julho 2009 Arquivos

Cara de Cavalo

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"Qual a nova cara/de cavalo" São esses versos que iniciam um poema sem nome no qual Oiticica menciona seu amigo Cara de Cavalo. Entretanto, poderíamos transformar o primeiro verso em uma pergunta: qual é a nova cara? Poderíamos tranquilamente dizer que a esta pergunta Hélio deu uma resposta ressaltando o seu caráter político: a homenagem a Cara de Cavalo, segundo ele, dizia respeito a um momento mais ético que estético. "Tal idéia é muito perigosa, mas é necessário para mim: existe um contraste, um aspecto ambivalente no comportamento do homem marginalizado: ao lado de uma grande sensibilidade está um comportamento violento e muitas vezes, em geral, o crime é a busca desesperada de felicidade". O caráter ambivalente do homem marginalizado está explicito no nome de Cara de Cavalo, afinal, o que seria um homem com a cara de um cavalo? Nada além de um homem. A idéia de que um hibridismo nos constitui é levada às últimas conseqüências e nos questiona: qual seria o limiar que faz possível distinguir o homem do animal? Seria o mesmo que faz a vida de Cara de Cavalo insistir até hoje (em milhares de rostos que não necessariamente tenham a aparência de um cavalo) em dizer-se vida, em dizer-se humano. Uma sorte de sub-existência. Já não eram mais suficientes os rostos dos Operários pintados por Tarsila do Amaral; foi preciso dar um passo além para trazer à tona esta sub-existência. Para isto, Hélio Oiticica criou os panos - Parangolés que envolviam o corpo, mas deixavam o rosto nu - para expor que a nova cara não requer mais mediação (burgueses-operários; roupa-nudez), mas sim uma "fantasia": "a roupa se aproxima da fantasia q também (em ambos os casos) não se querem reduzir a 'mediadoras' como sejam os objetos ritualísticos a gratuidade originária em ambas as livra não só do role como dos compromissos com mediações ritualísticas livrando-as ao jogo livre do clímax-corpo com as possibilidades abertas ao uso delas". A imaginação cria esta esfera sem mediação, é a esfera comum do homem, uma esfera do uso. O momento ético de Oiticica ou a esfera da felicidade em sua procura desesperada no "baralho da vida". A imagem de Cara de Cavalo, a fotografia 3x4 ampliada de sua carteira de identidade, com a qual Oiticica construiria outro bólide, Cara-Cara de Cara de Cavalo, nos defronta com uma imagem que tememos ver, e que não cessa de aparecer: a imagem perturbadora de um bandido nos atrai e afasta com uma certa repulsa e uma curiosidade enorme que revela, como diz Badiou, o século XX marcado pela "paixão do Real". Ou mais, Hélio Oiticica nos apresenta um rosto dilacerado da margem - o mesmo rosto da África que nos mostrou Raul Bopp - em uma espécie de etnografia de nós mesmos. Desta insistência em se dizer vida, Oiticica volta para nos dizer que esta cara não é nova, é a mesma cara, de novo, um espelhamento - uma sobrevivência: "ele é e existe" - e, continua Oiticica: "não é triste/como artrite que nos acomete/no pântano/ou no apartamento/de cimento/o cimento que cobre o ato/o tato/o crime/que já deixa de ser". Desta imagem de Cara de Cavalo temos "apenas um tremor/imponderável", e "não o horror" porque diante dela temos a certeza de que somos nós que estamos ali também, a mesma certeza que teve Clarice Lispector quando afirmou que o décimo terceiro tiro disparado contra Mineirinho a matava. São destes fantasmas que não podemos esquecer e são estes instantes que não podemos perder, já que, como diz Benjamin: "Aquilo que é sempre o mesmo, não é o acontecimento, e sim, o que nele é novo, o choque com o qual nos afeta". Por isso que a imagem, a imaginação ou a fantasia foram as propostas, os sopros de vida, de Hélio Oiticica para devolver potência a esta "cara". Esses procedimentos são fundamentais para podermos, enfim, formar o novo corpo da humanidade que se expandirá "sem limites para regiões do pensamento aberto em aberto".

PS1: Acaba de sair pela editora Azougue um livro com entrevistas e depoimentos de Hélio Oiticica.

PS2: Fred Coelho conta uma história bonita e dá uma excelente notícia tropicalista aqui.

PS3: Quem se interessa por Hélio Oiticica pode consultar alguns de seus documentos aqui.

Brandenburg

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ElaRafa

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E era assim quando sentávamos para brincar. Régua na mão. Olhos fixos no que fingíamos ser um quadro. Giz roubado da escola. Guarda-roupa todo pintado. As frestas cheias de pó. Mãe berrando da sala. Escondia-me. Era muito mais esperta que você. Eu ficava com a máquina de calcular. Você com papel e lápis na mão. A régua batia no guarda-roupa. Você não presta atenção?! Imensos olhos azuis arregalados. Imensos olhos azuis abaixados. Crescemos. Eu continuo com a calculadora na mão. E você nem precisa mais de lápis e papel.

Cenas da vida real

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Existem coisas que acontecem no mundo das celebridades e estão muito afastadas de nós, pobres mortais. Refiro-me à troca constante entre os pares sem que isso acabe ferozmente com a reputação. Mas tenho um causo surpreendente, pelo menos foi para mim, para contar. Dependendo do gosto, a troca foi uma coisa boa, sobretudo, para os que não gostam de sacrifícios, rituais e gostam da Lei (pero no mucho), ou de dar aquela freadinha básica no desejo. Agora, para os fãs d'A História do Olho que curtem uma acefalia, pode-se tomar essa troca como uma traição pessoal.
Vocês sabem por que não encontramos uma discussão, ou uma devoção, ou o menor gesto de que consentimento da existência de Jacques Lacan nos textos de Georges Bataille e vice-versa?
Resposta: porque a companheira de Bataille, Sylivia Bataille, casou-se com Lacan.
Será que ela assinava Sylvia Bataille Lacan? Haja divã.

 
Rá! Então vocês ainda não leram Verônica Stigger! Essa mulher faz tudo acontecer. Autora de Gran Cabaret Demenzial e d'O Trágico e Outras Comédias, Verônica é uma das escritoras contemporâneas mais geniais que conheço. Nem preciso dizer que recomendo fortemente. Mas venho neste blog abordar uma afirmação feita por Verônica em uma entrevista sobre O Trágico, concedida ao querido amigo Pádua Fernandes, pouco antes do lançamento em Portugal. Na entrevista Verônica disse que as mulheres deveriam ter mais cu. Opinião que assino embaixo. Tanto assino que estou pensando em transformar essa afirmação em um movimento: As Cuzudas, ou Frente pela Cuzificação das Mulheres. Ainda não consegui achar um título que comporte a proposta, continuarei pensando e aceito sugestões. Com a finalidade de atribuir mais cu às mulheres, mando minha primeira dica: nunca deixe ser chamada e, muito menos se autodenomine, esposa. Jamais! Depois de ler o que segue, foi Agamben quem escreveu em O que Resta de Auschwitz, espero que cortem a língua de quem ousar, neste planeta, usar o termo esposa:
O verbo latino spondeo, do qual deriva o nosso termo 'responsabilidade', significa 'colocar-se como garantidor de alguém (ou de si) por alguma coisa diante de alguém'. Assim, na promessa de matrimônio, a pronúncia de spondeo significava, para o pai, empenhar-se a dar como mulher ao pretendente, a própria filha (por isso era chamada sponsa) ou garantir uma reparação caso isso não viesse a acontecer.
 

Viram? O termo esposa nasce de uma obrigação jurídica. Não é porque hoje não se faz uma mega negociação que o casamento mudou. Ele reaparece na sua forma mais medonha toda vez que se diz "esposa". "Minha esposa", então! Além de ser redundante, é uma barbaridade! Proponho que imaginem sempre que ouvirem o termo esposa, uma negociação horrenda, malas com dólares, ameaças de morte, torturas, etc. Um movimento para abolir o termo esposa é absolutamente pertinente para que as mulheres tenham mais cu! Então é hora de parar de esperar o maldito matrimônio para ser chamada de, ou para gritar aos quatro ventos que se é, esposa de não sei quem; e nunca mais (e isto é imprescindível, porque o fato é recorrente) atravessar uma conversa corrigindo a pessoa que chamou a fulana de namorada, amiga, amante, irmã, para dizê-la esposa, ok? Esse é o primeiro passo para um mundo feito de mulheres com mais cu. A meta é fazer chover caralhos!

Ela era oca. Enchia-se, por vezes, de vento. Era leve. Flutuava. Jamais corria. Ela era vazia. Nenhuma palavra a ocupava. Nenhum gesto a comovia. Ela tinha sido corroída por cupins. Descendia de uma pedra rara tailandesa. Pedra oca. Com um furo no meio. Nada a habitava. Sentia apenas calafrios. Mas era capaz de tocar. Sua morbidez era assustadora. Seu olhar distante era fascinante. Olhar oco. Um arco. Um bambolê. Círculo oco. Era uma passagem infinita. Um mosquito passava. Uma cobra passava. Um hipopótamo passava. De tão oca. Tomava banho às vezes. Tomava água que ia da boca ao chão. Mas era humana. Seu destino é o desaparecimento. Sua vocação é balançar os galhos das árvores. Seu desejo é poder dançar.

No Editorial de hoje a Folha esbraveja e cobra da "sociedade civil" uma reação ao recesso dos parlamentares. Lemos lá pelas tantas:

Ao contrário do que ocorreu em alguns momentos marcantes da história do país -como a mobilização em torno das Diretas-Já ou do impeachment de Collor-, vê-se hoje uma apatia generalizada no seio da sociedade civil. Apatia, bem entendido, não significa ausência de julgamento nem de opinião; precisamente, a "opinião pública" continua viva nestes dias. Reduz-se, entretanto, a ser apenas uma "opinião", sem forças para converter-se em real força política.


Sra Folha, deixe-me explicar uma coisa: A apatia pode se constituir, do ponto de vista do Neutro de Roland Barthes, como um desejo político; político na medida em que visa destituir as dicotomias da política ocidental; político exatamente por não se encaixar na vulgar configuração política, mas por opor-se passivamente, a ela:

tò pathos: no neutro: ao mesmo tempo ativo e afetado: afastado do querer-agir mas não da "paixão".
A bem da verdade: o "pensamento" do páthos (afetado-ativo) não deve ser buscado do lado dos metadiscursos (-logias) porém, uma vez mais, do lado de uma filo-escrita: a de Nietzsche. Blanchot, a propósito de Nietzsche: "O que é a vontade de poder? Nem um ser nem um devir, mas um páthos: a paixão da diferença." E Deleuze: esse poder de ser afetado não significa necessariamente passividade, mas afetividade, sensibilidade, sentimento (Nietzsche sempre falou de sentimento de poder). Poder: primeiro como caso de sentimento e sensibilidade, não como caso de vontade. Vontade de poder: a forma afetiva primitiva. Fiquemos com aquilo que permite aproximar o Neutro do páthos: a paixão pela diferença.


A vida política da Modernidade ocidental encontra na exclusão da paixão, em favor da razão, um de seus pilares de sustentação: as ações públicas devem se fundamentar em motivos puramente racionais subtraindo o desejo. Mas o que se opõe a paixão etimologicamente, não é a razão. Paixão deriva de pathos, doença, algo que a alma sofre, é afetada, a não ação (atividade) diante de uma situação; é, portanto, passiva ao acontecimento. Paixão = passividade. Sendo assim, o que se opõe a paixão é a ausência dela, ou seja, a apatia. Apatia: ausência de doença, o que não se comove. Ou ainda, é a não não ação. É uma pura potência e, enquanto tal, sua abstenção não carece de desejo nem de ação, é uma paixão que em si mesma é ação, e que Agamben explica da seguinte forma:"na potência que se pensa a si própria, ação e paixão se identificam". Então, Sra. Folha, não exija da "sociedade civil" uma caminhada protocolar até o Congresso para expulsar o José Sarney, ou uma manifestação contra o recesso dos parlamentares, ou espere que assinemos em baixo o que você chama de denuncia. Porque se existe alguma coisa que falta a você, é o que você chamam de imbeciloidamente de "imparcialidade", e que eu chamaria de ação e paixão.

Coisas embaraçosas

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A mediocridade é uma coisa triste de se ver, neste caso, de ouvir. Aquelas que dá vergonha pela pessoa, então... Escrevo esse texto corada de vergonha, tão corada que me deu calor e aqui faz frio, muito frio. Do meu prédio escuto uma gritaria: Você sabe quem eu sou?! BUM! Você quem eu sou?! BUM! Você sabe quem eu sou?! BUM! E um carro sai cantado seus pneus em uma sinfonia que daria inveja a Vivaldi. O mocinho que ameaçava aparece melhor no meu raio de visão com mais quatro caras, aciona o alarme do caro BLIM BLIM, e ordena: Fulano, pega lá o meu casaco! E o idiota foi. Continuaram a vergonhera berrando UWU, III, ÉÉÉ. A minha sorte é que o meu cachorro é amigo da galera, usa internet e tem messenger. Aqui no bairro como temos muitos cachorros na rua, foi criado um centro de inclusão digital para que eles não ficassem ociosos tomando sol o dia inteiro. Meu cachorro avisou o local da gritaria, descreveu perfeitamente os mocinhos descerebrados e pediu, gentilmente, para que eles fossem até lá e resolvessem o problema. Foram. Aqui, agora, faz silêncio e voltei a sentir frio.
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... o Gabeira nessa mesa de discussão explicando que "a estrela vermelha não representa nada".





Ieda era professora da rede estadual na cidade Feliz localizada no vale do Caí no Rio Grande do Sul. Ocupava-se com crianças de 4 a 6 anos. Era uma mulher que costumavam chamar de correta, ia à Igreja todos os domingos, doava roupas e cobertores no inverno, brinquedos nos dias das crianças, essas coisas. Ieda era uma mulher muito sozinha e exalava certo mistério quando olhava para as suas criancinhas. Até aí tudo bem, mas um certo dia as crianças começaram a chorar e berrar nomes de monstros que costumavam assombrá-las de noite quando cruzavam o olhar com Ieda. Pais e professores acharam estranho e mandaram investigar. Ieda tinha uma boa reputação até o dia que ligaram às queixas às suas desaparições que sempre aconteciam às quartas e sextas. Começaram a persegui-la. Eram agentes do governo do Estado. Primeiro viram que Ieda ia para uma pista clandestina onde pousavam aviões de pequeno porte. Ieda embarcava em um jatinho e partia para São Paulo. Lá, encontrava-se com outros parceiros. Os agentes ouviram os nomes de alguns: José, Fernando, Aécio, outro Fernando, usando trajes de banho. Pensaram, a princípio, que era uma festa a fantasia, porque um vampiro, um príncipe e um aquaman, não se juntavam assim a toa. Porém, o que soava esquisito era o local da festa: a Estação Pinacoteca. Estava tudo muito misterioso para os agentes da inteligência estadual que voltaram para o Rio Grande do Sul e procuraram a governadora. Eles relataram o caso e disseram que tudo aquilo não passava de uma festa ou, sabe lá, um jogo de RPG. A governadora, esperta como uma lebre, mandou seus agentes voltarem e descobrirem o que era a Estação Pinacoteca.Voltaram na sexta de manhã e fizeram uma visitinha. Descobriram que o local abrigou outrora o DEOPS. Procuraram as inscrições dos seus parentes na parede, e depois descobriram que era dos presos e não dos agentes. Ficaram arrasados. Mas, mesmo assim, foi um dia mágico, pensar em tudo aquilo dava sentido às suas funções. Mais tarde, estavam lá apertadinhos no corredor onde os presos tomavam sol e esperando Ieda e sua gangue aparecer. Era nesta sexta que descobririam o que Ieda aprontava. Iriam desmascarar a boa moça da cidade Feliz. Eis que ouvem palavras em língua estrangeira. Uau! A missão acabara de se transformar em internacional! Demorou um pouco, mas entenderam que lá estavam agentes de Guantánamo ensinando práticas de tortura para a professora e seus associados aplicarem nas crianças. Os agentes não se assustaram tanto e até gostaram. As táticas eram incríveis, crianças ajoelhadas no milho, nunca mais! Agora era pra se ajoelhar em cacos de vidro mesmo. Mas que beleza, pensavam, Feliz será a cidade do futuro. Voltaram para o Rio Grande do Sul e procuraram a governadora. Por um momento ela pensou em institucionalizar o método, mas depois alguém a lembrou que seria crime e que as coisas já não andavam boas para ela. Disse que os agentes podiam ir embora e que ela pensaria no que fazer. No dia seguinte, uma manifestação na frente da sua casa a deixou enlouquecida. O que essa gente vem fazer aqui? Eu, uma mulher transparente em minhas ações? A governadora não pensou duas vezes: vou denunciar a professora da rede estadual e suas práticas, assim desvio a atenção do meu governo. Foi para dentro de casa e escreveu num cartaz: "Vocês não são professores. Torturam crianças. Abram alas que minhas crianças têm aula". Depois disso, o batalhão de Operações Especiais e a Brigada Militar foram até o local. Seus agentes observavam de longe pensando que o método da professora Ieda seria bem interessante para não criar esses monstrinhos que fazem baderna. Qualquer fato histórico é mera coincidência.
Na vida atribulada da grande cidade, Tibúrcia manda um e-mail para resolver mais rápido seu problema com os fornecedores que atrasaram a entrega de fermento e, conseqüentemente, a feitura do bolo, porque a Gerente e a Sub-gerente do Departamento de Festas de Aniversários estão reclamando com ela, a chefe - Gerente Sênior do Departamento de Entretenimento - da micro-empresa Somos poucos, mas somos muitos -, insinuando que no Departamento de festas de Confraternização esses atrasos nunca aconteciam. Tibúrcia não sabia mais o que fazer. Estava preocupada porque administrar quatro funcionários mais um motoboy terceirizado exigia dela um esforço sobrenatural. Estava fazendo terapia e seu salário estava indo pelo o ralo. Não queria de jeito nenhum que as duas Gerentes e as duas Sub-gerentes brigassem e acabassem com a harmonia e eficácia da empresa que contava com 9 clientes. Todos eles compraram o serviço de terceirização de cancelamento do cartão de crédito proposto logo depois de um curso de dinâmica de grupo. O serviço era prestado da seguinte maneira: a Gerente do Departamento de Festas de Aniversário, que era também a Gerente de Início das Negociações com a Empresa de Cartão de Crédito, começava a romaria, passava os dados de identificação do cliente, avisava que queria o cancelamento e ficava 15 minutos no telefone. A Sub-gerente do Departamento de Festas de Confraternização, que também ocupava o cargo de Gerente do Departamento da Segunda Etapa das Negociações com a Empresa de Cartão de Crédito, ficava na linha por mais 15 minutos e dizia que, de fato, não havia interesse em manter a assinatura. A Sub-gerente do Departamento de Festas de Aniversário, que era também Gerente da Terceira Etapa das Negociações com a Empresa de Cartão de Crédito, era responsável por 20 minutos ao telefone e por dizer, vai a puta que o pariu e cancela essa porra de cartão, pelamordedeus, senão eu ligo para o Procon!!! Essa parte era exaustiva, por isso essa Gerente tinha direito a um pedaço a mais do bolo. Depois, a Gerente do Departamento de Festas de Confraternização e também Gerente de Finalização das Negociações com a Empresa de Cartão de Crédito, ficava mais 15 minutos no telefone confirmando os dados que a primeira Gerente, que corria apressada até a mesa da Gerente de Finalização (e este era o movimento fundamental para a realização do serviço), havia passado no começo. Era a Gerente de Finalização quem dizia: obrigada. Sim, caso interesse faremos contato. Boa tarde. Tudo isso com a minuciosa supervisão de Tibúrcia, a Gerente Sênior do Departamento de Entretenimento que também era Gerente Sênior do Departamento de Cancelamento de Assinaturas de Cartão de Crédito. Tibúrcia estava sob enorme pressão não poderia falhar, tinha que falar com os fornecedores para que este fermento chegasse a tempo de não atrasar o bolo. Quando apertou ENVIAR, ligou para a empresa de fermentos que a informou que o e-mail ainda não tinha chegado. Tibúrcia ficou nervosa e disse para o fornecedor: que saber? Como é urgente, vou mandar o motoboy aí para lhe entregar o e-mail.
É curioso ver o tratamento dado à autodenominada literatura marginal de Ferréz, Sérgio Vaz, Paulo Lins, e outros muitos escritores da periferia. Como esses autores abordam, de modo nada discreto, a violência dos grandes centros do Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo: Cidade de Deus e Capão Pecado, por exemplo) o assunto se torna mais espinhoso e mais urgente. E a crítica, evidentemente, divide-se.
Ficaremos, aqui, com dois exemplos: por um lado, a acidez crítica de Flora Sussekind que descarta (salva apenas o que denomina de "valor documental"), sem a menor cerimônia, um livro como Capão Pecado e chama de livro-roteiro Cidade de Deus e, por outro lado temos com João Cezar de Castro Rocha uma esperança sem reservas depositada no que ele denominou de Dialética da Marginalidade.
A análise de Flora no texto Desterritorialização e Forma Literária se amplia para outros autores, romances e poemas. Embora deixe claro que irá abordar mais detidamente "alguns exemplos da produção poética brasileira e não as letras de rap ou funk, com seu registro do cotidiano violento e excludente nas periferias das grandes cidades do país, ou da prosa recente, na qual se multiplicam os testemunhos diretos, as histórias de vida, os percursos e contrastes urbanos", ela dedica duas ou três páginas do ensaio para falar de Ferréz, Paulo Lins e Drauzio Varela (Estação Carandiru). A análise feita de Sebastião Uchôa Leite, Duda Medeiros, Ítalo Moriconi, Manoel de Oliveira, Ismail Xavier, Angela Melim entre tantos outros, é feita com a conhecida erudição da autora. No entanto, ao abordar os textos de Ferréz, Paulo Lins e Drauzio Varella, Flora é menos rigorosa ou quase displicente (não sei se esta seria a palavra mais adequada). Além de não citar nenhum dos três textos, prática exaustiva com os outros, a autora coloca uma série de restrições às fotografias utilizadas na primeira edição de Capão Pecado e no livro Estação Carandiru. O que implicaria, grosso modo, para autora, a falta de visão crítica da experiência citadina por parte dos escritores, uma vez que a utilização dessas imagens corroborariam com o sistema vigente. "Mas o que se observa é que nessa aparente captura documental do referente urbano, para aproximá-lo do leitor, com freqüência, quando se observam essas imagens, verifica-se que operam com clichês, com reimpressões de um repertório previsível de figuras e situações citadinas, que, ao contrário do que se afigura à primeira vista nessas obras, acentuam (ao invés de criticá-las) as distinções sociais já demarcadas, com precisão, no cotidiano". Flora aponta também que a utilização dessas imagens causa uma "imobilização da perspectiva histórica". Resumindo: Flora percebe nas imagens apresentadas nos livros uma fragilidade, em outras palavras, as imagens afirmariam justamente aquilo que a literatura marginal, especialmente no caso de Ferréz, tenta combater. Na minha humilde opinião, ao contrário de Flora, penso que podemos perceber justamente no uso dessas imagens um raio de esperança para a literatura marginal. Ora, não está na fotografia a possibilidade de captar todos esses clichês previsíveis e repetidos com freqüência, mas que, entretanto, não são percebidos? A aproximação que a fotografia nos exige não vem da reprodução do que acontece de fato, mas sim do que poderia ter acontecido, das possibilidades que ela nos apresenta (Giorgio Agamben tem um ensaio comovente, no qual me apóio para fazer esta afirmação, no seu livro Profanações publicado pela Boitempo em 2007; ele aborda justamente o caráter histórico/messiânico de qualquer fotografia). Enfim, Flora abandona esta literatura ao uso corrente do termo marginal, ela a deixa de lado em nome, como se pode ver no ensaio, de uma literatura mais "inteligente", "pensada", "menos evidente".
João Cézar de Castro Rocha é mais otimista. Em 2004, publicou, no Caderno Mais!, Dialética da Marginalidade (foi publicado em inglês aqui), texto que se contrapunha à leitura de Roberto Schwarz de Cidade de Deus (publicado no também no Caderno Mais! em 1997 e incluído em Seqüências Brasileiras, Cia das Letras, em 1999). O texto de Schwarz inscrevia, ainda, Cidade de Deus ao "negaceio malandro entre ordem e desordem" apresentado por Antonio Candido em Dialética da Malandragem, ao passo que o texto de Rocha apontava para a explicitação das diferenças e para o aprofundamento do fosso social que a literatura marginal permitiria superando parcialmente a proposta de Candido. Ou seja, já não haveria mais conciliação possível, o que a literatura marginal deixaria claro é que "conflito aberto não pode mais ser mascarado sob a aparência do convívio carnavalizante". A leitura de Rocha, muito pertinente, tocava em pontos cruciais e apontava para a exigência de novas categorias de análise para dar conta deste "acontecimento". Em 2007, a propósito da Semana de Arte Moderna da Periferia que contava, inclusive, com um manifesto parodiando os modernistas, Rocha concedeu uma entrevista à Revista Época, e confessou suas esperanças em relação ao movimento. Ele dizia que este "fenômeno", o da dialética da marginalidade, poderia trazer melhoria políticas consideráveis ao Brasil, e que a existência desta literatura mostrava que nós, Brasil, realmente somos uma democracia sólida. "Em lugar de um discurso onipresente, totalizante, do tradicional discurso da esquerda, o que a Dialética da Marginalidade deseja é adquirir sua própria voz, é que a relação com seu vizinho melhore, que seu bairro tenha água encanada, eletricidade, educação, que as crianças tenham acesso à internet", diz Rocha na entrevista. Ao contrário de Flora, o crítico nos diz que os marginais podem ser heróis. Porém, a fala de Rocha, embora seja muito mais pertinente que a de Flora em termos de análise, dá a impressão do apagamento de um possível caráter político para exaltar seu valor social. Não creio que este seja o objetivo de Ferréz, Sérgio Vaz, Paulo Lins, etc. Se for também, pouco importa.
O que penso é que a literatura marginal se impõe na medida em que (sim!) reconstrói uma perspectiva histórica (basta ler os manifestos, Terrorismo Literário, por exemplo) e cria para si, em contato com o mundo, uma política que ultrapassa justamente às medidas sociais de água, internet etc.  Essa perspectiva quase ingênua de Rocha atribui à literatura um caráter salvacionista de inclusão que, pelo menos depois de Homo Sacer, tornou-se inaceitável. E, outra, não é a literatura marginal que tem que reivindicar os direitos básicos do cidadão. Note-se, por exemplo, neste diálogo entre Ferréz e Mano Brown: "o que você faz pela favela?" (pergunta Ferréz ironizando a "mídia"), Mano Brown reponde: "um tipo de pergunta dessa você tem que responder com outra pergunta. 'Eu te pedi voto? Eu pedi voto para alguém? Eu sou cantor de rap, não sou...' (...) É isso que eu acho errado. O rap não é obrigado a fazer as coisas".
Voltar até a década de 1960 e ver o que Hélio Oiticica pretendia com a sua bandeira "Seja marginal, seja herói" (nota de curiosidade: o corpo estampado na bandeira era de um ladrão que, ao perceber que a polícia estava perto, se jogou de uma ponte - e não de Cara de Cavalo) nos dá boas pistas. Ao elaborar a imagem-poema-homenagem a Cara de Cavalo, na mesma época em que faz a bandeira, Oiticica dizia que se tratava de um momento mais ético do que estético, e que se tratava, também, da busca desesperada da felicidade. Essa bandeira é reivindicada, não por acaso, por Ferréz. E é essa reivindicação que nos permite dizer: atribuir um caráter social à literatura marginal ou rejeitá-la por um caráter estético (as imagens) é limitar as suas possibilidades, porque seu tema é a vida e a felicidade - porque ela demanda uma nova ética -, porque os autores pedem o impossível e não água encanada.

Brincando de guerra

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Era um grupo de amigos. Estudiosos. Sabiam o que havia de mais contemporâneo na filosofia, na literatura, na sociologia, em tudo. Estavam no topo do mundo acadêmico. Donos de bibliotecas gigantescas para as suas idades. Compras compulsivas. Livros repetidos. Livros nunca lidos. Livros relidos, decorados. Mas eles também gostavam de jogar. Muito. Jogos de tabuleiro. Banco Imobiliário para poderem ser mercenários. Poker para poder mentir. Mas War era o jogo. Jogavam partidas intermináveis tentando dominar o mundo. Verde contra vermelho. Preto contra amarelo. Branco contra azul. Acordos inescrupulosos. Promessas de países e continentes. Amizades quase rompidas. Pactos de não agressão. Valia qualquer coisa para conquistar o objetivo. Tudo isso misturado com uma boa teoria. No começo, adoravam partir do assunto mais banal e chegar a grandes conceitos: potência, nomadismo, diferença, alteridade. Um deles era o mais intenso, e por conseqüência, o mais cego. Nenhuma piada escapava a sua comparação teórica. "Isso é vida sacra". "Aquilo é pura potência". Puta que pariu!!!! Cara mais chato. Agora não se podia falar nada que tudo caia na vala comum daquela bibliotequinha ambulante. Resolveram dar mais uma chance. Iriam jogar war para falar menos e não correr riscos. Eis que chega o cara: "desculpa, não acho mais legal jogar war porque todas as jogadas são meio para um fim". Jogaram uma bomba nele.

Nota sobre método

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Pegando uma carona no twitter do Idelber que mencionava o livro de Josefina Ludmer, O Corpo do Delito (UFMG), um texto genial que a autora denomina maliciosamente de manual, aproveito para recomendar a leitura de outro texto da autora: Literaturas postautónomas, um texto escrito em 10 tópicos. Josefina Ludmer parte de alguns romances contemporâneos de escritores como César Aira e Daniel Link, e também da crítica contemporânea, como Florencia Garramuño e Tamara Kamenszain, para explicar que essas escrituras fabricam o presente e que sobre elas não podemos dizer se são realidade ou ficção. Isto acontece porque a literatura perdeu a autonomia que lhe era garantida pela especificidade e auto-referencialidade, pelo poder de nomear-se e referir-se a si mesma, reger-se por suas próprias leis, com suas instituições próprias que, além de debaterem seu destino, seu sentido, sua função, seu valor, debatiam também a sua relação com as outras esferas, ou campos, de pensamento (arte, política, economia, etc). As escrituras pós-autônomas atuariam na incorporação da imaginação pública e, assim, fusionariam os campos autônomos levando a uma prática da imanência. É claro que o texto é muito mais que isso, Josefina desdobra cada item de maneira muito inteligente. O que gostaria de ressaltar aqui é que Literatura postautónomas é uma excelente aula de metodologia (acho interessante lê-lo assim e não como uma caçada aos textos pós-autônomos. Explico: Josefina diz que existe uma literatura pós-autônoma, no que, particularmente, não acredito; embora ela diga no texto que tudo depende de como se lê, ela continua insistindo nos mesmos autores). O texto de Josefina nos permite dizer que a literatura, de um modo geral, pode ser lida pós-autonomamente, ou seja, longe das distinções entre ficção e realidade, longe da idéia de fundação e, principalmente, longe do apego à Instituição Literatura, para que possamos montar novos sentidos, novas séries, abrir novas possibilidades. É um texto imperdível.

Reforma Agrária

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Mundo-abrigo implica num tipo de experiência em vários níveis e a relação-conduta de cada indivíduo com ela tem importância fundamental. Para chegar ao MUNDO-ABRIGO não é só preciso abandonar a vontade mesquinha de possuir fetichistamente objetos deste mesmo desejo fetichista (isso é passo-implícito já não mais problemas ou dilema moral como antes) de propriedade (como se fossem substitutivos para uma 'solução' no MUNDO existencialmente vivido como produção versus morte): é mais e mais do que isso é sentir-se livre (sem 'condições ideais') para assumir o experimental no comportamento (relações com o MUNDO).  Hélio Oiticica.

Clementina era uma menina que gostava de dividir tudo. Seus pais a educaram numa rigidez socialista. Ainda no ventre da mãe, Clementina ouvia os textos de Fourier. A primeira palavra que pronunciou com exatidão foi falanstério. Era a estrela das reuniões meio Pink e Cérebro que seus pais faziam quinzenalmente nas quais sonhavam em viver em grandes fazendas-falanstérios com uma justa divisão do trabalho. Na escola, Clementina pregava por horas, como uma mini pastora, o discurso da divisão do material escolar. "Você tem lápis cor de rosa? Não? Então dividimos esse ao meio. Você fica com esta parte e eu com aquela". "Você esqueceu o casaco? Pega essa manga aqui e usa, eu fico com a outra". "Você gosta do cabelo que está na minha cabeça? Vamos achar uma tesoura e divido com você." (os pronomes possessivos eram proibidos). Clementina fazia isso com tudo: caneta, borracha, meia, tênis, respostas das provas, pontos que sobravam na nota, visão, audição, comida. Onde quer que houvesse uma reclamação de falta, Clementina estava lá para resolver, tinha levado sua educação socialista às últimas conseqüências. O problema aconteceu quando Clementina começou a ser muito solicitada. Para dar conta, ela resolveu se dividir. Pensou se usaria uma faca ou tesoura. Pensou se cortava ao meio na horizontal ou na vertical. Decidiu que um estilo meio Saci-Pererê cairia melhor. E andaram assim por um bom tempo. Os pais, preocupados, levaram-nas ao médico. Enquadramento: dupla personalidade. E a vida seguiu normalmente. Clementinas, mesmo assim, não davam conta de dividirem tantas coisas e estarem presente nos lugares. Cortaram-se, então, em pedaços menores, uns trezentos e quatro mais ou menos, e continuaram a dividir pelo mundo a fora. Foram chamadas para dar palestras nos Estados Unidos. Passaram por Colorado para falar aos alunos de Columbine sobre solidariedade e amor ao próximo. Depois partiram para Blacksburg, para falar aos alunos da Universidade Técnica de Virgínia sobre armas de fogo. Estavam escrevendo um livro sobre como a divisão mudaria o mundo. As propostas de traduções eram maiores que as do Paulo Coelho. Era sucesso garantido. As trezentas e quatro Clementinas ganharam uma cadeira na ONU. Andavam  ao lado de pessoas como Nelson Mandela. Mas, um belo dia, em uma reunião importantíssima do Conselho de Paz da ONU, setenta e cinco Clementinas sumiram. E, nos dias seguintes, apresentaram um comportamento diferente. Em uma grande passeata no Brasil profundo difundindo a proposta da divisão, chega aos ouvidos das Clementinas que os seguranças suspeitavam de uma emboscada para exatamente 229 Clementinas. Mas essas Clementinas acreditavam na paz como Gandhi e, como Jesus, não acreditaram na traição, prosseguiram. Vinte metros na frente, um tiroteio de bolas de gude acertam as 229 Clementinas. Todas morreram. As outras setenta e cinco vivem em um enorme latifúndio no Mato Grosso, o nome da fazenda é Falamsérium - in memoriam. Elas são procuradas pela Polícia Federal acusadas de trabalho escravo. Para fugir da perseguição, alugaram a propriedade para o Bispo sediar seu reality show.