outubro 2010 Arquivos

Essa semana foi importantíssima na história da Universidade Federal de Santa Catarina. Um grupo de estudantes de Direito, daqueles que podemos dizer "uma geração", organizaram bravamente um Seminário para discutir a Ditadura. Esse post é uma tentativa de dizer obrigada ao Marcel Soares de Souza, que fez um discurso de abertura tão vivo que me deu um nó na garganta; ao Fernando Bastos Neto, militante apaixonado; à Helena Kleine Oiliveira e à Junia Botkowski, meninas de beleza impar; ao Victor Cândido Porto, de inteligência rara; e à Elisa Tomazi, minha conhecida de anos a quem adoro faz tempo. Muitos outros fizeram parte da organização, mas esses que eu nomeei me deram a graça de suas amizades e companhia antes mesmo que o evento acontecesse. Às nossas longas conversas sobre o mundo, ao pensamento que compartilhamos, dedico esse texto.

Tivemos debates controversos que animaram a semana no Seminário e que me levaram a escrever esse post. Alguns disseram que não deveríamos gastar energia na tentativa quase improvável de condenar os militares e que deveríamos reconstruir a memória. Duas perguntas resolvem isso: como se relativiza a justiça nesses crimes? Como pode haver memória sem punição? E não estou dizendo que aqueles assassinos precisam ir pra cadeia não (se forem muito melhor), mas o que eu queria era que os significantes tortura, assassinato e desaparecimento fossem proferidos pelas bocas de quem torturou, matou e desapareceu com os corpos. Esse gesto faria muita diferença porque ao invés de relegarmos essa atrocidade às narrativas de torturados, de vítimas, identificaríamos os culpados. Esse gesto impediria que um professor apresentasse um trabalho falando em "revolução de 64", em "perigo comunista", em "implementar a democracia", usando toda a linguagem do poder justificando esse absurdo com um método de distanciamento histórico, de simples narração dos fatos. Esse professor não falaria coisas desse tipo sem saber que ele está obviamente tomando um partido e que isso o implica.
 
Nessa semana morreram Romeu Tuma e Néstor Kirchner. Dois homens entrelaçados com as Ditaduras não fosse o abismo de posturas que os separou: o primeiro conivente com todas as atrocidades do regime e o segundo reconstruindo a memória de um povo. Romeu Tuma morreu como homem público, como senador, sem dizer que assassinou, torturou, forjou suicídios e desapareceu com corpos. E se não o fez com suas próprias mãos, foi conivente, estrategista e mandante. Está nos arquivos, nos depoimentos, está marcado nos corpos das pessoas que sobreviveram e na memória dos que perderam pessoas. Morreu sendo elogiado. Foi homenageado e lamentado profundamente. Pedro Simon dizendo que Tuma evitou um mal maior durante a Ditadura e que ele foi "enérgico" (obrigada à querida @com_disfarce que me contou sobre Simon), José Serra disse que sua morte era uma perda para o Brasil (obrigada ao Victor que me mostrou). Lula, em nota oficial, disse que ele deveria ser respeitado e reconhecido por todos os brasileiros. Maldita conciliação das elites brasileiras que adoram atuar na zona cinza, que insistem em confundir os carrascos com as vítimas.
 
Outra foi a atitude de Néstor Kirchner que entendeu que a história se faz de escombros, e que esses escombros, a história dos vencidos, são corpos mortos, eram vidas. Néstor, que retomou os julgamentos dos militares envolvidos na Ditadura, que mandou tirar o retrato do assassino Jorge Rafael Videla do museu da memória, que pediu desculpas à nação pela vergonha que foi a Ditadura, entendeu que era preciso trazer esses corpos à presença, ao presente. Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça.


 
Os julgamentos, que condenam à prisão perpétua entre outras penas, são a oportunidade de dar cara humana aos monstros que assombraram a história, de fazer eles falarem o que fizeram e porque fizeram, de dar nome a esses homens que tentaram reduzir os que resistiram à animalidade. A cena em que os generais são fotografados e transmitidos em close, em que o silêncio é interrompido apenas pelos flashes das máquinas fotográficas, funciona como os gritos dos torturados e mortos que retornam na sua forma redentora.



Kirchner foi um presidente que soube falar em nome de um povo, que soube criar um povo. Portanto, a comoção da Argentina não deve ser entendida como essencialidade portenha que se emociona e tem uma vida apaixonada. A comoção da Argentina é resultado da construção de um povo que teve justiça depois das atrocidades. Não se leva uma multidão às ruas por nada. A comoção da Argentina diante da aterradora notícia da morte de Kirchner é prova de que o museu da memória é elaborado no corpo de cada cidadão que vai às ruas chorar a morte de um homem que honrou com o direito à memória e à justiça os corpos dos mortos e dos desaparecidos no período mais sombrio da história argentina. Toda solidariedade para Cristina Kirchner, grande presidenta, que continua a honrar a memória de um povo.

Cristina e Néstor com essa política de Direitos Humanos não redimem apenas o povo argentino, redimem a humanidade inteira. Para os dois, todo o amor do mundo e meu profundo pesar pelo desaparecimento de um grande homem.


PS: Idelber Avelar, o blogueiro que ensina até no dia do aniversário do Biscoito, diz sempre uma coisa linda: os links são a respiração da rede. Então, deixo aqui o registro de alguns textos fundamentais, e infinitamente melhores que o meu, para entender o que Kirchner representa na Argentina: o do Idelber, do Horacio Legrás, da Beatriz Sarlo, do Jorge Alemán, e do Daniel Link.    

Depois de ter assistido à manifestação "Cultura pró Dilma" e depois de ouvir seu discurso de quase uma hora falando sobre o Brasil que temos e o Brasil que queremos, amoleci total. Lá ela estava muito mais altiva, enérgica e "fogosa" (lembrem-se que Leonardo Boff disse que Dilma tinha dito para ele que estava cansada, mas que tinha fogo) do que em qualquer debate. A partir de então meu voto deixou de ser um voto, assim, "xôxo", ou apenas mais um voto contra José Serra. E foi menos pela questão cultural, que também pesou, claro; menos pelo discurso da Marilena Chauí, que foi legal e tal, mas sei lá, a Marilena apoiando o PT não é nenhuma novidade no mundo; como também não é novidade o Chico Buarque, etc. Agora o discurso do Gog me pegou de jeito. Porque tudo o que defendi e ainda defendo com Marina Silva estava ali em uma frase: "porque não somos pela igualdade, somos pela diferença" (não consigo encontrar o vídeo, mas se não foi exatamente assim, foi bem parecido). E só podemos ser pela diferença - Gog pode dizer isso hoje assim como todos nós - porque estamos conquistando igualdade em vários níveis. E sem ela não é possível pensar na verdadeira diferença, a que incorpora, também, o ambientalismo.

Me dei conta de que no post anterior, em que defendo o casamento igualitário, menciono a universalização dos direitos. E não existe direito mais elementar nessa vida que comer e ter uma vida decente. Se isso não for universalizado, estamos perdidos. Se Lacan já alertou que não existe relação sexual, quem dirá com fome. Portanto, a esquerda libidinosa que combate quem cerceia o corpo e entende que depois de Freud fome não é fome, é desejo, reconhece que está ali, também, as suas bases ;-)

Dilma lembrou mais uma vez que havia o discurso do medo em 2002: se Lula ganhasse, alertavam-nos os histéricos, ele instauraria o caos. E não deu outra. O "caos" foi instalado: agora os pobres ascendem, vão para faculdade, comem, freqüentam lugares que não podiam freqüentar, etc. Quer caos maior para a classe média, branca, escolarizada? Não tem, gente, não tem.

Pois bem, estou escrevendo um texto, que apresento na semana que vem, e nele argumento que o tropicalismo rompe com a idéia, que se apresentava "consciente e engajada", de que era preciso um intelectual para mediar o acesso das pessoas às coisas do mundo; que era preciso um pastor para guiar o rebanho. Embora muitas pessoas se comportem assim, como se Lula fosse deus, como se tivéssemos que nos ajoelhar para agradecer cada coisa que ele fez, e ele não fez mais do que devia - por favor, pai e mãe cada um tem o seu, e um Édipo dessa magnitude seria demais até para Freud (ou pensando bem, nem Freud daria conta e jogaria tudo no âmbito da religião). Mas embora e muito além do discurso personalista, o que podemos perceber hoje é que aquela mediação dada como necessária para mudar a ordem das coisas caiu por terra. E caiu por terra porque, em alguma medida, foi recuperada a capacidade de pensar e de viver o presente podendo projetar o futuro. Às vezes é meio brutalista, é, mas Zé Celso também foi mal entendido por isso. Zé Celso, inclusive, diz num depoimento poucos dias antes de receber Anistia que o tupi or not tupi de Oswald de Andrade foi o que nos abriu para o outro, e que Lula foi quem concretizou esse projeto abertura para a diferença. E ele está certo (pra variar): só estamos abertos ao outro porque esse outro se tornou visível. Foi isso que Lula fez. Daí, concluo aqui, rápida e rasteiramente, que o primeiro tropicalista a chegar ao poder foi Lula. Foi ele que soube, em alguma medida, deixar de entender "o corpo social como se fosse constituído pela universalidade das vontades". Ainda falta muito para que o Brasil seja tropicalista. Mas esse "projeto" só se torna viável se houver distribuição de renda, se tirarmos as pessoas da miséria devolvendo a elas possibilidades de escolha - que tinha sido sequestrada -, devolvendo a possibilidade de olhar, acima do chão, para o futuro. E é, acredito, com Dilma Rousseff que tudo isso seguirá mudando. Sem contar que já está na hora desse país ter uma mulher na presidência, o tão sonhado matriarcado de Pindorama. Então pronto: coração conquistado, paixão aquecida!

Cá está minha aposta no sonho para que continuemos saindo dessa realidade desigual insuportável que nos assola. É preciso combatê-la a favor da igualdade, a favor da diferença.


 
PS1: Tem gente muito bonita que me fez acreditar em Dilma com paixão. Uma delas é o Tiago Mesquita, sempre doce e consistente.

PS2: Insanidade é como chamo o "atentado" ao Serra. Estou amplificando o ato porque ele é inadmissível e porque só desfavorece. Está certo que Serra é um cretino e que tem um médico mais cretino ainda que diz que ele precisa de repouso depois de uma tomografia porque foi atingido por uma bolinha de papel. Mas por favor, né? Nem bolinha de papel, nem bala de canhão.

PS3: Por outro lado essas eleições me deixaram absurdamente angustiada. Duas pessoas, que amo demais,se engalfinharam ontem parecendo que nunca tinham se entendido na vida. Foram horas de tensão, mas tudo acabou bem. Mas e se não acabasse? Poucas coisas devem valer mais do que o que essas duas pessoas têm. Pouquíssimas. Talvez só mesmo a luta por colocar a Dilma na presidência da República, porque naquele carinho ninguém mexia. Mais um motivo para acreditar. Conto-lhes que, na briga de ontem, o amor venceu, literalmente. Espero que dia 31 também. Com Dilma, rumo à Ginecocracia!

PS4: Espero, do fundo do meu coração, não me arrepender, sobretudo na questão ambiental e nessa putaria religiosa, de ter escrito esse post. Mas já que estamos no inferno, não custa dar um abraço no capeta!
 

Diga CASAMENTO!

| | Comentários (30)
castrocouples.jpg
"Two Castro Couples -- Love, sweet love" de Crawford Barton
Apresentada a mim pelo sweet Fabiano Camilo


A.S.1: Este texto não defende nenhuma candidatura, mas a causa do casamento igualitário.

A.S.2: Embora a Dilma tenha assinado aquela mensagem odiosa e repugnante ao povo de deus (fuck them all) sim, ela continua sendo a melhor opção porque (ainda) acredito que ela escutará essa demanda. E também, né? Não posso visualizar o Serra debatendo esse assunto porque não acredito que ele pense na importância de um beijo de língua salivento e delicioso sob a luz do luar (ou solar, tanto faz) para quem quiser ver.

Dito isso e visto que o capeta me espera com o tridente afiado no inferno graças a deus, vamos à defesa:

E começo dizendo que não sou uma ardorosa defensora do matrimônio. Tampouco acho essa instituição sagrada, assim como não penso que a família não deve ser afrontada, sou panfletária do Kaos seguindo o mestre Mautner. Mas depois de acompanhar por horas a fio a votação no Senado argentino que decidiu pela aprovação do matrimônio igualitário, eu entendi o peso desse termo.

María Eugenia Estenssoro, senadora argentina, significou precisamente o que representava a aprovação da Lei do matrimônio igualitário: trata-se de deixar de viver em guetos. É isso o mais bonito da condição igualitária: superar o discurso da tolerância. A união civil é um sinal de que se tolera que pessoas do mesmo sexo mantenham uma sólida relação comprovada por um contrato comercial que garante direitos econômicos. Ou seja, se der merda, o(a) parceiro(a) não ficará na mão. Tudo bem que o casamento não seja uma coisa muito diferente. Entretanto, no caso da união civil se garante os direitos por uma exceção, se diferencia porque o entende como uma exceção.
 
E, claro, não podemos descartar a mágica do momento tão esperado. Enquanto um casal heterossexual dirá: "quer casar comigo?", o homossexual dirá: "quer se unir civilmente a mim?" Pô, isso acaba com qualquer lua de mel... E não adianta argumentar que basta aos interessados substituírem o termo união civil por casamento. Já basta a fantasia de inúmeros casais que sonham em andar de mãos dadas em um passeio no parque ou simplesmente trocar um carinho ou dar aquele beijo cinematográfico sem se sentirem em um zoológico. Se é para mudar simbolicamente que se mude a palavra e diga: CASAMENTO. Com todas as letras. Se é a lei que garante igualdade, que "assim seja", e diga-se: CASAMENTO.
 
Os três candidatos mais votados no primeiro turno insistem idiotamente em dizer que são a favor da união civil, mas não do casamento porque o casamento é religioso. E todos estamos cansados de saber que o casamento não é religioso. Precisa da constituição? Então tá, lá diz no Art. 226: § 1º - O casamento é civil e gratuita a celebração. A razão da ausência de perguntas dos jornalistas sobre essa contradição não consigo justificar. Mas gostaria muito de saber.

O que não posso deixar de pensar é que os candidatos se recusam a dizer CASAMENTO porque não querem confundir o eleitorado (não me permito a crença no desconhecimento da Constituição por parte dos três candidatos). E esse fato torna tudo muito pior porque ao invés de esclarecerem o assunto de uma vez por todas, só levam água para o moinho do obscurantismo*. Prova de que a política mais do que nas ações, realiza-se na linguagem. Uma coisa pode, outra não pode. Homossexuais podem fazer o que quiserem dentro de casa, mas fora não. Porque deus vai castigar. (Salve Freud que livrou-nos do mal, amém).

Cristina Kirchner estava na China quando convocou os jornalistas para se manifestar a favor do matrimônio igualitário porque sabia que em pouco tempo esse debate seria anacrônico. Cristina encorajou o debate, centenas de religiosos se manifestaram contra, mas mesmo assim ela bancou e mais, levou dois senadores que teoricamente votariam contra para a China junto com ela. Jogo sujo? Não mesmo! Se os parlamentares acham que ir para a China comprar porcelana é mais importante que votar uma lei no Senado, sorte a da Argentina.

Aos que se acham mais realistas que o rei e dizem ser contra o casamento gay ou hetero, saibam que fazem parte de uma nova geração, a anarco-capitalista. Uma geração fascista travestida de anarquista que nem sequer brigou pela universalização dos direitos e quer aboli-los. Foi Daniel Link, el muso, que disse isso e endosso sua formulação.
 
A presidenta ou o presidente eleito não tem a obrigação de encaminhar ao congresso um projeto de lei a favor do casamento gay ou da descriminalização do aborto. O lamentável é ver ambos se comprometendo a NÃO fazê-lo de antemão. É triste, mas é o que temos. Para mim, pelo menos por enquanto, bastaria que eles parassem de dizer união civil e dissessem: CASAMENTO. Tem diferença, uma sutil diferença na linguagem, que pode fazer toda a diferença em um país que deixa morrer milhares de homossexuais por conta do ódio que não quer combater, porque recusa-se a dizer CASAMENTO.
 
     
*e dizer que foi Marina quem levou o debate para esses termos é falso. A posição dela é odiosa e burra como a do Serra e Dilma. Dele, já disse, espero o pior. Mas Dilma, ainda no primeiro turno, assinou uma carta dizendo que não encaminharia nenhum projeto de lei para o congresso que dissesse respeito ao aborto, ao casamento gay, e todos os temas "polêmicos".
 





Logo ali, OPS!

| | Comentários (19)
Queridos e queridas,

chegou até mim uma boa surpresa, dessas que a gente não espera. O Rafael Reinehr e o Fabiano Camilo me convidaram para ter uma coluna n'O Pensador Selvagem, que é lindo e recheado de coisas muito boas. Eu topei o desafio, claro =). Minha coluna se chama "Para não esquecer" e meu primeiro texto "Em estado de emergência". Então, este é um convite para passarem lá. Espero que gostem!
Para Ana Carolina Cernicchiaro

Hoje li uma entrevista que Marina Silva concedeu ao Estadão. Foi uma das coisas mais lindas que li e me fez pensar um pouco. A conclusão que eu cheguei é que, definitivamente, o mundo é feito de intensidades. Essa é a minha leitura da "nova política" proposta por Marina Silva. E essa política, como todas as outras, passa pelo outro, atravessa o corpo do outro; e é por isso que ela exige de nós uma ética. Uma ética que pressuponha um amor pelo mundo, uma reconciliação com a natureza. Assim, ela nos pede para abandonar a perspectiva antropocêntrica tão imperativa e para ver no ambientalismo não um discurso vazio e fora de nós, mas um discurso da diferença que constitui o mundo. Como ensina Eduardo Viveiros de Castro o "ambientalismo talvez proponha uma internalização da natureza, uma nova imanência e um novo materialismo - a convicção de que a natureza não pode ser o nome do que está 'fora daqui', porque não existe dentro, nem fora". Essa nova imanência que pressupõe a diferença como motor de funcionamento não é uma proposta de equilíbrio, mas de uma dança. Agamben disse que um dia, talvez, os homens parem de caminhar e passem a dançar. E esse não é desejo banal: a dança é uma metáfora do pensamento, já disse Badiou. Ela é a máxima expressão de que o corpo é capaz. Ela sustenta, e não esgota, as possibilidades no ato de sua execução. Ou ainda, a dança é a maneira de entender um corpo como meio sem fim, como um gesto, ou seja, um corpo sem destino, sem finalidade, uma intensidade pura.

[Hélio Oiticica - que se fosse candidato a presidência ganharia o meu voto - em uma das suas instalações (que não me lembro agora exatamente qual era, se o mundo-abrigo ou o Barracão) propunha uma comunidade do corpo em dança: "sonho não mais de comunidade piritamizada, castificada mas COMUNIDADE DO CORPO EM DANÇA" (as maiúsculas são dele, mantive).]

Talvez uma das maneiras de concretizar essa política de intensidades, que como disse exige de nós uma postura ética diante do outro, seja o amor pelo mundo. Esse amor é o mesmo amor que Deleuze encontrou no conceito de beatitude de Spinoza. Um amor que faz entender o ser como ser-com, eu existo aqui com você, com o outro. Em todo o lugar em que eu estiver estarei com você e com o mundo mais do que no mundo. O amor não é aceitar a diferença, porque a diferença está dada. Amar é estar-com a diferença (por isso não existe dentro ou fora) de modo que poderíamos dizer: temos esse amor-mundi latente, mas não é ele quem mobiliza a política nesse exato momento. Porque o amor que move a política das intensidades é diferente do amor cristão. Ou seja, não se trata de amar o outro como a si mesmo ou de dar a outra face para bater. O amor é feito de suor, fluidos, contatos e intensidades, é feito da nossa capacidade de afeto, por isso ele não pode ser uma lei. O amor é um acontecimento, um encontro em que as forças corporais, as forças do pensamento e da imaginação, unem-se em um afeto ativo.

Em tudo, em tudo você terá a seu favor o corpo.
O corpo está sempre ao lado da gente.
É o único que, até o fim, não nos abandona.
Clarice Lispector

1)    A luta pela autonomia sobre o próprio corpo nas décadas de 60 e 70 já anunciava que a biopolítica era irreversível;

2)     Depois desse período todo o embate travado contra o poder passou, de maneira mais evidente, pela vida;

3)    Agamben disse sabiamente que todo o pensamento que tem como objeto a vida compartilha desse objeto com o poder e deve confrontar-se com as suas estratégias;

4)    A estratégia do poder não é outra senão a do controle da sexualidade e do prazer para favorecer a acumulação de capital, portanto não é mero acaso que as pessoas sejam impelidas ao consumo desenfreado;

5)    Controla-se a sexualidade através do imperativo de gozo que manda comprar sem que com isso o corpo tenha prazer, ou seja, o investimento libidinal é todo concentrado na mercadoria;
 
6)    A mensagem anestésica que o poder tenta provocar com isso é a de um corpo incapaz de afeto e que só pode ser afetado pela propaganda;

7)    O poder se serve dessa afetação pela propaganda para tratar o corpo como um corpo patológico que precisa de medidas de controle ditadas por ele para poder viver;
 
8)    O poder aposta na alienação da consciência para aumentar o seu domínio; mas esquece que a alienação é também a nossa capacidade de se apropriar do imaterial. A alienação sempre nos tira de nós mesmos, ou seja, o corpo não é uma consciência que pode ser modelado na sua totalidade;

9)    O poder quer controlar e direcionar nosso desejo, mas desconhece que sempre existirá algo de incontrolável no sujeito. Aquilo que ele nunca poderá sujeitar às suas determinações;

10)    É esse incontrolável, esse imponderável, que deve ascender toda vez que o poder vier nos dizer o que fazer com os nossos corpos. O poder é esperto, mas não tem libido. Enquanto ele aposta em uma forma de vida, nós o confrontamos com a força corporal irrefreável. A força do nosso desejo.

marina0310.jpg
Estamos em primeiro lugar de um nova política que se inaugura no Brasil.
Marina Silva

Como a maioria dos leitores desse blog sabe, eu votei na Marina Silva e o fiz sem arrependimentos. Eu gostaria de deixar claro, porque não parece óbvio para as pessoas, que votei em Marina Silva e não em José Serra. Não fui eu quem colocou José Serra nenhum no segundo turno.

A bobagem de atribuir a ida de Serra ao segundo turno a quem votou na Marina é tremenda. Primeiro porque pensam que a verdade da bondade, o que mais li ultimamente era que o bem venceria com Dilma, está toda com o PT e quem está contra ele está contra o Brasil, contra os pobres, contra tudo e todos. Em muitos casos, eu sei, tem o calor da hora e é absolutamente compreensível que se radicalize em algum momento. Mas daí a atribuir um quase acefalismo ou uma verve religiosa cega, estúpida, mal esclarecida, entre outras milhares de qualificações que foram jogadas ao vento, é demais. A conotação dos julgamentos tem o mesmo fundo religioso e moralista com os quais se atacam os eleitores de Marina e a própria Marina. A mesma coisa se aplica quando acusam Marina de ser uma traidora. Quem ela traiu?

Tem gente que pensa que a radicalização evangélica é uma novidade. Por favor... Não é de hoje que o evangelismo cresce e que seu discurso se expande para os mais recônditos cantos do Brasil. A merda da Igreja Católica que, na sua incorporação silenciosa em todos os discursos, manda e desmanda ninguém coloca em questão. Sobre a questão evangélica o Idelber Avelar já falou aqui (e é sempre bom lembrar que Dilma também tem uma fatia desse eleitorado). Creio que seja mais do que suficiente para acabar com essa percepção míope e preconceituosa.

Votei em Marina porque acredito no seu projeto. Porque ela tem um projeto. Porque ele é adequado a realidade que vivemos. Porque ele suspende esse tempo de puro progresso, para pensar passado, presente e futuro. E porque, ao pensar assim, ele se torna intempestivo, mas não menos possível. Cheio de conflitos, mas não menos harmonioso. Porque, como disse Viveiros de Castro, é um projeto político que faz jus a esse nome. Se sou ingênua a pensar assim, tudo bem. Eu prefiro as possibilidades às determinações.
 
Dilma vai ganhar as eleições e para isso vai ter que sentar para conversar com Marina Silva, o que é ótimo para o país. Vai ganhar, e se isso importa a essa altura do campeonato, com o meu voto. Então, aos que esbravejam contra os que votaram em Marina, meu mais profundo danem-se. Desprezo-os como desprezo José Serra.
 
E se depois disso tudo ainda quiserem cobrar a dívida do segundo turno de mim, eu devolverei: quem pagará a conta no Maranhão com a reeleição de Roseana Sarney? Então, ficam os meus mais tristes "parabéns" ao PT por essa conquista de "base", de "apoio", e porque não, "ideológica", do governo Maranhão. Nem tudo é preto no branco, não é? E falar assim parece real demais, não parece? Marina Silva não é o bastião da ética nem quer ser, assim como o PT também não (quero crer).
 
Enfim, depois de hoje, e mais do que nunca, tive a certeza de que existe um outro mundo no qual vale a pena acreditar; um outro mundo construído de afetos e desejos. Tão possível e concreto quanto o que vivemos.