Peguei esse título de Nina Saroldi que prefacia o excelente livro da Denise Maurano: Histeria. O princípio de tudo. Creio que ele seja suficiente para entender que esse post não é uma aversão à histeria ou uma consideração de que a histeria é uma patologia, pelo contrário entende-se aqui, de acordo com Maurano, que ela é uma forma de subjetivação.
A psicanálise surge com a histeria. Freud deixa de lado a hipnose e investe na associação livre. Ou seja, sem nós mulheres, o Ocidente não teria a psicanálise para confortar ou confrontar o sofrimento. Mas Freud não estava sozinho no estudo das histéricas. Charcot e Breuer também estavam tratando pacientes. Freud e Breuer publicam juntos Estudos sobre Histeria em 1895. Mas aí o racha (hihi) fundamental: Freud acha que deve incluir a etiologia da sexualidade e Breuer resiste. É daí também que surge o meme freudiano de que tudo é sexual. E, de fato, para Freud, é. Contudo, leituras posteriores de Freud, e ele mesmo, esclarecem o que é esse "sexual": é o que está relacionado ao prazer e não necessariamente aos órgãos genitais. Mas enfim.
A histeria, durante boa parte do século XX (e até hoje) é vista como uma doença feminina: para a histérica nada é suficiente. Ou ainda, a histérica é um excesso, um transbordamento tanto é que seus sintomas são refletidos no corpo. Daí que estávamos conversando no tuíto sobre feminismo e afins e a Deborah Leão me passou um link de um texto incrível da Maria Rita Kehl aqui.
Daí que eu estava lembrando que uma das justificativas de certo movimento feminista é, justamente, se livrar da histeria ("não queremos que nos chamem de histéricas", "não somos histéricas reclamando por igualdade", etc). Enquanto, na verdade, o feminismo só pode existir pela condição histérica (pensem em Anna O.), por esse excesso de demanda que, como diz Kehl, embora acredite no "poder do falo", desestabiliza a posição masculina já que a histérica diz: quero mais. Tudo vem abaixo! A satisfação compulsória pelo casamento, pela maternidade, pela vida estável, familiar, etc. O que acontece aí é uma reafirmação desse transbordamento ou, lacanianamente, dessa ausência de significante, dessa falta tão vertiginosa, dessa demanda insaciável da histérica. Na histérica, nas mulheres em geral, está um lugar de invenção permanente, de metamorfose e de devir. E nesse sentido, reafirma a necessidade do feminismo ser considerado uma prática e não uma essência. Não adianta dizer: sou feminista, tornei-me feminista, então devo fazer assim, assim, assado. Como prática, enquanto movimento, no sentido pleno do termo, cria-se e recria-se um lugar, ou melhor, um não-lugar, uma vez que ele jamais pode ser estabilizado, para esse feminino inquietante que se expande para outros muitos devires. Ou seja, mais do que abrigar sobre um rótulo, mais do que definir seus preceitos, mais do que instaurar palavras de ordem, mais do que um discurso pronto, o feminismo precisa de histeria, dessa paixão que se inscreve no corpo e que, por isso, grita.
PS: é lógico que a histeria pode causar sofrimento, taí a psicanálise, ou qualquer outro meio de seu gosto, para resolver essas questões. O que está em jogo aqui é um agenciamento político dessa demanda para que ela não se domestique, ao contrário, para que se torne desejo, infinitos desejos.
A psicanálise surge com a histeria. Freud deixa de lado a hipnose e investe na associação livre. Ou seja, sem nós mulheres, o Ocidente não teria a psicanálise para confortar ou confrontar o sofrimento. Mas Freud não estava sozinho no estudo das histéricas. Charcot e Breuer também estavam tratando pacientes. Freud e Breuer publicam juntos Estudos sobre Histeria em 1895. Mas aí o racha (hihi) fundamental: Freud acha que deve incluir a etiologia da sexualidade e Breuer resiste. É daí também que surge o meme freudiano de que tudo é sexual. E, de fato, para Freud, é. Contudo, leituras posteriores de Freud, e ele mesmo, esclarecem o que é esse "sexual": é o que está relacionado ao prazer e não necessariamente aos órgãos genitais. Mas enfim.
A histeria, durante boa parte do século XX (e até hoje) é vista como uma doença feminina: para a histérica nada é suficiente. Ou ainda, a histérica é um excesso, um transbordamento tanto é que seus sintomas são refletidos no corpo. Daí que estávamos conversando no tuíto sobre feminismo e afins e a Deborah Leão me passou um link de um texto incrível da Maria Rita Kehl aqui.
Daí que eu estava lembrando que uma das justificativas de certo movimento feminista é, justamente, se livrar da histeria ("não queremos que nos chamem de histéricas", "não somos histéricas reclamando por igualdade", etc). Enquanto, na verdade, o feminismo só pode existir pela condição histérica (pensem em Anna O.), por esse excesso de demanda que, como diz Kehl, embora acredite no "poder do falo", desestabiliza a posição masculina já que a histérica diz: quero mais. Tudo vem abaixo! A satisfação compulsória pelo casamento, pela maternidade, pela vida estável, familiar, etc. O que acontece aí é uma reafirmação desse transbordamento ou, lacanianamente, dessa ausência de significante, dessa falta tão vertiginosa, dessa demanda insaciável da histérica. Na histérica, nas mulheres em geral, está um lugar de invenção permanente, de metamorfose e de devir. E nesse sentido, reafirma a necessidade do feminismo ser considerado uma prática e não uma essência. Não adianta dizer: sou feminista, tornei-me feminista, então devo fazer assim, assim, assado. Como prática, enquanto movimento, no sentido pleno do termo, cria-se e recria-se um lugar, ou melhor, um não-lugar, uma vez que ele jamais pode ser estabilizado, para esse feminino inquietante que se expande para outros muitos devires. Ou seja, mais do que abrigar sobre um rótulo, mais do que definir seus preceitos, mais do que instaurar palavras de ordem, mais do que um discurso pronto, o feminismo precisa de histeria, dessa paixão que se inscreve no corpo e que, por isso, grita.
PS: é lógico que a histeria pode causar sofrimento, taí a psicanálise, ou qualquer outro meio de seu gosto, para resolver essas questões. O que está em jogo aqui é um agenciamento político dessa demanda para que ela não se domestique, ao contrário, para que se torne desejo, infinitos desejos.

