Não há como não ver as imagens da guerra que se instalou no Rio de Janeiro e não sentir um aperto enorme no coração. A única coisa em que consigo pensar é na quantidade de vidas que são desperdiçadas. Já é duro demais tentar pensar nessas vidas que todos os dias travam uma batalha pra sobreviver. Agora não é diferente. Mas a sobrevida aqui não é excesso de vida, e sim a capacidade de desviar da morte.
Diferente é a lógica da guerra que é guiada pelo excesso. E o excesso, para além do que previa Georges Bataille, é muito, mas muito cruel. Implica vidas, perdas, inseguranças, incertezas. É claro que tudo isso está mais ou menos previsto nas nossas vidas, mas não necessariamente com a ameaça de uma bala na cabeça. Mas como não é regra geral, em alguns lugares é essa a realidade que se vive diariamente. Daí a justificativa do governo estadual do Rio: os traficantes foram acuados pelas UPPs e partiram para o ataque. Mas como todo governo, o do Rio também sabia dos efeitos colaterais que isso criaria e não previniu. Se tem coisa que não surpreende o governo é o imprevisto. Tudo está sempre previsto, embora o centro do governo seja vazio, nada escapa. Daí esses acontecimentos serem complicados demais.
Quem declara guerra tem que suportar seus efeitos, é verdade. Os traficantes ou "marginais", como os meios de comunicação adoram chamar, começaram, e o revide não veio a galope: veio de tanque. Ou seja, a lógica que o Estado quer combater é duplicada por ele. O problema do tanque é que ele funciona exatamente como os ataques: não mira o inimigo (quem são, afinal, os inimigos?). Ele é uma demonstração da soberania de um Estado acéfalo sedento por estatísticas que, diante de situações como essa, não titubeia: atira para matar.
Luiz Eduardo Soares não cansa de repetir que é preciso cuidado e atenção contínua, é preciso reformar a polícia, rever as políticas de proibição das drogas, etc. Uma série de medidas precisam ser tomadas para que a vida melhore, para que essas vidas não tenham "destino certo". Faz muitos anos que a cidadania foi abandonada nas favelas. Muitos e muitos anos que se decreta "guerra ao tráfico". Faz anos e anos que a polícia é mal aparelhada, mal paga e corrupta (e que nesses dias trabalha em condições desumanas). Daí se forma milícias. E quando tudo isso se torna insustentável e temos dois eventos gigantescos para sediar no Brasil as coisas fogem do controle?
Para ajudar, no meio de tudo isso aparecem notas da Fifa declarando que está acompanhando a situação de perto, que o governo está trabalhando com a Interpol e com os organizadores da copa da África do Sul. Ufa! Agora podemos respirar aliviados. Estamos fazendo a limpeza necessária.
É claro que não estou defendendo os perseguidos pela polícia. Acho que tem que prender, julgar, etc. Não faz o menor sentido ter comunidades inteiras vivendo sob essa forma de poder paralelo. Agora, a conversa de que o tráfico vai acabar depois dessa guerra, que o mal será combatido e o bem vai perseverar, por favor...
O maior problema é a forma dessa intervenção e suas promessas, sobretudo depois de ter assistido a coletiva patética do Sérgio Cabral que não fez outra coisa a não ser lamber as botas do governo federal falando de qualquer coisa menos se implicando nas ações. Essa guerra de bem contra o mal que o governo lança e a mídia compra é muito violenta. Ninguém está interessado em mostrar as contradições, as linhas tênues que separam bandido de polícia, etc. Impossibilitados de identificar o inimigo, fato que justifica a guerra, segue-se em círculos nos consolando com o "tudo acabará bem".
Depois que estoura a bomba, literalmente, colocar tanque na rua é fácil. E bem covarde porque mata inocentes (que também atendem pelo nome de suspeitos ou nem entram nas contas), coloca a vida das pessoas em risco em nome de uma paz mentirosa. Tudo piora quando o discurso começa a ser o da necessidade: "é necessário os tanques irem para as ruas", "eles são prioritariamente para o transporte dos policiais, mas nada impede que surja a necessidade de usá-los", etc. Necessidade com tanque: já vimos essa história. E ela retorna incessantemente. Por força de lei ou em nome da "guerra contra o crime".
Outro gozo monstruoso se dá com a estetização da violência. Todas as imagens são re-significadas (panos brancos, conta-nos o Jornal da Globo, "para celebrar a paz que chegou"). O que não aparece "normalmente" é estampando nas manchetes porque vale tudo na exceção. "A população está do lado da polícia" é o que dizem os jornais. Mas essa referida população se tornou visível agora. Ela não existia antes dos ataques como "população". É incrível a capacidade de metamorfose do discurso para legitimar a violência. E mais incrível ainda a capacidade das pessoas se dobrarem a esses discursos.
Quem é conivente com os tanques, com caveirões, com Bope, etc, deve saber que para a realização do desejo no neo-lacerdista Marcelo Tas não é preciso muito esforço. Ele sugeria no tuiter que o Bope, a polícia e as Forças Armadas fizesse uma limpeza no Congresso Nacional. De novo. De um povo sem memória, de reacionários que nem por um minuto conseguem se colocar no lugar de quem vive nessas comunidades, não podemos esperar nada diferente. É como eu sempre digo: o Brasil adora habitar a zona cinza. E infelizmente quem recebe a fatura é quem não pode pagar. Por enquanto, segue o espetáculo com os aplausos dos palhaços que, confortáveis no seu circo particular, gozam com as cenas de horror.
Diferente é a lógica da guerra que é guiada pelo excesso. E o excesso, para além do que previa Georges Bataille, é muito, mas muito cruel. Implica vidas, perdas, inseguranças, incertezas. É claro que tudo isso está mais ou menos previsto nas nossas vidas, mas não necessariamente com a ameaça de uma bala na cabeça. Mas como não é regra geral, em alguns lugares é essa a realidade que se vive diariamente. Daí a justificativa do governo estadual do Rio: os traficantes foram acuados pelas UPPs e partiram para o ataque. Mas como todo governo, o do Rio também sabia dos efeitos colaterais que isso criaria e não previniu. Se tem coisa que não surpreende o governo é o imprevisto. Tudo está sempre previsto, embora o centro do governo seja vazio, nada escapa. Daí esses acontecimentos serem complicados demais.
Quem declara guerra tem que suportar seus efeitos, é verdade. Os traficantes ou "marginais", como os meios de comunicação adoram chamar, começaram, e o revide não veio a galope: veio de tanque. Ou seja, a lógica que o Estado quer combater é duplicada por ele. O problema do tanque é que ele funciona exatamente como os ataques: não mira o inimigo (quem são, afinal, os inimigos?). Ele é uma demonstração da soberania de um Estado acéfalo sedento por estatísticas que, diante de situações como essa, não titubeia: atira para matar.
Luiz Eduardo Soares não cansa de repetir que é preciso cuidado e atenção contínua, é preciso reformar a polícia, rever as políticas de proibição das drogas, etc. Uma série de medidas precisam ser tomadas para que a vida melhore, para que essas vidas não tenham "destino certo". Faz muitos anos que a cidadania foi abandonada nas favelas. Muitos e muitos anos que se decreta "guerra ao tráfico". Faz anos e anos que a polícia é mal aparelhada, mal paga e corrupta (e que nesses dias trabalha em condições desumanas). Daí se forma milícias. E quando tudo isso se torna insustentável e temos dois eventos gigantescos para sediar no Brasil as coisas fogem do controle?
Para ajudar, no meio de tudo isso aparecem notas da Fifa declarando que está acompanhando a situação de perto, que o governo está trabalhando com a Interpol e com os organizadores da copa da África do Sul. Ufa! Agora podemos respirar aliviados. Estamos fazendo a limpeza necessária.
É claro que não estou defendendo os perseguidos pela polícia. Acho que tem que prender, julgar, etc. Não faz o menor sentido ter comunidades inteiras vivendo sob essa forma de poder paralelo. Agora, a conversa de que o tráfico vai acabar depois dessa guerra, que o mal será combatido e o bem vai perseverar, por favor...
O maior problema é a forma dessa intervenção e suas promessas, sobretudo depois de ter assistido a coletiva patética do Sérgio Cabral que não fez outra coisa a não ser lamber as botas do governo federal falando de qualquer coisa menos se implicando nas ações. Essa guerra de bem contra o mal que o governo lança e a mídia compra é muito violenta. Ninguém está interessado em mostrar as contradições, as linhas tênues que separam bandido de polícia, etc. Impossibilitados de identificar o inimigo, fato que justifica a guerra, segue-se em círculos nos consolando com o "tudo acabará bem".
Depois que estoura a bomba, literalmente, colocar tanque na rua é fácil. E bem covarde porque mata inocentes (que também atendem pelo nome de suspeitos ou nem entram nas contas), coloca a vida das pessoas em risco em nome de uma paz mentirosa. Tudo piora quando o discurso começa a ser o da necessidade: "é necessário os tanques irem para as ruas", "eles são prioritariamente para o transporte dos policiais, mas nada impede que surja a necessidade de usá-los", etc. Necessidade com tanque: já vimos essa história. E ela retorna incessantemente. Por força de lei ou em nome da "guerra contra o crime".
Outro gozo monstruoso se dá com a estetização da violência. Todas as imagens são re-significadas (panos brancos, conta-nos o Jornal da Globo, "para celebrar a paz que chegou"). O que não aparece "normalmente" é estampando nas manchetes porque vale tudo na exceção. "A população está do lado da polícia" é o que dizem os jornais. Mas essa referida população se tornou visível agora. Ela não existia antes dos ataques como "população". É incrível a capacidade de metamorfose do discurso para legitimar a violência. E mais incrível ainda a capacidade das pessoas se dobrarem a esses discursos.
Quem é conivente com os tanques, com caveirões, com Bope, etc, deve saber que para a realização do desejo no neo-lacerdista Marcelo Tas não é preciso muito esforço. Ele sugeria no tuiter que o Bope, a polícia e as Forças Armadas fizesse uma limpeza no Congresso Nacional. De novo. De um povo sem memória, de reacionários que nem por um minuto conseguem se colocar no lugar de quem vive nessas comunidades, não podemos esperar nada diferente. É como eu sempre digo: o Brasil adora habitar a zona cinza. E infelizmente quem recebe a fatura é quem não pode pagar. Por enquanto, segue o espetáculo com os aplausos dos palhaços que, confortáveis no seu circo particular, gozam com as cenas de horror.


