novembro 2010 Arquivos

A lógica dos tanques

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Não há como não ver as imagens da guerra que se instalou no Rio de Janeiro e não sentir um aperto enorme no coração. A única coisa em que consigo pensar é na quantidade de vidas que são desperdiçadas. Já é duro demais tentar pensar nessas vidas que todos os dias travam uma batalha pra sobreviver. Agora não é diferente. Mas a sobrevida aqui não é excesso de vida, e sim a capacidade de desviar da morte.

Diferente é a lógica da guerra que é guiada pelo excesso. E o excesso, para além do que previa Georges Bataille, é muito, mas muito cruel. Implica vidas, perdas, inseguranças, incertezas. É claro que tudo isso está mais ou menos previsto nas nossas vidas, mas não necessariamente com a ameaça de uma bala na cabeça. Mas como não é regra geral, em alguns lugares é essa a realidade que se vive diariamente. Daí a justificativa do governo estadual do Rio: os traficantes foram acuados pelas UPPs e partiram para o ataque. Mas como todo governo, o do Rio também sabia dos efeitos colaterais que isso criaria e não previniu. Se tem coisa que não surpreende o governo é o imprevisto. Tudo está sempre previsto, embora o centro do governo seja vazio, nada escapa. Daí esses acontecimentos serem complicados demais.

Quem declara guerra tem que suportar seus efeitos, é verdade. Os traficantes ou "marginais", como os meios de comunicação adoram chamar, começaram, e o revide não veio a galope: veio de tanque. Ou seja, a lógica que o Estado quer combater é duplicada por ele. O problema do tanque é que ele funciona exatamente como os ataques: não mira o inimigo (quem são, afinal, os inimigos?). Ele é uma demonstração da soberania de um Estado acéfalo sedento por estatísticas que, diante de situações como essa, não titubeia: atira para matar.

Luiz Eduardo Soares não cansa de repetir que é preciso cuidado e atenção contínua, é preciso reformar a polícia, rever as políticas de proibição das drogas, etc. Uma série de medidas precisam ser tomadas para que a vida melhore, para que essas vidas não tenham "destino certo". Faz muitos anos que a cidadania foi abandonada nas favelas. Muitos e muitos anos que se decreta "guerra ao tráfico". Faz anos e anos que a polícia é mal aparelhada, mal paga e corrupta (e que nesses dias trabalha em condições desumanas). Daí se forma milícias. E quando tudo isso se torna insustentável e temos dois eventos gigantescos para sediar no Brasil as coisas fogem do controle?

Para ajudar, no meio de tudo isso aparecem notas da Fifa declarando que está acompanhando a situação de perto, que o governo está trabalhando com a Interpol e com os organizadores da copa da África do Sul. Ufa! Agora podemos respirar aliviados. Estamos fazendo a limpeza necessária.

É claro que não estou defendendo os perseguidos pela polícia. Acho que tem que prender, julgar, etc. Não faz o menor sentido ter comunidades inteiras vivendo sob essa forma de poder paralelo. Agora, a conversa de que o tráfico vai acabar depois dessa guerra, que o mal será combatido e o bem vai perseverar, por favor...
 
O maior problema é a forma dessa intervenção e suas promessas, sobretudo depois de ter assistido a coletiva patética do Sérgio Cabral que não fez outra coisa a não ser lamber as botas do governo federal falando de qualquer coisa menos se implicando nas ações. Essa guerra de bem contra o mal que o governo lança e a mídia compra é muito violenta. Ninguém está interessado em mostrar as contradições, as linhas tênues que separam bandido de polícia, etc. Impossibilitados de identificar o inimigo, fato que justifica a guerra, segue-se em círculos nos consolando com o "tudo acabará bem".

Depois que estoura a bomba, literalmente, colocar tanque na rua é fácil. E bem covarde porque mata inocentes (que também atendem pelo nome de suspeitos ou nem entram nas contas), coloca a vida das pessoas em risco em nome de uma paz mentirosa. Tudo piora quando o discurso começa a ser o da necessidade: "é necessário os tanques irem para as ruas", "eles são prioritariamente para o transporte dos policiais, mas nada impede que surja a necessidade de usá-los", etc. Necessidade com tanque: já vimos essa história. E ela retorna incessantemente. Por força de lei ou em nome da "guerra contra o crime".
     
Outro gozo monstruoso se dá com a estetização da violência. Todas as imagens são re-significadas (panos brancos, conta-nos o Jornal da Globo, "para celebrar a paz que chegou"). O que não aparece "normalmente" é estampando nas manchetes porque vale tudo na exceção. "A população está do lado da polícia" é o que dizem os jornais. Mas essa referida população se tornou visível agora. Ela não existia antes dos ataques como "população". É incrível a capacidade de metamorfose do discurso para legitimar a violência. E mais incrível ainda a capacidade das pessoas se dobrarem a esses discursos.
 
Quem é conivente com os tanques, com caveirões, com Bope, etc, deve saber que para a realização do desejo no neo-lacerdista Marcelo Tas não é preciso muito esforço. Ele sugeria no tuiter que o Bope, a polícia e as Forças Armadas fizesse uma limpeza no Congresso Nacional. De novo. De um povo sem memória, de reacionários que nem por um minuto conseguem se colocar no lugar de quem vive nessas comunidades, não podemos esperar nada diferente. É como eu sempre digo: o Brasil adora habitar a zona cinza. E infelizmente quem recebe a fatura é quem não pode pagar. Por enquanto, segue o espetáculo com os aplausos dos palhaços que, confortáveis no seu circo particular, gozam com as cenas de horror.

Nem ia me manifestar, mas me deu uma ânsia, sabe?

Esse encontro que chamam de "histórico" dos blogueiros com o presidente Lula é, de fato, histórico. O primeiro fato histórico é Lula ter se encontrado com blogueiros reconhecendo que os meios de comunicação e sua capacidade de mobilização também está fora dos meios tradicionais. O que é sensacional.

O segundo fato histórico já foi relatado pela Lola e pela Flávia (Lady Rasta) e, convenhamos, é muito patético. Idelber ontem no seu post sobre a entrevista dizia que o sexismo na seleção dos entrevistadores não era um dado subjetivo do organizador e acrescentou que "na medida em que as mulheres estão sub-representadas num certo conjunto de lideranças jornalísticas na internet (mesmo dentro da esquerda), a assimetria de gênero visível em nossa sociedade se reproduziu na composição do grupo que está agora em Brasília".
 
Entendo o que o Idelber quer dizer, porque se tem homem feminista nesta blogosfera de meu deus o Idelber está no topo da lista, mas quero objetar no seguinte: a ordem das coisas está aí para ser mudada. A sub-representação feminina continuará sendo sub-representação feminina enquanto uma intervenção não for feita. Para acabar com o machismo é preciso ação e intervenção e não apenas mimetizar o ambiente em que se vive. Mas pode-se argumentar: dona Flávia, a senhorita não acha que as mulheres têm que tomar iniciativa? Acho. E elas tomam. Lola e Cynthia, para ficar só nas duas que acompanho mais de perto, fazem isso com maestria. Meu feminismo é diferente do feminismo que ambas defendem, mas é inegável, inquestionável, que elas são capazes de mudar a vida ou pelo menos o ponto de vista das pessoas. Basta, por exemplo, dar uma olhada nos comentários dos posts da Lola. A atuação das duas (repito, das duas porque acompanho mais de perto e sei que são pessoas abertíssimas ao diálogo) nessas eleições foi divina. Mas então se eu acho que as mulheres devem se mexer para fazer as coisas (gente, eu acho mesmo, eu freqüento meu curso de psicanálise todo sábado; Freud e Lacan são testemunhas da minha dedicação) porque reclamar da ausência de mulheres nessa entrevista? Simples: são blogueiros progressistas de esquerda, não são? Assim são chamados. Elegemos uma mulher presidente da república combatendo fortemente todo o tipo de machismo que tentaram colar nela, não elegemos? Elegemos. E, por fim, não é um encontro histórico? Sim, é um encontro histórico.

E o que aconteceu? A "esquerda progressista" perdeu o bonde da história. PERDEU. Fez um puta de um rombo no que eles chamam de progresso, de avanço e de democratização. Espero que dessa vez, pelo menos, faça-se uma autocrítica para rever esses rótulos de esquerda, progressista, whatever (porque distribuir rótulos a esquerda progressista, que conta com PHA nos seus quadros, faz muito bem; vide a elegância, educação e respeito com que trataram os eleitores da Marina).

Para quem tanto brigou, durante as eleições, para que as coisas permanecessem como estavam, conseguiram. Deve ser a ironia da História.

 


PS1: resisti a tentação de não colocar aspas em todos os históricos desse post. Porque, na boa, o Lula sabe exatamente a quem agradecer. Ele não perde o bonde da história. Ele não deixaria de ser o primeiro presidente a conversar com pessoas (que eram, em sua maioria, apoiadores de seu governo, mas quanto a isso não tenho nenhuma objeção porque a entrevista foi super boa) que atuaram em um meio que ajudou a reverter graves acusações à Dilma nas eleições presidenciais.

PS2: Eu sei que foram convidadas duas mulheres para as entrevistas sei também que uma delas, a Conceição Oliveira, atuante blogueira, fez uma pergunta via twitcam. Mas, como vocês pode ler no post da Lola, o buraco é mais embaixo.

PS3: Teve esquerdista progressista que questionou se era entrevista com o presidente ou um congresso de ginecologia, como podemos ler no post da Lola. Quero ver esse cabra invocar a ginecologia para falar com Dilma Rousseff. Ô se quero.

PS4: Não me considero uma blogueira. Muito menos progressista. E menos ainda progressista de esquerda.

Experimentar

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As experiências que temos nunca se vão de todo. Suas marcas sempre ficarão à espreita esperando o momento certo para reaparecer. Esses momentos foram denominados por Walter Benjamin como "instantes de perigo", e aparecem como um lampejo para rearmar o sentido das coisas ou fazer desmoronar tudo. O que é bom também. O que importa é que de uma maneira ou de outra, teremos que juntar os cacos e começar com pouco, como diz Benjamin.

É a pobreza de experiência que nos assola. Os amores instantâneos, os tuites com 140 caracteres, a vida na cidade como flashes de civilização e barbárie. De nada disso podemos tirar uma narrativa. De nada disso podemos tirar uma história com pé e cabeça como contavam outrora. Resta-nos essa pobreza. E é aí que está toda a mágica da vida contemporânea. Sua fragmentação e a sua infinita possibilidade de recriação, de reinvenção, de redescoberta.
 
Nossa pobreza de experiências não significa, entretanto, que não as tenhamos. A diferença é que essa experiência se configura, segundo Benjamin, como uma "nova barbárie". Ela não aparece mais para reconstruir um mundo perdido; e sim para revitalizar o mundo em que vivemos, para abrir novas possibilidades. Por isso muitas coisas ainda nos encantam, deixam-nos felizes, arrancam de nós sorrisos, enamoram. A tese de do desencantamento do mundo é falsa. Temos, pelo menos para os mais céticos, a técnica, nosso novo mito, para comprovar isso.
 
Mas os encantamentos dos quais falo são de outra ordem; são da ordem do sonho. É claro que sonhar em uma sociedade basicamente virtual, não só pelos meios, mas pela sua capacidade imagética irrefreável, vertiginosa e exaustiva, é um tanto complicado. Tudo é tão dado, tão oferecido, que a impressão que temos é que descobrem nossos desejos antes de nós mesmos, que formulam nossos sonhos quando ainda estamos acordados. Mas isso não é verdade. O sonho de cada um existe: é a nossa capacidade de singularizar todas as imagens do mundo, de elaborarmos nossas possibilidades, de alimentarmos e criarmos nossos desejos. "Ao cansaço segue o sono, e não raramente o sonho compensa a tristeza e o desânimo do dia, revelando a existência simples e grandiosa para a qual faltam forças quando se está acordado".
 
Não é por acaso que Benjamin, dono do trecho anterior citado, reivindica Mickey Mouse e a partir dele elabora uma frase que explica tão bem nossa realidade: "a humanidade prepara-se para sobreviver à civilização". Mesmo que a humanidade esteja em sua condição pós-humana: não há o que resgatar, não há como resgatar. Para experimentarmos a vida temos que saber nos virar com pouco e captar dos nossos sonhos, das nossas marcas, da nossa pobreza, o que pode aparecer como "iluminação profana" para intervir no mundo, para mudar a ordem das coisas. Nem que seja meio milímetro. Isso pode ser o suficiente para nos depararmos com a felicidade.

O senador Cristovam Buarque e a deputada Manuela D'Ávila tentam aprovar o acréscimo "essenciais à busca da felicidade" aos direitos sociais da Constituição com a PEC da Felicidade. A PEC é um tanto boba, embora bem intencionada. Apresenta como exemplo o Reino do Butão (!) e seu Índice Nacional de Felicidade Bruta (!). (será que foi daí que surgiu a teoria líquida de Bauman? hehe). Fora esse desatino, a vinculação da felicidade aos direitos sociais é um tanto equivocada, embora eu saiba de todas as boas justificativas de Cristovam: "humanizar a Constituição brasileira para tocar o coração com a palavra felicidade, e não tocar apenas o cérebro com o conceito de direito social" ou "carimbar no imaginário da sociedade a importância da dignidade humana". E está correto pensar que as pessoas não nascem em condições de igualdade e que é preciso construir uma base para que se sustente uma vida. É para isso temos a Constituição, o que não quer dizer que isso implique felicidade, nem mesmo, condições essenciais à busca da felicidade. E, como diz um amigo meu, de boas intenções a Constituição está cheia. Basta cumpri-las. 

O problema é que na PEC que visa garantir os meios essenciais à busca da felicidade podemos ler coisas do tipo: "Evidentemente as alterações não buscam autorizar um indivíduo a requerer do Estado ou de um particular uma providência egoística a pretexto de atender à sua felicidade. Este tipo de patologia não é alcançado pelo que aqui se propõe, o que seja, repita-se, a inclusão da felicidade como objetivo do Estado e direito de todos". Vejamos um exemplo extremo, porém legítimo: você para ser feliz precisa ter uma grana para sair para jantar com uma pessoa. Ok, para ter a grana, teoricamente, você precisa ter um emprego (o que não necessariamente garante a grana para o jantar, mas ok). Você tem meio passo para a felicidade garantida, inclusive, pela constituição. Daí a pessoa não quer ir jantar com você. Absurdamente infeliz, você resolve ir bater na porta do "Estado" (no Ministério da Felicidade, talvez?) para resolver seu estado de (in)felicidade. Automaticamente você será um sujeito que sofre de uma patologia egoística porque você já tem os requisitos mínimos para buscar a felicidade então, vire-se. Ou seja, a PEC que diz que a felicidade é um direito de todos patologiza quem quer encontrar a felicidade. Mas a causa disso é mais do que óbvia: eles não sabem o que é felicidade, ou melhor, confundem a felicidade com bem-estar.

Para entendermos isso basta dar uma olhadinha na entusiasmante pesquisa feita no Brasil que é relatada na PEC: "Em recente estudo, dois economistas brasileiros se propuseram a analisar, empiricamente, o que trazia felicidade aos brasileiros. Determinantes como renda, sexo, estado civil e emprego se mostraram diretamente ligadas às respostas dos pesquisados a respeito da felicidade. Concluiu-se, com base nesse estudo, que pessoas com maior grau de renda se dizem mais felizes, assim como aquelas pessoas casadas. A relevância do estudo, destarte, é estabelecer elementos concretos como determinantes da felicidade geral, demonstrando que é possível, sim, definir objetivamente a felicidade". Definir objetivamente a felicidade além de ser ingênuo, é violento. Felicidade não tem necessariamente um objeto, ela é fugidia e efêmera. Ela não está destinada a nós porque a felicidade, como explica Agamben, não é coisa que se mereça e ela está lá onde não esperamos. A felicidade está, portanto, mais perto da magia que da ordem dos fatores ou das condições essenciais.
 
"A busca individual pela felicidade pressupõe a observância da felicidade coletiva" - diz a PEC da Felicidade. Nem vou forçar a mão dizendo que isso é pura prática biopolítica... Mas o que consta ali está absolutamente errado. A felicidade é arrogância e excesso, diz Agamben e tem a ver com sujeito sair de si em um estado de encantamento. Não tem nada a ver com uma abstrata felicidade coletiva, um estado em que todos são felizes ao mesmo tempo sob as mesmas condições. Não tem nada mais cristão e hipócrita que dizer que só se alcançará a felicidade o dia em que o mundo estiver em completa harmonia; esse é o típico argumento que leva os sujeitos à culpa exigindo o cumprimento de boas ações para chegar ao prometido reino da felicidade.

A felicidade, ao contrário, é singular e terrena, é da ordem do inesperado e está longe da normalidade. Nada tem a ver com condições essenciais ou necessárias. Nada tem a ver com a previsibilidade de uma lei. Nada tem a ver com um índice. Felicidade não se mede, não se prevê: sente-se, encontra-se, acontece. Em francês diz-se bonheur (bon-heur), i.e., boa hora. Em inglês happiness que deriva de to happen, acontecer. A felicidade é sempre um possível, está sempre à espreita e em estado de latência. Nesse sentido, todo instante é um instante de perigo que pode revelar nossa possibilidade de fazer magia para que a felicidade aconteça. E daí pouco importa estabelecer se ela é pessoal ou coletiva. Essa é sua a magia e também puro afeto e encantamento, uma saída de si para abrir-se ao mundo, sua arrogância e seu excesso: no estado de felicidade quando se diz eu, diz-se todos.

A presidenta do Brasil

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Uél, uél, elegemos uma presidenta no Brasil. Ainda estou sem muitas palavras para falar de Dilma e do que sua vitória representa. Mas uma coisa é certa, o dia 31 de outubro marcou uma virada no imaginário machista do Brasil. Em compensação, o imaginário xenófobo deu as caras. Resquícios de um processo horroroso, marcado por um retrocesso sem igual nessa corrida presidencial. Não quero nem lembrar os episódios, só concluir que não poderia dar outra. Fica aqui registrado os meus parabéns aos meios de comunicação que conseguiram a façanha de inventar um país dividido e, claro, um abraço bem especial no reacionário do José Serra que conseguiu, com sua campanha baixa e suja, trazer à tona os fascistinhas.
 
Eu não gostei muito do pronunciamento da Dilma. Pode ser chatice minha, é claro. Porque eu achava que era a hora de mobilizar politicamente o país inteiro que a assistia, mas acabou sendo um pronunciamento burocrático e protocolar. E eu queria chorar, a verdade é essa. Queria me desmantelar em lágrimas ouvindo o primeiro pronunciamento da primeira presidenta do Brasil. Mas enfim, guardo para a posse e também nunca achei que estivesse votando em uma política, a princípio, super capaz de mobilização (me acostumei mal com Lula) e sabia, desde que tomei minha decisão, que estava votando em uma mulher com extrema capacidade técnica e rara inteligência. Mas é que eu gosto de um discurso politicamente vigoroso, que acenda o que há de mais mobilizador na política que é o devir de um povo, uma crença incontornável nas pessoas que o constituem; e ver como essa paixão se expande para os confins do mundo como um alerta avisando que estamos vivos e presentes, de corpo presente, aqui e agora, construindo nossa história, traçando nosso futuro.
 
Mas Dilma teve dois momentos incríveis. Talvez eles valham por essa falta que notei. O primeiro, claro, foi quando ela disse: "sim, a mulher pode". E pediu para que os pais e mães olhassem para os olhos das meninas em casa para dizer: "sim, a mulher pode". E não temos idéia dos lugares em que essa afirmação chegará, em como ela mudará o futuro das mulheres. Só de saber que bastava essa frase para que muitas e muitas mulheres entendessem que é possível, que pode sim, já podemos começar a entender o significado desse momento.
 
O outro trecho foi: "Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível". Eu estava pensando nisso há dias porque queria escrever a partir da seguinte formulação de Eduardo Viveiros de Castro sobre a campanha de Marina Silva: a política está na articulação do sonho e do possível (aliás, esta fala do Viveiros de Castro foi uma das coisas mais bonitas dessas eleições). Daí Dilma falou do sonho que sempre pareceu impossível, mas que foi se tornando possível pela mobilidade social. E o sonho é o que deve estar sempre na base da política. Sem ele, estamos perdidos, sem ele somos incapazes de imaginar. E não deve haver coisa pior nesse mundo do que perder a capacidade de imaginar e de sonhar. Por muitos anos muitas pessoas foram privadas desse "direito que não se pode proibir", como dizia Glauber. Privadas porque não podiam imaginar um futuro. Porque estavam fora do mundo possível. O que o governo Lula fez foi potencializar esse possível, devolver a capacidade de sonhar. Entretanto, isso vai além das mudanças econômicas. A capacidade de mobilização social tem muito mais a ver com uma prática política do que necessariamente com o crescimento econômico; tem muito mais a ver com compartilhar um mundo, que é, conseqüentemente, mais do que incluir.  

As campanhas foram muito velhas e reacionárias. Não foi por acaso a identificação dos jovens com Marina Silva. Serra perdeu todas as suas chances com seu conservadorismo e hipocrisia (não gosto muito de falar dele porque tenho a boca muito suja e as baixarias me escapam).
 
Dilma no seu pronunciamento falou de educação depois de horas falando sobre a crise financeira mundial, sobre o pré-sal, sobre o micro-empreendedor, sobre o Fundo Social, sobre a meritocracia do serviço público, etc. A educação apareceu apenas duas vezes, e não é porque não se investe, o ProUni e o REUNI, por exemplo, são excelentes projetos de ampliação do acesso e do ensino. Mas é também porque só se investe dinheiro. Não se criou um discurso em que a política da educação fosse o pilar sobre o qual se construiria o futuro do país. A palavra cultura, por exemplo, nem foi mencionada. Está lá no discurso, é só checar.

No dia 31 estivemos de acordo, como dizia Vladimir Safatle, sobre o que não queríamos, que era aquela coisa mascarada de política de boa fé, fundamentada na moral e nos bons costumes e nos mutirões, que atendia pelo nome José Serra. Foi lindo o Brasil ter decidido dizer não a esse retrocesso (e ainda tem cegos que negam). Só isso representa uma vitória imensa. O que quero dizer, na verdade foi Cristina Kirchner quem disse, é que não se deve deixar a economia se sobrepor à política. Ao contrário, a política deve subordinar a economia para que esta sirva como instrumento técnico para atender aos interesses da maioria da população. A última parte, os investimentos econômicos e sociais, vai muito bem. Temos que resolver a primeira, dar uma forçadinha além desse limite economicista, tecnicista e desenvolvimentista. À Dilma falta um pouco de pasión política (uma virada à esquerda libidinosa, hehe). Mas ela virá, creio, no corpo a corpo tão intenso que prevemos para os próximos quatro anos.

Mas, enfim, o Brasil fez bonito e elegeu uma presidenta. Uma mulher que lutou pela democracia, que apostou seu corpo e sua vida na luta contra a Ditadura. Uma mulher que, desde sempre, lutou por um país melhor. Gracias, linda!