"Touradas de Zanzibar" - Reação

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Conta-se que, um dia, um dos membros da corte de Luís XIV disse que o rei dançava mal nas óperas-ballets que se sucediam sem fim em Versailles. Luís XIV fazia de tudo para se mostrar o melhor bailarino da corte. Não que exatamente fosse - também não há mais como saber. Mas dispunha de compositores (Jean-Baptiste Lully, por exemplo) e de dramaturgos (Molière, por exemplo) que o impulsionavam ao palco nos papéis principais de seus dramas mitológicos: Júpiter, Netuno. Vale lembrar que da boca de Luís XIV também saiu aquela máxima do Antigo Regime: "O Estado sou eu". A resposta ao comentário do desafortunado cortesão foi, como não se poderia esperar de modo diferente, a detratação pública, pessoalmente infamante. Deve ter parado na Bastilha ou em algum cadafalso. Tome-se essa pequena rememoração por uma alegoria - meio carnavalesca, é verdade. Mas ela nos toca em um elemento bastante cotidiano: a reação. Reagir é uma ação de segunda ordem e que se coloca diametralmente oposta a um vetor ativo anterior. Se a ação que dá ensejo ao "desfile" é desestabilizante, a ação que responde como "reação" visa a manter a estabilidade inicial, o status quo ante, como diriam os juristas. E, como tal, a reação não alonga um debate. Antes disso, a reação prefere fazer cessar um debate através de um corte. Nesse caso, não se cortam exatamente as palavras, mas sim, mesmo que simbolicamente, a cabeça que as profere. O reacionário procura transformar a ação inicial em tonteria, besteira, sandice inconseqüente, coisa de "pirralho" sem coerência . Mas é difícil o reacionário agir de nome próprio, de peito aberto, nu. O reacionário age com autoridade. E aqui não nos referimos à autoridade como uma imaterialidade oriunda da vivência e do acúmulo de conhecimentos sobre o mundo. O termo "autoridade", como bem percebeu Émile Benveniste no segundo volume do seu Le vocabulaire des institutions indo-européennes. Pouvoir, droit, religion, se remete, antes de mais nada, a um poder que jamais fez parte da esfera da vida humana (nua). O termo "autoridade" estaria ligado a um poder extra-mundano que alguns homens, por uma sorte de mágica encarceradora de fantasmas, dizem deter. Segundo essa lógica, os fantasmas, por não estarem mais entre os vivos e, ao mesmo tempo, por não fazerem parte simplesmente da carne que já apodreceu, deteriam um saber sublime sobre a existência. Quem diz cum auctoritate inevitavelmente se remete a fantasmas e, em nome desse diáfano "ser", age sobre a vida dos homens ainda vivos. A autoridade, além de possibilitar uma reação de manutenção do estado das coisas anterior à ação - no mínimo, incômoda -, também abre o espaço para pensar que aquele que dela se faz valer é tão irredutivelmente frágil que, para poder reagir, precisa apelar para um algo além e sobre o qual, efetivamente, não tem nenhum controle. Quem diz cum auctoritate não é capaz de entrar numa discussão em nome próprio - o que significa assumir os ônus da impropriedade de ser uma vida nua. E, assim, a reação, muito antes de possibilitar o pensamento, faz com que ele se estanque. Faz lembrar uma outra alegoria, a da Rainha de Alice no País das Maravilhas: "Cortem-lhe a cabeça!".

1 Comentários:


Diego, ue bom que tenhas entrado na blogosfera! Diante de tantas reações que se vêem por aí, espero que possas, com teus textos, meter a boca, dar um colorido ao que é sem sal e, mesmo que volta e meia abras caminho para outras reações, que tenhas um espaço de muito prazer.

Um abração

Diego Cervelin

é mestrando em Teoria Literária no CPGL/UFSC, sob a orientação de Susana Scramim e com o apoio do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre a relação entre fantasma, epifania e linguagem.

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