Recentemente na Tempo para respirar Categoria

Riveraosussu.jpgQuando estava em Natal, em um Sebo encontrei por apenas R$ 15,00 o livro Riverão Sussuarana de Glauber Rocha em sua primeira edição. Trata-se de uma desconstrução da escrita de Guimarães Rosa, onde Glauber vai expor a sua própria linguagem sertaneja (portanto fora do linguisticamente correto de Rosa).Fora o fato de que, em minha subida para o Sertão encontrei um riozinho chamado Sussuarana - e ele estava seco -, o livro me deu uma surpresa. Quando eu o folheava descobri uma carta amarelada. Na hora pulei e pensei ter encontrado uma nova - e talvez inédita - carta de Glauber Rocha. Mas não. Era na verdade uma carta de assinada como se tivesse sido escrita por vários movimentos, sendo a maioria da UFSC ! datada de 1978 na cidade de São Paulo, tratando do redirecionamento necessário do movimento estudantil para o apoio às lutas proletárias que supostamente recomeçavam a se articular frente a algumas mínguas liberdades que apareciam (Mas ainda vigia o AI-5). Talvez início da organização operária - talvez início do fim do movimento estudantil. Cada um leia como achar melhor. Mas aqui disponibilizo a carta na íntegra já que não pude saber nada sobre ela nas buscas da internet. Sobretudo do destino dos estudantes de Recife ali mencionados. Talvez algo assim seja interessante para o momento atual em que se rediscute a anistia, que viria em 1979.


Carta achada em 06.05.10. Parece de mimeógrafo.


MANIFESTO

 

Vivemos hoje no país uma conjuntura de crise que se caracteriza, fundamentalmente, por duas coisas. Uma é a luta da burguesia contra a ditadura militar propondo, inclusive, saídas de redemocratização, para que assim ela exerça diretamente o seu poder político e econômico no sentido de resolver sua crise da melhor forma. A outra é o ressurgimento da luta dos trabalhadores, que apenas engatinham no sentido da sua reorganização, tanto na cidade como no campo.

Se por um lado, a classe dominante está suficientemente forte para levar bandeiras políticas gerais (Constituintes, Anistia, redemocratização), a classe trabalhadora, infelizmente, pela sua condição político-ideológica e organizativa, tem condições apenas de travar lutas específicas. Assim é que hoje ela está incapacitada de levar uma luta política geral pela queda da ditadura. E sabemos que, pelas características do processo de transformação social brasileiro, a derrubada da ditadura militar só se constitui num avanço qualitativo da luta de classes se estivesse direcionada e sustentada pelos trabalhadores, sob a liderança operária.

Neste sentido se colocam questões de fundamental importância. É necessário que compreendamos que a força-motriz da efetivação da reorganização dos trabalhadores se dá hoje sob as bandeiras nascidas das suas condições materiais de vida e trabalho e de lutas políticas específicas. Sejam elas: melhores salários, contra o arrocho, contra a carestia, por sindicatos livres, pelo direito de greve, por sua imprensa independente, e pela defesa de seus líderes. Quer dizer, pelo seu baixo nível de organização e consciência, uma prática política conseqüente tem que ser feita em cima das lutas específicas que a classe trabalhadora possa assumir concretamente, dando sua direção e que reflitam, no seu estágio atual, seus interesses de classe. Será a partir disso que ela viabilizará sua Organização Independente, a construção de seus Partidos e caminhará, juntamente com seus aliados, para um governo próprio. Entendendo assim a situação dos trabalhadores estaremos combatendo a ditadura militar do ponto de vista deles. Mesmo porque a nossa luta contra a repressão burguesa não acabará quando este regime deixar de existir. Mesmo com o engodo das liberdades democráticas, a classe dominante continuará prendendo, torturando e assassinando todos aqueles que tenham uma prática comprometida com o fim de sua exploração e dominação: o regime atual apenas muda as condições de luta mas não altera o problema das classes sociais.

Dessa forma um direcionamento conseqüente e justo para o Movimento Estudantil, não é o de se assumir responsável pela queda do regime só porque, junto com outros setores da pequeno-burguesia, está mais organizado e forte. Ao ME, cabe assumir o apoio e incentivo às lutas específicas atuais, que hoje permitem de fato a reorganização dos trabalhadores, enquanto uma força auxiliar. Ao ME cabe lutar contra a repressão burguesa, que não se findará junto com a ditadura militar. Ao ME cabe assumir de fato sua reorganização (UNE, UEEs, etc.) pelas bases a partir destas lutas e dos nossos interesses específicos enquanto estudantes.

É assim que atualmente poderemos responder a luta contra a política educacional que nos é imposta, que consolidaremos e avançaremos no espaço político já conquistado. Que estaremos participando, na perspectiva dos explorados, do cenário político: não levantando bandeiras que só podem pertencer a burguesia, pelo fato da fraqueza atual do movimento de massas.

Sendo assim nada mais justo do que estarmos aqui neste ATO PÚBLICO na defesa dos companheiros de Pernambuco e dos funcionários do HC, assumindo bandeiras que sejam respostas a estes acontecimentos e que identifiquem o Movimento Estudantil com o Movimento dos trabalhadores, garantindo, na prática, nossa organização e manifestação livre e independente.

 

-PELA LIBERTAÇÂO DOS COMPANHEIROS DE RECIFE

-POR MELHORES SALÁRIOS

-PELO DIREITO DE GREVE

-CONTRA OS ATOS REPRESSIVOS DA BURGUESIA

-PELA ORGANIZAÇÃO INDEPENDENTE DOS TRABALHADORES DA CIDADE E DO CAMPO

-PELO APOIO DOS ESTUDANTES À LUTA DOS TRABALHADORES

-PELO DIRECIONAMENTO PROLETÁRIO ÀS LUTAS ATUAIS !

 

Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina

Diretório Acadêmico do Centro de Educação da UFSC

Diretório Acadêmico do Centro de Estudos Básicos da UFSC

Movimentos: PARTICIPAÇÃO - UFSC

                      COMBATE - UFBA e UCSal.

                       OPÇÃO DE LUTA - UFRJ

Diretório Acadêmico do Setor Tecnológico da Universidade Federal do Paraná

 

São Paulo, 14 de Julho de 1978  .


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"O que é Sagrado e o que é Profano?

Porque pessoas e culturas se identificam com o sagrado, têm que renegar o profano?
Porque pessoas ou culturas são profanas, precisam rejeitar o sagrado?"
"E onde começa um e termina o outro, já que todos nós somos sagrados e profanos?"

Elke Maravilha



"Eu quero é conviver! A grande arte não é viver, é conviver"!
Elke Maravilha

Eu já havia estado em São Paulo umas cinco vezes. Em nenhuma delas me ocorreu a estupefação que tive agora em minha viagem entre os dias 3 e 4 de Setembro. Como deveria realizar uma prova de doutorado no Largo São Francisco, hospedei-me em um hotel modesto nas proximidades da Praça da República. Sabia da má fama do local, mas como não pretendia sair à noite e o hotel era razoável tanto no conforto como no preço, decidi ficar por lá. Durante o dia, caminhei um pouco pelo centro da grande cidade. Passei pelo viaduto do chá para ir à faculdade de direito e depois nos sebos da Sé e, por fim, nas proximidades do mosteiro de São Bento. Eu já sabia que a Cracolândia estava por lá depois que mexeram na região da Luz, mas não sabia que a coisa era daquele tamanho. Nesta sexta vez, contudo, a cena do centro era tão depressiva que eu não sabia nem mesmo o que pensar. Esses dias assisti na TV algo sobre zumbificação no Haiti, e, olha, as imagens de São Paulo mostram a nudez do ser humano muito melhor. O crack zumbifica mais que veneno de baiacu, com certeza. Durante o dia os montes de mendigo deitados ou delirando nas ruas só não chocavam mais que as muitas crianças que jaziam inconscientes entre papelões molhados pela garoa nojenta. À noite arrisquei-me a olhar pela pequena fresta de janela que tive. Contei uns dez acendendo a pedra. E durante toda a noite era gritaria e polícia, etc. Realmente só consigo aqui dar uma breve descrição do que passei, mas é difícil saber o que pensar daquilo tudo. As pessoas passando quase por cima de outras e desviando todo o olhar para aqueles pedaços de carne fedendo a cachorro molhado. Sem palavras. Também ouvi que a prefeitura teria reduzido em São Paulo as verbas para a coleta de lixo, o que deve ter gerado toda a imundice. Isso também deve ter contribuído para a minha angústia, que também não crê em soluções higienistas. O mais curioso é que durante o dia os camelôs eram os únicos que animavam um pouco o centro de São Paulo, visto que os outros passavam com muita pressa para ver os dependentes de, que demonstravam um torpor muito grande para chegar a pensar em si mesmos. Acho que essa cena combinava completamente com a arquitetura fascista do Anhangabaú, com o gótico escuro em úmido de Santa Ifigênia ou Sé e com as grandes janelas de prédios art déco das proximidades. Gothan City, só que real demais. Aquelas cenas do ensaio sobre a cegueira, sem nenhuma grandiosidade ou lição de moral. Era só muita tristeza junta. E dizer que o crack é uma maneira daquela gente sair momentaneamente daquela atmosfera é o que mais chama a atenção. Enfim,  não culpemos apenas o crack para  toda aquela tristeza naquela cidade horrorosa e opressora. Olha, eu não quero vir aqui com discurso de Sul Maravilha, ou dizer que a minha cidade (Florianópolis) não tem crack ou problemas sociais, mas uma tristeza daquela, tanto pela lixarada, quanto pela mendicância, pressa ou chuva eu nunca presenciei. Detalhe que não vi Heliópolis. Se o leitor se decepcionou em ler até aqui o que ele mais ou menos vê na TV, o que eu posso dizer é que, até alguns meses atrás, São Paulo não estava assim. Mas não se pode pensar que algum dia não foi. A indigência sempre houve no Brasil e a miséria tem a função de conformar as ditas classes D e E sobre a sua condição, louvando a Deus por não estar naquele estado de zumbificação. Mas hoje essa vida nua está exposta descaradamente no centro da maior cidade do país. Tão manifesta quanto o velamento frouxo de tudo isso.

picasso-boy-with-pipe.jpgERA PRIMAVERA

VER ERAT

 

Poesia latina de Arthur Rimbaud, traduzida por Leonardo D'Avila de Oliveira.

 

  

Primav-era[1], e abatido em Roma languidecia

Ver erat, et morbo Romae languebat inerti

 

Orbílio[2]: a trama mestra maldosa estava muda

Orbilius : diri tacuerunt tela magistri

 

Já não vinham aos ouvidos as sonoras pancadas

Plagarumque sonus non jam veniebat ad aures,

 

Nem palmatória assídua em dor torturava o corpo.

Nec ferula assiduo cruciabat membra dolore.

 

Desfrutei do momento: me atirei a alegres campos

Arripui tempus : ridentia rura petivi

 

Sem lembrar; solto e fora da vigilância e estudo

Immemor ; a studio moti curisque soluti

 

Branda alegria recriou minha mente cansada.

Blanda fatigatam recrearunt gaudia mentem.

 

Com o peito d'algo novo cheio, alegre e doce,

Nescio qua laeta captum dulcedine pectus

 

Já aulas tediosas, já tristes mestras palavras

Taedia jam ludi, jam tristia verba magistri

 

Esquecidas, gozava ao olhar os campos ao longe

Oblitum, campos late spectare juvabat

 

Compreendendo a alegria e os milagres da terra.

Laetaque vernantis miracula cernere terrae.

 

Garoto, nem buscava tanto o vão rural ócio:

Nec ruris tantum puer otia vana petebam:

 

Sentimentos maiores cabiam no jovem peito:

Majores parvo capiebam pectore sensus:

 

Desconhecido espírito divino dava asa aos

Nescio lymphatis quae mens divinior alas

 

Sentidos desregrados: calado, contemplava

Sensibus addebat : tacito spectacula visu

 

Aos olhos Espetáculos: o peito e o amor do campo

Attonitus contemplabar: pectusque calentis

 

Quente manifestava: como antes anel férreo,

Insinuabat amor ruris: ceu ferreus olim

 

O rochedo em Magnésia atrai com força arcana e,

Annulus, arcana quem vi Magnesia cautes

 

Quieto, junta consigo por anzol invisível[3].

Attrahit, et caecis tacitum sibi colligat hamis.

 

 

 

 

Nisto os membros cansados e cadentes por longas

Interea longis fessos erroribus artus

 

Jornadas, deitei à borda dum verdejante rio

Deponens, jacui viridanti in fluminis orâ

 

Após desmaiar inerte com o som d'água, e pelo ócio

Murmure languidulo sopitus, et otia duxi,

 

Ido, aos cantos dos pássaros cativo e às brisas zéfiras.

Permulsus volucrum concentu auraque Favoni.

 

Eis que pelo ar do vale entraram algumas pombas

Ecce per aetheream vallem incessere comlumbae,

 

De alva mão, e elaborada ao bico floral grinalda

Alba manus, rostro florentia serta gerentes

 

Qual Vênus colhia em Chipre os aromas do jardim.

Quae Venus in Cypriis redolentia carpserat hortis.

 

A relva, a me renovar pelo som derramado,

Gramen, ubi fusus recreabar turba petivit

 

Acometeu-se ao tenro bater das asas: nisto

Molli remigio : circum plaudentibus alis

 

Envolveu-se a cabeça minha, e o 'anzol' atou as mãos ao

Inde meum cinxere caput, vincloque virenti

 

Verdejante, e engrinalda-me a têmpora com olente

Devinxere manus, et olenti tempora myrto

 

Coroa de murta, e o peso meu foi erguido levinho

Nostra coronantes, pondus per inane tenellum

 

Pelo vazio... Levava-me o campo por nuvens altas

Erexere... Cohors per nubila celsa vehebat

 

Sob coroa rósea lânguido: brando vento soprava

Languidulum roseâ sub fronde : cubilia ventus

 

Meu leito num embalar digno de danças suaves.

Ore remulcebat molli nutantia motu.

 

Para chegar nos ninhos, rapidamente voando,

Ut patrias tetigere domos, rapidoque volatu

 

Entraram na pendência das moradas as pombas

Monte sub aerio pendentia tecta columbae

 

Sob alto monte, e deixam-me acanhado, posto e alerta.

Intravere, breve positum vigilemque reliquunt.

 

Oh doce ninho pássaro! ... Luz de pura brancura.

O dulcem volucrum nidum! ... Lux candida puri.

 

Derramado meu corpo, cobriu todos meus braços:

Circumfusa humeros radiis mea corpora vestit:

 

Nem a penumbrosa luz é em verdade esta luz

Nec vero obscurae lux illa similima luci,

 

A qual ofusca a vista nossa mesclada à bruma.

Quae nostros hebetat mixta caligine visus:

 

A origem da celeste não tem a luz terrena!

Terrenae nil lucis habet caelestis origo!

 

Um estranho manifesta-se continuamente em meu peito,

Necio quid caeleste mihi per pectora semper

 

Como em corrente rio, um aceno incognoscível.

Insinuat, pleno currens ceu flumine, numen.

 

 

 

 

Logo voltaram os pássaros, e, com o bico, mostraram

Interea redeunt volucres, rostroque coronam

 

Láurea coroa em grinalda, como Apolo cingido

Laurea serta gerunt, quali redimitus Apollo

 

Avivasse sonoras cordas ao polegar.

Argutas gaudat compellere pollice chordas.

 

Mas quando a coroa láurea envolveu minha face

Ast ubi laurifera frontem cinxere coronâ,

 

Eis que se me abriu o céu, e a vista subitamente

Ecce mihi patuit caelum, visuque repente

 

Atônita, aspirando a grandiosa nuvem áurea,

Attonito, volitans super aurea nubila, Phoebus

 

Febo, divina-voz, estendeu com a mão a lira.

Diuina vocale manu praetendere plectrum.

 

Então o Capite[4], no céu escreveu, estas palavras, com várias chamas:

Tum capiti inscripsit caelesti haec nomina flammâ:

 

TU SERÁS VIDENTE[5] . . . . Em meu corpo incorreu

TU VATES ERIS . . . . In nostros se subjicit artus

 

Um calor nunca visto, como em esplêndido vidro,

Tum calor insolitus, ceu, puro splendida vitro,

 

Força solar por raios aquece a límpida fonte.

Solis inardescit radiis vis limpida fontis.

 

Então a anterior visão dos pombos dissipou-se:

Tunc etiam priscam speciem liquere columbae:

 

Coro das musas surge, a soar doce melodia e,

Musarum chorus apparet, modulamina dulci

 

Brandamente tomado aos braços, elevou a mim,

Ore sonans, blandisque exeptum sustulit ulnis,

 

O advir tri-revelando, me louro-tri-coroando[6].

Omina ter fundens ter lauro tempora cingens.   



[1] A primavera deste poema não é somente aquela que aquece o campo e o coração do jovem poeta. Ela é a própria primavera da poesia completa de Rimbaud e o primeiro de seus seis textos em latim que restaram. Curiosamente, o texto Adieu de Une saison em enfer, tido por muitos como a despedida de Rimbaud da poesia, começa por dizer que já é outono. Portanto, Ver erat, em muito ignorado pelos editores ao redor do mundo, é um dos primeiros poemas mais consistentes de Rimbaud e possui uma grande importância para a análise da sua poesia em conjunto. Além do mais, ele não perde em qualidade para outros, uma vez que possui uma bela sonoridade e em uma métrica latina rígida. Também revela o prodígio do poeta que realizou-o em um tempo de 3 horas! Destarte, procurou-se transpor a métrica em versos alexandrinos não necessariamente exatos para fazer referência à sonoridade dos versos bem como um pouco do caráter sintético do latim. 

[2] Orbílio: mestre de Horácio, lembrado por sua rigidez e castigos corporais para com seus alunos.

[3] Notam-se os versos ceu ferreus olim anulus,/ arcana quem ui Magnesia cautes/ sustulerit, longam nexu pendente catenam/ implicat et caecis inter se conserit hamis, retirados de Nutricia, nas Silvae de Angelo Poliziano (Silvae, Nutricia, 193-196). Neste texto, o autor, um humanista da renascença florentina trata com um ar platônico dos dons divinos dados a certos poetas, desde Homero até o renascimento. Isto é muito curioso porque Rimbaud se refere em Ver Erat justamente a um presságio de Apolo o qual lhe revela seu destino de poeta visionário. Também pode se notar que, desta forma, Rimbaud aos 14 anos já se pretendia igual aos grandes poetas clássicos, o que, por si só, já é prova de sua avidez pelo seu destino de estar entre os maiores escritores da humanidade.

[4] Sobrenome poético comum a Apolo e Minerva

[5] a grande maioria das traduções traz vates como poeta. Preferiu-se traduzi-la como vidente, - e o significante permite - tende em vista a pretensão visionária que Rimbaud possuía sobre si mesmo. Isto pode ser encontrado tanto na lettre du voyant como em Une saison em enfer. Também vale destacar que pode ser uma alusão a tu Marcellus eris. De Virgílio. Eneida VI, 883.

[6] O verso em latim é Omina ter fundens ter lauro tempora cingens. Um dos mais sintéticos e trabalhosos desta tradução em virtude do termo latino ter dar um sentido de três vezes. Uma tradução mais literal seria: Que revela três vezes o presságio e que cinge a têmpora três vezes com louro. Assim, apelou-se ao uso de neologismos para se manter a sonoridade e a métrica de modo que os particípios presente (tempo verbal praticamente inexistente no português) fundens e cingens são passados para os gerúndios revelando e coroando ao passo que ter foi traduzido por tri em razão da fonética e semântica das palavras.

 

*imagem: garçon avec une Pipe de Pablo Picasso

 

CARTOMANCIA POLÍTICA

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... Em uma consulta com o tarólogo e curandeiro mestre Barbarralah...

 

- Mestre Barbarralah, nas próximas eleições eu voto no Serra ou na Dilma? Quem vai ganhar?

- Vejamos o que dizem as cartas... Sinto que o futuro está para:

O%20Louco.jpgO louco.

- O louco? O que significa isso mestre? Significa que vai ganhar o Serra?

- Não.

- É a Dilma que vai ficar louca com tanta pressão?

- Também não.

- E o que é então?

- Olha a boca. Cadê a palavra mágica?

- ... p o r    f a v o r ...

- Enfim: o louco quer dizer que chegam notícias novas e que levam por caminhos inesperados.

- Ah é?

- Sim, o louco caminha por si ao mesmo tempo considerando o mundo, mas a partir de uma ótica própria. Caminha em direção do que acredita e os tropeços trazem surpresas, ele permite a chegada de novidades e de novas possibilidades de pensamento.

- Ele é um coringa? O Obama foi retratado como coringa recenetemente... Ele vai tomar a Amazônia e ser presidente do Brasil?

- Não não, aqueles norte-americanos que o retrataram assim são só uns idiotas. Sim, o coringa é uma carta que pode mudar o jogo quando tudo parece estar perdido. Mas só neste sentido estrito pode-se comparar esta figura com um coringa. Acontece que haverá um novo candidato ou uma nova candidata que fará o circo pegar fogo. As eleições podem tomar um rumo que não se espera.

- Ela vai ganhar então, mestre?

- Isso ainda não dá para saber. E o fato de não se saber é o melhor disso. Só posso dizer que agora nada está definido e tudo pode acontecer, inclusive no campo das idéias. Já que falaste em Amazônia, o louco é frequentemente associado à figura de São Francisco de Assis, amante de todas as criaturas vivas e das plantas. Ele foi atrás daquilo que pensou e fundou uma verdadeira revolução na instituição em que fazia parte.

- Mas a Igreja continuou corrupta...

- Boas idéias são sempre distorcidas pelas figuras mesquinhas, que sempre são maioria. Mas o que fica é a experiência e a mudança inevitável que as pessoas grandes criam.

- Hmmm... Ah, mais umas coisa mestre: por que as criaturas vivas e as plantas? As plantas, por acaso não são vivas também? Hem, hem?

- Depende... Quanto à soja transgênica, por exemplo, sempre fica uma dúvida.

- Bom saber. Muito obrigado mestre Barbarralah.

- Não há de quê.

 

 

 

 

Conclusões segundo Adelando, o Árabe, número VIII

 

1.      Intelecto agente não é nada senão a parte da alma que permanece acima e não cai.

2.      A alma tem em si as espécies das coisas e é excitada somente pelas coisas extrínsecas.

3.      Como complemento da conclusão precedente, mantida não só por Adelando como por todos os mouros dizem, eu digo que aquelas espécies existem em ato e substancialmente  na parte que não cai e recebe de novo e acidentalmente na parte que cai.

4.      A maior parte das coisas que se nos dão a conhecer em sonho, revelam-se ou pela purgação da alma, ou pelo endemoniamento ou pelo verdadeiro espírito da revelação.

5.      O que Tebit, o Caldeu, escreve acerca da dormência sobre o fígado na revelação dos sonhos será corretamente compreendido se tivermos relacionado com os ditos de Platão no Timeu.

6.      Porque, segundo disse Abdala, ver sonhos é vigor da imaginação, entendê-los é vigor do intelecto, por isso quem os vê de forma muito grandiosa (ut plurimum) não os entende.

7.      Alma é fonte, movimento e governadora da matéria.

8.      Todos os sábios indianos, persas, egípcios e caldeus acreditaram na transcorporação das almas.

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Em "A arte de reduzir as cabeças", Dany-Robert Dufour (2007) traz à tona a problemática da impossibilidade na atualidade do encontro evidente de referências. No entanto, muito mais do que uma ausência perante o sujeito, o que mais se evidencia em tal contexto é uma sorte de presença não qualificada por uma relação com uma ausência, mas pura pretensão de completude , ou seja, uma positividade que já não requer pensamento para se afirmar. 

 

Em suma, na pós-modernidade não há mais Outro no sentido do Outro simbólico: um conjunto incompleto no qual o sujeito possa verdadeiramente enganchar uma demanda, formular uma pergunta ou apresentar uma objeção. Nesse sentido, é idêntico dizer que a pós-modernidade é um regime sem Outros ou que a pós-modernidade é repleta de semblantes de Outros, que imediatamente mostram o que são: tão cheios de presunção quanto às tripas. (DUFOUR, 2007, p. 59)

 

Portanto, tal como uma imagem que se demonstra em sua totalidade com uma pretensão absoluta de afirmação e completude, a pós-modernidade corrobora nestes mesmos termos com tamanha pobreza.  Assim, o pensamento dá lugar ao acesso ilimitado ao gozo, que já é pura mercadoria como se fosse auto-suficiente. Mas esta presentificação é também influenciada pela falta de referência no aspecto temporal: esta totalização é acompanhada de uma versatilidade e descartabilidade inéditas, as quais fazem da imagem uma aliada do excesso. No entanto, já não se pode apenas pensar em um excesso que na inutilidade, ou seja, na pura medialidade demonstrar-se-ia potência da linguagem. Muito pelo contrário, ele, por si só, não é imune à tentação da encenação, do enquadramento por um roteiro muito mais perverso que qualquer tentativa moderna de narrativa: a perversão da pós-modernidade não é da ordem do demonstrável. Sendo ela potência contra a potência, por mais que venha no intuito de impor um determinado discurso, tal imposição somente se dá por um vazio, ou seja, pela exceção.

No entanto, ao mesmo tempo em que se vê a imagem como tentativa de auto-suficiência, ela também pode ser lida como gesto, ou seja, apenas quando se suspende o tempo, quando acaba o pensamento teleológico é que se interrompe a cena. Assim sendo, o gesto rouba a cena sem necessariamente romper com ela. Com a paralisia, portanto, há uma irrupção diferente de pensamento, qual seja, a visão do resto. Somente sem a turbulência de um ritmo frenético é que se observa a sujeira que ronda o picadeiro. Dentro de um circo, por exemplo, se os palhaços parassem, o espectador poderia reter sua atenção para lugares outros que não a piada, mas a visão da bosta deixada no chão pelo número de elefantes que precedeu o número presente. Da mesma forma, diante de uma modernidade líquida, a suspensão de narrativas é o que permite observar o resto humano que não se adequa ao normal e quee, portanto, não se qualifica dentro de uma funcionalidade daquele discurso que pretendeu decidir sobre a vida. Assim, o excesso como anestesia, desde que visto como gesto, poderia servir de palco (e apenas de palco) à releitura que faz do excedente promessa de redenção.

No entanto, Susan Sontag em um de seus últimos escritos, chamado "Diante da dor dos outros", faz ponderações consideráveis a seu próprio pensamento precedente, sobretudo o célebre conjunto de ensaios intitulado "Sobre a Fotografia". A autora norte-americana faria um contraponto à idéia de que o excesso de imagens seria a fundadora da impotência e da letargia. Critica a autora posições dos leitores de Guy Debord que deixam de lado a reflexão simplesmente por aderir ao pensamento da impossibilidade do pensamento a partir das idéias do francês sobre a espetacularização de tudo. Da mesma forma, pode-se fazer pontes com as idéias de autores como o anteriormente citado Dufour ou mesmo a também norte-americana Susan Buck-Morss. O fato é que Susan Sontag, que na década de 70 dissertara sobre a fotografia como uma impossibilitadora de assimilação de experiências, sobretudo pelo excesso delas, diz, após os atentados às torres gêmeas, que não se pode desconsiderar o fato de que o fotojornalismo, em certo sentido, possibilitou contrapontos, por exemplo, a grandes narrativas imperialistas e, além disso, serve de ponto de partida a inúmeras reflexões em torno do mundo até hoje. Não se poderia, portanto, generalizar a idiotice. No entanto, qual é o problema acerca da imagem se não é o excesso delas? Entende a autora que o principal é a faculdade dos homens fechar os olhos ou trocar de canal. Assim sendo, a falta de pensamento pelos homens de hoje não poderia ser atribuída apenas à quantidade de imagens, mas em sua decisão de não vê-las. A problematização sobre pensamento e julgamento é que teria deixado de ser levantada, sobretudo em razão de teorias que partem de proposições (aí sim não refletidas) sobre a impossibilidade de assimilação, queda da ação coletiva, etc. Tal pensamento é portanto curioso, seja pela coragem em ir contra grande parte da produção intelectual atual, bem como por trazer à tona uma nova problematização do sujeito.

 

Tornou-se um clichê da discussão cosmopolita em torno de imagens de atrocidade  supor que elas produzem um efeito reduzido e que existe algo intrinsecamente cínico acerca de sua difusão. Por mais que agora se considerem importantes as imagens da guerra, isso não desfaz a suspeita que paira em torno do interesse por essas imagens e das intenções daqueles que as produzem. (SONTAG, 2003, p. 92)

 

No entanto, a autora não chega a escrever muito mais a partir de tal momento. Justamente quando esta traz o problema do sujeito, não desenvolve tal tema como fizera Debord, Buck-Morss ou Dufour. Sem dúvida é de se pensar sobre a queda da questão do sujeito para o pensamento sobre a própria fluidez. Contudo, não há como se desconsiderar o fato de que os dois problemas estão completamente relacionados, tanto o problema da imagem em excesso como o problema do pensamento de menos, para além da ameaça de um novo liberalismo. Não se poderia, por exemplo, deixar de considerar que o excesso de imagens é influência no estabelecimento ou na abertura do próprio sujeito. Em outros termos, as fronteiras entre leitor e texto não são de forma alguma sólidas. Seria um ciclo vicoso, entretanto, descobrir se é o sujeito que funda o texto ou o texto que funda o sujeito.  Portanto, cabe pensar a cultura contemporânea não por uma centralidade no texto, como em uma descuidada semântica, e também não para louvar o leitor, conforme uma predominância da semiótica. Nem discursar por discursar na esperança de algum ato espontâneo e nem mesmo buscar um sentido através da leitura. Talvez seja hora de se considerar simplesmente a leitura, ou seja, discursar sobre manifestações acerca de um vazio, para, quem sabe, perceber além das imagens enquanto palhaçada, o que o cheiro de bosta mais acusa.  

 

DUFOUR, Dany-Robert: A arte de reduzir cabeças. Companhia de Freud, 2007.

SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. Companhia das letras, 2003.

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Já não há atleta que, por esforço individual, possa simplesmente fazer bonito em Pequim no próximo mês. É indispensável a eles um investimento modesto a novas tecnologias as quais podem permitir uma maior aderência ao solo (tênis), uma maior mobilidade na água (aquelas roupas para a natação) ou uma boa bicicleta com pneus muito finos para a redução do atrito. Ou seja: o atrito deixa de ser o problema central do desperdício de energia. Muito pelo contrário, a culpa está na capacidade do atleta em produzir líquido sinovial, aquilo que lubrifica as suas juntas. Em último caso, a culpa está no DNA defeituoso ou, nos casos mais brandos, em uma dieta inadequada. Nesse contexto, a preocupação não é com a força ou mesmo com alguma estratégia de pensamento, mas na capacidade das articulações suportarem os duros treinamentos com a velocidade e o aumento dos movimentos produzidos pelas próteses. Até mesmo no futebol. Quem pensa é o técnico, quem monta o time é a diretoria. A função do jogador é treinar muito para poder ganhar e somente em alguns instantes-já é que ele pode se arriscar a ser criativo. Se ele acerta é herói e, se erra, é um sem-profissionalismo. Mas sempre no final quem fica com o joelho seco e estourado é o jogador, tome-se como exemplo o Ronaldo, o fenômeno. No tênis, temos o Guga. Enfim, são esses com problemas no líquido sinovial os que já não agüentam a repetição dos movimentos e a velocidade das conexões.

 

Segundo Peter Sloterdijk "os participantes do novo jogo mundial da era industrial não se definem através da 'pátria e solo, mas de acessos a estações ferroviárias, terminais aéreos, possibilidades de conexões. O mundo para eles é uma hiper-festa conectada." (SLOTERDIJK, p. 60) Portanto, nunca é uma questão de força ou talento, mas de lubrificação para que a máquina funcione. Os caminhoneiros no Texas põem óleo no motor, as prostitutas da Holanda têm lubrificante íntimo para possibilitar um aumento na quantidade de trabalho e os atletas dependem do corpo para produzir o líquido sinovial. Muito mais interessante seria a liberação das próteses para a quebra de recordes, a exemplo das pernas mecânicas que se demonstram muito melhor do que as humanas para as corridas visto que elas dão um maior impulso a cada passo e, sobretudo, não doem se começarem a enferrujar. (aliás, isso não deve acontecer muito porque elas são de fibra de carbono, muito provavelmente).  "O homo sapiens, é super-exigido pelas grandes civilizações, caso não consiga produzir próteses simbólicas e emocionais para a movimentação em grandes espaços". (SLOTERDIJK, p. 69-70)

 

Sloterdijk, no entanto, diante da inevitabilidade da produção de próteses, aposta na renovação, o que dá na reprodução, em larga medida. Para ele, cumpre se repensar a renovação constante do homem vez que hoje ele é um "homem sem retorno", mas reconhece que o homem é o consumidor final de si mesmo e suas chances. Ele teria que repensar como continuar a viver apesar da ameaça da exaustão. É neste tipo de mundo que noções como crescimento sustentável têm uma relevância inédita.

Contudo, antes de se apostar neste tipo de empreitada, alerto para o fato de que sair da repetição não é algo mágico ou que se dê pela conscientização, ainda que após os sintomas de reumatismo. A prótese não permite nenhuma sensibilidade, basta observar a tela do cinema, a qual não deixa de ser uma prótese sensorial. A repetição dos movimentos acaba com uma anulação da individualidade de cada passo. O passo não importa, mas sim a corrida; depois a maratona; e depois as aventuras (essas sim heróicas) como aqueles malucos que querem atravessar oceanos a nado em uma busca desenfreada para se dar um sentido à singularidade de cada movimento. Mas que não chega nunca. E não há como se fugir. A repetição e aumento dos movimentos parecem somente afastar cada vez mais. O stress das juntas somente impede o atleta de demonstrar que seu DNA é perfeito, ou seja, autenticamente humano.

 

Questiono-me, no entanto, porque ele não reivindica também o bicho. A repetição "dyferenciada" da cena (um passo além e levemente diferente do outro) passa a "diferonça", neologismo de Viveiros de Castro para uma eventual compreensão perspectivista da différance de Derrida. E não é preciso ir muito além para tanto. A roupa do nadador é constantemente tida como pele de tubarão, a perna mecânica que melhora a corrida é canguru e a nova revelação do futebol é um pato. Mas ser bicho não acarreta ver-se como bicho, mas como gente, gente autêntica. E os outros, antes pseudo-fortes, podem passar a ser bichos, o porco capitalista, o cachorro, o rato, a vaca, todos enfim já tiveram uma animalização de outro, para bom ou para mal. Mas é justamente nesse tipo de julgamento que mais nos sentimos gente. Portanto, a reivindicação da vida animal já quase não sentida no corpo, mas  para dentro da política talvez seja a única possibilidade de gestão do homem, e não uma aposta na reprodutibilidade daquilo alcançado pelas próteses. Não adianta querer fazer do líquido vital para substituir o a deficiência de lubrificante o que provém da ejaculação. A cópula de hoje é mesmo lubrificante e preservativo também lubrificado, e não há o que fazer. E se não vemos mais sentido naquilo que nos espera na cama, então que os lubrificantes nos deixem continuar com nossos gestos, mas que possamos, pelo menos, transar como coelhos. 

 

 

REFERÊNCIA

 

SLOTERDIJK, Peter. No mesmo barco: ensaio sobre hiperpolítica. Tradução de Cláudia Cavalcanti. São Paulo: Estação liberdade, 1999.

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Sem contar algumas salas de cinema perdidas por aí, não se pode dizer que Coffe and Cigarettes, (2003) do diretor Jim Jarmusch, tenha tido uma estréia de impacto no Brasil. Nem poderia. O propósito maior nem seria o de chamar público ou mesmo manter o espectador mudo perante a tela. Curiosamente, aquele que gosta de matar tempo com pequenos atrativos é que se identifica com estas onze cenas em preto e branco filmadas durante 17 anos as quais, em grande parte, estão no Youtube. Com um elenco vasto e de peso, que vai de Roberto Benigni a Iggy Pop, e de Alberto Molina a Cate Blanchett, o propósito da película não é tão grandioso: simplesmente sentar, fumar um cigarro e tomar um cafezinho o que, no final das contas, significa dar um tempo. E não se trata de rever a vida ou divagar sobre a identidade pessoal, mas simplesmente dar um tempo no sentido mais popular do termo. Um coffee break mesmo. No entanto, por mais que se pudesse considerar este filme como um basta para a produção, pressa ou besteirol, o que parece mais evidente é que o espectador assiste a tais cenas com uma certa nostalgia, o que é muito mais sintomático da morte do ócio do que seria recriminá-lo. Em tempos de "guerra contra o tabaco", simples atitudes como fumar no sossego, mais do que ir contra a maré sanitária, possibilita um estranhamento com a própria ação e, por mais que não haja assunto, não se pode negar que sentar para tomar um cafezinho sempre é um bom pretexto para estar em companhia. Sem compromisso.

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O verdadeiro sentido da urgência não está, como sempre se trata, de fazer um improviso às pressas para adequar a coisa ao tempo e ao espaço. Salvar por salvar. Diante da impossibilidade de crítica, uma vez que ela pressupõe o extinto campo experiência, sobra o isolamento para a análise bioquímica.

O tóxico já não é doença. Temos antídotos para o tóxico e também para os efeitos colaterais destes mesmos antídotos. Já não discernimos mais o que é tóxico. Além disso, tudo aparenta ser saudável para os felizes e virulento aos pessimistas. Contudo, as vacinas são tantas que tudo é uniforme em uma massa que nada diz. E o saudável já não se conflitua com o contagioso.

Já que não temos mais o Limbo para julgar as coisas apenas por seus atos, quem sabe seja interessante, em vez de matar todo o rebanho, isolar os elementos e pensar longamente em cima deles, para ver os que são fortes e, para os bichos fracos, deixemo-los aproveitar tranqüilos seus últimos momentos antes do perecimento ocasionado pelo isolamento da quarentena.

Pode-se, quem sabe assim, sanar aquilo que ainda vale para dar a ele um sentido antes original do que convencional.