Gente! Eu ia dar uma pausa, né? Mas tive que abrir uma exceção porque no meio do caminho veio o resultado do vestibular da minha irmã mais nova. O bebezão da casa e tal. E, saibam: ELA PASSOU! E que coisa linda ela ter passado no vestibular. No primeiro vestibular dela, para Biologia, na Universidade Federal de Santa Catarina. Eu sou capaz de repetir essa notícia por uma semana com o mesmo sorriso e com a mesma vibração. \o/
Tudo isso representa o começo de uma nova etapa na minha casa. Minha irmã do meio, jornalista, esse ano conseguiu o emprego que ela tanto queria e, muito merecidamente, está lá trabalhando como louca e feliz da vida. Eu qualifico minha tese em breve. E no começo do ano que vem devo receber meu título de doutora. E agora, o bebezão da casa, ai meu deus, saber que eu troquei as fraldas dessa menininha, entra na universidade.
Mas deixa eu explicar a nova etapa: na minha casa, meus pais nos educaram com uma severidade singular: estudo e independência. Eram essas as metas que ambos tanto martelaram nas nossas cabeças. A velha história: não temos herança para vocês exceto a educação e isso ninguém pode tirar, sabe? Então! Lá em casa isso foi repetido à exaustão. Tivemos uma educação muito boa na escola e em casa. Tanto é que, se alguém perguntar porque sou entusiasta do feminismo eu poderia tranquilamente atribuir aos meus pais boa parte dele porque eles nunca acharam que a nossa posição deveria ser de submissão ou nos ensinaram que a ordem do mundo era essa mesmo e que tínhamos que obedecer e tal. Ou se fizeram, minha memória e minha felicidade podem me trair, trabalharam tão bem as possibilidades de subverter a ordem que seguimos por esse caminho, as três. Meu pai é tão orgulhoso de ter três filhas e sempre nos impulsionou para mais e mais; e minha mãe tem um ímpeto libertário que muitas feministas não tem. Ambos não chegaram a universidade, o que não reduz em nada a visão do mundo que eles têm porque, definitivamente, a universidade não é vacina. Mas, claro, eles mantinham esse desejo para as três filhas.
É minha mãe que sempre me conta uma história triste: quando ela dizia para algumas pessoas, as imbecis e reacionárias que não enxergam nada além do seu quadrado, que queria ter três filhas e que as três iriam para a universidade, essas pessoas riam dela dizendo que "até parece que isso será possível". O que vocês quiserem colocar aqui de machista e escroto, podem colocar porque era assim. Minha mãe foi criada num ambiente hostil que tentou colocá-la um pouco mais abaixo do chão. Quiseram acabar com o sonho da minha mãe e ela, tão linda, não deixou. Ao contrário, nos criou longe disso tudo, embora não nos protegesse disso tudo porque, né? o mundo é bem complexo e nos deparamos com essas situações mais do que gostaríamos. Mas minha mãe e meu pai construíram, para eles e para nós, o mundo que eles sonharam. E, olha, não foi fácil. Sou a filha mais velha e acompanhei tudo mais de perto e digo sem titubear que a coragem dos meus pais é uma das coisas mais admiráveis que já vi na minha vida.
Pois bem, a mami conseguiu realizar seu "sonho impossível": as três filhas na universidade, as três filhas na Universidade Federal (esse é um dado importante, primeiro porque, sem dúvida, as federais são excelentes universidades, e depois porque faz parte do imaginário esse lance todo de federal, da dificuldade, etc. Meus pais nunca vão dizer: minhas duas filhas são formadas e uma acabou de entrar na faculdade, eles dirão: elas todas estudaram/estudam na FEDERAL, sabe como é, uma gracinha eles, não?). Nem posso mensurar o que se passa na cabeça da minha mãe agora, nesse exato momento, poucas horas depois de eu ter ligado lá e contado que a Bibi passou (eu contei pra minha irmã do meio e queria contar pra a mais nova também, porque né? irmã mais velha coruja absoluta \o/). O que eu consegui dizer para os meus pais é que eles conseguiram. E, puxa! Como conseguiram!
Uma nova etapa começa e, infelizmente, ela veio com a perda de um grande homem, o meu avô, que nos deixou recentemente e de forma tão repentina. Meu avô era um homem lindo. Aos 88 anos ele conversava sobre homossexualidade, desigualdade, meio-ambiente, política com os olhos de um menino, cheios de esperança e de sonho. Ele queria tanto que a Dilma ganhasse a presidência, embora eu ligasse para ele pra dizer que a Marina Silva era uma excelente candidata. Puxa, vô! eu dizia, a Marina é ambientalista (meu avô era super sensível às causas ambientais, daí meu argumento)! Como o senhor não vai torcer pela ambientalista!
Ele até dizia que sim, que o importante era que ganhasse uma mulher. Mas ele queria mesmo a Dilma, mulher forte e de coragem. E ele a viu ganhar e tenho certeza que chorou com aquele discurso em que ela dizia que " a mulher pode"! Meu avô admirava as mulheres como poucos homens e tinha tanto orgulho de nós três. Ele achava tão incrível estudarmos, estarmos na universidade (meu avô era apaixonado por livros, mas não teve muito estudo formal. Desde pequena meu sonho era levá-lo para a Itália - que eu não realizei - mas quando eu dizia para ele alguma coisa relacionada à viagem e tal ele dizia: não preciso viajar, eu conheço o mundo todinho pela televisão. Olha que coisa mais linda! Meu avô tinha os olhos e o olhar mais lindos do mundo!). Eu dediquei minha dissertação de mestrado a ele porque ele sempre acreditou no "mundo-abrigo" (nome de um projeto incrível do Hélio Oiticica que foi inspirado em seu avô anarquista), porque ele sempre sonhou com um mundo melhor e mais justo. E, caramba! Ele estaria tão, tão, mas tão feliz com a notícia que a Bibi passou no vestibular! E tenho certeza que quando minha mãe lembrasse de quando as pessoas pisotearam seu sonho ele diria: "tá vendo?" E hoje sei, pela sua generosidade, que um sonho dele estaria se realizando só por ser um sonho da minha mãe e do meu pai. Então, vô, estamos aqui vendo tudo isso de pertinho e com seus olhos lindos. E saiba que eu continuarei indo atrás dos seus sonhos, porque os compartilho com você, porque eles são meus também.
Essa nova etapa, apesar da dor da perda, se abre com a felicidade do sonho (im)possível: com a celebração dos meus pais e com enormes parabéns para minha irmãzinha que estudou tanto. E, não menos importante, com um grande vai tomar no cu para quem debochou desse sonho.
PS: Eu consegui a proeza de ser estudante universitária ao mesmo tempo que as minhas irmãs. No dia da formatura da minha irmã mais nova eu ainda disse: você vai entrar na universidade, a Rafa já saiu, e eu ainda estou lá \o/ (e lá continuarei!)
PS2: A pausa continua, mas eu não podia deixar de compartilhar essa felicidade aqui. Volto logo =)
Tudo isso representa o começo de uma nova etapa na minha casa. Minha irmã do meio, jornalista, esse ano conseguiu o emprego que ela tanto queria e, muito merecidamente, está lá trabalhando como louca e feliz da vida. Eu qualifico minha tese em breve. E no começo do ano que vem devo receber meu título de doutora. E agora, o bebezão da casa, ai meu deus, saber que eu troquei as fraldas dessa menininha, entra na universidade.
Mas deixa eu explicar a nova etapa: na minha casa, meus pais nos educaram com uma severidade singular: estudo e independência. Eram essas as metas que ambos tanto martelaram nas nossas cabeças. A velha história: não temos herança para vocês exceto a educação e isso ninguém pode tirar, sabe? Então! Lá em casa isso foi repetido à exaustão. Tivemos uma educação muito boa na escola e em casa. Tanto é que, se alguém perguntar porque sou entusiasta do feminismo eu poderia tranquilamente atribuir aos meus pais boa parte dele porque eles nunca acharam que a nossa posição deveria ser de submissão ou nos ensinaram que a ordem do mundo era essa mesmo e que tínhamos que obedecer e tal. Ou se fizeram, minha memória e minha felicidade podem me trair, trabalharam tão bem as possibilidades de subverter a ordem que seguimos por esse caminho, as três. Meu pai é tão orgulhoso de ter três filhas e sempre nos impulsionou para mais e mais; e minha mãe tem um ímpeto libertário que muitas feministas não tem. Ambos não chegaram a universidade, o que não reduz em nada a visão do mundo que eles têm porque, definitivamente, a universidade não é vacina. Mas, claro, eles mantinham esse desejo para as três filhas.
É minha mãe que sempre me conta uma história triste: quando ela dizia para algumas pessoas, as imbecis e reacionárias que não enxergam nada além do seu quadrado, que queria ter três filhas e que as três iriam para a universidade, essas pessoas riam dela dizendo que "até parece que isso será possível". O que vocês quiserem colocar aqui de machista e escroto, podem colocar porque era assim. Minha mãe foi criada num ambiente hostil que tentou colocá-la um pouco mais abaixo do chão. Quiseram acabar com o sonho da minha mãe e ela, tão linda, não deixou. Ao contrário, nos criou longe disso tudo, embora não nos protegesse disso tudo porque, né? o mundo é bem complexo e nos deparamos com essas situações mais do que gostaríamos. Mas minha mãe e meu pai construíram, para eles e para nós, o mundo que eles sonharam. E, olha, não foi fácil. Sou a filha mais velha e acompanhei tudo mais de perto e digo sem titubear que a coragem dos meus pais é uma das coisas mais admiráveis que já vi na minha vida.
Pois bem, a mami conseguiu realizar seu "sonho impossível": as três filhas na universidade, as três filhas na Universidade Federal (esse é um dado importante, primeiro porque, sem dúvida, as federais são excelentes universidades, e depois porque faz parte do imaginário esse lance todo de federal, da dificuldade, etc. Meus pais nunca vão dizer: minhas duas filhas são formadas e uma acabou de entrar na faculdade, eles dirão: elas todas estudaram/estudam na FEDERAL, sabe como é, uma gracinha eles, não?). Nem posso mensurar o que se passa na cabeça da minha mãe agora, nesse exato momento, poucas horas depois de eu ter ligado lá e contado que a Bibi passou (eu contei pra minha irmã do meio e queria contar pra a mais nova também, porque né? irmã mais velha coruja absoluta \o/). O que eu consegui dizer para os meus pais é que eles conseguiram. E, puxa! Como conseguiram!
Uma nova etapa começa e, infelizmente, ela veio com a perda de um grande homem, o meu avô, que nos deixou recentemente e de forma tão repentina. Meu avô era um homem lindo. Aos 88 anos ele conversava sobre homossexualidade, desigualdade, meio-ambiente, política com os olhos de um menino, cheios de esperança e de sonho. Ele queria tanto que a Dilma ganhasse a presidência, embora eu ligasse para ele pra dizer que a Marina Silva era uma excelente candidata. Puxa, vô! eu dizia, a Marina é ambientalista (meu avô era super sensível às causas ambientais, daí meu argumento)! Como o senhor não vai torcer pela ambientalista!
Ele até dizia que sim, que o importante era que ganhasse uma mulher. Mas ele queria mesmo a Dilma, mulher forte e de coragem. E ele a viu ganhar e tenho certeza que chorou com aquele discurso em que ela dizia que " a mulher pode"! Meu avô admirava as mulheres como poucos homens e tinha tanto orgulho de nós três. Ele achava tão incrível estudarmos, estarmos na universidade (meu avô era apaixonado por livros, mas não teve muito estudo formal. Desde pequena meu sonho era levá-lo para a Itália - que eu não realizei - mas quando eu dizia para ele alguma coisa relacionada à viagem e tal ele dizia: não preciso viajar, eu conheço o mundo todinho pela televisão. Olha que coisa mais linda! Meu avô tinha os olhos e o olhar mais lindos do mundo!). Eu dediquei minha dissertação de mestrado a ele porque ele sempre acreditou no "mundo-abrigo" (nome de um projeto incrível do Hélio Oiticica que foi inspirado em seu avô anarquista), porque ele sempre sonhou com um mundo melhor e mais justo. E, caramba! Ele estaria tão, tão, mas tão feliz com a notícia que a Bibi passou no vestibular! E tenho certeza que quando minha mãe lembrasse de quando as pessoas pisotearam seu sonho ele diria: "tá vendo?" E hoje sei, pela sua generosidade, que um sonho dele estaria se realizando só por ser um sonho da minha mãe e do meu pai. Então, vô, estamos aqui vendo tudo isso de pertinho e com seus olhos lindos. E saiba que eu continuarei indo atrás dos seus sonhos, porque os compartilho com você, porque eles são meus também.
Essa nova etapa, apesar da dor da perda, se abre com a felicidade do sonho (im)possível: com a celebração dos meus pais e com enormes parabéns para minha irmãzinha que estudou tanto. E, não menos importante, com um grande vai tomar no cu para quem debochou desse sonho.
PS: Eu consegui a proeza de ser estudante universitária ao mesmo tempo que as minhas irmãs. No dia da formatura da minha irmã mais nova eu ainda disse: você vai entrar na universidade, a Rafa já saiu, e eu ainda estou lá \o/ (e lá continuarei!)
PS2: A pausa continua, mas eu não podia deixar de compartilhar essa felicidade aqui. Volto logo =)


