agosto 2009 Archives

Em 1918, durante a Primeira Guerra Mundial - quando a possibilidade de morte em campo de batalha se disseminou, ao menos virtualmente e pela primeira vez, para o mundo inteiro -, Eugenio D'Ors escrevia um aforismo não pouco sugestivo para a contemporaneidade: A paz é um domingo. A guerra, uma cadeia de dias laboriosos. O que importa é que a essência dominical se difunda por toda a semana. Talvez não seja inoportuno lembrar que Eugenio D'Ors era um espanhol bastante estudioso do barroco e, como tal, familiarizado à história da vida cortesã do Siglo de Oro. Um pouco apressadamente até poderíamos dizer que a corte é o espaço de um eterno domingo e, por isso mesmo, uma época dourada. Ao cortesão basta preocupar-se em manter a boa fama diante do rei e de seus semelhantes. Em primeiro lugar, vale ressaltar que a fama só pode existir como segunda natureza que se estabelece no âmbito da linguagem. Cada pessoa possui fama na medida em que é dita de tal ou tal maneira e, assim, a fama de alguém, sem ser exatamente a emanação de qualidades próprias, acaba sendo uma espécie de aura identificadora que os outros colam ao corpo da pessoa (et. persona, máscara) dita. No espaço da corte, o moralista ocupa um lugar privilegiado. É ele quem ensina aos outros os mecanismos para ser dito ou fazer-se dizer de uma tal maneira, caso a caso, que a fama resultante seja vantajosa e capaz de permitir a manutenção do status quo e, em última instância, da própria vida. Ao fazer isso, o moralista da corte é portador de uma promessa de felicidade: ter boa fama é ser, de alguma maneira, disposto à possibilidade de ser feliz. Isso porque, gozando de má fama, um cortesão bem poderia ser identificado como malévolo criminoso e, diante disso, padecer suas últimas horas sobre o cadafalso ou no subterrâneo de uma masmorra. Mas quando todos dependem de seu ser-dito (a fama) para manterem a existência materialmente física já estamos diante daquilo que Hannah Arendt chamou de labor e, assim, a corte deixa de ser um domingo, pacífico, para se transmutar na sucessão infindável de guerras - cortesãs. E, não por acaso, em um dos fragmentos de suas imagens do pensamento, Walter Benjamin nos apresentava a cortesia como, de fato, um meio belicoso, mas não exatamente um meio mortífero, especialmente porque garantia ao adversário o direito a uma segunda chance. Quem ocupa o lugar do moralista, hoje, são os profissionais de marketing ou propaganda. Entre o papel que exercem e aquele exercido pelo moralista de outrora há um regime de similitudes. Também o marqueteiro e o publicitário se dispõem a tornar perceptível um determinado estilo de vida que não prescinde da fama e, além disso, permite um comportamento diferencial: há a possibilidade mercadológica do ser-dito. Tanto o publicitário quanto o marqueteiro (não apenas aquele que se dedica a ajustar a imagem dos políticos, mas também aquele que dá lições de marketing pessoal) ressaltam que a felicidade não é exatamente uma questão de fins, mas sim uma relação de meios e fins, relacional e estratégica. Ambos fazem crer que a felicidade não está na incessante busca (não raramente vazia de sentido), mas, antes, pretendem indicar que a busca é só um meio para um certo pacote de felicidade materializado num exterior que já é mediado como mercadoria - uma felicidade que poderia residir tanto na compra de um amaciante de roupas quanto na de um litro de bebida gaseificada, tanto no bem ajeitar os cabelos de modo a impressionar as pessoas que estão ao redor quanto na forma de dançar de modo que os outros tenham "boa impressão". O moralista, o marqueteiro e o publicitário mediam coisas sem materialidade, mas não menos capazes de causar efeitos: a imaginação, o desejo. A relação que as três figuras mantêm com a felicidade poderia ser apresentada da seguinte maneira: fazem crer que a felicidade nunca está no aqui e agora tal qual é, mas naquilo que pode ser atingido pelo encadeamento de algumas ações (e vale lembrar que a não ação também é uma espécie de ação). E, quando se trata de um espaço em que a capacidade laborativa, muitos dizem, parece ser questão de vida ou morte, as três figuras surgem como portadoras de uma capacidade quase curativa, resolutiva: "compre isso e você terá aquilo", "vista isso e você verá como tudo ficará melhor". A promessa que nos fazem, num primeiro momento, até parece surtir os efeitos desejados. Mas não é permanente. A cisão, o desconforto, o desajuste, em algum momento, se fará notar mais uma vez. Infalivelmente. Sem dó, sem piedade, a cisão há de se expor nua e crua. Diante disso, outros moralistas, outros marqueteiros, outros publicitários poderão aparecer. Na medida em que o encadeamento (valeria também "encarceramento") mercadológico-espetacular depende justamente desse alimento vigoroso que é a cisão, sempre haverá quem diga resolver a questão com pouco esforço. Cabe àquele que ouve decidir se prefere não ver a cisão; ou pensar que é uma cisão pequena, pontual, localizada, fácil de esquecer; ou pensar que a resolução se apresenta além da cisão, seja pela glorificação de uma idéia (deus), seja pela glorificação de uma matéria idealizada (mercadoria); ou... Ou ainda: a cisão está aqui e agora, exposta nua e crua, diante de mim, que estou descabelado, sem saber encadear o discurso de modo eloqüente, sem... outras tantas coisas. Sentir a ferida é já uma felicidade.

Diego Cervelin

é mestrando em Teoria Literária no CPGL/UFSC, sob a orientação de Susana Scramim e com o apoio do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre a relação entre fantasma, epifania e linguagem.

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