porco.jpg

O PORCO LIGHT

 

Em um ensaio intitulado "O DNA espartano", publicado no jornal A Notícia de Joinville em 4 de Setembro de 2005, o governador do Estado de Santa Catarina Luís Henrique da Silveira levanta a questão para a bravura e a força da opulenta cidade-estado grega de forte tradição militar em razão da seleção que era imposta às crianças que nasciam. Aquelas que não se demonstrassem aptas o suficiente, eram livremente mortas porque sua vida poderia significar um perigo à manutenção da polis. Segundo o governador, no entanto, atualmente é possível procurar a saúde espartana com as novas técnicas da ciência, a qual não teria parado de evoluir desde a célebre teoria de Darwin. Neste sentido, diz o governador:

 

Biotecnologia, engenharia genética, manipulação de embriões são alguns dos nomes das novas especialidades que vêm fazendo, com incrível velocidade, o que a natureza levou séculos e milênios para fazer. Quando era menino, na década de 50, meu ao e nossos vizinhos disputavam para ver quem obtinha mais latas de banha, ao abaterem um de seus porcos. Hoje, o chamado porco light é quase só carne e zero de banha. A ciência vem garantindo uma redução fantástica nas perdas agrícolas, não só por oferecer informações precisas sobre o clima, rastreadas da terra do satélite artificial, como também por produzir sementes mais produtivas imunes às pragas.

 

A clonagem já garante a reprodução de espécies homogêneas. Logo, logo, vai também representar uma evolução ainda mais aprimorada dos rebanhos. Os estudos, avançados, do genoma já nos sinalizam para a cura das doenças provocadas pela desorganização celular. Certamente, começará com medidas preventivas, como a vacinação contra Aids, câncer. Mas avançará na cura, em qualquer estágio da doença, pela simples intervenção genética, na recomposição da célula. As pessoas poderão se valer da ciência, para evitar que seus filhos nasçam feios, deformados, deficientes ou idiotas. Ou até mesmo - e essa vai ser a grande questão do século - escolher para que crianças nasçam clones de algum gênio ou adônis. Nesse mundo de notícias tão ruins, esta é a mais alvissareira de todas: a eugenia, doravante, vai ficar por conta dos prodígios da ciência, não da barbárie das adagas.

 

Giorgio Agamben, em Homo Sacer, relembra a carne de porco como objeto de estudo na obra Lectures on the religion of the semites, do autor Robertson Smith, que foi inspirador tanto de Emile Benveniste como de Freud. A carne de porco seria apenas um exemplo do que é muito comum nas religiões semíticas, qual seja, a ambivalência do sacro entre a pureza e a impureza. Em um sentido mais corriqueiro, o porco é visto como insalubre e fedido. Inclusive é considerado tabu no islamismo. Por outro lado, é notório que em boa parte do ocidente o porco simbolize prosperidade, tanto que é o prato preferido nas ceias de reveillon, e também é geralmente a um porquinho que as crianças depositam a confiança de suas primeiras moedinhas. Chegar-se-ia, assim, à conclusão de que a sacralidade está fundada nesta ambivalência entre um pertencimento ao mesmo tempo sagrado e profano.

No entanto, o próprio Giorgio Agamben chega logo após a exemplificar que os porcos que eram mortos pelos romanos podiam tanto ser denominados puri ou mesmo sacres. Portanto, antes de se insistir naquela distinção teológica da ambivalência, e "de contradizer a insacrificabilidade do homo sacer, o termo aqui indica uma zona originária de indistinção, na qual sacer significa simplesmente uma vida matável" (p. 93). Ou seja, há simplesmente um corpo à mercê de um poder de morte e que, segundo Agamben, é a relação que marca o nómos central da política contemporânea, a qual, bem para além dos porcos ou dos lobos, pode ser exemplificada no direito dos pais decidir sobre a vida e a morte de seus varões sem cometer sacrilégio ou homicídio. Esta zona de indistinção representada pela vida nua, que aproxima o homem do bicho, tanto daquele que mata quanto do que é morto, é, assim, por excelência um espaço de exceção dentro do ordenamento jurídico que marca o nascimento da soberania, ou seja, quando uma vida nua específica toma a decisão sobre a sacralidade da vida. No entanto, diferentemente do poder vitae necisque, o soberano é o meio-homem meio porco que é capaz de abarcar toda a vida natural sob seu jugo, para, a princípio, promover a vida dos homens, ainda que ao custo de abandonar os que não se adequam a seus ditames. Estes espaços de exceção são, para Giorgio Agamben o paradigma da política contemporânea, e podem ser melhor observados nos campos de concentração, espaços de suspensão da lei onde todo tipo de barbaridade é possível sem que haja alguma imputação jurídica. Em última instância, linguagem e realidade nunca coincidem. E para sanar esta ruptura é que existem tais espaços os quais não consistem em uma anomalia dentro dos ordenamentos jurídicos, mas simplesmente a força que é capaz de garantir a normalidade necessária às suas permanências.

 

O deslocamento crescente entre o nascimento (a vida nua) e o Estado-nação é o fato novo da política do nosso tempo, e aquilo que chamamos de campo é seu resíduo. A um ordenamento sem localização (o estado de exceção, no qual a lei é suspensa) corresponde agora uma localização sem ordenamento (o campo como espaço político de exceção). O sistema político não ordena mais formas de vida e normas jurídicas em um espaço determinado, mas contém em seu interior uma localização deslocante que o excede, na qual toda forma de vida e toda norma podem virtualmente ser capturadas. O campo como localização deslocante é a matriz oculta da política em que ainda vivemos, que devemos aprender a reconhecer através de todas as suas metamorfoses, nas zones d'attente de nossos aeroportos bem como em certas periferias de nossas cidades. Este é o quarto, inseparável elemento que veio a juntar-se, rompendo-a, à velha trindade Estado-nação (nascimento) - território. (AGAMBEN, 2002, p. 182)

 

A vida nua vira, portanto, o fator político primordial da política enquanto biopolítica. Em tal contexto já não se produz um corpo social a partir de regulamentações que tenham por fim a correção das imperfeições, o que geraria a repressão do indesejado por meios jurídicos. Muito pelo contrário, o soberano promove a vida em geral e abandona toda a potencial diferença. No entanto, o abandono não é algo que se assemelha ao exílio. Isto porque o exílio é algo legalmente reconhecido e que exclui a persona non grata. Já o abandono não afasta, mas aproxima e inclui o homo sacer se bem que dentro de sua própria exclusão. Não é, portanto, por uma pena capital que se contrói o corpo político, mas por uma vida capital, ou seja, a exclusão-inclusiva de uma vida que não merece viver em espaços que igualmente estão e não estão nas próprias cidades ou proximidades, cuja ordem consiste em uma fusão entre direito e fato. Assim, dentro do estado de exceção não existe necessidade de norma, porque justamente não há a possibilidade de imputação de responsabilidade por homicídio, mas mera decisão sobre a vida nua, o que é prática existente em toda sociedade.

É verdade, porém, que essas relações que têm na decisão sobre a vida uma função de soberania não se dão somente em âmbito mais restrito dentro da sociedade atual. Muito pelo contrário, são a principal motivação e estrutura dos estados nacionais os quais assentam-se não mais no homem livre, mas no simples nascimento do vivente. A subjetivação jurídica, portanto, somente pode ser compreendida por um viés que considere uma constante inclusão e exclusão da vida nua para dentro das decisões políticas.

Se for, portanto, observada a soberania como aquilo que decide entre a vida e a morte do homo sacer, pode-se melhor compreender porque a separação constante da carta de 1789 entre direitos do homem e do cidadão não é contingente. O que se evidencia é que no estado nação moderno a vida, muito embora esteja na generalidade submetida ao soberano, pode ser diferenciada a ponto de se estabelecerem distinções entre aqueles que têm um direito efetivo e os que têm apenas uma vida formalmente reconhecida.

Na Alemanha nazista, por exemplo, tinha-se como critério básico para o reconhecimento de um cidadão como autêntico a partir de dois critérios básicos: blot und boden: sangue e solo. No entanto, não é meramente coincidência o fato de que todos os estados nação sejam regidos pela mesma lógica, a saber os institutos de jus soli e jus sanguinis. Este tipo de critério, vale frisar, toma força quando a população passa a ser um problema relevante para o controle do Estado. Quando surge a população, surge também a necessidade de se defini-la a partir de critérios e moldá-la a partir de políticas públicas. O maior problema, contudo, surge não da indagação do sejam os cidadãos, mas do que fazer com os que não são identificados como tal. A partir daí se reconhece o contexto que gerou os direitos humanos bem como as cartas que os tutelam na esperança de que sejam cumpridos.

Contudo, duas dificuldades devem ser sanadas com esta conclusão: a primeira consiste no fato de que, os direitos do homem, ainda que prescrevam um reconhecimento à vida e a direitos básicos, não são efetivamente protegidos, ameaçados ou violados. Como já se salientou, os homens que são tomados apenas em sua vida natural são abandonados. A segunda questão é decorrente da primeira no sentido de que, por mais que alguns sejam apenas formalmente humanos, isto não indica que os cidadãos sejam necessariamente protegidos. Ao contrário, são também potencialmente homines sacri, desde que suas vidas deixem de ter seu merecimento, seja por decorrência de algumas atitudes do sujeito ou mesmo de uma necessidade estatal.

 

As declarações dos direitos representam aquela figura original da inscrição da vida natural que, no antigo regime, era politicamente indiferente e pertencia, como fruto da criação, a Deus, e no mundo clássico era (ao menos em aparência) claramente distinta como zoe da vida política (bíos), entra agora em primeiro plano na estrutura do Estado e torna-se aliás o fundamento terreno de sua legitimidade e de sua soberania. (p. 134)

 

O fato da vida permanecer sempre em questão é, portanto, flagrante na modernidade e, o mais curioso neste contexto é que, justamente por não haver mais alguma figura jurídica de um ser se torna apenas vida nua, tal como o homo sacer, leva à compreensão de que, em vez desta figura ter desaparecido com o tempo, o que aconteceu foi justamente o pior: somos hoje todos homines sacri. Assim, não é porque hoje alguém é tutelado pelo direito que amanhã o será. Um bom exemplo deste tipo de acontecimento pode ser visto nas leis de desnacionalização: 1915 na França, 1922 na Bélgica; 1926 na Itália; e 1933 na Áustria. Neste tipo de decisão, as quais não precisam ser oficiais ou mesmo constar em estatísticas, formam-se corpos supérfluos abandonados à própria sorte e passíveis de morrerem por decorrência de uma decisão de vida e morte, tal como acontecia com os meninos de Esparta ou com os porcos de Roma.

Esse tipo de prática, se olhado pelo lado do poder soberano, aquele que decide o estado de exceção, dá ensejo a uma problemática sobre a potência de decidir sobre a vida e a morte no sentido de que o soberano está ao mesmo tempo dentro e fora do ordenamento, o que significa que a lei, para ser efetiva dentro de um estado de normalidade, prescinde de uma suspensão de seus próprios princípios quando são estes insuficientes: em outras palavras, o direito somente se aplica desaplicando-se. Dois corpos, portanto, tradicionalmente coexistem na figura do soberano. Um corpo é aquele tão matável quanto o de um porco romano, ou seja, mera vida nua e outro, por sinal, transcende o corpo biológico para um plano imaginário que garante a continuidade do nómos. Enquanto o corpo biológico representa um paralelo ao ordenamento, o outro diz respeito a uma infinita potência, que dá ensejo à contingência e à decisão capital. É, contudo, uma potência pura, que não se traduz em ato, ou seja, é a potência de poder ser, imprevisível e justiceira, já que constitui uma decisão que prescinde de lei. O que se revela, no entanto, é, por um lado, um excesso de potência da parte do soberano interessado em criar espaços de bando para toda e qualquer potência que confronte consigo. É neste conflito que o soberano, tão insacrificável como os porcos puri, retira suas energias para continuar a sobreviver. Assim sendo, homo Sacer e poder soberano têm em comum a insacrificialidade

Em "A Revolução dos bichos", George Orwel curiosamente fez dos porcos os dirigentes da fazenda quando os animais se rebelaram. Justificavam que precisavam de mais alimentos que os outros por serem dirigentes e conseguirem com isso regular a vida em comum. Assim, os porcos soberanos exigiam as calorias dos outros animais, o que justamente dava mais energia para que eles continuassem com suas práticas autoritárias.

O poder soberano em nosso mundo atual, é claro, não pode ser identificado diretamente com um corpo ou uma pessoa direta, mas simplesmente na decisão sobre o estado de exceção: seja ela a de um médico, de uma corporação, de um político ou de um policial, somente para se dar alguns exemplos. Portanto, quando o governador de Santa Catarina diz que "as pessoas poderão se valer da ciência, para evitar que seus filhos nasçam feios, deformados, deficientes ou idiotas", e que tal proeza vai ficar por conta dos prodígios da ciência, não da barbárie das adagas, já se pode imaginar qual seja o papel da ciência em tal contexto.

Se o soberano, contudo, é o que decide sobre o valor da vida, "na biopolítica este poder tende a emancipar-se do estado de exceção, transformando-se em poder de decidir sobre o ponto em que a vida cessa de ser politicamente relevante. (AGAMBEN, 2002, p. 149) Tal demonstra que, cada vez menos, o porco é light: a exceção vira a regra e a biopolítica se transforma em tanatopolítica. Cada vez mais existem situações em que a vida nua e a norma entram em espaço de plena indistinção. E é justamente onde menos se espera que tal poder se encontra, visto que, pelo fato de se tratar de uma potência infinita porém com ambições de conservação de um direito cujo uso tem a ambigüidade de promover a vida e instituir o bando, os métodos políticos são erigidos em uma simbiose entre legalidade e abandono em uma sorte de estado de exceção desejado, campo híbrido de direito e fato. Assim, a divisão entre estados totalitários e democracias vai cada vez mais perdendo sua importância. Se ainda se pode fazer distinções, estas se dão por apenas um critério, qual seja, a escolha da forma que melhor se adeqüe para a decisão sobre a vida nua.


AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Tradução de Henrique Burigo. Belo Horizonte: UFMG, 2002.

| | Comentários (1)
(0355) Crudeoil (Bransky).jpg
       Bransky


Conclusões segundo Adelando, o Árabe, número VIII

 

1.      Intelecto agente não é nada senão a parte da alma que permanece acima e não cai.

2.      A alma tem em si as espécies das coisas e é excitada somente pelas coisas extrínsecas.

3.      Como complemento da conclusão precedente, mantida não só por Adelando como por todos os mouros dizem, eu digo que aquelas espécies existem em ato e substancialmente  na parte que não cai e recebe de novo e acidentalmente na parte que cai.

4.      A maior parte das coisas que se nos dão a conhecer em sonho, revelam-se ou pela purgação da alma, ou pelo endemoniamento ou pelo verdadeiro espírito da revelação.

5.      O que Tebit, o Caldeu, escreve acerca da dormência sobre o fígado na revelação dos sonhos será corretamente compreendido se tivermos relacionado com os ditos de Platão no Timeu.

6.      Porque, segundo disse Abdala, ver sonhos é vigor da imaginação, entendê-los é vigor do intelecto, por isso quem os vê de forma muito grandiosa (ut plurimum) não os entende.

7.      Alma é fonte, movimento e governadora da matéria.

8.      Todos os sábios indianos, persas, egípcios e caldeus acreditaram na transcorporação das almas.

tripalium.jpg

Em "A arte de reduzir as cabeças", Dany-Robert Dufour (2007) traz à tona a problemática da impossibilidade na atualidade do encontro evidente de referências. No entanto, muito mais do que uma ausência perante o sujeito, o que mais se evidencia em tal contexto é uma sorte de presença não qualificada por uma relação com uma ausência, mas pura pretensão de completude , ou seja, uma positividade que já não requer pensamento para se afirmar. 

 

Em suma, na pós-modernidade não há mais Outro no sentido do Outro simbólico: um conjunto incompleto no qual o sujeito possa verdadeiramente enganchar uma demanda, formular uma pergunta ou apresentar uma objeção. Nesse sentido, é idêntico dizer que a pós-modernidade é um regime sem Outros ou que a pós-modernidade é repleta de semblantes de Outros, que imediatamente mostram o que são: tão cheios de presunção quanto às tripas. (DUFOUR, 2007, p. 59)

 

Portanto, tal como uma imagem que se demonstra em sua totalidade com uma pretensão absoluta de afirmação e completude, a pós-modernidade corrobora nestes mesmos termos com tamanha pobreza.  Assim, o pensamento dá lugar ao acesso ilimitado ao gozo, que já é pura mercadoria como se fosse auto-suficiente. Mas esta presentificação é também influenciada pela falta de referência no aspecto temporal: esta totalização é acompanhada de uma versatilidade e descartabilidade inéditas, as quais fazem da imagem uma aliada do excesso. No entanto, já não se pode apenas pensar em um excesso que na inutilidade, ou seja, na pura medialidade demonstrar-se-ia potência da linguagem. Muito pelo contrário, ele, por si só, não é imune à tentação da encenação, do enquadramento por um roteiro muito mais perverso que qualquer tentativa moderna de narrativa: a perversão da pós-modernidade não é da ordem do demonstrável. Sendo ela potência contra a potência, por mais que venha no intuito de impor um determinado discurso, tal imposição somente se dá por um vazio, ou seja, pela exceção.

No entanto, ao mesmo tempo em que se vê a imagem como tentativa de auto-suficiência, ela também pode ser lida como gesto, ou seja, apenas quando se suspende o tempo, quando acaba o pensamento teleológico é que se interrompe a cena. Assim sendo, o gesto rouba a cena sem necessariamente romper com ela. Com a paralisia, portanto, há uma irrupção diferente de pensamento, qual seja, a visão do resto. Somente sem a turbulência de um ritmo frenético é que se observa a sujeira que ronda o picadeiro. Dentro de um circo, por exemplo, se os palhaços parassem, o espectador poderia reter sua atenção para lugares outros que não a piada, mas a visão da bosta deixada no chão pelo número de elefantes que precedeu o número presente. Da mesma forma, diante de uma modernidade líquida, a suspensão de narrativas é o que permite observar o resto humano que não se adequa ao normal e quee, portanto, não se qualifica dentro de uma funcionalidade daquele discurso que pretendeu decidir sobre a vida. Assim, o excesso como anestesia, desde que visto como gesto, poderia servir de palco (e apenas de palco) à releitura que faz do excedente promessa de redenção.

No entanto, Susan Sontag em um de seus últimos escritos, chamado "Diante da dor dos outros", faz ponderações consideráveis a seu próprio pensamento precedente, sobretudo o célebre conjunto de ensaios intitulado "Sobre a Fotografia". A autora norte-americana faria um contraponto à idéia de que o excesso de imagens seria a fundadora da impotência e da letargia. Critica a autora posições dos leitores de Guy Debord que deixam de lado a reflexão simplesmente por aderir ao pensamento da impossibilidade do pensamento a partir das idéias do francês sobre a espetacularização de tudo. Da mesma forma, pode-se fazer pontes com as idéias de autores como o anteriormente citado Dufour ou mesmo a também norte-americana Susan Buck-Morss. O fato é que Susan Sontag, que na década de 70 dissertara sobre a fotografia como uma impossibilitadora de assimilação de experiências, sobretudo pelo excesso delas, diz, após os atentados às torres gêmeas, que não se pode desconsiderar o fato de que o fotojornalismo, em certo sentido, possibilitou contrapontos, por exemplo, a grandes narrativas imperialistas e, além disso, serve de ponto de partida a inúmeras reflexões em torno do mundo até hoje. Não se poderia, portanto, generalizar a idiotice. No entanto, qual é o problema acerca da imagem se não é o excesso delas? Entende a autora que o principal é a faculdade dos homens fechar os olhos ou trocar de canal. Assim sendo, a falta de pensamento pelos homens de hoje não poderia ser atribuída apenas à quantidade de imagens, mas em sua decisão de não vê-las. A problematização sobre pensamento e julgamento é que teria deixado de ser levantada, sobretudo em razão de teorias que partem de proposições (aí sim não refletidas) sobre a impossibilidade de assimilação, queda da ação coletiva, etc. Tal pensamento é portanto curioso, seja pela coragem em ir contra grande parte da produção intelectual atual, bem como por trazer à tona uma nova problematização do sujeito.

 

Tornou-se um clichê da discussão cosmopolita em torno de imagens de atrocidade  supor que elas produzem um efeito reduzido e que existe algo intrinsecamente cínico acerca de sua difusão. Por mais que agora se considerem importantes as imagens da guerra, isso não desfaz a suspeita que paira em torno do interesse por essas imagens e das intenções daqueles que as produzem. (SONTAG, 2003, p. 92)

 

No entanto, a autora não chega a escrever muito mais a partir de tal momento. Justamente quando esta traz o problema do sujeito, não desenvolve tal tema como fizera Debord, Buck-Morss ou Dufour. Sem dúvida é de se pensar sobre a queda da questão do sujeito para o pensamento sobre a própria fluidez. Contudo, não há como se desconsiderar o fato de que os dois problemas estão completamente relacionados, tanto o problema da imagem em excesso como o problema do pensamento de menos, para além da ameaça de um novo liberalismo. Não se poderia, por exemplo, deixar de considerar que o excesso de imagens é influência no estabelecimento ou na abertura do próprio sujeito. Em outros termos, as fronteiras entre leitor e texto não são de forma alguma sólidas. Seria um ciclo vicoso, entretanto, descobrir se é o sujeito que funda o texto ou o texto que funda o sujeito.  Portanto, cabe pensar a cultura contemporânea não por uma centralidade no texto, como em uma descuidada semântica, e também não para louvar o leitor, conforme uma predominância da semiótica. Nem discursar por discursar na esperança de algum ato espontâneo e nem mesmo buscar um sentido através da leitura. Talvez seja hora de se considerar simplesmente a leitura, ou seja, discursar sobre manifestações acerca de um vazio, para, quem sabe, perceber além das imagens enquanto palhaçada, o que o cheiro de bosta mais acusa.  

 

DUFOUR, Dany-Robert: A arte de reduzir cabeças. Companhia de Freud, 2007.

SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. Companhia das letras, 2003.

Aconteceu entre os dias 2 e 5 de Setembro o primeiro simpósio "Hermenêutica Ricoeuriana e Teoria Literária" nas dependências do IEL na Unicamp. Acredito ter sido o primeiro evento maior específico sobre as discussões sobre religião, ética e hermenêutica a partir do pensamento do filósofo Francês. Acredito ter sido de vital importância a discussão acerca da narrativa em época carente dela. Obviamente, isto não significa uma volta às referências, mas discutir como se pensou a narrativa em sua crise, ou seja, antes da catástrofe, além, é claro, de ser um primeiro passo para um entrecruzamento entre semiologia e semiótica. No mais, impossível de mencionar as amizades que apareceram no evento: grande abraço Pe. Pedro Paulo! Abaixo um resumo da minha comunicação. Quem se interessar, posso enviar o texto. No mais, qualquer comentário é bem vindo sobre o tema. Por fim, vale a pena salientar o blog que se criou após o evento: paulricoeur.wordpress.com.   



EXCESSO HERMENÊUTICO E O VALOR DA LEITURA

NO PENSAMENTO DE PAUL RICOEUR

 

Duas críticas ao pensamento de Paul Ricoeur podem ser ressaltadas no que diz respeito à interdição dentro da hermenêutica. Uma delas foi aquela de Roger Chartier a qual levantou a questão sobre uma possível pretensão de objetividade na leitura de textos clássicos em Temps et Récit. A outra foi empreendida pelo próprio Ricoeur no sentido de se alertar para os perigos de qualquer totalização narrativa, tal como aconteceria no hegelianismo. Por mais que tais questionamentos tenham seu valor, observa-se facilmente que eles não necessariamente desdizem a teoria de Ricoeur, já que outras leituras sobre os clássicos podem ser realizadas pelo leitor e, por outro lado, a totalização pode salientar as aporias da narrativa em vez de tentar solucioná-las. No entanto, o que acontece quando as aporias tornam-se demasiadamente bem-vindas ou necessárias? Neste tipo de contexto, elas devem enfrentar o paradoxo de que a interdição de leituras não é tão danosa quanto a desdiferenciação, uma vez que o excesso não necessariamente rompe com alguma narrativa maior, mas reforça-a dentro de uma inflação hermenêutica a qual acarreta em uma perda de valor nos meros atos de leitura.

Cumpre pensar, portanto, acerca da relação do ato de ler com a potência criativa. A maior preocupação ao intérprete já não se demonstra o destronamento de uma totalização pela criação-transgressão e que tenha por objetivo a aporia. Muito pelo contrário, pode-se pensar a subversão como tomada da aporia como veículo, sem necessariamente haver total assimilação do resultado, mas apenas afirmação da potência. O ato, neste sentido, abandona a pretensão paradoxal de transgredir e adequar-se à linha do tempo. Deixa, pois, seu caráter cênico para ser tomado como ato-gesto, e que, portanto, rouba a cena. O que está em jogo, neste sentido,  não é fazer das aporias simples alegorias, mas espaço para juízo, ainda que por linhas tortuosas ou pouco convencionais.




quinua real.jpg

"No Altiplano Boliviano, a 3.800 metros acima do nível do mar,o vento gelado,mesclado a pequenas particular de sal,é o primeiro sinal dado pelo Salar de Uyuni ao visitante. Este deserto com seus 12.500 Km.2, onde o frio no inverno chega a 30 graus negativos, é branco como a neve. Seu horizonte é tão nítido e sua atmosfera tão limpa que é possível ver claramente a curvatura terrestre desenhada no azul do céu.É neste lugar, Único no mundo, que nasce a QUINUA REAL (Quinoa), cereal sagrado dos Incas. Qualificada como o melhor alimento de origem vegetal para consumo humano, pela Academia de Ciências dos Estados Unidos e selecionada pela Nasa para integrar a dieta dos Astronautas em vôos espaciais de longa duração, por seu extraordinário valor nutritivo. Investigadores que vem estudando a QUINUA REAL, nas ultimas décadas,constataram, que seu valor nutritivo - só comparado ao leite materno - a converte no alimento mais completo do planeta, muito superior aos de origem animal, como a carne, o leite, os ovos e o peixe."

Este texto foi retirado do site que parece ser da empresa que patenteou a Quinua Real. Maiores informações no endereço eletrônico:

http://www.quinuareal.com.br/quinua.asp









O que são alimentos naturais? Seriam aqueles que se opõem aos industrializados? Neste caso, os sucos em caixinha não podem ser considerados naturais e nem mesmo qualquer "orgânico" que tenha sido embalado. No mais, existem engenhos de farinha há milênios, e, nem por isso, pode-se dizer que os antigos comiam alimentos industrializados. Seriam, portanto, opostos aos alimentos processados? Neste caso a gasolina é mais natural que o suco em caixinha visto que ela passa por uma destilação fracionada, o que é muito simples e poderia, inclusive, ser feito em casa. (E o dia que lançarem bife de petróleo eu serei o primeiro a experimentar) por leigos ao passo que o suco tem uma série de processos químicos a serem realizados.

A Quinua Real nos mostra, ao contrário, que alimentos naturais são os alimentos que são dados pelo divino. É um alimento tão divino que consiste até no segredo dos incas, os quais, de lá obtinham sua força. No mais, é algo tão natural e divino que arroz e feijão já não servem mais, já não são naturais ou divinos por conta da divindade da Quinua Real. O próprio nome já diz: o fato da Quinua ser "real" advém de rei, o qual é sempre aceito e mantido por Deus. No caso dos incas, a divindade do rei está no próprio sol, símbolo, inclusive, de uma das novas fontes energéticas ditas limpas. Portanto, a Quinua Real é limpa, divina e natural.

Isto vem em boa hora em que alguns, por outro lado, evitam comer o divino, como acontece com os vegetarianistas veganos, os quais não comem nenhum animal, apenas frutas caídas, fungos, etc. Curioso é de se notar que a apreensão da fruta não foi na tradição hebraica o que levou os homens ao paraíso. Muito pelo contrário, foi o que os retirou de lá. A diferença entre Adão e Eva e os veganos está no fato de que os primeiros retiraram o fruto e os segundos esperam o fruto ser dado pelos deuses.

Muito embora a Quinua Real seja retirada ainda enquanto é viva, isto não fica muito claro ao consumidor, restando uma dúvida ou ao menos uma esperança sobre a sua procedência divina e, por outro lado, ela é um vegetal que contém toda a essência nutritiva da animal sem ter natureza animal, por isso sua natureza é realmente divina. Ela é, portanto, o que junta o natural ao divino. Não é à toa que ela é o alimento dos astronautas, os homens que mais se aproximam das possibilidades de Deus.

Há um pequeno problema: A Quinua Real é cara. Muito mais que o simples arroz e feijão. Assim, somente poucos podem se salvar. Isto seria muito interessante se aqueles que têm recursos pudessem se gabar da Quinua e o preço dos outros alimentos caísse em virtude de seu reconhecimento como mundano ou como alimento industrializado. No entanto, isto não é o que acontece. Ao contrário, há uma constante busca pela divinização da natureza dos alimentos. Antes eram os leites concentrados (em pó), depois os lights, depois os orgânicos e recentemente a Quinua Real parece ser o top de linha, aumentado ainda mais os preços dos alimentos em razão da crença na salvação. Talvez seja a hora de dar ao natural o seu verdadeiro valor. Reconhecer a naturalidade e não a divindade do natural. Aliado a isto, também se poderia pensar na naturalidade do cultural, o que abarca tanto os alimentos industrializados (que poderiam ser ditos culturais) como, por exemplo, outros compostos naturais, a exemplo do biodíesel e do petróleo (que ainda não é alimento mas é natural). Do contrário, acontence o que assistimos: preços nunca vistos (uma valorização inédita) tanto dos alimentos como dos derivados de petróleo. Ambos estão portanto interligados porque são natureza divinizada, seja ela mortal ou imortal.

A boa notícia consiste que essas fronteiras caras ao poder entre o cultural (industrial) e o divino vêm sendo constantemente relativizadas na prática. Tome-se o exemplo de que recentemente um carro cruzou o país com óleo de cozinha (soja) com uma pequena adaptação no motor. Além disso, é do domínio de todos como os polímeros acabaram tomando o lugar da proteína natural chamada celulose: o plástico substituiu a madeira. Achar, portanto, o natural do arroz, da gasolina, do biodíesel e da Quinua Real soa como uma desativação da divindade, seja ela Deus (Quinua) ou o homem (petróleo) e, sobretudo, a desativação da força que opera esta separação. Quem sabe, assim, os preços de ambos os produtos pudessem ser terrenos. Um desvirtuamento completo poderia ser feito para agradar aos seres viventes e não mais para sustentar os carros ou os astronautas.


Uma conexão intempestiva: a política experimental de Rui Barbosa e Mangabeira Unger


Rui Barbosa, em seu livro intitulado Teoria Política, o qual à primeira vista parece mais um dos manuais jurídicos tão comuns hoje em dia com suas definições prontas a serem decoradas, logo nas primeiras páginas descreve como a política é essencialmente experimentação.

 

A política não é a ideologia , nem a estética. Não pode ter nem as abstracções ideais da metafísica, nem a inflexibilidade rectilínea e absoluta da dialéctica dedutiva, nem as combinações simétricas da arte. É, por excelência, entre todas, a ciência experimental. Freqüentes vezes, portanto, sucederá que os seus resultados actuais figurem de contraditórios ou desconexos, quer porque os elementos da indução não sejam suficientes para estabelecer a fórmula definitiva da verdade, quer porque entre esses dados superficialmente opostos esteja por descobrir ainda a lei de harmonia interior. (1)

 

Além de ser uma especulação pura, reconhece o autor, a política trabalha sempre com pontos de vista divergentes e, por vezes, contraditórios. Logo na página seguinte ele chega a dizer mesmo que a política como radicalismo deve ser vista como "um elemento de ordem, um princípio de paz", que, ao mesmo tempo em que vai impossibilitar que algum os extremismo particular triunfe, vai ser a mola propulsora do espírito revolucionário quando o marasmo se instala.

Isso é algo que, contudo, não é privilégio do debate entre homens políticos, mas um elemento de fundamentação pluralista da própria atividade do político. Basta ver como Rui Barbosa em certas épocas era conservador, em outras positivista, posteriormente socialista, etc. Poder-se-ia, portanto, haver uma outra leitura do fato de uma série de intelectuais brasileiros, tais como o próprio Rui ou Pontes de Miranda, utilizarem descabidamente uma série de teorias divergentes para o desenvolver de seu pensamento.

Se a política é experimentação, a qual, segundo Rui, não se conhece a lei de sua harmonia interior, talvez porque ela ainda estivesse para ser descoberta, o ministro e professor Roberto Mangabeira Unger, entende que não temos nenhuma possibilidade de explicação verossímil das estruturas institucionais. Nem por isso ele deixa de associar a política à experimentação.

 

O projeto democrático, liberto tanto de otimismo dogmático quanto de pessimismo dogmático, é o esforço de identificar as estruturas práticas que se situam na área de coincidência possível entre as condições de progresso material e as condições de independência individual; a esperança de encontrar essa área de coincidência faz sentido porque tanto o progresso material quanto a liberação do indivíduo dependem da aceleração do aprendizado coletivo pelo experimentalismo prático. Ambos exigem que sujeitemos práticas sociais a um ajuste experimental, e que avancemos em direção àquelas práticas que nos encorajam a ajustá-las cada vez mais. (3) (grifei)

 

Unger, contudo, chega a alertar para o fato de que esse experimentalismo não pode se ater a um fetichismo institucional, ou seja, esperar que as mudanças se dêem de forma verticalizada a partir de planos ou de humanismos. Também não é algo que acredita em uma espontaneidade da sociedade ou mesmo da tão acreditada solução nas agremiações ou identidades coletivas, as quais são apenas teimosia de diferença. Não. A única capacidade que identidades coletivas têm de produzir diferença real seria nas mudanças estruturais. A título de ilustração, cumpre relembrar o exemplo dado pelo autor sobre a propriedade, a qual, deve, ao invés de reproduzir em larga escala a socialização da propriedade individual, dar lugar a direitos de propriedade fragmentários, condicionais e temporários, garantindo a gestores, entidades, fundos sociais ou pequenos empresários a possibilidade de gestão circunstancial, o que não deixa de ser uma experimentação.

 

Cumpre saber se a conexão entre possibilidade e utopia defendida por Unger e Rui Barbosa, pensadores tão distanciados no tempo cronológico, pode ser tomada como um exemplo de uma teoria política brasileira. Curiosamente, se isto fosse tomado como um modelo político já entraria em contradição com seus propósitos. No entanto, essas experimentações no tempo do seqüestro da experiência enquanto atitude poderiam ser muito bem vindas em tempos realistas e pragmáticos na política brasileira. Faz-se lei de forma circunstancial e em decorrência de fatos específicos e, por outro lado, nota-se que as discussões políticas da população somente são repeteco de discursos de radicalização do aparato estatal para conter a realidade, compreendida exclusivamente como violência. A experimentação, quem sabe, pode ser uma alternativa à incapacidade de se reconhecer representações artísticas que sejam atos de mudanças, ou seja, pode fazer pensar sobre a possibilidade da mudança de estruturas sem que se tome por base modelos os mesmos modelos racionolóides. 


(1) BARBOSA, Rui. Teoria política. São Paulo: W. M. Jackson, 1964, p. 3.

(2) UNGER, Roberto Mangabeira. O Direito e o futuro da democracia. Tradução de Caio Farah Rodriguez e Marcio Soares Grandchamp. São Paulo: Boitempo, 2004,  p. 16-17.



oleo-lubrax9.jpg

Já não há atleta que, por esforço individual, possa simplesmente fazer bonito em Pequim no próximo mês. É indispensável a eles um investimento modesto a novas tecnologias as quais podem permitir uma maior aderência ao solo (tênis), uma maior mobilidade na água (aquelas roupas para a natação) ou uma boa bicicleta com pneus muito finos para a redução do atrito. Ou seja: o atrito deixa de ser o problema central do desperdício de energia. Muito pelo contrário, a culpa está na capacidade do atleta em produzir líquido sinovial, aquilo que lubrifica as suas juntas. Em último caso, a culpa está no DNA defeituoso ou, nos casos mais brandos, em uma dieta inadequada. Nesse contexto, a preocupação não é com a força ou mesmo com alguma estratégia de pensamento, mas na capacidade das articulações suportarem os duros treinamentos com a velocidade e o aumento dos movimentos produzidos pelas próteses. Até mesmo no futebol. Quem pensa é o técnico, quem monta o time é a diretoria. A função do jogador é treinar muito para poder ganhar e somente em alguns instantes-já é que ele pode se arriscar a ser criativo. Se ele acerta é herói e, se erra, é um sem-profissionalismo. Mas sempre no final quem fica com o joelho seco e estourado é o jogador, tome-se como exemplo o Ronaldo, o fenômeno. No tênis, temos o Guga. Enfim, são esses com problemas no líquido sinovial os que já não agüentam a repetição dos movimentos e a velocidade das conexões.

 

Segundo Peter Sloterdijk "os participantes do novo jogo mundial da era industrial não se definem através da 'pátria e solo, mas de acessos a estações ferroviárias, terminais aéreos, possibilidades de conexões. O mundo para eles é uma hiper-festa conectada." (SLOTERDIJK, p. 60) Portanto, nunca é uma questão de força ou talento, mas de lubrificação para que a máquina funcione. Os caminhoneiros no Texas põem óleo no motor, as prostitutas da Holanda têm lubrificante íntimo para possibilitar um aumento na quantidade de trabalho e os atletas dependem do corpo para produzir o líquido sinovial. Muito mais interessante seria a liberação das próteses para a quebra de recordes, a exemplo das pernas mecânicas que se demonstram muito melhor do que as humanas para as corridas visto que elas dão um maior impulso a cada passo e, sobretudo, não doem se começarem a enferrujar. (aliás, isso não deve acontecer muito porque elas são de fibra de carbono, muito provavelmente).  "O homo sapiens, é super-exigido pelas grandes civilizações, caso não consiga produzir próteses simbólicas e emocionais para a movimentação em grandes espaços". (SLOTERDIJK, p. 69-70)

 

Sloterdijk, no entanto, diante da inevitabilidade da produção de próteses, aposta na renovação, o que dá na reprodução, em larga medida. Para ele, cumpre se repensar a renovação constante do homem vez que hoje ele é um "homem sem retorno", mas reconhece que o homem é o consumidor final de si mesmo e suas chances. Ele teria que repensar como continuar a viver apesar da ameaça da exaustão. É neste tipo de mundo que noções como crescimento sustentável têm uma relevância inédita.

Contudo, antes de se apostar neste tipo de empreitada, alerto para o fato de que sair da repetição não é algo mágico ou que se dê pela conscientização, ainda que após os sintomas de reumatismo. A prótese não permite nenhuma sensibilidade, basta observar a tela do cinema, a qual não deixa de ser uma prótese sensorial. A repetição dos movimentos acaba com uma anulação da individualidade de cada passo. O passo não importa, mas sim a corrida; depois a maratona; e depois as aventuras (essas sim heróicas) como aqueles malucos que querem atravessar oceanos a nado em uma busca desenfreada para se dar um sentido à singularidade de cada movimento. Mas que não chega nunca. E não há como se fugir. A repetição e aumento dos movimentos parecem somente afastar cada vez mais. O stress das juntas somente impede o atleta de demonstrar que seu DNA é perfeito, ou seja, autenticamente humano.

 

Questiono-me, no entanto, porque ele não reivindica também o bicho. A repetição "dyferenciada" da cena (um passo além e levemente diferente do outro) passa a "diferonça", neologismo de Viveiros de Castro para uma eventual compreensão perspectivista da différance de Derrida. E não é preciso ir muito além para tanto. A roupa do nadador é constantemente tida como pele de tubarão, a perna mecânica que melhora a corrida é canguru e a nova revelação do futebol é um pato. Mas ser bicho não acarreta ver-se como bicho, mas como gente, gente autêntica. E os outros, antes pseudo-fortes, podem passar a ser bichos, o porco capitalista, o cachorro, o rato, a vaca, todos enfim já tiveram uma animalização de outro, para bom ou para mal. Mas é justamente nesse tipo de julgamento que mais nos sentimos gente. Portanto, a reivindicação da vida animal já quase não sentida no corpo, mas  para dentro da política talvez seja a única possibilidade de gestão do homem, e não uma aposta na reprodutibilidade daquilo alcançado pelas próteses. Não adianta querer fazer do líquido vital para substituir o a deficiência de lubrificante o que provém da ejaculação. A cópula de hoje é mesmo lubrificante e preservativo também lubrificado, e não há o que fazer. E se não vemos mais sentido naquilo que nos espera na cama, então que os lubrificantes nos deixem continuar com nossos gestos, mas que possamos, pelo menos, transar como coelhos. 

 

 

REFERÊNCIA

 

SLOTERDIJK, Peter. No mesmo barco: ensaio sobre hiperpolítica. Tradução de Cláudia Cavalcanti. São Paulo: Estação liberdade, 1999.

viatura-policial-santos-x-consolacao_01_r.jpg

Recentemente entrou em vigor a "lei seca", a qual, conforme consta, dá penas muito mais duras para os motoristas que tenham consumido qualquer quantidade de álcool. Muito melhor do que eu relatar o que ela dispõe, é dar o link direto para que todos os leitores possam lê-las. Trata-se da lei 11.705, número que raramente apareceu nas notícias de jornais. O endereço é o seguinte:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11705.htm

 

Entre outros dispositivos que modificaram o Código de Trânsito, destacam-se os seguintes:

 

"Art. 165.  Dirigir sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência: 

Infração - gravíssima; 

Penalidade - multa (cinco vezes) e suspensão do direito de dirigir por 12 (doze) meses;

 Medida Administrativa - retenção do veículo até a apresentação de condutor habilitado e recolhimento do documento de habilitação.

Art. 276.  Qualquer concentração de álcool por litro de sangue sujeita o condutor às penalidades previstas no art. 165 deste Código.

 Parágrafo único.  Órgão do Poder Executivo federal disciplinará as margens de tolerância para casos específicos." (NR) 

É curioso de se notar como novamente se tenta redimir a falha da aplicação da lei anterior através de uma nova lei muito mais dura. No entanto, onde fica a proporcionalidade de tudo isso? Um casal que tome cada um uma taça de vinho em um restaurante já está sujeito a perder a CNH, Uma multa de R$900,00 e, ainda por cima, ter seu carro apreendido e, dependendo da situação ser preso, já que são ambos potenciais assassinos. A culpa já não está, portanto, em ter se embriagado, mas em  possivelmente se embriagar já que não seria lógico dizer que a antiga lei permitia a bebedeira ao volante. Proíbe-se que se beba duas latinhas de cerveja porque supostamente o motorista, ao bebê-las estará disposto a beber a terceira. O que a nova lei pretende, ao instituir o zero, é garantir o medo do motorista em ser preso, e não fazê-lo arcar com a sua irresponsabilidade. Já que nunca se aplicou de forma séria a lei antiga, talvez até funcionasse essa nova lei em diminuir o numero de acidentes (duvido, no entanto, que um dia esses números saiam). Mas vem a pergunta: duas latas de cerveja justificam que alguém pague quase mil reais, perca a habilitação, tenha seu carro apreendido e vá preso? Independentemente da posição que se tome, não se pode negar que a lei hoje já não parte do pressuposto da responsabilidade pela lei, mas da prevenção vertical visto que, ao sujeito, já não se possibilita a possibilidade de ter responsabilidades, ou seja deveres. Previne-se seu comportamento porque sua culpa não está em seus atos, mas em existir.  

 

 

 

Em uma postagem anterior cheguei a afirmar que estávamos no ápice da sociedade light. Agora tenho de me corrigir porque o termo mais novo é ZERO. Isto porque o light significa uma perda de prazer em troca de um bem estético, ou seja, o gosto é horrível e politicamente correto. Em outros termos, perde-se gordura imediata em troca de um câncer futuro causado pelo aspartame. O Zero, contudo, é algo que supostamente evita a absorção de calorias sem haver nenhum gosto diferente do normal. Não é, portanto, uma Coca que não engora, mas uma autêntica Coca que não é coca. Uma Coca que já não é amarga e, ao mesmo tempo, não tem nenhuma quantidade de substância malévola. O problema todo se demonstra na briga entre o 1 (algo) e o 0 (nada). O light eu entenderia como  ½.

 

 

A Lei 11.705 é ZERO porque o zero só é possível em uma sociedade que não mais conheça direitos e deveres, mas simplesmente conforto de um mundo já dado, limpo, seguro e regular. Somente uma massa estúpida e politicamente correta é que, além de abdicar de seu prazer, impede o prazer alheio. A massa, portanto, goza em sua monotonia. A sociedade atual, assim, não pode ser definida como light, porque o light abdica de uma parcela de gozo para viver com suas manias e ter o mínimo de prazer. O light é (1/2), mas meio já é algo, já é uma fração de 1. Já na sociedade zero, o maior valor é o nada, já não sabe mais o que é prazer (prazer, diferentemente de gozo, acarreta em responsabilidade). Ela apenas obedece o que parece proteger sua vidinha e apaziguar seu medo.

 

Mas nem tudo é tão fácil assim, porque, na proliferação desenfreada de leis dada por novas normas, interpretações assistemáticas e decisões paranóicas, a Lei perde seu valor. Dois destinos parecem estar dados às leis feitas às pressas e que são decorrências diretas dos fatos: ou ela não "pega", e assim chegaríamos em uma Lei Zero, ou ela servirá para gerar propinas como nunca se viu neste país, o que geraria uma força de lei sem lei, ou seja, pura decisão corrupta de um agente do estado (policial) cuja fundamentação está assentada sobre algo muito simples: NADA.




Entrevista com Jesrael Nascimento Costa

passarinho.jpg

 

A equipe de "Quarentena: o que sobrou do Limbo" conseguiu entrevistar o ex-aluno do curso de direito da UFSC Jesrael Nascimento, o filósofo, como ele mesmo já se intitulou algumas vezes. No entanto, por mais que se possa querer entendê-lo como uma personalidade ímpar que já não mais freqüenta o campus universitário em Florianópolis, ele não quer ser visto como mais uma figura, ou seja, não deseja ser figurado. Entre discussões que vão desde a queda da academia ou do movimento estudantil, Jesrael ainda está em forma e pela causa, muito embora sua maior riqueza esteja em não objetivar o aflorar de suas ações. Pela causa, mas sem saber ao certo o que ela é.

 

 
Quarentena. Por mais que assine como filósofo, é realmente neste papel que você se vê? Digo isso porque você, como se diz leitor de Nietzsche, deve saber os absurdos que se realizaram em nome da filosofia...


Jesrael. Sim, essa é a própria saga do Ocidente. Desculpe-me, você pode continuar a pergunta...


 
Q. Bem, por mais que Nietzsche diga querer filosofar com um martelo, para destruir a metafísica que marcou toda a filosofia, você não acha que reivindicar o papel de filósofo já não se trata de assumir uma identidade ou, pelo menos, uma posição conservadora? O pensamento precisa ter esse status de filosófico para ser realmente determinante?


J. Para ser considerado determinante sim, como a própria palavra já sugere. Vejo que sua pergunta já tende em relacionar a filosofia com a necessidade de auto-imposição dentro de um ambiente filosófico, o que não faz de mim o conservador aqui. [risos]  Mas, ao se ampliar tal pergunta, acredito que essa imposição seja primordial, mas não necessariamente dentro do contexto das academias ou, se preferir, dentro da própria filosofia como instituição. Muito pelo contrário, o pensamento se dá onde menos se espera. Lá no beco obscuro ele pode estar. Num ringue ele pode estar. Na cama, principalmente, é onde se cria e se destroem as maiores idéias. A segunda guerra mundial, como já afirmei, não foi a vitória ideológica da democracia. Ela foi resolvida na cama pela espionagem. Neste sentido, custa a pensar em uma filosofia do martelo e do soco. Mas o que está em questão é meramente terminologia. Enquanto filosofia-frescura, ela somente tem espaço morto na morta academia. Por outro lado, a filosofia-soco é algo que não se põe separada do corpo, e, por isso, ela é potência, imposição e destruição de cânones.  

 
Q. Com relação à academia, são notórios os seus problemas com essa instituição, o que ficou claro com a suspensão ilegal de sua matrícula ou mesmo com a sua prisão dentro de uma sala de aula. Você acha que o pensamento já é algo incompatível com a academia?


J. Novamente aqui tenho que alertar para a importância do corpo, neste caso da construção da universidade. Dou como exemplo o fato de, mesmo após ter meus direitos usurpados por vampiros, não desisti de freqüentar o espaço da Universidade Federal de Santa Catarina. Aliás, continuei por muito tempo um profundo contato com os estudantes. Já escrevi muitos textos para os calouros que começam a freqüentar o curso de Direito daquela instituição e sempre mantive um certo círculo de amizades e discussão. Então, voltando à questão, o que se observa é o potencial da Universidade como prédios e muros, mas jamais se pode acreditar na falsa idéia de que por lá surgem idéias, até porque num ambiente de tanto stress e viagra não existe a condição de se sentir os problemas para serem pensados.

Mas tenho aqui que alertar para o fato de que faz todo o sentido a suspensão da minha matrícula e mesmo a minha prisão dentro de uma sala de aula. Isto porque, se formos parar para pensar, seria muito mais fácil àqueles vampiros me aturarem por mais seis meses até que eu me formasse em vez de suspender a minha matrícula no processo administrativo no qual fiz papel de K. Ou seja, eu já poderia ter me graduado e assim eu nunca mais apareceria por lá. O que a princípio poderia levar a crer que eles me odeiam, na verdade é um sintoma de que eles precisam de mim por perto para acabar com o pensamento de uma vez por todas. Eu tenho certeza de que eles precisam de mim por perto porque só assim sua estratégia funciona. Explico-me melhor. Como os dinossauros têm um cérebro do tamanho de uma ervilha, eles precisam dos passarinhos, que trazem o verão. Nisto, tiram a liberdade do passarinho e usam-nos como semeador de novas plantas e, ainda por cima, garantem que os novos ovos, em vez de passarinhos, gerem dinossauros. Seria perigoso para eles deixar eu ir embora. Eles querem mais é que eu fique lá falando e enchendo o saco para poderem dizer que estão em uma disputa com as minhas loucuras. E, dentro dessa disputa, eles teriam a impressão de que sairiam vencedores até porque têm todo o apoio da medicina para dizer que eu sou esquizofrênico. Mas eles não vêem que não há disputa nenhuma. Eles não estão em condições de discutir nada porque dinossauros não conseguem conversar com passarinhos. Primeiro porque não pensam e segundo porque são fósseis, já não têm nada a acrescentar. Se eu me pusesse a cumprir o papel a que me destinaram, nada em nenhum dia chegaria a lugar algum. Eu estaria eternamente condenado ao limbo desse "processo" e às discussões factóides que seriam, no máximo, masturbação mental. Portanto, entre o fantasma da desdiferenciação e a liberdade de ser indiferente aos dejetos dos dinossauros eu preferi partir para lá não mais aparecer. Por isso nunca mais voltei à UFSC. E também por isso eles devem pensar que venceram. Prefiro rir sozinho de longe e ver o circo pegar fogo já que agora, segundo escutei, são os próprios professores que se brigam já que não há mais Jesrael ou aluno algum que subverte os propósitos do que sobrou da universidade. Todas as manifestações de lá por parte dos estudantes já cheiram mofo porque eles tendem à negociação, ao consenso e, sobretudo, têm um objetivo já traçado. Toda vez que já se conhece o fim, você está cavando a própria cova.

 

Q. O que você acha dos alunos fazerem de você um mito?

J. O pior aconteceu. Alguns dizem que eu sumi, outros que eu morri. Isso não me incomoda. O que me mata (figurativamente) é saber que algumas lendas começam a surgir, do tipo: "o Jesrael espancou um cara na padaria", "o Jesrael apareceu pelado na janela do prédio do meu amigo", etc. Não que alguns dos atos que se contam não tenham acontecido. O fato é que fora de um contexto eles nada dizem. Mas ainda bem que não digam, o problema é que pegam atos que nada dizem para colocar como ilustração às suas meras vidinhas de mauricinhos e patricinhas. Pior que não entender meus atos é fazê-los como ilustração de podres histórias de vida. E assim justifica-se a entrada do calouro no rebanho.

Nunca quis ser ouvido. Pouco me importa se os calouros leram ou não leram meus textos. O que importa é como ele reagiu a isso. Se o cara me desse um soco, eu já teria a certeza de que tem alguém de valor ali perto. Mas simplesmente fazer que me escuta para aparecer ao meu lado um pouco e se achar alternativo e, na hora da verdade, "dar um creu" por trás é o que mais é perigoso.

 
Q. E o seu círculo de amizades?


J. Ah, descobri quem realmente são. 90% estavam comigo para fumar maconha de graça e outros 10% para conversas banais, porque toda conversa séria é banal.

 
Q. Mas ninguém então valeu a pena?


J. Não foi isso o que eu disse. Aqueles que valeram a pena não merecem nem mesmo entrar no cálculo. Eles são muito mais do que estatística, aliás. Estatística é algo muito  bom para se lidar com rebanho, e só. Sobre os fortes não se pode nunca falar de maneira generalizada, isto seria retirar deles a singularidade de suas ações.

 
Q. Mas e aqueles que chegaram a defender você algumas vezes? Os comunistas, por exemplo, chegaram a levantar a bandeira contra a sua prisão.


J. Os comunistas estavam fazendo da minha prisão um factóide. Pior: para eleiçõezinhas de centro acadêmico. Como se pode observar, eles tinham um objetivo duro em seus atos (...que cheiro de mofo...) e também pude falar sobre eles de maneira genérica, o que já pode levar à conclusão do que eu penso sobre eles.

Do mesmo eu posso falar sobre o movimento estudantil. A diferença é que eles chegaram à exaustão de suas reivindicações, o que levou à letargia. Ou seja: trocaram a luta política quixoteana por uma vontade de nada. Basta observar como os grupos de Ioga aumentaram no campus da UFSC depois que o movimento estudantil começou a decair. Há quatro anos, quando entrou o reitor antigo, houve manifestações. Nesta última posse para reitor, contudo, não houve nada. Mas as aulas Ioga extra-curriculares estão bombando. Para não dizer que não estou muito pessimista ou até mesmo conservador, posso dizer que fiquei muito entusiasmado quando agora soube que existe à noite na UFSC um grupo que treina boxe ao ar livre.

 

 
Q. Então nem tudo está perdido? Como você acha que o seu legado pode ter influenciado ou ainda influenciar a juventude?


J. Não quero ser lembrado por minhas posições pessoais ou mesmo por minha biografia. Aliás, ninguém quer. De quê adianta, por exemplo, agora falarem do caso do Ronaldo o fenômeno com os travestis? O que eu quero saber é se ele consegue ainda fazer gols... Isto demonstra se ele é forte ou fraco, velho ou moço. Não que eu diga que a biografia nunca influencia nas ações e principalmente nas idéias das pessoas. Mas simplesmente acredito que a juventude deve, antes de discutir o que é juventude ou sobre sexologia, ser jovem e fazer amor. Não o amor platônico, mas jogar com as diferenças que porventura ainda possam existir. Ainda existem belas mulheres, então o mundo ainda não está perdido.