos do governo estadual como se fossem teses prováveis - informa, no tocante ao processo de cassação de diploma do Governador de SC, Luiz Henrique Silveira, o exterminador do futuro, que "O ingresso do vice Leonel Pavan, dizem os advogados, deu maior sustentação às teses da defesa". Detalhe: o advogado do governador é o mesmo José Eduardo Alckmin (que defendeu também o cassado Jackson Lago); talvez ele tenha argumentado que um Pavão, não sendo um sujeito de direito, não pode cometer crimes eleitorais...



Que Carlos Minc não é um décimo de sua antecessora no Ministério do Meio Ambiente, Marina Silva, não é novidade. Que talvez ele tenha sido indicado ao cargo para acelerar as licenças ambientais também não. Mas isso não significa que ele não possa, como cidadão - e mesmo como ministro - participar de uma marcha reivindicatória. Mesmo que seja a Marcha da Maconha. Eu, particularmente, acho esta marcha contra-producente, ainda que ela tenha levantado a discussão sobre o assunto, ao menos na blogosfera (do ponto de vista jurídico, a melhor argumentação é essa feita n'O Descurvo): a nossa sociedade é das mais autoritárias, tem pouco ou nada de branda - e, em certos campos, de tão viciados, o conflito aberto produz péssimos resultados: basta lembrar o referendo sobre o desarmamento, sobre o qual escrevi de outra perspectiva. É este autoritarismo que aparece em reações, travestidas de interesse pelas questões públicas, como essa de Régis Bonvicino, a começar pelo título "Fumando um em Ipanema". O poeta pergunta, depois de criticar a política ambiental, "O que fazia então o ministro Minc na tal passeata?". Trocando em miúdos, por que ele não tá fazendo o seu trabalho, em vez de lutar pelo direito de fumar um baseado? Enquanto o aquecimento global ameaça queimar a todos, o ministro só pensa em queimar um. É fácil retrucar uma argumentação esdrúxula como essa (o que poderia ser feita no formato das Frases Feitas): por que - retorcendo a famosa questão levantada por Adorno - Bonvincino continua escrevendo seus poemas (prum público leitor mínimo) enquanto milhares de pessoas morrem de fome todos os dias?

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P.S.: Auto-jabá: saiu, na revista italiana Confluenze, um artigo meu sobre a Antropofagia. O número está ótimo e é um orgulho ser publicado ao lado de Sandra Pesavento, Boaventura de Sousa Santos e de Raúl Antelo, meu orientador. O artigo de Flávia Cera, sobre a constelação corpo e favela em Hélio Oiticica e Cesar Aira, é outro belo texto da edição: aborda o tema espinhoso da inclusão, que sempre é excludente, da periferia no modelo da cidade.



O renascimento da onda de filmes hollywoodianos de zumbis que começou com Resident Evil, em 2002 (dirigido por Paul Anderson; adaptação de um jogo de videogame japonês de 1989 - por sua vez baseado em um filme, também japonês), e se alastrou com uma série de títulos, de A madrugada dos mortos (2004, direção de Zack Snyder, remake de um filme homônimo do final dos 1970) até Eu sou a lenda (2007; direção de Francis Lawrence; terceira adaptação - as duas outras são dos anos 1960-1970 - do livro homônimo de Richard Matheson) é sintomática. O enredo dos filmes é quase sempre o mesmo: um vírus ou infecção, geralmente causado por intervenção humana direta (uma tentativa de vacina, ou outro experimento médico, que deu errado) contamina, em pouco tempo, grande parte da humanidade, que se converte em zumbis, mortos-vivos que perseguem os poucos não contaminados para contagiá-los ou comê-los. A história humana ameaça se acabar devido ao progresso. Todavia, três aspectos comuns a esse tipo de filme devem ser salientados: 1) a catástrofe (infecção ou o que quer que seja) acontece de uma vez, como um evento súbito e arrebatador; 2) sempre existe a esperança ou de bolsões de sobreviventes (algum lugar militarmente fortificado, ou uma região onde o vírus não chegou ou onde ele não consegue se espalhar), pessoas imunes e/ou a possibilidade de achar, pelo saber médico (o mesmo causador da infecção), a cura; 3) temporariamente, é possível resistir ao contágio militarmente, com um arsenal de armas - basta fuzilar todos os zumbis que aparecerem à frente. Por isso, este tipo de filme, ao mesmo tempo, cristaliza o pavor de que um evento único como a gripe suína (como alguns anos atrás a aviária) ameace a sobrevivência humana, e nos tranquiliza quanto a ele: o perigo só tem uma face, a guerra se combate em frente única. Os efeitos maléficos da dominação da natureza, ou melhor, de sua destruição podem ser revertidos pois eles se manifestam de forma evental. Nisto consiste a sua carga ideológica. Mas a humanidade não se extinguirá de uma vez por todas, a natureza não cobrará a fatura de um só golpe. A cobrança será (está sendo) paulatina e o saber médico, bem como o militar (muitas vezes embrenhados) só pode amenizá-la. Sem mudanças estruturais no modo de produção, entendido em sentido amplo, como sugere David Graeber, como modo de produção de pessoas e de relações com a natureza, a conta só vai aumentar. A gripe suína não ameaça a humanidade, ela é o começo do fim.

"Nós, do Brasil, somos uma raça miscigenada. Eu tenho a minha bisavó negra, que foi escrava. A minha avó era mulata. Se você olha para mim, eu sou branco, mas eu não sou branco de fato. Então, não existe problema racial no Brasil"
(José de Alencar, vice-presidente da República, 28 de março de 2007. Fonte)

Legenda
"Na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem. Muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas. Tem negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?"
(Glória Coelho, estilista, sobre cotas raciais nos desfiles da SP Fashion Week, FSP, 12/04/2009)

"Soja é que nem negro, uma vez que nasce é difícil de matar"
(José Antônio Costa, professor da UFRGS, em sala de aula, março de 2000. Fonte)


I
Hannah Arendt dizia que quando pessoas - sempre no plural, sempre mais de uma, sejam dois ou três gatos pingados, sejam 300, sejam 100 mil - se reúnem em praça pública, ali nasce a política (que ela também chamava de "poder", no sentido de potência, de criação do Novo, ligado à condição humana da natalidade: todo nascimento é um recomeço, um começo a partir do zero). Assim que estas pessoas se dispersam, morre a política, o poder criado pela sua reunião perde sua efetividade. Diametralmente oposto seria a violência: enquanto instrumento, enquanto técnica, ela permite a concentração e prescinde da multiplicidade. Enquanto a "fórmula" tendencial da política seria o "Todos contra Um", a da violência seria o "Um contra Todos". É interessante que Arendt evite falar em universalidade, ainda que fale em "Todos": a política pressupõe a pluralidade e a idéia de universal é uma forma de capturar o Todos no "Um", da mesma maneira que o consenso. As instituições nascem como uma espécie de meio termo (ainda que Arendt não diga explicitamente isso) entre poder e violência: buscam resolver a questão de como manter a política diante da outra condição humana, a mortalidade: como manter a política para além da reunião dos homens em praça pública? As instituições são uma tentativa de instrumentalizar a violência para a manutenção da política para além do seu acontecimento fugaz. A degeneração de nossas instituições políticas a convertem cada vez mais em instituições de pura violência, em instituições que se voltam contra o Todos em favor do Um. O caso das passagens aéreas do Congresso, o programa de Pilhagem aérea (em referência aos programas de milhagem das companhias), como bem o caracterizou José Simão, é apenas um sintoma disso. O sintoma mais forte, a meu ver, não é Gilmar Mendes, como apontou o amigo Idelber Avelar; para mim, ele continua sendo Daniel Dantas. É este homem que aparelha todas as instituições, o Estado brasileiro (e a mídia, ou seja, o que temos de esfera pública institucionalizada) na sua quase integralidade, a seu favor. Dantas é, hoje, o Um contra Todos, ele personifica a violência que atenta contra a política (personifica, porque é ele mesmo apenas emblema do chamado capitalismo de acesso, o capitalismo não produtivo, essencialmente financista que se limita a controlar fluxos, a gerenciar contatos); Gilmar Mendes é apenas um dos lados passivos da equação

06_MHG_pais_velas_stf.jpgFoto daqui (via Biscoito Fino). Fotógrafo: Marcello Casal Jr

II
Sempre achei - e devo isso a leitura de Arendt - que o mais bonito das manifestações políticas, das reuniões políticas, dos comícios, não era propriamente o objetivo deles, mas o estar-junto que deles emanava, o acontecimento, efêmero, da política (em 2005, presenciei, em um ponto de ônibus uma conversa entre duas meninas, em que uma delas comentava eufórica que havia convencido o pai a levá-la a uma manifestação do passe livre; na conversa, não emitiu nenhuma opinião sobre a causa em si, não parecia que esta era era tão importante quanto à manifestação em si - não se tratava de despolitização, mas de política em seu grau zero). Ou seja, não o que era comunicado, mas a própria comunicabilidade. A  política é comum aos homens não porque eles tenham um objetivo em comum, mas porque o mundo é comum - e o mundo não é algo que simplesmente reúne, ele é, para usar mais uma vez a explicação de Arendt, como uma mesa que se coloca entre os homens, que ao mesmo tempo que os separa, os reúne. É isto a esfera pública, é por isto que a política só pode se dar em praça pública, onde as diferenças do âmbito privado são anuladas, mas não em todo (o nazismo, e o racismo mais em geral, é a tentativa de eliminar por completo as diferenças privadas no espaço público). É por isso que é essencial que os membros de nossas instituições saiam as ruas. Senão eles estarão apenas comprovando que não passam de agentes da violência.

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III
A grande tarefa política de nossa geração, acredito, seja criar uma esfera pública, um mundo compartilhado que prescinda de instituições - o que Giorgio Agamben chama de Ingovernável (que ele prefere à idéia de anarquia, argumentando que esta é inerente a todo governo). (Mas ao contrário do filósofo italiano que vê na internet apenas mais um dispositivo de captura da vida, não um instrumento neutro que varia do modo como é utilizado (o argumento dele é complicado, porque partindo dele teríamos que negar também o telefone, a correspondência postal, a escrita, e, por fim, a própria linguagem), acredito que ela pode desempenhar um papel essencial nesta tarefa.) "Pouco importa" se Gilmar Mendes renunciará ou sofrerá impeachment (honestamente creio que não acontecerá): o que tem de ficar, não só entre os 300 manifestantes de Brasília, mas também entre os milhões de internautas envolvidos no tema, é o mundo compartilhado que o protesto criou - este precisa sobreviver à causa em si (como não aconteceu em um movimento como o Passe Livre em Florianópolis, que juntou muito mais gente em teoria "despolitizada", mas por ser incapaz de criar um espaço além da causa, naufragou - e, diga-se de passagem, por tabela, a causa também). É preciso fazer renascer todo dia o mundo da política, aquele espaço público da potência da criação e da felicidade de estar-junto, única forma capaz de derrotar a violência, o Um, por ser comum e jamais concentrado. A política, ao contrário da violência, é o lugar onde o poder de um é já o poder de todos (e não o contrário), o lugar onde, parafraseando Agamben, se eu posso, somos já muitos.

(Link da fonte da segunda foto)


Abaixo, aquele que considero o mais belo fragmento de Walter Benjamin (ainda que seja difícil escolher um). É o trecho final de Rua de mão única (1928), livro que prenuncia  catástrofe e a ascensão do nazismo. A dedicatória do livro por si só é belíssima: "Esta rua chama-se Rua Asja Lacis, em homenagem àquela que, na qualidade de engenheiro, a rasgou dentro do autor". "A caminho do planetário" tem íntima relação com uma série de textos de Benjamin sobre a experiência, desde "Experiência" (de 1913, traduzido em Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação) e "Sobre o programa da filosofia futura" (de 1918, este não traduzido, ainda que, a meu ver, seja o mais denso deles: a questão de uma nova experiência passa, aqui, por uma destruição da relação sujeito-objeto - conheço uma tradução ao espanhol pela Monte Ávila, de 1970, que é a que eu li) até os escritos sobre Haxixe (em que ele experimenta a embriaguez; há uma edição da Brasiliense, de 1984, que virou raridade e é vendida nos sebos a preços de ouro), passando pelo mais conhecido "Experiência e pobreza" (de 1933; Documentos de cultura/Documentos de Barbárie, organizado por Willi Bolle). Extraí o fragmento da tradução de Rubens Rodrigues Torres Filhos, da edição linkada acima.

Se, como fez uma vez Hillel com a doutrina judaica, se tivesse de enunciar a doutrina dos antigos em toda concisão, em pé sobre uma perna, a sentença teria de dizer: "A Terra pertencerá unicamente àqueles que vivem das forças do cosmos". Nada distingue tanto o homem antigo do moderno quanto sua entrega a uma experiência cósmica que este último mal conhece. O naufrágio dela anuncia-se já no florescimento da astronomia, no começo da Idade Moderna. Kepler, Copérnico, Tycho Brahe certamente não eram movidos unicamente por motivos científicos. Mas, no entanto, há no acentuar exclusivo de uma vinculação ótica com o universo, ao qual a astronomia muito em breve conduziu, um signo precursor daquilo que tinha de vir. O trato antigo com o cosmos cumpria-se de outro modo: na embriaguez. É embriaguez, decerto, a experiência na qual nos asseguramos unicamente do mais próximo e do mais distante, e nunca de um sem o outro. Isso quer dizer, porém, que somente na comunidade o homem pode comunicar em embriaguez com o cosmos. É o ameaçador descaminho dos modernos considerar essa experiência como irrelevante, como descartável, e deixá-la por conta do indivíduo como devaneio místico em belas noites estreladas. Não, ela chega sempre e sempre de novo a seu termo de vencimento, e então povos e gerações lhe escapam tão pouco como se patenteou da maneira mais terrível na última guerra, que foi um ensaio de novos, inauditos esponsais com as potências cósmicas. Massas humanas, gases, forças elétricas foram lançadas ao campo aberto, correntes de alta freqüência atravessaram a paisagem, novos astros ergueram-se no céu, espaço aéreo e profundezas marítimas ferveram de propulsores, e por toda parte cavaram-se poços sacrificiais na Mãe Terra. Essa grande corte feita ao cosmos cumpriu-se pela primeira vez em escala planetária, ou seja, no espírito da técnica. Mas, porque a avidez do lucro da classe dominante pensava resgatar nela sua vontade, a técnica traiu a humanidade e transformou o leito de núpcias em um mar de sangue. Dominação da Natureza, assim ensinam os imperialistas, é o sentido de toda técnica. Quem, porém, confiaria em um mestre-escola que declarasse a dominação das crianças pelos adultos como o sentido da educação? Não é a educação, antes de tudo, a indispensável ordenação da relação entre as gerações e, portanto, se se quer falar de dominação, a dominação das relações entre as gerações, e não das crianças? E assim também a técnica não é dominação da Natureza: é dominação da relação entre Natureza e humanidade. Os homens como espécie estão, decerto, há milênios, no fim de sua evolução; mas a humanidade como espécie está no começo. Para ela organiza-se na técnica como physis na qual seu contato com o cosmos se forma de modo novo e diferente do que em povos e famílias. Basta lembrar a experiência de velocidades, por força das quais a humanidade prepara-se agora para viagens a perder de vista no interior do tempo, para ali deparar com ritmos pelos quais os doentes, como anteriormente em altas montanhas ou em mares do Sul, se fortalecerão. Os Luna Parks são uma pré-forma de sanatórios. O calafrio da genuína experiência cósmica não está ligado àquele minúsculo fragmento de natureza que estamos habituados a denominar "Natureza". Nas noites de aniquilamento da última guerra, sacudiu a estrutura dos membros da humanidade um sentimento que era semelhante à felicidade do epilético. E as revoltas que se seguiram eram o primeiro ensaio de colocar o novo corpo em seu poder. A potência do proletariado é o escalão de medida de seu processo de cura. Se a disciplina deste não o penetra até a medula, nenhum raciocínio pacifista o salvará. O vivente só sobrepuja a vertigem do aniquilamento na embriaguez da procriação.

Walter Benjamin


Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura. Editor do SOPRO.

Currículo Lattes

"a posse contra a propriedade": "pedra de toque do Direito Antropofágico" (dissertação de mestrado)

O perjúrio absoluto (Sobre a universalidade da Antropofagia)
(Artigo publicado na revista Confluenze

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove de Eduardo Sterzi)

Entrevista com Raúl Antelo

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem de Manoel Ricardo de Lima)

Um antropófago em Hollywood: Oswald espectador de Valentino
(artigo publicado na revista Anuário)

Bartleby e a paixão da apatia
(Artigo escrito em conjunto com Flávia Cera para a revista Lekton)

O que é um bandido?
(Texto sobre o debate do desarmamento)

Work-in-progress sobre o conceito de censura:


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado em todas as línguas"
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