dezembro 2010 Arquivos

2011

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2010 foi tão incrível. As coisas, em geral, tornam-se legais quando se transformam em imagens. Quando os fantasminhas que nos desesperaram ou nos alegraram passam ao nosso convívio imagético (que, claro, tocam nossos corpos porque os acontecimentos deixam marcas), as coisas começam a fazer sentido, pois conseguimos montar séries, juntar as pecinhas e essa é sempre uma experiência bacana. É assim que podemos olhar para frente; é assim que percebemos que estamos construindo nossas histórias e as histórias do mundo (ou dos mundos, sabe lá), que elas têm erros e acertos, que estamos no mundo, que estamos com os outros, etc.
 
Acho que etc foi a palavra que mais usei esse ano. Creio que esse uso abusivo tenha sido por causa da eleição presidencial que demandou discussões infinitas, cansativas, agressivas, ou seja, etc (mas ela não foi só chatice, foi por causa das eleições e do meu falatório infinito que conheci um amigo queridíssimo). Ou, talvez, o etc tenha sido a saída que encontrei para dizer que não é possível dizer tudo, que sempre tem um excesso ou uma carência de sensível que fica fora da linguagem. Isso pode ser uma consequência grave das muitas leituras de Freud que fiz esse ano. Freud me ajudou olhar a vida com mais leveza, com mais paciência, me orientou em um pensamento ético radical. O que foi muito muito bom. Em decorrência ou não disso tive gastrite e dores musculares terríveis porque nem tudo é só alegria e a vida é uma experiência intensa.
 
Em março conheci pessoalmente um filósofo italiano que me apresentou uma perspectiva radicalmente nova das imagens e foi determinante para me fazer voltar a acreditar que o mundo é mágico, que Mickey Mouse pode ser a resposta para muitas questões filosóficas, que nosso corpo tem o tamanho do mundo, etc

E voltei com o blog, que só me trouxe alegrias e bons encontros. Aliás, este ano fiquei cercada de pessoas incríveis (aqui, em casa, na rua, no mundo, enfim), foram elas também que tornaram todos esses acontecimentos, essas conclusões e meu sorriso satisfeito neste fim de ano, possíveis. Thanks =)

Feliz ano novo!


PS: Dilma assume amanhã. A primeira mulher presidente do país. O ano começa bem =)

Jóga, por PS22 Chorus

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Walter Benjamin em uma de suas mais famosas Teses sobre Filosofia da História, a tese VIII, diz: "A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção no qual vivemos é a regra. Precisamos chegar a um conceito de história que dê conta disso. Então surgirá diante de nós nossa tarefa, a de instaurar o real estado de exceção".

O real estado de exceção, para Benjamin, não era outro senão o estado de felicidade em uma ordem profana. "A ordem do profano deve erigir sobre a idéia de felicidade", anota no seu Fragmento Político-Teológico. O verdadeiro estado de exceção na leitura de Agamben seria, segundo Paulo e Benjamin, um estado de suspensão de todas as leis e a vigência de apenas uma lei, a do amor.

Jóga, da Bjork, é uma versão dessa tese de Benjamin. A música começa assim: "All these accidents that happen. Follow the dot. Coincidence makes sense only with you". É a felicidade do encontro que dá sentido aos acidentes. Mais um indício de que a felicidade acontece no acaso e no imprevisível. E o que tentamos sempre, talvez seja isso que confundimos com a "busca da felicidade", é fazer durar o acontecimento. Fazer durar esse encontro, fazer dele um verdadeiro estado de exceção. Bjork prossegue: "And you push me up to this. State of emergency how beautiful to be. State of emergency is where I want to be".
 
Encontrei as crianças do PS22 Chorus cantanto Jóga. Esse efeito heterogêneo de vozes dá um sentido mágico, esperançoso e multitudinário a todos os versos: uma pequenina coletividade cantando o desejo de instaurar um real estado de exceção. Nas vozes das crianças, esses versos expressam o desejo de um novo conceito de história. Um conceito capaz de amplificar as possibilidades de um mundo sempre novo e aberto em que a felicidade possa se realizar em cada olhar, em cada gesto, em cada encontro. Diante desse desejo, diante desses olhares, diante dessas crianças, a felicidade ganha um sentido político que reafirma a tarefa que Benjamin nos deixou.

Nada melhor para começar a semana =)


Os episódios no Rio de Janeiro tomaram o rumo previsto: pouquíssimos traficantes presos, perto dos 500 que diziam ter (chovem, é claro, o número de "suspeitos"), escândalos de casas luxuosas de traficantes, bandeira do BOPE hasteada na Vila Cruzeiro, abuso dos polícias e corpos sem nomes perfurados por balas e engolidos por porcos. Tudo isso em nome da grande "paz" trazida pelo "bem", anunciada por Cabral, apoiada pelo presidente da República, e seus exércitos e, claro, defendida pelos cães de guarda - PHA insuperável achando que a Sky e o Banco Santander começam a resolver os problemas - (note-se que o PIG, que PHA gosta tanto de xingar, defende com unhas e dentes as "ocupações" - basta assistir a GloboNews - como também os inimigos de Lula, vide Marcelo Tas e sua limpeza do Congresso).

Os motivos dessa guerra anunciada tornam-se, dia após dia, obsoletos. A entrevista do Luiz Eduardo Soares ao programa Roda Viva, além desse texto, deixou isso bem claro: uma polícia corrupta atuando no combate ao crime. Maior paradoxo não pode haver nesse mundo. E o pior de tudo isso é que ele vem chancelado com os métodos de exceção que o Estado mesmo quer combater. Juro que me esforço todo dia para entender a truculência dessas ações e de quem as justifica. Juro. Mas é impossível, porque ao fazê-lo, dadas as notícias dos últimos dias, se está valorando uma vida ou várias vidas. O argumento mais que batido de que a vida na favela não vale o que vale uma vida no asfalto fica ainda mai evidente quando esses eventos acontecem. "Lamenta-se muito", entretanto, "é necessário". Discurso mais lixo do que esse não pode existir.

Contardo Calligaris escreveu um artigo atordoante exaltando uma das grandes falhas da psicanálise que é generalizar as condições do sujeito em nome da sua implicação diante das ações. Essa ética da psicanálise é muito importante (e para mim, é a melhor definição de ética) quando temos garantidos direitos iguais para todos, enquanto houver exceções (pessoas que têm privações e não procuram o crime), e mesmo exceções dentro das exceções (as pessoas que têm privações e procuram o crime), não podemos isentar os outros culpados (a ausência de políticas públicas, de educação, saúde, saneamento básico, emprego, etc). Calligaris esquece da atuação da polícia (que precisa começar a ser reformada para ontem) e da ausência do Estado o que não é um dado menor. Nesses casos pensar pela auto-determinação do sujeito é sempre mais fácil, porque a culpa vira ladainha, "talvez, desta vez, sem as ladainhas da culpa, algo mude no Rio de Janeiro", diz ele no fim do seu artigo que também esquece de se perguntar quantas vidas pagarão para que seja feito isso que ele ainda, depois de todas as notícias, consegue chamar de "mudança".

As escolhas do sujeito devem ser assumidas por eles, se declaram guerra, como eu disse no post anterior, deve-se suportar a guerra (com isso espero deixar claro, mais uma vez, que não estou defendendo traficantes). Não deve haver, em hipótese alguma, pessoas governadas pelo medo de um estado paralelo que age sem dó nem piedade. Mas substituir o medo também é inadmissível. Substituir o medo paralelo pelo medo oficial é perverso. E talvez seja essa mesma a característica soberana do Estado: atuar psicologicamente (e, nesse caso, fisicamente) através do medo.  

Não precisa ser especialista em segurança pública para entender que o que acontece no Rio de Janeiro é repulsivo. Nada do que está acontecendo é em nome da "segurança pública". O espetáculo se reproduz dos discursos dos nobres políticos às ações coordenadas de salvação da Rede Globo, como nos avisava Edu do Buteco do Edu no tuiter. Ser conivente com a exceção é uma atrocidade. Ser conivente com as ações empreendida no Rio de Janeiro é aceitar que um trabalhador, Rogério Costa Cavalcante, pai de uma criança que carregava no bolso convites do seu aniversário, ou uma adolescente de 14 anos, ou outro adolescente de 17 anos, devorado por porcos, cujo corpo teve que ser retirado do local pela mãe e vizinhos que não suportavam mais o cheiro, e outros muitos anônimos que moram na favela, são negros ou pardos, percam a vida em nome de "um bem maior". Não se pode admitir uma coisa dessas sem admitir que se está sendo conivente com o terror e com a exceção.

A Gestapo costumava chamar os judeus presos nos campos de porcos, os mesmos que depois eram queimados ou asfixiados. Em uma versão atroz e contemporânea ressurge esse significante: servimos corpos de comida aos porcos. É a mesma lógica de extermínio e não importa se são dois ou três aqui e na Alemanha nazista, milhares. Não se mede uma catástrofe pelo número de vítimas. Ao contrário, deve-se olhar no presente como seus métodos sobrevivem. É isso que marca o estado de exceção biopolítico do qual nunca saímos: o que decide quem deve viver e quem deve morrer (e sabemos do seu trio preferido: negro, pobre, morador de favela). Some-se a isso o apoio da população e... 64 é logo ali (e não estou sendo exagerada. Se naquela ocasião a exceção foi declarada, de novo, nossa versão contemporânea capricha na perversidade e não declara, porém instaura). A história se repete, lamentavelmente, lavando o chão de sangue e servindo aos porcos os corpos das vidas nuas.