Essa semana foi importantíssima na história da Universidade Federal de Santa Catarina. Um grupo de estudantes de Direito, daqueles que podemos dizer "uma geração", organizaram bravamente um Seminário para discutir a Ditadura. Esse post é uma tentativa de dizer obrigada ao Marcel Soares de Souza, que fez um discurso de abertura tão vivo que me deu um nó na garganta; ao Fernando Bastos Neto, militante apaixonado; à Helena Kleine Oiliveira e à Junia Botkowski, meninas de beleza impar; ao Victor Cândido Porto, de inteligência rara; e à Elisa Tomazi, minha conhecida de anos a quem adoro faz tempo. Muitos outros fizeram parte da organização, mas esses que eu nomeei me deram a graça de suas amizades e companhia antes mesmo que o evento acontecesse. Às nossas longas conversas sobre o mundo, ao pensamento que compartilhamos, dedico esse texto.
Tivemos debates controversos que animaram a semana no Seminário e que me levaram a escrever esse post. Alguns disseram que não deveríamos gastar energia na tentativa quase improvável de condenar os militares e que deveríamos reconstruir a memória. Duas perguntas resolvem isso: como se relativiza a justiça nesses crimes? Como pode haver memória sem punição? E não estou dizendo que aqueles assassinos precisam ir pra cadeia não (se forem muito melhor), mas o que eu queria era que os significantes tortura, assassinato e desaparecimento fossem proferidos pelas bocas de quem torturou, matou e desapareceu com os corpos. Esse gesto faria muita diferença porque ao invés de relegarmos essa atrocidade às narrativas de torturados, de vítimas, identificaríamos os culpados. Esse gesto impediria que um professor apresentasse um trabalho falando em "revolução de 64", em "perigo comunista", em "implementar a democracia", usando toda a linguagem do poder justificando esse absurdo com um método de distanciamento histórico, de simples narração dos fatos. Esse professor não falaria coisas desse tipo sem saber que ele está obviamente tomando um partido e que isso o implica.
Nessa semana morreram Romeu Tuma e Néstor Kirchner. Dois homens entrelaçados com as Ditaduras não fosse o abismo de posturas que os separou: o primeiro conivente com todas as atrocidades do regime e o segundo reconstruindo a memória de um povo. Romeu Tuma morreu como homem público, como senador, sem dizer que assassinou, torturou, forjou suicídios e desapareceu com corpos. E se não o fez com suas próprias mãos, foi conivente, estrategista e mandante. Está nos arquivos, nos depoimentos, está marcado nos corpos das pessoas que sobreviveram e na memória dos que perderam pessoas. Morreu sendo elogiado. Foi homenageado e lamentado profundamente. Pedro Simon dizendo que Tuma evitou um mal maior durante a Ditadura e que ele foi "enérgico" (obrigada à querida @com_disfarce que me contou sobre Simon), José Serra disse que sua morte era uma perda para o Brasil (obrigada ao Victor que me mostrou). Lula, em nota oficial, disse que ele deveria ser respeitado e reconhecido por todos os brasileiros. Maldita conciliação das elites brasileiras que adoram atuar na zona cinza, que insistem em confundir os carrascos com as vítimas.
Outra foi a atitude de Néstor Kirchner que entendeu que a história se faz de escombros, e que esses escombros, a história dos vencidos, são corpos mortos, eram vidas. Néstor, que retomou os julgamentos dos militares envolvidos na Ditadura, que mandou tirar o retrato do assassino Jorge Rafael Videla do museu da memória, que pediu desculpas à nação pela vergonha que foi a Ditadura, entendeu que era preciso trazer esses corpos à presença, ao presente. Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça.
Os julgamentos, que condenam à prisão perpétua entre outras penas, são a oportunidade de dar cara humana aos monstros que assombraram a história, de fazer eles falarem o que fizeram e porque fizeram, de dar nome a esses homens que tentaram reduzir os que resistiram à animalidade. A cena em que os generais são fotografados e transmitidos em close, em que o silêncio é interrompido apenas pelos flashes das máquinas fotográficas, funciona como os gritos dos torturados e mortos que retornam na sua forma redentora.
Kirchner foi um presidente que soube falar em nome de um povo, que soube criar um povo. Portanto, a comoção da Argentina não deve ser entendida como essencialidade portenha que se emociona e tem uma vida apaixonada. A comoção da Argentina é resultado da construção de um povo que teve justiça depois das atrocidades. Não se leva uma multidão às ruas por nada. A comoção da Argentina diante da aterradora notícia da morte de Kirchner é prova de que o museu da memória é elaborado no corpo de cada cidadão que vai às ruas chorar a morte de um homem que honrou com o direito à memória e à justiça os corpos dos mortos e dos desaparecidos no período mais sombrio da história argentina. Toda solidariedade para Cristina Kirchner, grande presidenta, que continua a honrar a memória de um povo.
Cristina e Néstor com essa política de Direitos Humanos não redimem apenas o povo argentino, redimem a humanidade inteira. Para os dois, todo o amor do mundo e meu profundo pesar pelo desaparecimento de um grande homem.
PS: Idelber Avelar, o blogueiro que ensina até no dia do aniversário do Biscoito, diz sempre uma coisa linda: os links são a respiração da rede. Então, deixo aqui o registro de alguns textos fundamentais, e infinitamente melhores que o meu, para entender o que Kirchner representa na Argentina: o do Idelber, do Horacio Legrás, da Beatriz Sarlo, do Jorge Alemán, e do Daniel Link.
Tivemos debates controversos que animaram a semana no Seminário e que me levaram a escrever esse post. Alguns disseram que não deveríamos gastar energia na tentativa quase improvável de condenar os militares e que deveríamos reconstruir a memória. Duas perguntas resolvem isso: como se relativiza a justiça nesses crimes? Como pode haver memória sem punição? E não estou dizendo que aqueles assassinos precisam ir pra cadeia não (se forem muito melhor), mas o que eu queria era que os significantes tortura, assassinato e desaparecimento fossem proferidos pelas bocas de quem torturou, matou e desapareceu com os corpos. Esse gesto faria muita diferença porque ao invés de relegarmos essa atrocidade às narrativas de torturados, de vítimas, identificaríamos os culpados. Esse gesto impediria que um professor apresentasse um trabalho falando em "revolução de 64", em "perigo comunista", em "implementar a democracia", usando toda a linguagem do poder justificando esse absurdo com um método de distanciamento histórico, de simples narração dos fatos. Esse professor não falaria coisas desse tipo sem saber que ele está obviamente tomando um partido e que isso o implica.
Nessa semana morreram Romeu Tuma e Néstor Kirchner. Dois homens entrelaçados com as Ditaduras não fosse o abismo de posturas que os separou: o primeiro conivente com todas as atrocidades do regime e o segundo reconstruindo a memória de um povo. Romeu Tuma morreu como homem público, como senador, sem dizer que assassinou, torturou, forjou suicídios e desapareceu com corpos. E se não o fez com suas próprias mãos, foi conivente, estrategista e mandante. Está nos arquivos, nos depoimentos, está marcado nos corpos das pessoas que sobreviveram e na memória dos que perderam pessoas. Morreu sendo elogiado. Foi homenageado e lamentado profundamente. Pedro Simon dizendo que Tuma evitou um mal maior durante a Ditadura e que ele foi "enérgico" (obrigada à querida @com_disfarce que me contou sobre Simon), José Serra disse que sua morte era uma perda para o Brasil (obrigada ao Victor que me mostrou). Lula, em nota oficial, disse que ele deveria ser respeitado e reconhecido por todos os brasileiros. Maldita conciliação das elites brasileiras que adoram atuar na zona cinza, que insistem em confundir os carrascos com as vítimas.
Outra foi a atitude de Néstor Kirchner que entendeu que a história se faz de escombros, e que esses escombros, a história dos vencidos, são corpos mortos, eram vidas. Néstor, que retomou os julgamentos dos militares envolvidos na Ditadura, que mandou tirar o retrato do assassino Jorge Rafael Videla do museu da memória, que pediu desculpas à nação pela vergonha que foi a Ditadura, entendeu que era preciso trazer esses corpos à presença, ao presente. Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça.
Os julgamentos, que condenam à prisão perpétua entre outras penas, são a oportunidade de dar cara humana aos monstros que assombraram a história, de fazer eles falarem o que fizeram e porque fizeram, de dar nome a esses homens que tentaram reduzir os que resistiram à animalidade. A cena em que os generais são fotografados e transmitidos em close, em que o silêncio é interrompido apenas pelos flashes das máquinas fotográficas, funciona como os gritos dos torturados e mortos que retornam na sua forma redentora.
Kirchner foi um presidente que soube falar em nome de um povo, que soube criar um povo. Portanto, a comoção da Argentina não deve ser entendida como essencialidade portenha que se emociona e tem uma vida apaixonada. A comoção da Argentina é resultado da construção de um povo que teve justiça depois das atrocidades. Não se leva uma multidão às ruas por nada. A comoção da Argentina diante da aterradora notícia da morte de Kirchner é prova de que o museu da memória é elaborado no corpo de cada cidadão que vai às ruas chorar a morte de um homem que honrou com o direito à memória e à justiça os corpos dos mortos e dos desaparecidos no período mais sombrio da história argentina. Toda solidariedade para Cristina Kirchner, grande presidenta, que continua a honrar a memória de um povo.
Cristina e Néstor com essa política de Direitos Humanos não redimem apenas o povo argentino, redimem a humanidade inteira. Para os dois, todo o amor do mundo e meu profundo pesar pelo desaparecimento de um grande homem.
PS: Idelber Avelar, o blogueiro que ensina até no dia do aniversário do Biscoito, diz sempre uma coisa linda: os links são a respiração da rede. Então, deixo aqui o registro de alguns textos fundamentais, e infinitamente melhores que o meu, para entender o que Kirchner representa na Argentina: o do Idelber, do Horacio Legrás, da Beatriz Sarlo, do Jorge Alemán, e do Daniel Link.



