Em 1966 na Argentina três artistas visuais, Raúl Escari, Roberto Jacoby e Eduardo Costa, elaboram um happening peculiar. Foi um "
Happening que no existió" e que chegou aos meios de comunicação com o irônico nome "
Happening de la participación total". E fazia parte de um empreendimento artístico genial
El arte de los medios de comunicación. O manifesto
un arte de los medios de comunicación é interessantíssimo e vocês podem lê-lo
aqui.
Esse happening consistia em relatar o acontecimento de um happening que, na verdade, não aconteceu e enviar notas sobre ele para alguns veículos de comunicação que, por sua vez, noticiariam o tal happening como se, de fato, tivesse acontecido. Daí a participação total. Trocando em miúdos: eles queriam disseminar nos meios de comunicação uma mentira documentada como verdade. E conseguiram! Jornais e revistas publicaram notas sobre o happening, dois deles inclusive nem haviam recebido o material preparado pelos artistas, o que torna tudo mais engraçado afinal, onde é que eles teriam conseguido informações?
Se, por um lado, nos anos 1960 a arte vinha questionando, à maneira dadaísta, ou como queriam os franceses, 40 graus acima do Dadá, o objeto estético, por outro, o happening indicava à maneira da arte pop que nós desmaterializamos. Se alguém tinha dúvidas da vinculação entre arte e política, os anos 60 servem para evidenciar esse laço. Não se trata, claro, de arte engajada ou não engajada, de esquerda, comunista, etc. O tropicalismo, por exemplo, que foi detestado por alas esquerdistas talvez tenha sido no Brasil o movimento que melhor conjugou arte e política sem necessariamente se engajar.
O que pretendia a
arte dos meios era a intromissão nos meios de comunicação e a exploração da sua forma: a pura imagem no triunfo da sociedade do espetáculo. Imagem espetacular e especulativa porque se existe alguma coisa que caracterize os meios de comunicação e a própria arte é a especulação - no sentido etimológico de observar e contemplar e no sentido utilizado correntemente de lançar hipóteses sem ter embasamento. Especula-se justamente porque se veicula uma série de imagens esvaziadas que são preenchidas de sentido quando encadeadas num discurso. E esse discurso não passa de uma especulação - longe da verdade e da mentira, portanto.
Se a visão nos trai, se não podemos acreditar piamente no que vemos, a arte, os meios de comunicação (e também a política, veremos) são um grande exemplo. Ou seja, não vale dizer que "sim, é verdade eu li isso na Folha" (rá, piadinha). Mas isso não é próprio dos meios de comunicação, embora sirva perfeitamente para eles, essa é uma característica da imagem (basta pensar em
Isto não é um cachimbo de Magritte).
O limiar que se apresenta com o happening, entre a verdade e a mentira, entre o fato e a especulação é, nesse sentido, exemplar. Se é correto dizer que o mundo é feito de imagens e que o sujeito é constituído a partir de imagens não podemos supor nem verdade ou mentira, nem realidade nem ficção, nem fato nem especulação, apenas um regime de verdade. Não é de hoje, portanto, que a arte mina o espaço ao qual se queria isolá-la - o da ficção em relação à realidade, o da fabulação em relação ao acontecimento.
O que ocorre, presentemente, é que a exposição é tão grande que - dado o espetáculo em que vivemos - esse limiar se impõe como o não-lugar da arte e como o lugar do mundo. O acontecimento passa a ser uma fabulação e a realidade uma ficção. Se até a década de 70 conseguia-se vislumbrar um fora, mesmo que esse fora não fosse um "lado de fora" absoluto, a arte contemporânea é a constatação de que isso não é possível. Mergulhados no espetáculo assistimos todos os dias à intervenção dos artistas argentinos. Restituir um lugar separado para a arte é conversa de quem quer o mesmo entretenimento que obtem ao sentar na frente da TV ou ao abrir o jornal para: a mais chocante das notícias contada como corriqueira e inevitável. A arte serve para criar outros mundos, todos eles possíveis, por isso ela não pode estar em uma esfera separada.
A
instalação que Roberto Jacoby, o mesmo da intervenção nos meios de comunicação, está preparando para a Bienal deste ano em homenagem a Dilma Rousseff e ao PT é um ótimo exemplo da intervenção política na arte ou vice-versa. A instalação cujo título é "A alma não pensa sem imagem" - e só posso falar dele e de mais algumas informações conseguidas aqui - terá duas fotografias: uma de José Serra e outra de Dilma Rousseff. Jacoby está corretíssimo: nenhuma alma pensa sem imagem, e por extensão, a política não existe sem imagem.
Vejamos alguns depoimentos de Jacoby: "Somos a favor da continuidade do governo do PT, que tem sido importante para a democracia e a unidade na América Latina". Até aqui ótimo, ele está se referindo claramente ao Lula. Pouco depois ele diz o que sabe de Dilma: "O que conheço é o que está na internet. Sei que é economista, muito capaz, estudiosa e se transformou em especialista em energia elétrica num país tão grande como o Brasil". "De Serra, não sei muito". Nada mais revelador que o título da instalação: "a alma não pensa sem imagem". O que Jacoby sabe de Dilma e de Serra é uma imagem - e é o que todos sabemos dos outros, e de nós mesmos, uma imagem. É bobagem dizer que temos que conhecer, pegando uma carona no contexto, um político profundamente. Isso não é possível. O máximo de "verdade" que conseguimos chegar é a sua superficialidade extrema: uma imagem que recebe e projeta outras imagens. O que mostra que nada sobrevive além da imagem. Não é diferente com a política que chegou a tal grau de esvaziamento - dado o desgaste que não para de sofrer - que se tornou imagem.
Mas esse fenômeno, se podemos chamar assim, é anterior a Debord (que tendia a ver isso negativamente na sociedade do espetáculo) e é o que Ernesto Laclau denominou como populismo: um significante vazio - uma imagem. Laclau tira da concepção populista sua carga estritamente negativa e diz que esse significante vazio é capaz de agregar as demandas do povo para afirmar sua hegemonia (ou seja, Lula não tem a popularidade que tem porque é "populista" no sentido chulo, mas sim porque conseguiu agrupar e atender demandas, ele deu sentido a uma série de imagens esvaziadas). Teoricamente esse é o desejo de todos os políticos, mas pouquíssimos são capazes de fazê-lo. É claro que isso também tem sua contrapartida negativa: implica idolatria e uma quase cegueira para a discussão política que se agarra nesse nome como o Nome-do-pai (então, mais do que o esvaziamento das imagens não teríamos nem o discurso que daria sentido a série de imagens - pegar carona é o nome disso, achar que as coisas caem do céu, também pode ser).
Não é porque vivemos na sociedade do espetáculo que a política tornou-se espetacular. Ela sempre foi feita de imagens. Sua forma estreitada com os meios de comunicação é a grande novidade. Deste modo, em muitos casos a política não estaria longe da proposta do happening que iniciou esse texto, ou seja, um acontecimento que se desenrola nos meios de comunicação de massa
como se fosse verdade
como se tivesse uma
"participação total" e estes, por sua vez, não ousam saber que a própria política já se apropriou de seus meios.
À arte coube, e cabe ainda, a contemplação - especulativa e criadora, portanto - do mundo, para o mundo e no mundo.