setembro 2010 Arquivos

Adendo

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A obra de Jacoby foi censurada na Bienal. De acordo com ele, foi a organização da Bienal  que fez a denúncia para a Procuradoria.
As fotografias que seriam expostas estão no catálogo e no site da Bienal, o que invalida a afirmação de "surpresa". Um bando de cagões de merda, é isso que eles são.
A alma nunca pensa sem imagens, organizadores. E, mais ainda, diria o velho Lacan, se a imagem for a de uma instalação coberta por papel. A entrevista com Jacoby pode ser lida aqui.
Em 1966 na Argentina três artistas visuais, Raúl Escari, Roberto Jacoby e Eduardo Costa, elaboram um happening peculiar. Foi um "Happening que no existió" e que chegou aos meios de comunicação com o irônico nome "Happening de la participación total". E fazia parte de um empreendimento artístico genial El arte de los medios de comunicación. O manifesto un arte de los medios de comunicación é interessantíssimo e vocês podem lê-lo aqui.

Esse happening consistia em relatar o acontecimento de um happening que, na verdade, não aconteceu e enviar notas sobre ele para alguns veículos de comunicação que, por sua vez, noticiariam o tal happening como se, de fato, tivesse acontecido. Daí a participação total. Trocando em miúdos: eles queriam disseminar nos meios de comunicação uma mentira documentada como verdade. E conseguiram! Jornais e revistas publicaram notas sobre o happening, dois deles inclusive nem haviam recebido o material preparado pelos artistas, o que torna tudo mais engraçado afinal, onde é que eles teriam conseguido informações?

Se, por um lado, nos anos 1960 a arte vinha questionando, à maneira dadaísta, ou como queriam os franceses, 40 graus acima do Dadá, o objeto estético, por outro, o happening indicava à maneira da arte pop que nós desmaterializamos. Se alguém tinha dúvidas da vinculação entre arte e política, os anos 60 servem para evidenciar esse laço. Não se trata, claro, de arte engajada ou não engajada, de esquerda, comunista, etc. O tropicalismo, por exemplo, que foi detestado por alas esquerdistas talvez tenha sido no Brasil o movimento que melhor conjugou arte e política sem necessariamente se engajar.

O que pretendia a arte dos meios era a intromissão nos meios de comunicação e a exploração da sua forma: a pura imagem no triunfo da sociedade do espetáculo. Imagem espetacular e especulativa porque se existe alguma coisa que caracterize os meios de comunicação e a própria arte é a especulação - no sentido etimológico de observar e contemplar e no sentido utilizado correntemente de lançar hipóteses sem ter embasamento. Especula-se justamente porque se veicula uma série de imagens esvaziadas que são preenchidas de sentido quando encadeadas num discurso. E esse discurso não passa de uma especulação - longe da verdade e da mentira, portanto.

Se a visão nos trai, se não podemos acreditar piamente no que vemos, a arte, os meios de comunicação (e também a política, veremos) são um grande exemplo. Ou seja, não vale dizer que "sim, é verdade eu li isso na Folha" (rá, piadinha). Mas isso não é próprio dos meios de comunicação, embora sirva perfeitamente para eles, essa é uma característica da imagem (basta pensar em Isto não é um cachimbo de Magritte).

O limiar que se apresenta com o happening, entre a verdade e a mentira, entre o fato e a especulação é, nesse sentido, exemplar. Se é correto dizer que o mundo é feito de imagens e que o sujeito é constituído a partir de imagens não podemos supor nem verdade ou mentira, nem realidade nem ficção, nem fato nem especulação, apenas um regime de verdade. Não é de hoje, portanto, que a arte mina o espaço ao qual se queria isolá-la - o da ficção em relação à realidade, o da fabulação em relação ao acontecimento.

O que ocorre, presentemente, é que a exposição é tão grande que - dado o espetáculo em que vivemos - esse limiar se impõe como o não-lugar da arte e como o lugar do mundo. O acontecimento passa a ser uma fabulação e a realidade uma ficção. Se até a década de 70 conseguia-se vislumbrar um fora, mesmo que esse fora não fosse um "lado de fora" absoluto, a arte contemporânea é a constatação de que isso não é possível. Mergulhados no espetáculo assistimos todos os dias à intervenção dos artistas argentinos. Restituir um lugar separado para a arte é conversa de quem quer o mesmo entretenimento que obtem ao sentar na frente da TV ou ao abrir o jornal para: a mais chocante das notícias contada como corriqueira e inevitável. A arte serve para criar outros mundos, todos eles possíveis, por isso ela não pode estar em uma esfera separada.

A instalação que Roberto Jacoby, o mesmo da intervenção nos meios de comunicação, está preparando para a Bienal deste ano em homenagem a Dilma Rousseff e ao PT é um ótimo exemplo da intervenção política na arte ou vice-versa. A instalação cujo título é "A alma não pensa sem imagem" - e só posso falar dele e de mais algumas informações conseguidas aqui - terá duas fotografias: uma de José Serra e outra de Dilma Rousseff. Jacoby está corretíssimo: nenhuma alma pensa sem imagem, e por extensão, a política não existe sem imagem.

Vejamos alguns depoimentos de Jacoby: "Somos a favor da continuidade do governo do PT, que tem sido importante para a democracia e a unidade na América Latina". Até aqui ótimo, ele está se referindo claramente ao Lula. Pouco depois ele diz o que sabe de Dilma: "O que conheço é o que está na internet. Sei que é economista, muito capaz, estudiosa e se transformou em especialista em energia elétrica num país tão grande como o Brasil". "De Serra, não sei muito". Nada mais revelador que o título da instalação: "a alma não pensa sem imagem". O que Jacoby sabe de Dilma e de Serra é uma imagem - e é o que todos sabemos dos outros, e de nós mesmos, uma imagem. É bobagem dizer que temos que conhecer, pegando uma carona no contexto, um político profundamente. Isso não é possível. O máximo de "verdade" que conseguimos chegar é a sua superficialidade extrema: uma imagem que recebe e projeta outras imagens. O que mostra que nada sobrevive além da imagem. Não é diferente com a política que chegou a tal grau de esvaziamento - dado o desgaste que não para de sofrer - que se tornou imagem.

Mas esse fenômeno, se podemos chamar assim, é anterior a Debord (que tendia a ver isso negativamente na sociedade do espetáculo) e é o que Ernesto Laclau denominou como populismo: um significante vazio - uma imagem. Laclau tira da concepção populista sua carga estritamente negativa e diz que esse significante vazio é capaz de agregar as demandas do povo para afirmar sua hegemonia (ou seja, Lula não tem a popularidade que tem porque é "populista" no sentido chulo, mas sim porque conseguiu agrupar e atender demandas, ele deu sentido a uma série de imagens esvaziadas). Teoricamente esse é o desejo de todos os políticos, mas pouquíssimos são capazes de fazê-lo. É claro que isso também tem sua contrapartida negativa: implica idolatria e uma quase cegueira para a discussão política que se agarra nesse nome como o Nome-do-pai (então, mais do que o esvaziamento das imagens não teríamos nem o discurso que daria sentido a série de imagens - pegar carona é o nome disso, achar que as coisas caem do céu, também pode ser).

Não é porque vivemos na sociedade do espetáculo que a política tornou-se espetacular. Ela sempre foi feita de imagens. Sua forma estreitada com os meios de comunicação é a grande novidade. Deste modo, em muitos casos a política não estaria longe da proposta do happening que iniciou esse texto, ou seja, um acontecimento que se desenrola nos meios de comunicação de massa como se fosse verdade como se tivesse uma "participação total" e estes, por sua vez, não ousam saber que a própria política já se apropriou de seus meios.
 
À arte coube, e cabe ainda, a contemplação - especulativa e criadora, portanto - do mundo, para o mundo e no mundo. 

Propaganda de mim mesma

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O Sopro, pra quem ainda não conhece, é um folheto político-cultural que edito com Alexandre Nodari. Ele é quinzenal e chega ao número 35 com um excelente texto de Silvia Schwarzböck sobre o cinema e um verbete do Evandro de Sousa sobre a moldura. Nos números anteriores vocês encontrarão textos do Agamben, Badiou, Emanuele Coccia, Josefina Ludmer e muita gente boa. Também tem verbetes, sessão de arquivos, resenhas, etc. So, enjoy!

Na Revista Crítica Cultural além da tradução de L'action restreinte de Mallarmé, Blinded insights de Hal Foster e O regionalismo equívoco de Graciliano Ramos de Florencia Garramuño, tem um artigo meu sobre Hélio Oiticica e seu conceito de subterrâneo com o título Subterrâneo: por um estado de emergência efetivo (eu disse que era propaganda, né? e nada como seduzir os leitores com Mallarmé - cada um vende seu peixe como pode...). Eu já tinha reproduzido um trecho do texto aqui no blog. O subterrâneo é uma das categorias mais interessantes de Oiticica que a partir de 1969 reformula sua "estética" denominando-a subterrânea. Inclusive os parangolés e a Tropicália. Sobre o subterrâneo, Hélio publicou dois manifestos: um aqui e outro aqui. Vale a pena conferi-los =)
Para Idelber Avelar e seu Biscoito que não se cansam de lutar

Há dias tenho pensando em voltar. Tinha jurado para mim mesma que não escreveria sobre política. Mas o que posso fazer diante de uma matéria repulsiva que tenta, pela milésima vez, banalizar a ditadura brasileira e colocar no mesmo patamar torturadores e torturados

Mas não vou falar aqui do vínculo da Folha com a Ditadura no passado. Vou falar do vínculo da Folha com a Ditadura no presente; sobre a perpetuação da barbárie promovida por um jornal e pelos seus jornalistas; sobre esse absurdo de matéria publicada com o espião da Dilma, que leva esse mesmo nome, sem pudor nem respeito: "Espião de Dilma". A Folha largou mão dos eufemismos e imprime em suas páginas, com visível comoção dos que fizeram a matéria, a naturalização do horror.

E tudo começa com a comparação mais esdrúxula que já li na minha vida: 

"Filha de imigrante, líder de grupos de resistência à ditadura, ministra e candidata a presidente, Dilma Rousseff pode dizer que foi longe."

"Não se pode dizer o mesmo de Sílvio Carriço Ribeiro, 69, ex-agente da chamada 'comunidade de informações' na ditadura (1964-1985) e ex-coronel da Brigada Militar: continua morando perto da casa em que Dilma viveu, na Vila Assunção, na zona sul de Porto Alegre, região onde mantinha campana para investigar a 'subversiva'."

Não, não se pode, e nem jamais poderia, dizer o mesmo do espião da ditadura. Não se pode dizer o mesmo de uma pessoa cuja crítica máxima que consegue fazer de Dilma Rousseff, e que ganha os negritos do resumo da matéria, é que ela "nasceu para mandar, não para ser mandada" e que alimenta a mesma angústia da Folha: "Lula vai se enganar com ela".

A perversão é tanta que conseguem intitular a segunda parte da matéria como "Lobo", referindo-se a super-elaborada impressão do espião da ditadura de que Dilma não passa de um "lobo em pele de cordeiro". O ex-coronel, refere-se a Folha ao espião (porque é preciso manter a autoridade e o respeito com seus ex-chefes), afirma com todo o seu histórico de ter mandado para a prisão e tortura sabe-se lá quantos, que pessoas como Dilma são amargas e duras. Sim, ex-coronel, amarga e dura como era a realidade da qual o senhor foi cúmplice e que até hoje defende.  

A falta de qualquer sensibilidade da Folha que endossa uma opinião dessas é indescritível (sem contar o episódio, que é de conhecimento de todos, da Ditabranda). Tudo bem que a Folha queira parar a Dilma, é legítimo que um jornal se oponha. Não é legítimo que ele invente coisas, mas disso ainda podemos fazer piada como o achincalhamento realizado com o #dilmafactsbyfolha no twitter (que Idelber arremata aqui). Mas com a ditadura, só a Folha consegue fazer piada. Nesse sentido, a Folha será, para sempre, insuperável. E, infelizmente, o jornal do futuro, como ela se anuncia porque não dá para imaginar outro futuro para o Brasil enquanto a ditadura não for revista.

É imperdoável que a Lei da Anistia não tenha sido revista (e, para maior desespero, Serra, Marina e Dilma foram contra a revisão). O mínimo que se ganharia com isso seria coibir e levar ao mais alto constrangimento uma matéria como essa do "Espião da Dilma". Como isso não acontece (porque "todo mundo é igual", porque todos foram anistiados) abre-se espaço para a Folha igualar o inigualável: colocar mais de 20 anos depois do fim da Ditadura, a opinião de um espião como fonte de revelações sobre a personalidade da candidata a presidência que foi presa e torturada pelo regime. É o cúmulo do absurdo, mas é a violência mais atroz que se pode cometer.

E, na verdade, eu nem precisaria escrever esse post, porque a banalização do mal está nas palavras do espião publicadas na Folha como última tentativa de nomear Dilma como terrorista: "atual candidata a presidente nega que tenha atuado diretamente nessas ações, mas são correntes afirmações de que ela tinha conhecimento, ordenou ou planejou várias delas. 'Você determinar ou saber quem fez uma coisa dessas não diminui sua responsabilidade. A responsabilidade é até maior', declara Ribeiro." Ninguém precisa ter lido Hannah Arendt para entender o que esse monstrinho está falando. Enquanto essa afirmação deveria ser anunciada com todos os auto-falantes do mundo na orelha do espião, na orelha dessa corja da Folha, e de todos aqueles que torturaram, espionaram, mataram, é ele, o ex-coronel espião da Dilma, quem fala com a voz soberana de quem detém a verdade, responsabilizando os outros enquanto deveria ser responsabilizado. 

Terão os que pensam que bater na Folha é chutar cachorro morto. Pode ser mesmo. Mas eu, na minha singela insignificância, não queria deixar de revidar o chute no estômago que levei hoje ao ler essa matéria. Eu nasci quando a ditadura já se desfazia, mas fico "dura e amarga" quando evocam o período banalizando a barbárie, naturalizando os crimes cometidos, querendo nos submeter a esse horror que sempre retorna com esse jornal desprezível, mas ativo e lido no Brasil, que é a Folha de S. Paulo.   

Para terminar, um desvio: a psicanálise diz que é sempre o analisando que dá a resposta. Pois foi isso que encontrei nessa sintomática retomada de "filme premiado em nova campanha na TV" na própria Folha. Deixo-lhes com ele e com a frase que se encaixa à prática dessa merda de jornal: "É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade". Não existe melhor definição para essa matéria: a perpetuação do passado mais sombrio com o sorriso safado e perverso de quem constrói o presente.  

IMPORTANTE: A Aline escreveu um texto lindo sobre o "Espião de Dilma" aqui.