outubro 2008 Arquivo

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Em "A arte de reduzir as cabeças", Dany-Robert Dufour (2007) traz à tona a problemática da impossibilidade na atualidade do encontro evidente de referências. No entanto, muito mais do que uma ausência perante o sujeito, o que mais se evidencia em tal contexto é uma sorte de presença não qualificada por uma relação com uma ausência, mas pura pretensão de completude , ou seja, uma positividade que já não requer pensamento para se afirmar. 

 

Em suma, na pós-modernidade não há mais Outro no sentido do Outro simbólico: um conjunto incompleto no qual o sujeito possa verdadeiramente enganchar uma demanda, formular uma pergunta ou apresentar uma objeção. Nesse sentido, é idêntico dizer que a pós-modernidade é um regime sem Outros ou que a pós-modernidade é repleta de semblantes de Outros, que imediatamente mostram o que são: tão cheios de presunção quanto às tripas. (DUFOUR, 2007, p. 59)

 

Portanto, tal como uma imagem que se demonstra em sua totalidade com uma pretensão absoluta de afirmação e completude, a pós-modernidade corrobora nestes mesmos termos com tamanha pobreza.  Assim, o pensamento dá lugar ao acesso ilimitado ao gozo, que já é pura mercadoria como se fosse auto-suficiente. Mas esta presentificação é também influenciada pela falta de referência no aspecto temporal: esta totalização é acompanhada de uma versatilidade e descartabilidade inéditas, as quais fazem da imagem uma aliada do excesso. No entanto, já não se pode apenas pensar em um excesso que na inutilidade, ou seja, na pura medialidade demonstrar-se-ia potência da linguagem. Muito pelo contrário, ele, por si só, não é imune à tentação da encenação, do enquadramento por um roteiro muito mais perverso que qualquer tentativa moderna de narrativa: a perversão da pós-modernidade não é da ordem do demonstrável. Sendo ela potência contra a potência, por mais que venha no intuito de impor um determinado discurso, tal imposição somente se dá por um vazio, ou seja, pela exceção.

No entanto, ao mesmo tempo em que se vê a imagem como tentativa de auto-suficiência, ela também pode ser lida como gesto, ou seja, apenas quando se suspende o tempo, quando acaba o pensamento teleológico é que se interrompe a cena. Assim sendo, o gesto rouba a cena sem necessariamente romper com ela. Com a paralisia, portanto, há uma irrupção diferente de pensamento, qual seja, a visão do resto. Somente sem a turbulência de um ritmo frenético é que se observa a sujeira que ronda o picadeiro. Dentro de um circo, por exemplo, se os palhaços parassem, o espectador poderia reter sua atenção para lugares outros que não a piada, mas a visão da bosta deixada no chão pelo número de elefantes que precedeu o número presente. Da mesma forma, diante de uma modernidade líquida, a suspensão de narrativas é o que permite observar o resto humano que não se adequa ao normal e quee, portanto, não se qualifica dentro de uma funcionalidade daquele discurso que pretendeu decidir sobre a vida. Assim, o excesso como anestesia, desde que visto como gesto, poderia servir de palco (e apenas de palco) à releitura que faz do excedente promessa de redenção.

No entanto, Susan Sontag em um de seus últimos escritos, chamado "Diante da dor dos outros", faz ponderações consideráveis a seu próprio pensamento precedente, sobretudo o célebre conjunto de ensaios intitulado "Sobre a Fotografia". A autora norte-americana faria um contraponto à idéia de que o excesso de imagens seria a fundadora da impotência e da letargia. Critica a autora posições dos leitores de Guy Debord que deixam de lado a reflexão simplesmente por aderir ao pensamento da impossibilidade do pensamento a partir das idéias do francês sobre a espetacularização de tudo. Da mesma forma, pode-se fazer pontes com as idéias de autores como o anteriormente citado Dufour ou mesmo a também norte-americana Susan Buck-Morss. O fato é que Susan Sontag, que na década de 70 dissertara sobre a fotografia como uma impossibilitadora de assimilação de experiências, sobretudo pelo excesso delas, diz, após os atentados às torres gêmeas, que não se pode desconsiderar o fato de que o fotojornalismo, em certo sentido, possibilitou contrapontos, por exemplo, a grandes narrativas imperialistas e, além disso, serve de ponto de partida a inúmeras reflexões em torno do mundo até hoje. Não se poderia, portanto, generalizar a idiotice. No entanto, qual é o problema acerca da imagem se não é o excesso delas? Entende a autora que o principal é a faculdade dos homens fechar os olhos ou trocar de canal. Assim sendo, a falta de pensamento pelos homens de hoje não poderia ser atribuída apenas à quantidade de imagens, mas em sua decisão de não vê-las. A problematização sobre pensamento e julgamento é que teria deixado de ser levantada, sobretudo em razão de teorias que partem de proposições (aí sim não refletidas) sobre a impossibilidade de assimilação, queda da ação coletiva, etc. Tal pensamento é portanto curioso, seja pela coragem em ir contra grande parte da produção intelectual atual, bem como por trazer à tona uma nova problematização do sujeito.

 

Tornou-se um clichê da discussão cosmopolita em torno de imagens de atrocidade  supor que elas produzem um efeito reduzido e que existe algo intrinsecamente cínico acerca de sua difusão. Por mais que agora se considerem importantes as imagens da guerra, isso não desfaz a suspeita que paira em torno do interesse por essas imagens e das intenções daqueles que as produzem. (SONTAG, 2003, p. 92)

 

No entanto, a autora não chega a escrever muito mais a partir de tal momento. Justamente quando esta traz o problema do sujeito, não desenvolve tal tema como fizera Debord, Buck-Morss ou Dufour. Sem dúvida é de se pensar sobre a queda da questão do sujeito para o pensamento sobre a própria fluidez. Contudo, não há como se desconsiderar o fato de que os dois problemas estão completamente relacionados, tanto o problema da imagem em excesso como o problema do pensamento de menos, para além da ameaça de um novo liberalismo. Não se poderia, por exemplo, deixar de considerar que o excesso de imagens é influência no estabelecimento ou na abertura do próprio sujeito. Em outros termos, as fronteiras entre leitor e texto não são de forma alguma sólidas. Seria um ciclo vicoso, entretanto, descobrir se é o sujeito que funda o texto ou o texto que funda o sujeito.  Portanto, cabe pensar a cultura contemporânea não por uma centralidade no texto, como em uma descuidada semântica, e também não para louvar o leitor, conforme uma predominância da semiótica. Nem discursar por discursar na esperança de algum ato espontâneo e nem mesmo buscar um sentido através da leitura. Talvez seja hora de se considerar simplesmente a leitura, ou seja, discursar sobre manifestações acerca de um vazio, para, quem sabe, perceber além das imagens enquanto palhaçada, o que o cheiro de bosta mais acusa.  

 

DUFOUR, Dany-Robert: A arte de reduzir cabeças. Companhia de Freud, 2007.

SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. Companhia das letras, 2003.