setembro 2009 Arquivos

Breve nota sobre o amor

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Giorgio Agamben tem uma das definições de amor mais bonitas que já li. Está no Idéia da Prosa, um livro cheio de idéias como diz o próprio título.

Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente - tão inaparente que seu nome possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

Amar não significa, portanto, se fundir em um só. Ao contrário, significa ser-dois, viver-junto, estar lado-a-lado. Em outro livro, O tempo que resta, ele diz que a única lei do mundo, segundo São Paulo, seria a lei do amor. Uma lei que suspenderia todas as outras leis. Seria esse o "verdadeiro estado de exceção" que fala Walter Benjamin. Entretanto, o amor é um termo muito carregado. A tradição cristã se fundamenta no amor incondicional ao próximo, com pedidos esdrúxulos de amar o inimigo, blábláblá. O amor se fundamenta ali, enfim, como Lei. Mas isso implica considerar que no amor não existisse a dimensão do desejo, justamente. Sorry, eu não posso amar meu inimigo.

Tudo isso para dizer que o modo mais bonito de se dizer eu te amo, o modo que expressa essa dimensão do desejo e que implica o corpo, é o da língua espanhola: yo te quiero. Porque o amor se realiza e não se cumpre como lei.

Política subterrânea

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Quando escrevemos uma tese, uma dissertação, qualquer coisa, sempre nos alertam para manter distância do objeto estudado. É claro que eu, pessoa intensa que sou, jamais conseguiria isso. Hélio Oiticica é uma das paixões da minha vida (uma porque tenho várias, Mosotta, Lacan, Agamben, são tantas e nem posso falar todas). Foi com ele que mudei absolutamente o meu jeito de olhar a arte. Foi ele quem me ensinou que arte, vida e política se confundem a todo momento. Que não são campos autônomos. Que são imagens que nos rondam no dia a dia. Me ensinou que política e arte se faz na rua, que o contato é a melhor arma contra imunidade que nos assombra.
Hélio Oiticica na década de 1960 criou uma nova categoria para os seus trabalhos. Passou a chamá-los de subterrâneos. Dizia que seu exercício se dava através de uma prática-grito. Oiticica cria um conceito de povo. Esse caráter sub do povo, entretanto, não implica uma interioridade ou ocultamento, ao contrário, é a exterioridade que garante esta condição, é enquanto corpo nu, enquanto pura exposição que a vida é subterrânea: o que está em baixo, o que "fede", o que amedronta, e que pode, a qualquer momento, emergir, não para o confronto, mas para um transbordamento, alguma coisa de incontrolável que fuja de qualquer amarra do poder: um estado de emergência do povo:

Um pensamento político ou a participação nascem organicamente como a planta na planta do pé no mundo dos conceitos no do dia a dia: a luta toda se resume na ascensão de um pensamento não opressivo, de pensamentosações, para a absorção do que oprime: é o encosta-na-parede longe da encosta, na América do Sul, no Brasil que oprime - mar e guela [sic] - amerdicância tem que acabar no sul: de onde vem o mal? De dentro, de fora? Está em nós? - participar político é participar na vida: ser politicamente vivo é estar vivo: aspirar à felicidade: a não-utopia - (...) - pegar nas armas, tirar as amarras, limpar o lugar, o lazer, o prazer de se cuspir nas medalhas (...) - nos subterrâneos do mundo eu fico, por entre paredes, sob as gorgetas, embaixo da vida: 3 dias e 3 noites: o limite do desvario
[...]
A descoberta do mundo: extra-Brasil: é lógico que se ambicione a êle: estamos no hemisfério sul, ao sul e fora de jogada, na reserva do mundo - subterrânea é para mim a descoberta do que representa o sul do sul no mundo: só um tipo de comunicação (...) novo (...) (não-assimilatório), na prática (não-ritual): underground seriam a consciência e a eficácia da marginalidade das criações do que cria: a criação torna-se manifestação coletiva, não-ritualística: libertad! - a idéia de uma "integração" do artista no contexto social é falsa: ao artista caberia comandar as transformações que sobem: de dentro, de baixo, do sub ao subombear, puxar a liberdade, fazê-la crescer -
[...]
para o mundo: ou no mundo.


Uma prática subterrânea reconhece que a política nasce da planta do pé. Reconhece que mais interessante do que olhar com os olhos seria, à maneira de Georges Bataille, olhar com o dedão do pé. A possibilidade de política e de pensamento está na criação, na tentativa reinventar todos os dias, de criar constantemente a diferença, o múltiplo. Uma criação que, entretanto, não alimenta uma paixão do Real, a marca, segundo Alain Badiou, do século XX; que não tenta representá-lo, acolhê-lo, absorvê-lo, desenvolvê-lo, mas que deixa o outro viver ao seu modo de gozo. Essa criação subterrânea esfumaça as fronteiras entre arte e vida, abandona os mediadores. Privilegia o momento que se apresenta como eternidade e felicidade fugaz: "não me interessa a reprodução desse momento em palavras nem em obras, mas o momento ou a verificação futura dele por outrem". A prática ou política subterrânea trata, enfim, de um pensamento que advém do corpo: uma paixão que alavanca a imaginação, que implica os fantasmas, que implica o outro. Agamben chama a atenção para a viv-ibilidade, procedimento de contemplação da potência que desprenderia a vida dos determinismos biológicos, sociais e econômicos:

Spinoza chama contemplação da potência, uma inoperosidade interna, por assim dizer, à mesma operação, uma praxis sui generis que consiste em tornar inoperante cada potência específica de agir e de fazer. A vida, que contempla a (própria) potência de agir, se rende inoperosa  em todas as suas operações, vive somente a (sua) vivibilidade (...) A subjetividade, é isto que se abre como uma inoperosidade central em cada operação, como a viv-ibilidade de cada vida. Nessa inoperosidade, a vida que vivemos é somente a vida através da qual vivemos, apenas a nossa potência de agir e de viver, a nossa, agibilidade e a nossa vivibilidade. A bios coincide aqui sem resíduos com a zoé.

Quarenta anos antes, Oiticica, da América Latina subterrânea, em pleno exercício da sua prática-grito, definiu a arte como a "criação de uma possibilidade de vida". Nos corpos dançantes dos Parangolés já se aventava uma coincidência sem resíduos entre bios e zoé.

Eu tenho uma amiga aqui. Ela sempre diz coisas lindas. Embora viva num silêncio discreto. Ela escreve poemas lindos. Sempre que ela os lê meu coração transborda em comoção. Ela é assim vagarosa e eu um foguete. Mas tudo se equipara quando tomamos, vez ou outra, litros de cervejas. Nós duas sempre resistimos bravamente. Ou insistimos bravamente, não sei. Júlia Studart representa o que Spinoza chamou de bom encontro. Aquele que te enche de alegria em ver ou ouvir. Ler essa entrevista (que roubei daqui) feita por Carlos Augusto Lima é um alento. Ela abre uma fresta no dia para a felicidade.

uma conversa: poesia,
por Carlos Augusto Lima
(Coluna no Diário do Nordeste, Caderno 3, 18.09.09)
ver também: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=671882

Escritor precisa ter obra? Precisa ter livro, livro desses grossos, de se manter em pé, de ter volume e aparência de força? E quando um bom poeta se anuncia com vagar, ocupando espaços pequenos, publicando discretamente, aqui e ali, o que acontece? Penso que essa forma de ser (poeta) e discreto, a melhor. Pois tem um tempo trabalhado, chegando aos poucos, com arrumação de idéias, de experiências e discreta naturalidade. É pensando nisso que convido para esta conversa, sobre poesia, que já está no sexto número, como um projeto de mapear um bom pensamento novo nesta cidade, Júlia Studart, que nasceu em Fortaleza, 1979, mas já vê a cidade com a distância, necessária, quase abandono e teimosia de não estar. Júlia é autora de "Wittgenstein e Will Eisner" (Lumme Editor) e de "Livro, Segredo e Infâmia" (Editora da Casa). Publicou também "Marcoaurélio!" uma plaqueta com Milena Travassos (Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura). Faz doutorado em Teoria Literária na Universidade Federal de Santa Catarina/CNPq, a partir das linhas narrativas de Gonçalo M. Tavares. Júlia vive em Florianópolis e observa à distância. O que é bom.

1) Por que escrever poesia, essa insistência?
Penso a poesia como uma espécie de provocação, de afronta. E por outro lado, também como um grande mal-entendido. E, acho que você deve lembrar bem, Carlos, que, de alguma forma, tudo isso começou com um convite seu para participar do projeto das plaquetas, quando você ainda estava no Centro Dragão do Mar. Ou seja, igualmente uma espécie de provocação, que me colocou num fogo cruzado com a poesia. Porque até então eu era apenas uma boa leitora de poesia, porém uma leitora muito distraída. Mas foi precisamente assim que apareceu o meu primeiro poema, Marcoaurélio!, que não deixa de ser uma provocação desdobrada, porque ainda tinha ali, do lado, o trabalho interessante da Milena Travassos. E aí, depois, vieram outros convites para escrever e publicar poemas, sempre entre uma provocação imprevista e todos os meus embaraços com essa linha de texto desajustada, abusada, quase uma zombaria. Hoje escrevo exatamente para tentar manter o mal-entendido, para sustentar a provocação, todas elas, e o convite aberto, esticado para o mundo e, principalmente, para perder o prumo. Acho que meu poema é meio desequilibrado, porque não sei direito como ele começa, nem como termina, mas sei bem o que não quero que esteja ali, escrito. E gosto que ele seja assim mesmo. Por isso escrevo tão pouco, tão devagar, aliás, o poema apenas me segue, porque faço tudo muito devagar. A idéia é reunir esta pequena produção num livro, quando conseguir, se conseguir, e óbvio, este primeiro livro vai ter que se chamar mal-entendido. E pode não aparecer nunca, também. Mas vou manter a insistência.

2) Me faça um paralelo entre poesia/mundo. O que é ser poeta na condição de hoje?
O escritor Gonçalo M. Tavares - que pesquiso no meu doutorado em literatura, aqui em Florianópolis/SC -, diz em um pequeno verbete intitulado Clarice Lispector, que está no seu livro Biblioteca, ainda inédito no Brasil, que: Uma barata pode ser mais importante que um imperador. Se os teus olhos olharem mais tempo para uma barata do que para um imperador, a barata torna-se mais importante que o imperador. E continua: O que é um revolucionário, pergunta-me a minha filha de três anos, e eu respondo: é quem olha mais tempo para uma barata que para um imperador. E o que é um imperador, pergunta-me a minha filha. É aquele que não deixa que se olhe demasiado tempo para a barata - respondi. Acho que o poeta é este revolucionário impreciso, o que procura manter um convite aberto para esta pequena "revolução", que passa por um desvio de olhar, uma saída do olhar médio e da linha central da história, para provocar uma deformação, um assombramento, uma perturbação, que pode ser figurada nesta imagem em ato, tão simples e banal: olhar mais tempo para uma barata que para o imperador. Ou seja, provocar um desequilíbrio na história, no monumento; esquecer-se do imperador, quem é o imperador, se há um imperador. O poeta pode até não existir, não tem precisão de existência, mas não sei o quanto o mundo pode ficar mais estranho de tão igualzinho sem esta figura desimportante.

3) Simples: o que é escrever poesia em Fortaleza. Que tipo de reflexões pode apontar a partir desse dado?
Bem, estou fora de Fortaleza há quase seis anos. Tanto que a cidade hoje me parece muito mais apenas um nome bonito, uma falta, um sei lá bem o quê. E escrevo de um outro lugar, escrevo meio sem cartografia; mas se posso pensar em uma, escrevo a partir de uma ilha, o que parece mais estranho ainda, que pode até trazer também uma mesma linha de mar, mas que não tem linha nenhuma, nenhuma cartografia. Muitas vezes acho que escrevo do meu corpo, da minha casa, do que vi passar ou do que queria muito ver passar diante do meu olho, como uma barata. O fato é que Fortaleza está muito pouco em meu trabalho, quase nada. Acho que devorei Fortaleza há muito tempo, numa espécie de ritual antropofágico, e que hoje ela não me visita mais, ou visita como um devorador. Perdemos as marcas, as duas.

Falta

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Existem coisas que nos deixam sem palavras. Encontrar um documento genial em um arquivo, por exemplo, pode bloquear o pensamento. Uma grande idéia pode não sair da cabeça. Reencontrar alguma coisa perdida no tempo pode bagunçar tudo. Acontece, as vezes, de ficarmos sem ter como dizer nada. O silêncio, diria Blanchot, é o que não cessa de dizer na obra. As vezes é ele quem nos diz coisas que não podemos ler. Deve ser o tal encontro com o Real de Lacan. Quando a linguagem é, definitivamente, insuficiente. O desejo só pode ser dito com o corpo. Hélio Oiticica conseguiu juntar todas essas coisas quando definiu um objetivo para a arte: a felicidade. Irrepresentável, incomunicável e inapreensiva.

Detalhes fazem a dyferença

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Tensão/Tesão  Ouve/Houve  Amor/Humor  Laser/Lazer  Fala/Falo  Castro/Casto  Sexo/Nexo      

Acontecimento

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Desde pequenos ouvimos que é preciso ter esperança. Se você quer muito um brinquedo, por exemplo, tem o Papai Noel no Natal e toda a expectativa de que naquele dia você vai ganhar o tal brinquedo. Daí, claro, tem as regras para que nossas esperanças não sejam vãs: temos que nos comportar bem durante o ano, ou pelo menos a partir da data do pedido. Sempre existe uma condicional imposta por alguém para que possamos alimentá-la. Com a escola as coisas vão endurecendo. Tem o tal do esforço pessoal, a modulação dos comportamentos, a castração e o planejamento de longo prazo: o que eu vou ser quando crescer é um exemplo deles.  
Depois, quando crescemos, continuamos com as condicionais: os índices de produtividade, as regras sociais, a manutenção da estabilidade, etc, que pensamos obedecer porque queremos, porque escolhemos. É o início de uma fase que se pressupõe "responsabilidade", então, teoricamente, você sabe o que está fazendo. (Bullshit). Até o momento em que começamos a perceber as coisas que perdemos no caminho, a frustração que é tentar planejar o futuro que, para ajudar, nos deixa oscilando infinitamente entre a sorte e o azar, acompanhado de doses cavalares de ansiedade. Temos a impressão de ter controle do nosso desejo, até que ele vem e te sabota feiamente. Quando crescemos temos pressa: queremos as respostas pra ontem, as chances parecem limitadas demais para as demandas da vida. As pessoas pedem prudência, calma, mandam você pensar bem. Daí você olha pra elas disfarçadamente e elas estão roendo as unhas como você. E você repete tudo que elas te disseram: prudência, calma, pensa bem, blábláblá. E assim racionalizamos tudo, vamos para análise, mantemos uma crença tosca no progresso, na ordem cronológica do tempo. Nos imunizamos de todos os males existentes e virtuais. Perdemos a capacidade de compartilhar os sonhos, de imaginar o dia equivalente ao da entrega do presente na infância. Enfim, perdemos a esperança, achamos bobagem falar em felicidade se ela não pode ser calculada no método da relação custo/benefício, mais bobagem ainda falar em mudar o mundo, a história. Teimamos em polarizar as coisas, em deixar tudo meio tedioso e inóspito até chegar ao anti-depressivo. Mas não estou dizendo pra desbundar, não. "Viver a vida adoidado" é sessão da tarde. Estou falando em criar possibilidades, em alimentar as esperanças, se deixar afetar, e lembrar da finitude da vida. Isso tem a ver com paixão e não com a bobagem de que "quem espera sempre alcança". É para criar o acontecimento: construir o presente rememorando o passado e imaginando o futuro, tudo ao mesmo tempo.

Logo ali...

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... no blog Sexismo na Política escrevi um post sobre a lógica perversa do racismo.

Aeroportos

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Os aeroportos são lugares felizes e tristes. Tive que passar horas em um deles por um vacilo gigantesco meu, nem vou contar porque é muito patético! Fiquei tão brava com a merda da empresa aérea e, para ajudar, perdi meu livro. Mas tudo bem, mais um dia na cidade me fez um bem imenso. Como eu tinha muita coisa para fazer no domingo, fui obrigada a aceitar que não poderia fazê-lo e pronto. O que é raro de acontecer nessa vida de meu deus.
Então, voltando, sempre que vou ao aeroporto me sinto estranha. Dessa vez foi um pouco pior. Como um lugar de fronteira que se lança para o infinito do espaço, o aeroporto se apresenta para mim como um lugar indiscernível. É diferente das rodoviárias, por exemplo. Elas geralmente ficam dentro da cidade, ao passo que o aeroporto fica no limite. Você compartilha aquele espaço que não tem nada seu com pessoas que talvez nunca mais veja na vida. É claro que esse é o mundo todo dia. Mas acho que é diferente no aeroporto, lá dá tempo para pensar nisso. De lá você vai para outro lugar, de lá você volta para o seu lugar. Mas aquele lugar não representa nada, a não ser, a transitoriedade do momento. Enquanto você está ali, você está em suspensão. Entretanto, ainda dá tempo de tomar decisões incríveis: ficar na cidade, mudar de destino, não embarcar, etc. Fico imaginando como é trabalhar no aeroporto. Todo dia ir para esse limite. Ver olhos cabisbaixos, ver olhos radiantes, ou nem ver os olhos. Tem gente agarrada no seu laptop, outros com o fone pendurado nos ouvidos, outros com a cabeça atolada em algum livro, outros chorando baixinho. Deve ser muito louco. Eu não suportaria essa efemeridade do contato, eu acho. E acho também que piraria porque a minha imaginação se potencializaria infinitamente. Tenho certeza que ficaria pensando por horas e horas no que as pessoas fazem ali, para que lugar elas vão, se elas vão a trabalho, o que elas vão resolver, se elas deixam alguém querido, se elas vão ver alguém querido. Já faço isso sem trabalhar lá, imagina trabalhando. Sem contar o procedimento de tortura, não é? Você tem que chegar pelo menos uma hora antes do vôo, daí se tem despedidas, elas são insuportavelmente longas, tem gente que chora tanto que dói em mim; tem gente que ri tanto e desata a bater fotografias que não consigo entender. Ah, mas essa deve ser a utilidade da máquina: aliviar a tensão da despedida tentando encontrar o foco. Ao mesmo tempo em que os encontros são insuportavelmente breves: a porta se abre, a pessoa que chega sorri, as que esperam abrem os braços, elas se aproximam, se abraçam, e vão embora. Nem dá para curtir tanto a alegria alheia, uma pena.
Pensando bem, acho que viajar é triste e feliz. Ou a viagem é triste na ida e feliz na volta, ou vice-versa. Esse movimento, esse deslocamento sempre deixa alguma marca, mesmo que seja pequenininha. Pensando melhor ainda, acho que o que eu não consigo é suportar despedidas. Acho que é por isso que me sinto esquisita no aeroporto. Nunca consegui e faço o possível para evitar. Mas ainda me despeço, antes um beijo de tchau e uma olhadinha para trás para um breve aceno, que a definitiva caminhada para frente.

A potência do pensamento

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Não é de hoje que a filosofia insiste na impossibilidade de dizer eu. Também não é nenhuma surpresa saber que o autor é um fantasma, ou que o autor morreu. Mas é complicado, digamos, no mundo egóico acadêmico, não chamar para si a autoria e, mais ainda, não dizer eu. Ensinando, então, é praticamente um evento impossível. Portanto, tudo parece uma mera masturbação intelectual. Mas não é não. Emanule Coccia em La trasparenza delle immagini. Averroè e l'averroismo, creio eu, é quem melhor explicita essa questão. Com o percurso que começa em Averroes, passando por toda tradição averroísta, o filósofo mostra como o pensamento (aí implícito o eu) é possibilidade. E como o ato de ensinar deve atuar dessa maneira, abrindo as tais possibilidades. Porque o pensamento pode ser transmitido e ensinado ele é desapropriado do sujeito e pode ser entendido como uma experiência de uma possibilidade. Bom, para um projeto de professora que sou, ler isto me fez muito bem. Compartilho com vocês: 

A morte do sujeito não comporta o fim do pensamento, do mesmo modo que o ensino não se refere ao seu início: isso se refere menos ao ser ou ao não ser do pensamento do que ao modo de sua existência. Quando o sujeito morre, um saber se transforma de algo atual em algo puramente possível; a morte produz uma mudança modal no ser mesmo dos conhecimentos e dos pensamentos. Do mesmo modo, todo ensino transforma o que é puramente atual no pensamento (na mente do mestre) em algo que é possível pensar. Nisto radica precisamente a grandeza de todo mestre: não se trata de multiplicar e reproduzir um pensamento já atual, mas sim de impor uma troca precisa de modalidade ao saber que possui. Para ensinar algo é necessário constituir um pensamento como algo que pode ser pensado. Deve transformar-se o que existe em nós como pura atualidade (presente) em algo que é possível aprender (em um futuro indefinido). Daí o difícil de ensinar: restituir possibilidade ao pensamento, obrigar o saber a mudar de estado, a transformar-se em uma possibilidade que não nos pertença simplesmete, mas sim que exista independentemente (e como possibilidade de ser pensado) da nossa existência. Nesse sentido, ensinar - e escrever, posto que toda escritura coincide com esse movimento - significa morrer para os próprios pensamentos.Neste movimento particular, morte do sujeito e ensino chegam coincidir, paradoxalmente.

O ser como potência

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Encontrei uma definição tão linda da existência que preciso compartilhar. Para variar, a definição é de Giorgio Agamben, sempre certeiro e sensível, e está no prefácio de um livro incrível de Emanuele Coccia, intitulado La trasparenza delle immagini. Averroè e l'averroismo.
A potência é a grande proposta e interesse de Agamben na elaboração da sua filosofia. É o ponto central para repensar a vida. O que não quer dizer que ele esteja longe, por exemplo, de outro filósofo lindo e maravilhoso, Jean-Luc Nancy que leva a cabo o ser-com heideggeriano. Existir seria, portanto, coexistir e estar aberto ao contato com o outro. Ser pura potência que não se esgota no ato. Daí a imaginação, a esfera que une os homens e que foi abandonada no longo percurso da modernidade. Embora tenha sido retomada por algumas vanguardas, por exemplo, o surrealismo, a imaginação foi aniquilada pelas formas de governo, pelas formas de política, que se empenharam em dar uma forma de vida ao homem. Então, é a hora de recuperar o sonho, a imaginação e permanecer aberto ao outro, sem imunidade, sem comunhão, mas com paixão. Com vocês Agamben:

"Existir como potência não siginifica simplesmente carecer de uma forma atual, estar privado de formas; mas sim ser capaz de receber as formas, não ser senão pura receptividade ou, no sentido etimológico do termo, paixão"