Às vezes me pergunto se ainda existem no mundo acontecimentos incompreensíveis que geram espanto. As notícias não comovem, os corpos não chocam, as descobertas parecem cada vez mais previsíveis. Enfim, existe certa incapacidade de surpresa mesmo diante de notícias comoventes, imagens chocantes, descobertas imprevisíveis. O espanto, ou a surpresa, parece fugidio com o tempo e com a "experiência". Tudo se normaliza e naturaliza como se houvesse a possibilidade de reter todo conhecimento do mundo que explicasse porque isso, porque aquilo, porque aquilo outro. Walter Benjamin em uma de suas teses sobre filosofia da história dizia que não deveríamos nos surpreender com as catástrofes que teimam em ainda acontecer, que se repetem e repetem, e retornam e retornam. É certo que não temos que tomar como novidade, mas a falta de surpresa também pode nos levar a lugares nefastos. Daí que tudo no mundo pareça muito sem saída: o Brasil não tem como não construir Belo Monte, a polícia é assim mesmo, violenta e cruel, é impossível uma solução na Líbia sem a intervenção militar coalizão internacional; as coisas se tornam necessárias, porque sem isso não tem aquilo, blábláblá. Temos também a hipótese da anestesia social que também não é uma verdade incondicional. Basta ver os acontecimentos nas ruas aqui ou fora daqui, manifestações diárias de movimentos sociais organizados ou não.
Contudo, dá para perceber que mais do que nunca o "realismo", ou melhor, a ilusão de domínio da realidade (vide Japão e suas usinas nucleares "absolutamente seguras"), se sobrepõe aos possíveis. E o real, sempre à espreita, não cessa de (re)aparecer. Há um esforço sem tamanho em naturalizar esse irrepresentável do real quando se elimina o espanto. Curiosamente, esse esforço já não é exclusivo das esferas que concentram o capital ou dos meios de comunicação, mas se estende para espaços onde o confronto ao invés do apaziguamento deveria ser colocado, por exemplo, no que convencionamos chamar de política, mas que deveria atender única e exclusivamente pelo nome de governo. Não por querer sacralizar a política, ao contrário: é justamente para retirá-la da esfera separada, o governo, cuja atuação burocrática e técnica não mede forças para naturalizar o espanto, e trazê-la para um espaço em que ela se realize, ou seja, em que a política tenha a força de um acontecimento suscitado pelo espanto e pelo incompreensível. A diferença está em não naturalizar o incompreensível, em mantê-lo sempre estranho, em torná-lo mola propulsora de possíveis (senão sufoco, diria Deleuze).
Contudo, dá para perceber que mais do que nunca o "realismo", ou melhor, a ilusão de domínio da realidade (vide Japão e suas usinas nucleares "absolutamente seguras"), se sobrepõe aos possíveis. E o real, sempre à espreita, não cessa de (re)aparecer. Há um esforço sem tamanho em naturalizar esse irrepresentável do real quando se elimina o espanto. Curiosamente, esse esforço já não é exclusivo das esferas que concentram o capital ou dos meios de comunicação, mas se estende para espaços onde o confronto ao invés do apaziguamento deveria ser colocado, por exemplo, no que convencionamos chamar de política, mas que deveria atender única e exclusivamente pelo nome de governo. Não por querer sacralizar a política, ao contrário: é justamente para retirá-la da esfera separada, o governo, cuja atuação burocrática e técnica não mede forças para naturalizar o espanto, e trazê-la para um espaço em que ela se realize, ou seja, em que a política tenha a força de um acontecimento suscitado pelo espanto e pelo incompreensível. A diferença está em não naturalizar o incompreensível, em mantê-lo sempre estranho, em torná-lo mola propulsora de possíveis (senão sufoco, diria Deleuze).

