outubro 2009 Arquivos

This is for you

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Colocando as roupas na máquina de lavar, percebi como os nossos armários são azuis.
Isso nos explica tanto.
Explica o nosso desejo de tocar o céu.
Minha relação com Deus nunca foi muito problemática. Mas cheguei a um ponto da vida que atribuir qualquer sucesso ou fracasso a ele me parecia um tanto ridículo. Ainda penso assim. Entretanto, pensando assim e radicalizando, deixei de acreditar em Deus, na presença de Deus, na possibilidade de Deus, etc. Passei a acreditar que existia uma "força" (preferia não chamar de Deus, todo descrente usa esse termo) que se apresentava a todo o momento na possibilidade do ser, na vida humana e, de alguma maneira, na humanidade. Mas uma experiência recente me fez rever essa posição. Fazia três anos que não visitava minha avó. Na hora em que soube que ela tinha sido internada, corri para perto dela. Quando cheguei e vi o que estava acontecendo, pensei que estar presente naquele momento não faria diferença para ela. Ela já não me reconhece, eu já não posso mais conversar com ela, contar da minha vida, dos meus planos, ou mesmo, relembrar o que passamos. Mas a minha presença lá faria diferença para mim. É provável que tenha uma ponta de egoísmo nisso tudo. Uma maneira, talvez, de livrar a consciência do peso da ausência, de estar mais perto que uma ligação telefônica, de dizer obrigada, sabe lá. Então eu desatava a falar enquanto ela me mirava com olhos perdidos. Foi o jeito que encontrei de estar presente. E até arranquei algumas palavrinhas dela, mas nada muito convincente, nada muito consolador. Tudo isso me fez perceber a conjunção mais radical entre teoria e prática que já vivenciei. Entendi ali que, realmente, a vida não se expressa somente através da linguagem. Ao contrário, em situações limites as sensações e o próprio corpo, debilitado o quanto esteja, falam. Minha avó, além dos derrames, sofre, em decorrência de uma série de enfermidades, o que a fisioterapeuta me explicou como síndrome da imobilidade, seus movimentos são hiper limitados. Em síntese, ela mexe levemente o pescoço e consegue, com muito esforço, movimentar num ângulo que calculo de dez graus os braços e, por vezes, as pernas. Numa das noites em que eu estava no hospital com ela, a noite que ela estava mais animada, ela começou a mexer a boca como quem queria dizer alguma coisa. Abaixei meu rosto de maneira que eu pudesse escutá-la de perto. Num movimento súbito ela levantou e sustentou seu fraco pescoço erguido e cobriu minha bochecha de beijos. Foi nesse instante que entendi o que é Deus. Essas possibilidades da vida, de se dizer uma vida, de ser uma imanência absoluta. Nunca se fez tão claros textos como o de Deleuze A imanência: uma vida... (último texto escrito por ele) e o fato de ele recorrer ao termo spinozista da beatitude. Se, de acordo com Spinoza, beatitude e alegria andam juntas, a presença de Deus é um instante revelador, um encontro, uma sensação de felicidade que pode ser levada para além da morte e que pode ser atualizada constantemente nas singularidades, nos acontecimentos, em uma vida. Ou ainda um estado de redenção tão proclamado por Spinoza quanto por Benjamin, que Agamben explica em duas linhas: "O mundo - enquanto absolutamente, irreparavelmente profano - é Deus". E, se a ordem do profano, como explica Benjamin, tem que erigir-se sobre a idéia de felicidade, o mundo enquanto puro estado de felicidade é Deus. No momento em que minha avó me beijou, ela inscreveu a nossa história, ela empurrou todas as forças para esse estado de felicidade, de beatitude que se cumpriu em um tempo eterno e fugaz e que levarei marcado no meu corpo, na minha memória. Um momento que, para sempre, roubará um sorriso meu e que, talvez, desapareça com a dor. Uma felicidade eterna e fugaz.
Eu falo como uma matraca. Demais, demais. Mas adoro quando fico sem palavras. Quando encontro algum texto perfeito. Daqueles que eu gostaria de ter escrito, daqueles que não dá vontade de ler, mas de gritar. Como no caso desse Spinoza com Agamben:

"'O afeto por uma coisa que imaginamos ser livre é maior do que por uma coisa necessária e, conseqüentemente, ainda maior do que o afeto por uma coisa que imaginamos possível ou contingente. Mas imaginar uma coisa como livre só pode significar imaginá-la, simplesmente, ignorando as causas pelas quais ela foi determinada a agir. Portanto, o afeto por uma coisa que simplesmente imaginamos é, em igualdade de circunstâncias, maior do que o que se tem por uma coisa necessária, possível ou contingente e, por conseguinte, é o maior de todos' (Ética, V).
Ver simplesmente algo no seu ser-assim: irreparável, mas nem por isso necessário; assim, mas nem por isso contingente - é isto o amor".

PS: Relendo o post vi como falo como uma matraca mesmo e não fico sem palavras, seria melhor dizer que fico encantada, qualquer coisa que não envolva o silêncio, pois digo em seguida que tenho vontade de gritar. Afe! Só Lacan me salvará. Ou melhor, me salvaria, porque ele já morreu. Sendo assim, não tenho salvação. Sou um ser irreparável, todo errado, mas irreparável. Aleluia!

Morrer, quase-morrer

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Entrar em contato com a morte nunca é razoável. Existem os casos que dizem: "é melhor, ele vai descansar". Existem as mortes revoltantes, daquelas que pensamos com Renato Russo: "é tão estranho os bons morrem jovens". Entretanto ela nunca é simples e ela nunca passa. Se existe mentira nesse mundo é que a dor passa. Passa nada. Uma vez ouvi que não existe memória nem para dor nem para o amor. Eu acho que existe sim. Toda dor de agora é mais intensa que a dor passada, todo amor do presente é maior que o amor do passado. Mas as dores e os amores passados estão sempre ali, latentes, inviabilizando e ativando ao máximo essa memória. Eles não passam, eles sempre retornam. Entrar em contato com a morte é entender que, sim, existe tarde demais. E que muitas vezes não se pode na vida como, por exemplo, se pode na literatura, viabilizar e potencializar o que não foi. Na vida não dá. Quando alguém morre, morre e pronto. Tudo aquilo que poderia ter sido feito não pode, definitivamente, ser feito. A morte arrasta tudo para o infinito do finito. Ela diz a todo tempo que existe limite.