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Em 1918, durante a Primeira Guerra Mundial - quando a possibilidade de morte em campo de batalha se disseminou, ao menos virtualmente e pela primeira vez, para o mundo inteiro -, Eugenio D'Ors escrevia um aforismo não pouco sugestivo para a contemporaneidade: A paz é um domingo. A guerra, uma cadeia de dias laboriosos. O que importa é que a essência dominical se difunda por toda a semana. Talvez não seja inoportuno lembrar que Eugenio D'Ors era um espanhol bastante estudioso do barroco e, como tal, familiarizado à história da vida cortesã do Siglo de Oro. Um pouco apressadamente até poderíamos dizer que a corte é o espaço de um eterno domingo e, por isso mesmo, uma época dourada. Ao cortesão basta preocupar-se em manter a boa fama diante do rei e de seus semelhantes. Em primeiro lugar, vale ressaltar que a fama só pode existir como segunda natureza que se estabelece no âmbito da linguagem. Cada pessoa possui fama na medida em que é dita de tal ou tal maneira e, assim, a fama de alguém, sem ser exatamente a emanação de qualidades próprias, acaba sendo uma espécie de aura identificadora que os outros colam ao corpo da pessoa (et. persona, máscara) dita. No espaço da corte, o moralista ocupa um lugar privilegiado. É ele quem ensina aos outros os mecanismos para ser dito ou fazer-se dizer de uma tal maneira, caso a caso, que a fama resultante seja vantajosa e capaz de permitir a manutenção do status quo e, em última instância, da própria vida. Ao fazer isso, o moralista da corte é portador de uma promessa de felicidade: ter boa fama é ser, de alguma maneira, disposto à possibilidade de ser feliz. Isso porque, gozando de má fama, um cortesão bem poderia ser identificado como malévolo criminoso e, diante disso, padecer suas últimas horas sobre o cadafalso ou no subterrâneo de uma masmorra. Mas quando todos dependem de seu ser-dito (a fama) para manterem a existência materialmente física já estamos diante daquilo que Hannah Arendt chamou de labor e, assim, a corte deixa de ser um domingo, pacífico, para se transmutar na sucessão infindável de guerras - cortesãs. E, não por acaso, em um dos fragmentos de suas imagens do pensamento, Walter Benjamin nos apresentava a cortesia como, de fato, um meio belicoso, mas não exatamente um meio mortífero, especialmente porque garantia ao adversário o direito a uma segunda chance. Quem ocupa o lugar do moralista, hoje, são os profissionais de marketing ou propaganda. Entre o papel que exercem e aquele exercido pelo moralista de outrora há um regime de similitudes. Também o marqueteiro e o publicitário se dispõem a tornar perceptível um determinado estilo de vida que não prescinde da fama e, além disso, permite um comportamento diferencial: há a possibilidade mercadológica do ser-dito. Tanto o publicitário quanto o marqueteiro (não apenas aquele que se dedica a ajustar a imagem dos políticos, mas também aquele que dá lições de marketing pessoal) ressaltam que a felicidade não é exatamente uma questão de fins, mas sim uma relação de meios e fins, relacional e estratégica. Ambos fazem crer que a felicidade não está na incessante busca (não raramente vazia de sentido), mas, antes, pretendem indicar que a busca é só um meio para um certo pacote de felicidade materializado num exterior que já é mediado como mercadoria - uma felicidade que poderia residir tanto na compra de um amaciante de roupas quanto na de um litro de bebida gaseificada, tanto no bem ajeitar os cabelos de modo a impressionar as pessoas que estão ao redor quanto na forma de dançar de modo que os outros tenham "boa impressão". O moralista, o marqueteiro e o publicitário mediam coisas sem materialidade, mas não menos capazes de causar efeitos: a imaginação, o desejo. A relação que as três figuras mantêm com a felicidade poderia ser apresentada da seguinte maneira: fazem crer que a felicidade nunca está no aqui e agora tal qual é, mas naquilo que pode ser atingido pelo encadeamento de algumas ações (e vale lembrar que a não ação também é uma espécie de ação). E, quando se trata de um espaço em que a capacidade laborativa, muitos dizem, parece ser questão de vida ou morte, as três figuras surgem como portadoras de uma capacidade quase curativa, resolutiva: "compre isso e você terá aquilo", "vista isso e você verá como tudo ficará melhor". A promessa que nos fazem, num primeiro momento, até parece surtir os efeitos desejados. Mas não é permanente. A cisão, o desconforto, o desajuste, em algum momento, se fará notar mais uma vez. Infalivelmente. Sem dó, sem piedade, a cisão há de se expor nua e crua. Diante disso, outros moralistas, outros marqueteiros, outros publicitários poderão aparecer. Na medida em que o encadeamento (valeria também "encarceramento") mercadológico-espetacular depende justamente desse alimento vigoroso que é a cisão, sempre haverá quem diga resolver a questão com pouco esforço. Cabe àquele que ouve decidir se prefere não ver a cisão; ou pensar que é uma cisão pequena, pontual, localizada, fácil de esquecer; ou pensar que a resolução se apresenta além da cisão, seja pela glorificação de uma idéia (deus), seja pela glorificação de uma matéria idealizada (mercadoria); ou... Ou ainda: a cisão está aqui e agora, exposta nua e crua, diante de mim, que estou descabelado, sem saber encadear o discurso de modo eloqüente, sem... outras tantas coisas. Sentir a ferida é já uma felicidade.

Conta-se que, um dia, um dos membros da corte de Luís XIV disse que o rei dançava mal nas óperas-ballets que se sucediam sem fim em Versailles. Luís XIV fazia de tudo para se mostrar o melhor bailarino da corte. Não que exatamente fosse - também não há mais como saber. Mas dispunha de compositores (Jean-Baptiste Lully, por exemplo) e de dramaturgos (Molière, por exemplo) que o impulsionavam ao palco nos papéis principais de seus dramas mitológicos: Júpiter, Netuno. Vale lembrar que da boca de Luís XIV também saiu aquela máxima do Antigo Regime: "O Estado sou eu". A resposta ao comentário do desafortunado cortesão foi, como não se poderia esperar de modo diferente, a detratação pública, pessoalmente infamante. Deve ter parado na Bastilha ou em algum cadafalso. Tome-se essa pequena rememoração por uma alegoria - meio carnavalesca, é verdade. Mas ela nos toca em um elemento bastante cotidiano: a reação. Reagir é uma ação de segunda ordem e que se coloca diametralmente oposta a um vetor ativo anterior. Se a ação que dá ensejo ao "desfile" é desestabilizante, a ação que responde como "reação" visa a manter a estabilidade inicial, o status quo ante, como diriam os juristas. E, como tal, a reação não alonga um debate. Antes disso, a reação prefere fazer cessar um debate através de um corte. Nesse caso, não se cortam exatamente as palavras, mas sim, mesmo que simbolicamente, a cabeça que as profere. O reacionário procura transformar a ação inicial em tonteria, besteira, sandice inconseqüente, coisa de "pirralho" sem coerência . Mas é difícil o reacionário agir de nome próprio, de peito aberto, nu. O reacionário age com autoridade. E aqui não nos referimos à autoridade como uma imaterialidade oriunda da vivência e do acúmulo de conhecimentos sobre o mundo. O termo "autoridade", como bem percebeu Émile Benveniste no segundo volume do seu Le vocabulaire des institutions indo-européennes. Pouvoir, droit, religion, se remete, antes de mais nada, a um poder que jamais fez parte da esfera da vida humana (nua). O termo "autoridade" estaria ligado a um poder extra-mundano que alguns homens, por uma sorte de mágica encarceradora de fantasmas, dizem deter. Segundo essa lógica, os fantasmas, por não estarem mais entre os vivos e, ao mesmo tempo, por não fazerem parte simplesmente da carne que já apodreceu, deteriam um saber sublime sobre a existência. Quem diz cum auctoritate inevitavelmente se remete a fantasmas e, em nome desse diáfano "ser", age sobre a vida dos homens ainda vivos. A autoridade, além de possibilitar uma reação de manutenção do estado das coisas anterior à ação - no mínimo, incômoda -, também abre o espaço para pensar que aquele que dela se faz valer é tão irredutivelmente frágil que, para poder reagir, precisa apelar para um algo além e sobre o qual, efetivamente, não tem nenhum controle. Quem diz cum auctoritate não é capaz de entrar numa discussão em nome próprio - o que significa assumir os ônus da impropriedade de ser uma vida nua. E, assim, a reação, muito antes de possibilitar o pensamento, faz com que ele se estanque. Faz lembrar uma outra alegoria, a da Rainha de Alice no País das Maravilhas: "Cortem-lhe a cabeça!".

Diego Cervelin

é mestrando em Teoria Literária no CPGL/UFSC, sob a orientação de Susana Scramim e com o apoio do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre a relação entre fantasma, epifania e linguagem.

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